O problema é a negrada. E também os índios. E pior: o problema é a mistura, um povo preguiçoso e sem iniciativa.
II
Essa era a base do raciocínio da “elite”, da aristocracia, até a Revolução de 30. Tivemos alguns ciclos econômicos: o da borracha, em Manaus; o do café, em São Paulo; o do cacau; o da cana, no nordeste. Ali estava o dinheiro. E ali estava a aristocracia, que não raro usava trajes pesados, europeus, neste nosso calor tropical.
III
E aí vieram idéias de “purificar” as raças. Antes disso houve Cesare Lombroso, na Itália, catalogando as gentes pela aparência física. Depois, iniciam as teorias da eugenia. A melhora pela genética. Havia raças superiores, havia raças inferiores. Era preciso esterilizar as raças inferiores.
IV
Nesse meio tempo, foi Getúlio quem editou um Decreto obrigando os clubes de futebol a aceitar negros. O esporte era absolutamente elitista. E também foi Getúlio quem resolveu cadastrar as escolas de samba no Rio e aportar recursos a título subvenção. Ali o samba cresceu, ali Noel explodiu, e veio Chico Buarque, claro, como o grande herdeiro de Noel, quase sua reencarnação. Também no futebol e no samba há Getúlio Vargas.
V
Mas como podia a negrada, esse povo mestiço, desenvolver alguma coisa? E aí veio a Petrobrás. E foi ridicularizada: aqui não há petróleo, disseram as multinacionais. E havia. E veio o ITA - o Instituto Tecnológico da Aeronáutica. Um centro de excelência extraordinário, boicotado à exaustão pelo Brigadeiro Eduardo Gomes, o grande chefe da UDN, para tristeza do Brigadeiro Montenegro. E veio a PanAir, obra, também, da nossa genialidade.
VI
Nelson Rodrigues é quem apanha genialmente isso: conta a história da seleção brasileira. Nossos negrinhos e nossos misturadinhos lá, enfrentando os arianos. Não sabíamos que éramos geniais. Comportávamo-nos como vira-latas, e éramos tratados como vira-latas: a botinadas. “De nossa boca, pendia a baba elástica e bovina das humildades abjetas”, disse Nelson. E aí nos revelamos geniais no futebol.
VII
Éramos geniais no futebol, éramos geniais na música. Vários ritmos, uma criatividade explosiva. E fomos geniais na criação do ITA, e fomos geniais na criação e no desenvolvimento da Petrobrás. E fomos geniais, também, na criação do BNDE, hoje BNDES, para apoiar a indústria. E fomos geniais, também, na criação do Banco da Borracha e na criação do Banco do Nordeste do Brasil. E somos geniais até hoje: pergunte se o “chef” do restaurante francês da sua cidade não é cearense. É cearense, sim. Veja a quantidade de músicos, de cientistas brasileiros no mundo.
VIII
Mas essa mesma aristocracia que usava casacões continuava a duvidar da “negrada”, da “mestiçagem”. De um lado, a velha aristocracia latifundiária pecuarista, ou cafeicultora, ou cacaueira. De outro lado, surgia a burguesia industrial. Ali tínhamos o Conde Matarazzo. Tivemos o Senador José Ermírio de Moraes. Tivemos Mário Wallace Simonsen - não o economista, o empresário dono da PanAir.
IX
Pois ali havia um conflito: a burguesia brasileira contra a aristocracia cafeicultora, cacaueira, pecuarista, canavieira. E tivemos grandes, extraordinários empresários. mas permanecia o velho conflito. Permanecia a visão aristocrática, de casacões de lã, de que este País não daria certo, contrariamente à opinião da burguesia brasileira. Era - e é - a aristocracia contra a burguesia e o povo.
X
Digo isso porque no programa Roda Viva, aquele que entrevistou o Ministro Chefe da AGU, havia um jornalista do Estadão que, do alto da sua pretensão de vassalo da aristocracia cafeicultora, resolveu ridicularizar a questão do petróleo do pré-sal. Ridicularizou o tema. Deixou claro que nós, a negrada, a mestiçagem, não temos condições, nem inteligência, nem dinheiro, para desenvolver o pré-sal. Precisamos dos arianos, dos sangue-puro, da branquelagem.
XI
Está aí a síntese. O “complexo de vira-latas” é a evidência absoluta do racismo que persite. Nâo diz respeito aos brancos, tão somente. Diz respeito a nós, brasileiros. O racismo, aqui, se volta contra todo o povo, contra todos os brasileiros, até mesmo contra os que têm olhos azuis. Se dependesse dessa gente, como o sujeito do Estadão, não teríamos o ITA, a Petrobrás, a Votorantim, o grupo Matarazzo. E mais: foi Fernando Henrique que, em sua festejada obra, referia a “vocação caudatária da burguesia nacional”. Segundo ele, na sua “Teoria da Dependência”, há uma vocação da burguesia nacional para simplesmente se atrelar, de forma secundária, aos grandes grupos econômicos internacionais. Não é verdade. Essa vocação é da aristocracia rural, não da verdadeira burguesia brasileira. Aqui cito, de novo, o Conde Matarazzo, o Senador José Ermírio de Moraes, Mário Simonsen, Rubem Berta, cito Raul Randon, empresários nacionais que tiveram um papel extraordinário no desenvolvimento do Brasil. Ou seja, tivemos - e em parte temos - uma burguesia extraordinária, inovadora, industrial, que faz frente ao que há de melhor, de mais avançado, no mundo.
XII
O jornalista do Estadão nos olha de cima: os “negrinhos”, os “misturadinhos”, conseguirão explorar o pré-sal? Ora, é preciso entregar para as multinacionais. Olhe a telefonia - uma exploração cotidiana, uma extorsão brutal. Olhe a energia elétrica, também no mesmo rumo. Desde quando a Espanha foi referência em bancos? Desde quando Portugal teve tecnologia bancária para exportar? Desde quanto a Itália foi modelo de telefonia? São estrangeiros que nada acrescentaram aqui. Mas é preciso desfazer da nossa gente, da nossa tecnologia, da nossa inteligência. É preciso ridicularizar tudo. É preciso manter um ar aristocrático - europeu, na nobreza, e norte-americano, na grosseria, e esculhambar tudo o que é brasileiro. Olhe só a quantidade de pilotos de aviação civil que formamos e exportamos; olhe a quantidade de engenheiros; olhe nossos doutores que estão até mesmo na Nasa. Olhe a quantidade de brasileiros que são professores em universidades de primeira linha em outros países. É povo nosso, brasileirinho, misturadinho, formado neste nosso grande caldeirão festejado por Darci Ribeiro. Olhe Felipe Massa.
XIII
Não tenha ilusão, amigo. A mesma mentalidade que levou à quebra da PanAir, à quebra da TV Excelsior, à quebra do jornal Última Hora, à privatização da Vale do Rio Doce, é exatamente a mesma: a “negrada”, a “mestiçagem”, não sabe produzir, não sabe pensar, não trabalha porque é preguiçosa. Então vem um um golpe de cima e quebra a empresa. É o que houve com a PanAir, com a Excelsior, com a última hora. Quebra-se a empresa, boicota-se, e depois a culpa é jogada no povo brasileiro.
XIV
Foi uma grande oportunidade aquela da entrevista: ver um sujeito tão desnudo em suas opiniões: o pré-sal é ridículo; o Brasil é um País ridículo; qualquer espanhol grosseiro é mais ingeligente do que nós, qualquer norte-americano picareta é mais esperto do que nós, qualquer padeiro francês é mais criativo do que nós, qualquer nobre decadente italiano nos joga no chão. Ou seja, somos um povo rasteiro, que precisa ser conquistado. Esqueçamos o sucesso da Petrobrás, da Vale, da Matarazzo, do ITA, da siderurgia que criamos. Esqueçamos o pró-alcool, nossos cientistas. Esqueçamos tudo.
XV
O que há por detrás disso, amigo, é o velho racismo dos “carcomidos”, como eram chamados os defensores da República Velha, ou seja, dos que foram derrubados por Getúlio em 30. O sujeito do Estadão apenasverbalizou isso, do alto da autoridade de representante do jornal que combateu Getúlio, do representante da aristocracia cafeicultora, e que depois apoiou o golpe de 64.
XVI
Enfim, é isso: na visão deles, nós, a negrada, a mestiçagem, não conseguiremos fazer nada. E precisamos ser tutelados por consultores picaretas norte-americanos, padeiros franceses, comerciantes espanhóis, técnicos em mecânica alemães, nobres decadentes italianos e afetados almofadinhas ingleses. Basta ser estrangeiro que é bem vindo e é superior a nós. E esse pessoal servil será festejado por gente igual a esse jornalista que buscou ridicularizar a questão do petróleo do pré-sal. E esse pessoal servil será contratado por essa gente, receberá anúncios dessa gente, será consultor dessa gente, será convidado a fazer visitas “culturais” àqueles países, com tudo pago.
XVII
Amigo, é tudo a mesma mentalidade: o Brasil não pode ser grande, embora seja. Tudo deve ser esculhambado, tudo deve ser aviltado, tudo deve ser difamado. Isso diz respeito à PanAir, à Varig, ao petróleo do Pré-Sal, à Excelsior, ao Pró-Álcool. É a mesma matriz de pensamento, a que busca nos subjugar, nos aviltar, nos humilhar. É que a diz que trabalhador é preguiçoso, que aposentado é vagabundo e já ganha demais. A discussão de uma grande companha aérea internacional está aí. A discussão da tecnologia brasileira está aí: ou a mestiçagem que precisa ser tutelada, ou a grandeza, a genialidade, a alegria da nossa raça brasileira. Escolha.
quarta-feira, julho 29, 2009
quarta-feira, julho 08, 2009
As crise econômica e o futuro segundo o FMI
O Fundo Monetário Internacional (FMI) manteve as previsões sobre o desempenho da economia brasileira este ano, que deve sofrer uma pequena contração de 1,3%, mas revisou para cima a expectativa de crescimento para 2010, que passou de 2,2% para 2,5%.
Segundo a entidade, a recessão na América Latina será maior que a prevista inicialmente, devido, principalmente, à queda do comércio internacional, o que fará o PIB regional sofrer uma contração de 2,6% em 2009.
Quem mais vai sofrer é o México, já que a economia local deverá encolher 7,3% este ano, quase o dobro do previsto em abril (3,7%), quando surgiu o foco de gripe suína no país.
No entanto, o Fundo está mais otimista em relação ao ano que vem, quando crê que o México crescerá 3%, dois pontos percentuais a mais que o previsto há três meses.
Ainda de acordo com os dados do FMI, a América Latina está se beneficiando de uma alta nos preços das matérias-primas. Por isso, o organismo elevou em 0,7 ponto percentual, para 2,3%, suas previsões de crescimento para 2010.
Na comparação com o resto do mundo, no entanto, a recuperação da região será mais lenta, haja vista que as previsões são de que a economia mundial sofrerá uma expansão de 2,5% no ano que vem, bem maior que a calculada em abril (1,9%).
Os cálculos referentes aos Estados Unidos também são animadores. Em vez de um crescimento zero no ano que vem, a economia americana deverá crescer 0,8%.
"Passamos pelo pior e a recuperação está chegando", disse em entrevista coletiva Olivier Blanchard, o economista-chefe do FMI. O especialista, porém, destacou que a volta ao crescimento positivo será "frágil".
A razão para o tom mais otimista do organismo é a melhora do sistema financeiro, decorrente das intervenções públicas nos países desenvolvidos, que ajudaram a salvar bancos que estavam na corda bamba.
Ainda assim, a crise fará o PIB global encolher 1,4% este ano, a maior recessão já registrada desde a Segunda Guerra Mundial.
Para a América Latina, 2009 será um ano especialmente difícil. Em abril, o FMI tinha previsto que a economia regional sofreria uma contração de 1,5%. Mas, nos últimos nove meses, a produção regional foi muito afetada pela queda de 20% nas exportações.
A contração de 2,6% prevista para este ano pelo FMI é bem mais pessimista que a apresentada há um mês pela Comissão Econômica Para a América Latina e o Caribe (Cepal), que prevê uma redução de 1,7% no PIB.
No entanto, em relação a 2010, o Fundo se mostrou mais otimista. No que diz respeito ao México, os cálculos indicam uma expansão de 3% no PIB, que será puxada pela melhora da situação nos EUA.
O México também sentirá o impacto positivo da alta do preço do petróleo, que subirá 23% em 2010, segundo as previsões apresentadas.
Para este ano, no entanto, o FMI prevê que o preço do barril despencará 38% na comparação com 2008, quando atingiu níveis recordes.
As outras matérias-primas perderão quase 24% de seu valor em 2009, mas subirão 2,2% em 2010, de acordo com as novas estimativas. EFE
Segundo a entidade, a recessão na América Latina será maior que a prevista inicialmente, devido, principalmente, à queda do comércio internacional, o que fará o PIB regional sofrer uma contração de 2,6% em 2009.
Quem mais vai sofrer é o México, já que a economia local deverá encolher 7,3% este ano, quase o dobro do previsto em abril (3,7%), quando surgiu o foco de gripe suína no país.
No entanto, o Fundo está mais otimista em relação ao ano que vem, quando crê que o México crescerá 3%, dois pontos percentuais a mais que o previsto há três meses.
Ainda de acordo com os dados do FMI, a América Latina está se beneficiando de uma alta nos preços das matérias-primas. Por isso, o organismo elevou em 0,7 ponto percentual, para 2,3%, suas previsões de crescimento para 2010.
Na comparação com o resto do mundo, no entanto, a recuperação da região será mais lenta, haja vista que as previsões são de que a economia mundial sofrerá uma expansão de 2,5% no ano que vem, bem maior que a calculada em abril (1,9%).
Os cálculos referentes aos Estados Unidos também são animadores. Em vez de um crescimento zero no ano que vem, a economia americana deverá crescer 0,8%.
"Passamos pelo pior e a recuperação está chegando", disse em entrevista coletiva Olivier Blanchard, o economista-chefe do FMI. O especialista, porém, destacou que a volta ao crescimento positivo será "frágil".
A razão para o tom mais otimista do organismo é a melhora do sistema financeiro, decorrente das intervenções públicas nos países desenvolvidos, que ajudaram a salvar bancos que estavam na corda bamba.
Ainda assim, a crise fará o PIB global encolher 1,4% este ano, a maior recessão já registrada desde a Segunda Guerra Mundial.
Para a América Latina, 2009 será um ano especialmente difícil. Em abril, o FMI tinha previsto que a economia regional sofreria uma contração de 1,5%. Mas, nos últimos nove meses, a produção regional foi muito afetada pela queda de 20% nas exportações.
A contração de 2,6% prevista para este ano pelo FMI é bem mais pessimista que a apresentada há um mês pela Comissão Econômica Para a América Latina e o Caribe (Cepal), que prevê uma redução de 1,7% no PIB.
No entanto, em relação a 2010, o Fundo se mostrou mais otimista. No que diz respeito ao México, os cálculos indicam uma expansão de 3% no PIB, que será puxada pela melhora da situação nos EUA.
O México também sentirá o impacto positivo da alta do preço do petróleo, que subirá 23% em 2010, segundo as previsões apresentadas.
Para este ano, no entanto, o FMI prevê que o preço do barril despencará 38% na comparação com 2008, quando atingiu níveis recordes.
As outras matérias-primas perderão quase 24% de seu valor em 2009, mas subirão 2,2% em 2010, de acordo com as novas estimativas. EFE
segunda-feira, julho 06, 2009
O plano real da Globonews
Com o pretexto de "comemorar" os 15 anos do Plano Real (aquele do corte dos zeros), o canal Globo News entrou em campanha eleitoral antecipada e fez uma grande festa, convidando para o banquete midiático apenas os tucanos de alta plumagem. Mas esqueceu, estranhamente, de fazer jornalismo, matéria que vende aos seus assinantes. Afinal, o "pai" do Plano, ou seja, o presidente Itamar Franco, o responsável pela criação e implementação Real não foi nem ouvido nem citado nas matérias que enaltecem a "competência" e "sapiência" de FHC e sua turma.
Em seu blog (http://www.viomundo.com.br/), o jornalista Luiz Carlos Azenha acerta o tom dos fatos, dando voz a Itamar, como você pode conferir a seguir:
O ex-presidente da República Itamar Franco fez duras críticas à campanha do PSDB por ocasião dos 15 anos do Plano Real, comemorados hoje. Em entrevista à Rádio Eldorado, Itamar disse que a campanha deturpa e nega a história e lembrou que a equipe de formuladores do plano era composta por integrantes de outros partidos. "A todo instante assistimos na TV o PSDB comemorando os 15 anos do Plano Real. Oras, isso não nos magoa, mas é uma deturpação, uma negação da história." Itamar afirmou que combaterá o PSDB se o partido defender a paternidade do Plano Real durante as eleições 2010.
Presidente de 1992 a 1995, Itamar chamou para si a responsabilidade política pela implantação do Real, em 1994, e ressaltou o papel de outros políticos e economistas. "O grande ministro do Plano Real chama-se (Rubens) Ricupero e, em seguida, Ciro (Gomes). E depois houve Paulo Haddad, Eliseu Resende. O plano não é só de um ministro. E é preciso lembrar que o Plano Real foi assinado pelo presidente da República, não por uma ordem técnica. A parte política foi garantida pelo presidente da República", afirmou.
Na entrevista, Itamar lembrou que, pouco antes da implantação do plano, o então ministro da Fazenda Rubens Ricupero o procurou para dizer que a equipe econômica temia pelo Plano Real porque não conseguia chegar a um acordo sobre o câmbio. Também temia as consequências políticas, por conta das eleições presidenciais, que seriam realizadas naquele ano. "Eu disse para ele resolver a parte técnica porque eu iria implantar o plano no dia 1º de julho. Ele disse ''tecnicamente eu resolvo'', e eu respondi: ''politicamente resolvo eu''."
Em seu blog (http://www.viomundo.com.br/), o jornalista Luiz Carlos Azenha acerta o tom dos fatos, dando voz a Itamar, como você pode conferir a seguir:
O ex-presidente da República Itamar Franco fez duras críticas à campanha do PSDB por ocasião dos 15 anos do Plano Real, comemorados hoje. Em entrevista à Rádio Eldorado, Itamar disse que a campanha deturpa e nega a história e lembrou que a equipe de formuladores do plano era composta por integrantes de outros partidos. "A todo instante assistimos na TV o PSDB comemorando os 15 anos do Plano Real. Oras, isso não nos magoa, mas é uma deturpação, uma negação da história." Itamar afirmou que combaterá o PSDB se o partido defender a paternidade do Plano Real durante as eleições 2010.
Presidente de 1992 a 1995, Itamar chamou para si a responsabilidade política pela implantação do Real, em 1994, e ressaltou o papel de outros políticos e economistas. "O grande ministro do Plano Real chama-se (Rubens) Ricupero e, em seguida, Ciro (Gomes). E depois houve Paulo Haddad, Eliseu Resende. O plano não é só de um ministro. E é preciso lembrar que o Plano Real foi assinado pelo presidente da República, não por uma ordem técnica. A parte política foi garantida pelo presidente da República", afirmou.
Na entrevista, Itamar lembrou que, pouco antes da implantação do plano, o então ministro da Fazenda Rubens Ricupero o procurou para dizer que a equipe econômica temia pelo Plano Real porque não conseguia chegar a um acordo sobre o câmbio. Também temia as consequências políticas, por conta das eleições presidenciais, que seriam realizadas naquele ano. "Eu disse para ele resolver a parte técnica porque eu iria implantar o plano no dia 1º de julho. Ele disse ''tecnicamente eu resolvo'', e eu respondi: ''politicamente resolvo eu''."
segunda-feira, junho 29, 2009
CBN subliminar
A rádio CBN, que pertence ao conglomerado Globo, acredita no poder da TV. Por isso está lançando uma campanha em que jornalistas de seu corpo de analistas e comentaristas simulam um "comício" em cima de um caixote, no meio de uma rua movimentada e ali, fazem um discurso politizado. Ouvi dizer que a campanha tem vários VTs, mas só vi um, tendo como personagem central a historiadora Lúcia Hypólito. O comercial é repetido incessantemente na TV fechada e aberta da vênus platinada.
Reproduzo aqui, de memória o texto da fala de Hypólito. Ela diz, com ênfase de quem está à caça de votos e antecipando a campanha eleitoral:
"Nós temos que aprender mais o valor do nosso voto... Por que é que o governo tem que tomar conta das nossas vidas e não nós declararmos ao governo aquilo que deve ser feito com o nosso dinheiro... Não podemos desistir... Alguma hora eles vão ter que nos ouvir..."
Em síntese: o povo não sabe o valor do seu voto e precisa ser "educado" para tal por uma elite possuidora do conhecimento; o governo, essa malta de "errados" terá, "mais cedo ou mais tarde" que nos ouvir...
Hypólito, em suas aparições públicas, não conta história e chama Lula de "idiota" e seu governo de "incompetente". Portanto, só pode achar que povo brasileiro não sabe votar ou, como diz de maneira transversa, "não aprendeu o valor do seu voto". Afinal, esse "zé povinho" votou massivamente em Lula nas duas últimas eleições.
Suponho que o recado de Hypólito no comercial da emissora global se destina a essa plebe ignara, na qual me incluo, já que votei em Lula e aprovo seu governo.
O restante do discurso segue a mesma lenga-lenga anarco-liberal, segundo a qual não precisamos de governo e todo governo (exceto os do PSDB, na opinião de Hypólito) é ruim, com agravantes que tendem a afastar as pessoas da atividade política, já que classifica a matéria como uma atividade "suja" e os políticos ("eles", como diz Hypólito) como "elementos suspeitos" até que provem sua inocência.
Esse discurso, aparentemente avançado é, na verdade, um discurso conservador que se estrutura em três pilares: a) o povo é ignorante e não sabe votar; b) as elites são sábias e sabem votar; d) assim sendo, as elites precisam indicar às massas o caminho do conhecimento e do voto "inteligente".
É um raciocínio reacionário de cima à baixo, sem paradas de reabastecimento. Não é à toa que o slogan da Rádio da Rede Globo é, simplesmente, "inteligência atrai inteligência". Ou seja, se você não ouve CBN e seus conselhos políticos, você é ignorante. É melhor eu não dizer que não poderia ser pior. Sempre pode.
Reproduzo aqui, de memória o texto da fala de Hypólito. Ela diz, com ênfase de quem está à caça de votos e antecipando a campanha eleitoral:
"Nós temos que aprender mais o valor do nosso voto... Por que é que o governo tem que tomar conta das nossas vidas e não nós declararmos ao governo aquilo que deve ser feito com o nosso dinheiro... Não podemos desistir... Alguma hora eles vão ter que nos ouvir..."
Em síntese: o povo não sabe o valor do seu voto e precisa ser "educado" para tal por uma elite possuidora do conhecimento; o governo, essa malta de "errados" terá, "mais cedo ou mais tarde" que nos ouvir...
Hypólito, em suas aparições públicas, não conta história e chama Lula de "idiota" e seu governo de "incompetente". Portanto, só pode achar que povo brasileiro não sabe votar ou, como diz de maneira transversa, "não aprendeu o valor do seu voto". Afinal, esse "zé povinho" votou massivamente em Lula nas duas últimas eleições.
Suponho que o recado de Hypólito no comercial da emissora global se destina a essa plebe ignara, na qual me incluo, já que votei em Lula e aprovo seu governo.
O restante do discurso segue a mesma lenga-lenga anarco-liberal, segundo a qual não precisamos de governo e todo governo (exceto os do PSDB, na opinião de Hypólito) é ruim, com agravantes que tendem a afastar as pessoas da atividade política, já que classifica a matéria como uma atividade "suja" e os políticos ("eles", como diz Hypólito) como "elementos suspeitos" até que provem sua inocência.
Esse discurso, aparentemente avançado é, na verdade, um discurso conservador que se estrutura em três pilares: a) o povo é ignorante e não sabe votar; b) as elites são sábias e sabem votar; d) assim sendo, as elites precisam indicar às massas o caminho do conhecimento e do voto "inteligente".
É um raciocínio reacionário de cima à baixo, sem paradas de reabastecimento. Não é à toa que o slogan da Rádio da Rede Globo é, simplesmente, "inteligência atrai inteligência". Ou seja, se você não ouve CBN e seus conselhos políticos, você é ignorante. É melhor eu não dizer que não poderia ser pior. Sempre pode.
Golpe intolerante
Ignorando que há democracias sólidas que prevêem mandatos presidenciais sem limites, uma frase infeliz do presidente do STF, Gilmar Mendes, ganhou destaque na imprensa brasileira. "A democracia não tolera terceiro mandato", disse Mendes. O golpe militar em Honduras, no último domingo, prova justamente o oposto: as ditaduras é que não toleram a democracia e suas regras, especialmente quando essas regras prevêem a predominância da sociedade civil sobre as instâncias seculares de poder.
sexta-feira, junho 26, 2009
quinta-feira, junho 25, 2009
O pesadelo do PSDB
Se o país dos horrores que o PSDB mostra em seus programas de TV existisse de fato, não haveria explicação racional para os altos índices de aprovação do governo e do presidente Lula. Teríamos que procurar, então, uma explicação mágica.
Um país onde nada está certo, tudo está errado e tudo o que dá errado é culpa do governo "incompetente" é uma fantasia ultra reacionária que o PSDB insiste em repetir ano após ano, enquanto reduz seu tamanho a cada eleição. É o marketing político do isolamento, que prova que a máxima de Leon Trotski continua valendo: a política é circular; em algum momento, a ultra-direita tangenciará a ultra-esquerda.
Com uma arrogância típica de burgueses decaídos, os dirigentes do PSDB não cansam de atacar a auto-estima do brasileiro, ousando comparar o Brasil, um país laico e plural, com a Índia, um país divido em castas e onde os índices de pobreza e concentração de renda são extremos.
Ou seja, os tucanos preferem o sistema de castas, que perpetua a pobreza, à política de distribuição de renda e inclusão social que se pratica no país desde 2002 e que está na raiz da aprovação recorde de Lula e seu governo.
Atacar o PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) é outro atalho equivocado, que tenta alcançar "lateralmente" a Ministra Dilma Roussef. Encontrar meia dúzia ou uma centena de obras do PAC que estejam atrasadas ou paradas não desqualifica o programa, apenas demonstra, uma vez mais, sua importância.
Um partido nadando contra a maré da história e perdendo o fôlego a cada braçada, é o que vi no tempo de antena da força política que dirigiu o país por longos e sofridos oito anos de submissão ao FMI e de desrespeito aos movimentos sociais e suas demandas.
Não é por acaso que o senador Ricardo Azeredo, do PSDB, é o autor de um projeto de lei que, de acordo com a revista Carta Capital, está sendo chamado de "o AI-5 da internet", propondo a censura no uso do meio de comunicação mais plural e democrático que existe. Não se entra na contra-mão da história impunemente.
Um país onde nada está certo, tudo está errado e tudo o que dá errado é culpa do governo "incompetente" é uma fantasia ultra reacionária que o PSDB insiste em repetir ano após ano, enquanto reduz seu tamanho a cada eleição. É o marketing político do isolamento, que prova que a máxima de Leon Trotski continua valendo: a política é circular; em algum momento, a ultra-direita tangenciará a ultra-esquerda.
Com uma arrogância típica de burgueses decaídos, os dirigentes do PSDB não cansam de atacar a auto-estima do brasileiro, ousando comparar o Brasil, um país laico e plural, com a Índia, um país divido em castas e onde os índices de pobreza e concentração de renda são extremos.
Ou seja, os tucanos preferem o sistema de castas, que perpetua a pobreza, à política de distribuição de renda e inclusão social que se pratica no país desde 2002 e que está na raiz da aprovação recorde de Lula e seu governo.
Atacar o PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) é outro atalho equivocado, que tenta alcançar "lateralmente" a Ministra Dilma Roussef. Encontrar meia dúzia ou uma centena de obras do PAC que estejam atrasadas ou paradas não desqualifica o programa, apenas demonstra, uma vez mais, sua importância.
Um partido nadando contra a maré da história e perdendo o fôlego a cada braçada, é o que vi no tempo de antena da força política que dirigiu o país por longos e sofridos oito anos de submissão ao FMI e de desrespeito aos movimentos sociais e suas demandas.
Não é por acaso que o senador Ricardo Azeredo, do PSDB, é o autor de um projeto de lei que, de acordo com a revista Carta Capital, está sendo chamado de "o AI-5 da internet", propondo a censura no uso do meio de comunicação mais plural e democrático que existe. Não se entra na contra-mão da história impunemente.
EcoFont
Todos os dias gastamos muitos papéis fazendo os nossos impressos. Além disso, gastamos também muita tinta e, segundo a SPRANQ agência de comunicação (Utrecht, Holanda), parcialmente sem necessidade. Por isso, a SPRANQ criou uma fonte nova: a Ecofont.
Uma idéia boa é sempre fácil: olhando a forma de uma letra, em quanto podemos reduzí-la sem que fique ilegível? Uma pesquisa testou vários formatos e teve o seguinte resultado: tirar círculos pequenos. Assim foi possível criar uma fonte que economiza 20% em tinta. A Ecofont pode ser baixada e usada gratuitamente.
Entre no site http://www.ecofont.eu/splash_en_pro.html, escolha a língua de sua preferência e baixe sem custos a fonte ecologicamente correta
Colaborou: Moana Luri.
Uma idéia boa é sempre fácil: olhando a forma de uma letra, em quanto podemos reduzí-la sem que fique ilegível? Uma pesquisa testou vários formatos e teve o seguinte resultado: tirar círculos pequenos. Assim foi possível criar uma fonte que economiza 20% em tinta. A Ecofont pode ser baixada e usada gratuitamente.
Entre no site http://www.ecofont.eu/splash_en_pro.html, escolha a língua de sua preferência e baixe sem custos a fonte ecologicamente correta
Colaborou: Moana Luri.
Pelo fim da obrigatoriedade do diploma de advogado
A decisão do Supremo Tribunal Federal que jogou por terra a exclusividade do exercício do jornalismo por detentores do diploma, poderia levantar questionamentos que estão passando ao largo do debate. Por exemplo: a razão levantada ali não valeria para outras profissões? Levados ao extremo os argumentos utilizados pelos juízes que abateram a exigência para jornalistas poderiam, facilmente, ser usados, por exemplo, para se abolir a exigência do diploma de Direito para o exercício da profissão de advogado. Apenas o notório saber, mediado pelo mercado e pelo órgão de representação de classe, seria o suficiente.
Sejamos francos. Com o advento da internet e a universalização das jurisprudências (na web há CDs com jurisprudência e formatos de petições, por área, sendo vendidos ao preço de R$ 15,00), a única coisa que nos obriga a contratar um advogado é a exigência legal da exclusividade do exercício profissional pelos detentores do diploma de bacharel em Direito. Qualquer pessoa alfabetizada pode, a rigor, redigir uma petição, ler casos jurídicos e sentenças e, a partir delas, construir analogias que se apliquem a cada caso.
Vladimir Lenin, o revolucionário russo, jamais pisou em um escola de direito e graduou-se estudando por conta própria, prestando os exames do órgão que, na Rússia dos czares, seria uma espécie de OAB. Afinal, se a graduação superior, em si, fosse um critério, não haveria razão alguma para que a regulamentação fosse feita por um órgão à parte, no caso a Ordem dos Advogados do Brasil. Quem sabe o Supremo não poderia aproveitar a deixa e anular mais essa "reserva de mercado"?
Sejamos francos. Com o advento da internet e a universalização das jurisprudências (na web há CDs com jurisprudência e formatos de petições, por área, sendo vendidos ao preço de R$ 15,00), a única coisa que nos obriga a contratar um advogado é a exigência legal da exclusividade do exercício profissional pelos detentores do diploma de bacharel em Direito. Qualquer pessoa alfabetizada pode, a rigor, redigir uma petição, ler casos jurídicos e sentenças e, a partir delas, construir analogias que se apliquem a cada caso.
Vladimir Lenin, o revolucionário russo, jamais pisou em um escola de direito e graduou-se estudando por conta própria, prestando os exames do órgão que, na Rússia dos czares, seria uma espécie de OAB. Afinal, se a graduação superior, em si, fosse um critério, não haveria razão alguma para que a regulamentação fosse feita por um órgão à parte, no caso a Ordem dos Advogados do Brasil. Quem sabe o Supremo não poderia aproveitar a deixa e anular mais essa "reserva de mercado"?
quarta-feira, junho 24, 2009
Jornalistas: regulamentação vira incógnita
A decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) de derrubar a exigência do diploma de curso superior para o exercício do jornalismo deixou incertezas sobre o futuro da profissão no país. A Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) aguarda a publicação do acórdão do Supremo para avaliar o impacto da mudança sobre a categoria e definir uma estratégia para tentar reverter a derrubada do diploma.
A dúvida está no argumento utilizado pelo relator do voto, o presidente do Supremo, Gilmar Mendes, que afirmou que “o jornalismo é uma profissão diferenciada por causa da proximidade com a liberdade de expressão”, direito previsto na Constituição.
Caso a decisão do Supremo tenha ido além da derrubada do diploma, com uma desregulamentação mais generalizada, só uma mudança constitucional poderá tornar a exigência do diploma novamente obrigatória. O caminho para alterar a Constituição é mais complicado: exige a aprovação de 308 dos 513 deputados e de 49 dos 81 senadores, em dois turnos de votação em cada Casa.
Gilmar declarou que o registro profissional de jornalista no Ministério do Trabalho perdeu o sentido. "O registro existente não terá nenhuma força jurídica", disse. A desregulamentação deixa em aberto a exigência de requisitos mínimos para o exercício da profissão e questões trabalhistas, como piso salarial e carga horária.
“Além da exigência do diploma, que era o que para nós estava em jogo, o ministro Gilmar Mendes tem afirmado que acabou a regulamentação da profissão. Precisamos ver o acórdão publicado para ver se cabe PEC ou se precisamos de um projeto de lei”, explica o diretor da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) João Carlos Torves.
A Fenaj afirma que ainda não formulou nenhuma proposta para uma nova regulamentação profissional. A exigência do diploma em curso superior de jornalismo para o exercício da profissão estava em vigor há 40 anos, a partir do Decreto-lei 972/69, criado durante o regime militar brasileiro e considerado por sete dos 11 ministros do Supremo uma “afronta à Constituição Federal”, promulgada em 1988.
"11 de Setembro"
Para o deputado Emiliano José (PT-BA), jornalista há mais de 30 anos, o fim da obrigatoriedade do diploma deixou os jornalistas à mercê das empresas de comunicação. O parlamentar afirma que também aguarda a publicação do acórdão do STF para saber como o Congresso poderá se posicionar sobre o tema e adianta que deverá apresentar alguma proposta com novas regras regulamentadoras.
“Creio que agora temos que nos debruçar para saber quais as saídas. Eu tenho dito que estamos sob ataque de todos os lados, que estamos vivendo o nosso 11 de Setembro”, considera Emiliano. “Neste momento, os barões da mídia no Brasil estão muito felizes, mas essa desregulamentação também será prejudicial aos donos das grandes mídias”, avalia.
Emiliano é o autor de um requerimento apresentado pelo líder de seu partido, Cândido Vacarezza (PT-SP), ao presidente da Câmara, Michel Temer (PMDB-SP), para pedir a criação de uma comissão especial para debater uma nova lei de imprensa e regras para a regulamentação da profissão. O requerimento, apresentado em maio, está sob análise da Mesa Diretora.
“Primeiro, sofremos com a revogação da Lei de Imprensa, e agora com o fim da obrigatoriedade do diploma. Nós, neste momento, somos a única nação do mundo que não tem uma lei de imprensa e a mídia, em um Estado Democrático de Direito, tem que ser regida por alguma lei. A mídia tem que ser regulamentada como qualquer outra atividade. Ficou um vácuo”, afirma Emiliano.
Segundo João Carlos Torves, os novos critérios para a contratação de jornalistas ainda não estão claros. A entidade encaminhou ao Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), na última semana, um documento solicitando que sejam esclarecidos quais são as regras e os critérios que passarão a valer. “Já fizemos essa interpelação com o ministério, porque não sabemos agora quais são os critérios”, explica o diretor da Fenaj.
Consequências drásticas
Para o coordenador do Fórum Nacional dos Professores de Jornalismo, Edson Spenthof, professor da Universidade Federal de Goiás (UFG), a derrubada do diploma trará consequências “duras e drásticas” à profissão e enfraquecerá o meio acadêmico. O professor argumenta que a decisão do STF “menosprezou drasticamente uma atividade importante do regime democrático”, ao sustentar que “não se precisa de conhecimento estruturado e sistemático” para o exercício do jornalismo.
“Os ministros do STF disseram, claramente, que jornalismo não precisa de técnica, que é uma atividade meramente fruto da expressão intelectual, que se equipara no máximo à arte da literatura”, argumenta Spenthof. “Essa decisão trará consequências drásticas para a profissão e para a imprensa. Ela enfraquece o ambiente acadêmico, que sofre um baque moral ao ver sua profissão diminuída”, diz.
O coordenador do fórum afirma que houve um entendimento errado do STF na interpretação da profissão. “Ao dizer que precisa derrubar o diploma porque ele atinge a liberdade de pensamento e expressão, estão falando que o exercício da profissão de jornalismo é o exercício da opinião e não da formação técnica de produção e conhecimento. Julgou-se a atividade pelo que ela não é. O jornalista não deve manifestar o seu pensamento nas notícias”, explica.
Na avaliação do professor da UFG, a decisão da Suprema Corte deu às empresas o poder de regular a profissão. “Cabe agora às empresas fazer o filtro e dizer qual é o perfil do jornalista, quem são as pessoas que devem ou não exercer essa profissão. O presidente Gilmar Mendes chegou a dizer, inclusive, que seria ilegítimo não dar esse poder às empresas. E agora ele vem dizer que não precisa sequer registro no Ministério do Trabalho”, protestou.
“Se a Suprema Corte, a quem cabe a palavra final da ordem jurídica do país, está dizendo que é inconstitucional, fica difícil lutar contra essa regulamentação por outros caminhos. Uma nova lei pode instituir o diploma, mas é só vir alguém da rua e contestar que o STF derruba de novo o diploma”, prevê Spenthof.
Divergências
Ao ler seu voto, Gilmar Mendes disse que o Estado não está legitimado pra exercer limitações ao exercício profissional. Na visão do ministro, o decreto que regula a profissão cerceia o direito ao trabalho e ao acesso à liberdade de expressão. Na ocasião, o presidente do STF não deixou de fazer críticas indiretas à imprensa. "O poder da imprensa hoje é quase imensurável. As empresas hoje são aliadas à grandes grupos, existe uma submissão aos valores econômicos. Infelizmente é tênue a linha entre a informação e a difamação. Os efeitos dos erros são terríveis", criticou.
O ministro Marco Aurélio Mello, único a votar contra o recurso, disse que em 40 anos a sociedade se organizou em torno da obrigatoriedade do diploma. Ele advertiu que, com a derrubada do decreto, o país passará a ter jornalistas com graduações diversas. "Teremos jornalistas de nível médio e até de nível fundamental", afirmou.
Marco Aurélio defendeu que o jornalista deve ter uma formação básica que viabilize a atividade profissional que repercute na vida dos cidadãos em geral. "É possível o erro na medicina, no direito, e até nesta corte, que é obra do homem". Para ele, ter a obrigação do diploma "implica uma salvaguarda, uma segurança jurídica maior", opinou.
Com informações do site "Congresso em Foco"
A dúvida está no argumento utilizado pelo relator do voto, o presidente do Supremo, Gilmar Mendes, que afirmou que “o jornalismo é uma profissão diferenciada por causa da proximidade com a liberdade de expressão”, direito previsto na Constituição.
Caso a decisão do Supremo tenha ido além da derrubada do diploma, com uma desregulamentação mais generalizada, só uma mudança constitucional poderá tornar a exigência do diploma novamente obrigatória. O caminho para alterar a Constituição é mais complicado: exige a aprovação de 308 dos 513 deputados e de 49 dos 81 senadores, em dois turnos de votação em cada Casa.
Gilmar declarou que o registro profissional de jornalista no Ministério do Trabalho perdeu o sentido. "O registro existente não terá nenhuma força jurídica", disse. A desregulamentação deixa em aberto a exigência de requisitos mínimos para o exercício da profissão e questões trabalhistas, como piso salarial e carga horária.
“Além da exigência do diploma, que era o que para nós estava em jogo, o ministro Gilmar Mendes tem afirmado que acabou a regulamentação da profissão. Precisamos ver o acórdão publicado para ver se cabe PEC ou se precisamos de um projeto de lei”, explica o diretor da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) João Carlos Torves.
A Fenaj afirma que ainda não formulou nenhuma proposta para uma nova regulamentação profissional. A exigência do diploma em curso superior de jornalismo para o exercício da profissão estava em vigor há 40 anos, a partir do Decreto-lei 972/69, criado durante o regime militar brasileiro e considerado por sete dos 11 ministros do Supremo uma “afronta à Constituição Federal”, promulgada em 1988.
"11 de Setembro"
Para o deputado Emiliano José (PT-BA), jornalista há mais de 30 anos, o fim da obrigatoriedade do diploma deixou os jornalistas à mercê das empresas de comunicação. O parlamentar afirma que também aguarda a publicação do acórdão do STF para saber como o Congresso poderá se posicionar sobre o tema e adianta que deverá apresentar alguma proposta com novas regras regulamentadoras.
“Creio que agora temos que nos debruçar para saber quais as saídas. Eu tenho dito que estamos sob ataque de todos os lados, que estamos vivendo o nosso 11 de Setembro”, considera Emiliano. “Neste momento, os barões da mídia no Brasil estão muito felizes, mas essa desregulamentação também será prejudicial aos donos das grandes mídias”, avalia.
Emiliano é o autor de um requerimento apresentado pelo líder de seu partido, Cândido Vacarezza (PT-SP), ao presidente da Câmara, Michel Temer (PMDB-SP), para pedir a criação de uma comissão especial para debater uma nova lei de imprensa e regras para a regulamentação da profissão. O requerimento, apresentado em maio, está sob análise da Mesa Diretora.
“Primeiro, sofremos com a revogação da Lei de Imprensa, e agora com o fim da obrigatoriedade do diploma. Nós, neste momento, somos a única nação do mundo que não tem uma lei de imprensa e a mídia, em um Estado Democrático de Direito, tem que ser regida por alguma lei. A mídia tem que ser regulamentada como qualquer outra atividade. Ficou um vácuo”, afirma Emiliano.
Segundo João Carlos Torves, os novos critérios para a contratação de jornalistas ainda não estão claros. A entidade encaminhou ao Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), na última semana, um documento solicitando que sejam esclarecidos quais são as regras e os critérios que passarão a valer. “Já fizemos essa interpelação com o ministério, porque não sabemos agora quais são os critérios”, explica o diretor da Fenaj.
Consequências drásticas
Para o coordenador do Fórum Nacional dos Professores de Jornalismo, Edson Spenthof, professor da Universidade Federal de Goiás (UFG), a derrubada do diploma trará consequências “duras e drásticas” à profissão e enfraquecerá o meio acadêmico. O professor argumenta que a decisão do STF “menosprezou drasticamente uma atividade importante do regime democrático”, ao sustentar que “não se precisa de conhecimento estruturado e sistemático” para o exercício do jornalismo.
“Os ministros do STF disseram, claramente, que jornalismo não precisa de técnica, que é uma atividade meramente fruto da expressão intelectual, que se equipara no máximo à arte da literatura”, argumenta Spenthof. “Essa decisão trará consequências drásticas para a profissão e para a imprensa. Ela enfraquece o ambiente acadêmico, que sofre um baque moral ao ver sua profissão diminuída”, diz.
O coordenador do fórum afirma que houve um entendimento errado do STF na interpretação da profissão. “Ao dizer que precisa derrubar o diploma porque ele atinge a liberdade de pensamento e expressão, estão falando que o exercício da profissão de jornalismo é o exercício da opinião e não da formação técnica de produção e conhecimento. Julgou-se a atividade pelo que ela não é. O jornalista não deve manifestar o seu pensamento nas notícias”, explica.
Na avaliação do professor da UFG, a decisão da Suprema Corte deu às empresas o poder de regular a profissão. “Cabe agora às empresas fazer o filtro e dizer qual é o perfil do jornalista, quem são as pessoas que devem ou não exercer essa profissão. O presidente Gilmar Mendes chegou a dizer, inclusive, que seria ilegítimo não dar esse poder às empresas. E agora ele vem dizer que não precisa sequer registro no Ministério do Trabalho”, protestou.
“Se a Suprema Corte, a quem cabe a palavra final da ordem jurídica do país, está dizendo que é inconstitucional, fica difícil lutar contra essa regulamentação por outros caminhos. Uma nova lei pode instituir o diploma, mas é só vir alguém da rua e contestar que o STF derruba de novo o diploma”, prevê Spenthof.
Divergências
Ao ler seu voto, Gilmar Mendes disse que o Estado não está legitimado pra exercer limitações ao exercício profissional. Na visão do ministro, o decreto que regula a profissão cerceia o direito ao trabalho e ao acesso à liberdade de expressão. Na ocasião, o presidente do STF não deixou de fazer críticas indiretas à imprensa. "O poder da imprensa hoje é quase imensurável. As empresas hoje são aliadas à grandes grupos, existe uma submissão aos valores econômicos. Infelizmente é tênue a linha entre a informação e a difamação. Os efeitos dos erros são terríveis", criticou.
O ministro Marco Aurélio Mello, único a votar contra o recurso, disse que em 40 anos a sociedade se organizou em torno da obrigatoriedade do diploma. Ele advertiu que, com a derrubada do decreto, o país passará a ter jornalistas com graduações diversas. "Teremos jornalistas de nível médio e até de nível fundamental", afirmou.
Marco Aurélio defendeu que o jornalista deve ter uma formação básica que viabilize a atividade profissional que repercute na vida dos cidadãos em geral. "É possível o erro na medicina, no direito, e até nesta corte, que é obra do homem". Para ele, ter a obrigação do diploma "implica uma salvaguarda, uma segurança jurídica maior", opinou.
Com informações do site "Congresso em Foco"
terça-feira, junho 23, 2009
Deus não joga futebol
Os fundamentalismos são, todos, perigosamente segregacionistas.
Nenhum escapa a uma lógica perversa que dá aos donos da verdade o poder de decidir o que é certo e o que é errado, imputando rótulos às condutas e, por fim, incidindo sobre os diferentes, sobre os pensamentos discordantes, dando a eles o epíteto que resultará na morte, seja ela literal ou não.
Os entretenimentos, de um tempo para cá, vêm dando lugar a certas crenças primitivas e fundamentalistas, que vêem Deus saindo do céu e descendo às quadras, às pistas de atletismo ou de Fórmula 1. E, é claro, aos campos de futebol. Sempre tomando partido.
No último domingo, durante o jogo Brasil 3 X 0 Itália, enquanto o jogador Luis Fabiano comemorava um dos gols da partida, aproximou-se de um microfone na margem do gramado para homenagear sua filha Giovana, que aniversariara na semana anterior.
Oportunista, oculto por um cacho de braços que outros atletas que procuravam comemorar o tento, um dos jogadores brasileiros que se aproximou para abraçar o goleador gritou ao microfone: "Glória a Deus! Glória a Deus! Glória a Deus!".
Sentado em minha poltrona, me assustei. Me vi tomado por uma série de reflexões advindas daquela cena estranhamento familiar, que se perpetua em imagens como as de jogadores apontando para o céu após fazerem um gol, enquanto o goleiro adversário (talvez a representação do pecado e do mal) caminha para o inferno do fundo do gol. Mas a primeira e primordial reflexão era simples: o que levaria um jogador de futebol a atribuir à Deus a glória de um tento em um campo de futebol? A não ser que a Itália fosse a representação do demônio, o antagonista literário e mitológico de Deus, não haveria razão alguma para uma intervenção divina acontecer em uma disputa entre homens em um campo de futebol.
A egolatria humana é tamanha que não lhes ocorre a insignificância daquele momento. Era só um jogo, uma disputa alegórica, com 11 homens de um lado contra 11 homens de outro, buscando levar uma bola de couro até as redes do time adversário. A diferença entre Itália versus Brasil e uma partida de várzea é só a quantidade de dinheiro envolvida na primeira empreitada. De resto, força física, destreza, inteligência são as matérias-primas em uma disputa temporal circunscrita a um campo gramado. Nada ali, justificaria uma intervenção divina. Menos ainda a favor de um dos times. Achar que Deus está em campo poderia conduzir, por exemplo, a uma suposição que, pelo simplismo, revela-se claramente ridícula: a de que uma disputa futebolística nos gramados entre Irã e Brasil oporia no céu, Alá, o deus muçulmano, a Jeová, o deus cristão.
Fujamos do ridículo para fugir do fundamentalismo. Eu quero torcer pela seleção canarinha, a representação alegre de uma nação laica, heterogênea, multi-racial e, por isso, espaço de todas as crenças e não-crenças.
Manter a religião fora do campo é um bom caminho para garantir um futuro de respeito às diferenças. No futebol, como na vida.
Nenhum escapa a uma lógica perversa que dá aos donos da verdade o poder de decidir o que é certo e o que é errado, imputando rótulos às condutas e, por fim, incidindo sobre os diferentes, sobre os pensamentos discordantes, dando a eles o epíteto que resultará na morte, seja ela literal ou não.
Os entretenimentos, de um tempo para cá, vêm dando lugar a certas crenças primitivas e fundamentalistas, que vêem Deus saindo do céu e descendo às quadras, às pistas de atletismo ou de Fórmula 1. E, é claro, aos campos de futebol. Sempre tomando partido.
No último domingo, durante o jogo Brasil 3 X 0 Itália, enquanto o jogador Luis Fabiano comemorava um dos gols da partida, aproximou-se de um microfone na margem do gramado para homenagear sua filha Giovana, que aniversariara na semana anterior.
Oportunista, oculto por um cacho de braços que outros atletas que procuravam comemorar o tento, um dos jogadores brasileiros que se aproximou para abraçar o goleador gritou ao microfone: "Glória a Deus! Glória a Deus! Glória a Deus!".
Sentado em minha poltrona, me assustei. Me vi tomado por uma série de reflexões advindas daquela cena estranhamento familiar, que se perpetua em imagens como as de jogadores apontando para o céu após fazerem um gol, enquanto o goleiro adversário (talvez a representação do pecado e do mal) caminha para o inferno do fundo do gol. Mas a primeira e primordial reflexão era simples: o que levaria um jogador de futebol a atribuir à Deus a glória de um tento em um campo de futebol? A não ser que a Itália fosse a representação do demônio, o antagonista literário e mitológico de Deus, não haveria razão alguma para uma intervenção divina acontecer em uma disputa entre homens em um campo de futebol.
A egolatria humana é tamanha que não lhes ocorre a insignificância daquele momento. Era só um jogo, uma disputa alegórica, com 11 homens de um lado contra 11 homens de outro, buscando levar uma bola de couro até as redes do time adversário. A diferença entre Itália versus Brasil e uma partida de várzea é só a quantidade de dinheiro envolvida na primeira empreitada. De resto, força física, destreza, inteligência são as matérias-primas em uma disputa temporal circunscrita a um campo gramado. Nada ali, justificaria uma intervenção divina. Menos ainda a favor de um dos times. Achar que Deus está em campo poderia conduzir, por exemplo, a uma suposição que, pelo simplismo, revela-se claramente ridícula: a de que uma disputa futebolística nos gramados entre Irã e Brasil oporia no céu, Alá, o deus muçulmano, a Jeová, o deus cristão.
Fujamos do ridículo para fugir do fundamentalismo. Eu quero torcer pela seleção canarinha, a representação alegre de uma nação laica, heterogênea, multi-racial e, por isso, espaço de todas as crenças e não-crenças.
Manter a religião fora do campo é um bom caminho para garantir um futuro de respeito às diferenças. No futebol, como na vida.
quarta-feira, junho 10, 2009
Um fantasma no armário
Apenas a administração direta do governo federal investe mais de R$ 600 milhões em publicidade. Banco do Brasil, Petrobrás, Eletronorte e outros entes da administração indireta podem, sem grande esforço, fazer essa soma chegar a R$ 1,2 bilhão por ano. É pouco, se considerarmos que a legislação permite que 1% do orçamento bilionário do governo seja investido em comunicação. E é justo, posto que é direito do cidadão conhecer aquilo que está sendo feito com o dinheiro público e, nas sociedades de massas, só a publicidade pode cumprir essa tarefa hercúlea. Por isso o texto de Franklin Martins que reproduzimos na íntegra abaixo, é certeiro ao defender a regionalização da mídia, a forma mais barata de fazer com que a comunicação do governo fure os bloqueios da distância e alcance as pessoas até nos mais remotos lugares do país.
Contudo, resta um fantasma no armário: a vergonhosa concentração do grosso da verba publicitária nas mãos das agências de publicidade do sul-sudeste no país.
Mudam os governos, mudam as orientações ideológicas, mas lá estão as mesmas agências, das mesmas regiões, fazendo a mesma propaganda que qualquer agência de qualquer lugar do país poderia fazer. Aliás, a recente campanha do ProUni, dirigida por uma famosa cineasta, que mostrava casos reais de pessoas beneficiadas foi uma cópia descarada das peças que a Vanguarda Propaganda criou para o PT nacional e que foram ao ar em mídia nacional no horário partidário em 2008.
Então, não há razão para regionalizar a verba de mídia e não regionalizar a criação e a autorização dessas campanhas.
Nos Estados Unidos, que têm um investimento anual de US$ 184 bilhões, as 20 maiores agências concentram apenas 15% do total da verba. O bolo publicitário em nosso país é menor, mas está longe de ser desprezível: US$ 6 bilhões. Contudo, as 20 maiores agências detêm 60% desse montante. Das 1.800 agências existentes no Brasil, 1.318 têm pouco mais de meio por cento da receita.
Em época de fomento ao emprego e estímulo aos empreendedorismo, o governo federal ficou devendo a democratização das verbas de publicidade na fonte: as agências que autorizam a mídia.
O assunto já foi objeto de uma análise feita por mim e publicada na prestigiada revista About e na revista eletrônica "Portal da Propaganda", com o título "As pequenas agências merecem viver". Quatro anos depois, permanece mais atual do que nunca.
Contudo, resta um fantasma no armário: a vergonhosa concentração do grosso da verba publicitária nas mãos das agências de publicidade do sul-sudeste no país.
Mudam os governos, mudam as orientações ideológicas, mas lá estão as mesmas agências, das mesmas regiões, fazendo a mesma propaganda que qualquer agência de qualquer lugar do país poderia fazer. Aliás, a recente campanha do ProUni, dirigida por uma famosa cineasta, que mostrava casos reais de pessoas beneficiadas foi uma cópia descarada das peças que a Vanguarda Propaganda criou para o PT nacional e que foram ao ar em mídia nacional no horário partidário em 2008.
Então, não há razão para regionalizar a verba de mídia e não regionalizar a criação e a autorização dessas campanhas.
Nos Estados Unidos, que têm um investimento anual de US$ 184 bilhões, as 20 maiores agências concentram apenas 15% do total da verba. O bolo publicitário em nosso país é menor, mas está longe de ser desprezível: US$ 6 bilhões. Contudo, as 20 maiores agências detêm 60% desse montante. Das 1.800 agências existentes no Brasil, 1.318 têm pouco mais de meio por cento da receita.
Em época de fomento ao emprego e estímulo aos empreendedorismo, o governo federal ficou devendo a democratização das verbas de publicidade na fonte: as agências que autorizam a mídia.
O assunto já foi objeto de uma análise feita por mim e publicada na prestigiada revista About e na revista eletrônica "Portal da Propaganda", com o título "As pequenas agências merecem viver". Quatro anos depois, permanece mais atual do que nunca.
Para que criar fantasmas?
FRANKLIN MARTINS
A Secom adota hoje o princípio da mídia técnica: a participação na publicidade é proporcional à circulação ou à audiência
Na última semana, alguns colunistas e políticos da oposição abriram baterias contra a regionalização da publicidade do governo federal.
Não gostaram de saber que os anúncios da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República (Secom), até 2003 concentrados em apenas 499 veículos e 182 municípios, em 2008 alcançaram 5.297 órgãos de comunicação em 1.149 municípios -um aumento da ordem de 961%.
Por incrível que pareça, conseguiram enxergar nesse saudável processo de desconcentração um ardiloso mecanismo de corrupção dos jornais e rádios do interior. Essa seria a explicação para as altas taxas de avaliação positiva do presidente Lula, registrada pelos institutos de opinião.
O raciocínio não tem pé nem cabeça. Vamos aos fatos.
As verbas publicitárias de todos os órgãos ligados ao governo federal permaneceram no mesmo patamar do governo anterior, em torno de R$ 1 bilhão ao ano. Desse total, 70% são investidos por empresas estatais, que não fazem publicidade do governo, mas de seus produtos e serviços, para competir com companhias privadas.
Além disso, os ministérios e autarquias, que respondem por 20% da verba publicitária federal, não podem fazer propaganda institucional, só campanhas de utilidade pública (vacinação, educação de trânsito, direitos humanos etc.). Apenas a Secom está autorizada a fazer publicidade institucional. Para esse fim, seu orçamento é igual ao do governo anterior (cerca de R$ 105 milhões).
Não houve aumento de verbas. O que mudou foi a política. Em vez de concentrar anúncios num punhado de jornais, rádios e televisões, a publicidade do governo federal alcança agora o maior número possível de veículos. Pelo mesmo custo, está falando melhor e mais diretamente com mais brasileiros. Acompanhando a diversificação que está ocorrendo nos meios de comunicação.
A circulação dos jornais tradicionais do eixo Rio-São Paulo-Brasília, por exemplo, está estagnada há mais de cinco anos, próxima dos 900 mil exemplares. No mesmo período, conforme o Instituto Verificador de Circulação, os jornais das outras capitais cresceram 41%, chegando a 1.630.883 exemplares em abril. As vendas dos jornais do interior subiram mais ainda: 61,7% (552.380). No caso dos jornais populares, a alta foi espetacular, de 121,4% (1.189.090 exemplares).
Por que deveríamos fechar os olhos para essas transformações? A Secom adota hoje o princípio da mídia técnica: a participação dos órgãos de comunicação na publicidade é proporcional à sua circulação ou audiência. Houve época em que eram comuns distorções, às vezes bastante acentuadas, a favor dos grupos mais fortes. Isso acabou.
Esses critérios técnicos, amplamente discutidos com o TCU e entidades do setor, têm favorecido a democratização, a transparência e a eficiência nos investimentos de publicidade do governo federal. Não há privilégios nem perseguições. Tampouco zonas de sombra. Muito menos compra de consciências.
É importante ressaltar ainda que a comunicação do governo não se dá principalmente pela publicidade. Esta apenas presta conta das ações mais importantes e consolida algumas ideias-força. O governo comunica-se com a sociedade basicamente por meio da imprensa, respondendo a perguntas, críticas e inquietações.
Para ter uma ideia, em 2008 o presidente Lula deu 182 entrevistas à imprensa, respondendo, em média, a 4,8 perguntas por dia, incluindo fins de semana e feriados. É pouco provável que exista um chefe de governo no mundo que tenha conversado tanto com a imprensa quanto o nosso. Atendendo a todo tipo de imprensa, pois não existe no Brasil só a imprensa do eixo Rio-São Paulo-Brasília. São várias, com percepções
e interesses diferentes. Cada uma fazendo o jornalismo que lhe parece mais apropriado e se dirigindo ao público que conseguiu conquistar.
Exemplo: quando Lula lançou em São Paulo o atendimento em 30 minutos aos pedidos de aposentadoria no INSS, os grandes jornais não destacaram o fato. Mas o tema foi manchete de quase todos os jornais populares e diários das demais capitais. O que para uns foi nota de pé de página, para outros foi a notícia do dia.
Por tudo isso, temos que ficar atentos às mudanças na forma como os brasileiros se informam. O crescimento da internet é um fenômeno que abre extraordinárias possibilidades e lança imensos desafios. Não podemos fechar os olhos para a realidade: os jovens, cada vez mais, buscam informações nos portais, nos blogs e nas redes sociais da internet.
Por último, não se sustenta o raciocínio de que as altas taxas de aprovação do governo Lula teriam a ver com um arrastão de compra de jornais e rádios no interior. Basta recorrer ao último Datafolha, que atribui 67% de ótimo e bom para o governo federal nas regiões metropolitanas e 71% no interior. A diferença está situada dentro da margem de erro da pesquisa. Os números são praticamente os mesmos. O resto é preconceito.
O mais provável é que as altas taxas de aprovação do governo tenham uma explicação bem mais simples: a maioria da população está satisfeita com seu trabalho. É legítimo que aqueles que não concordam com tal percepção recorram à luta política para mudá-la. O debate faz parte da democracia. E faz bem a ela. Mas é necessário criar fantasmas?
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FRANKLIN MARTINS, 60, jornalista, é ministro-chefe da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República.
A Secom adota hoje o princípio da mídia técnica: a participação na publicidade é proporcional à circulação ou à audiência
Na última semana, alguns colunistas e políticos da oposição abriram baterias contra a regionalização da publicidade do governo federal.
Não gostaram de saber que os anúncios da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República (Secom), até 2003 concentrados em apenas 499 veículos e 182 municípios, em 2008 alcançaram 5.297 órgãos de comunicação em 1.149 municípios -um aumento da ordem de 961%.
Por incrível que pareça, conseguiram enxergar nesse saudável processo de desconcentração um ardiloso mecanismo de corrupção dos jornais e rádios do interior. Essa seria a explicação para as altas taxas de avaliação positiva do presidente Lula, registrada pelos institutos de opinião.
O raciocínio não tem pé nem cabeça. Vamos aos fatos.
As verbas publicitárias de todos os órgãos ligados ao governo federal permaneceram no mesmo patamar do governo anterior, em torno de R$ 1 bilhão ao ano. Desse total, 70% são investidos por empresas estatais, que não fazem publicidade do governo, mas de seus produtos e serviços, para competir com companhias privadas.
Além disso, os ministérios e autarquias, que respondem por 20% da verba publicitária federal, não podem fazer propaganda institucional, só campanhas de utilidade pública (vacinação, educação de trânsito, direitos humanos etc.). Apenas a Secom está autorizada a fazer publicidade institucional. Para esse fim, seu orçamento é igual ao do governo anterior (cerca de R$ 105 milhões).
Não houve aumento de verbas. O que mudou foi a política. Em vez de concentrar anúncios num punhado de jornais, rádios e televisões, a publicidade do governo federal alcança agora o maior número possível de veículos. Pelo mesmo custo, está falando melhor e mais diretamente com mais brasileiros. Acompanhando a diversificação que está ocorrendo nos meios de comunicação.
A circulação dos jornais tradicionais do eixo Rio-São Paulo-Brasília, por exemplo, está estagnada há mais de cinco anos, próxima dos 900 mil exemplares. No mesmo período, conforme o Instituto Verificador de Circulação, os jornais das outras capitais cresceram 41%, chegando a 1.630.883 exemplares em abril. As vendas dos jornais do interior subiram mais ainda: 61,7% (552.380). No caso dos jornais populares, a alta foi espetacular, de 121,4% (1.189.090 exemplares).
Por que deveríamos fechar os olhos para essas transformações? A Secom adota hoje o princípio da mídia técnica: a participação dos órgãos de comunicação na publicidade é proporcional à sua circulação ou audiência. Houve época em que eram comuns distorções, às vezes bastante acentuadas, a favor dos grupos mais fortes. Isso acabou.
Esses critérios técnicos, amplamente discutidos com o TCU e entidades do setor, têm favorecido a democratização, a transparência e a eficiência nos investimentos de publicidade do governo federal. Não há privilégios nem perseguições. Tampouco zonas de sombra. Muito menos compra de consciências.
É importante ressaltar ainda que a comunicação do governo não se dá principalmente pela publicidade. Esta apenas presta conta das ações mais importantes e consolida algumas ideias-força. O governo comunica-se com a sociedade basicamente por meio da imprensa, respondendo a perguntas, críticas e inquietações.
Para ter uma ideia, em 2008 o presidente Lula deu 182 entrevistas à imprensa, respondendo, em média, a 4,8 perguntas por dia, incluindo fins de semana e feriados. É pouco provável que exista um chefe de governo no mundo que tenha conversado tanto com a imprensa quanto o nosso. Atendendo a todo tipo de imprensa, pois não existe no Brasil só a imprensa do eixo Rio-São Paulo-Brasília. São várias, com percepções
e interesses diferentes. Cada uma fazendo o jornalismo que lhe parece mais apropriado e se dirigindo ao público que conseguiu conquistar.
Exemplo: quando Lula lançou em São Paulo o atendimento em 30 minutos aos pedidos de aposentadoria no INSS, os grandes jornais não destacaram o fato. Mas o tema foi manchete de quase todos os jornais populares e diários das demais capitais. O que para uns foi nota de pé de página, para outros foi a notícia do dia.
Por tudo isso, temos que ficar atentos às mudanças na forma como os brasileiros se informam. O crescimento da internet é um fenômeno que abre extraordinárias possibilidades e lança imensos desafios. Não podemos fechar os olhos para a realidade: os jovens, cada vez mais, buscam informações nos portais, nos blogs e nas redes sociais da internet.
Por último, não se sustenta o raciocínio de que as altas taxas de aprovação do governo Lula teriam a ver com um arrastão de compra de jornais e rádios no interior. Basta recorrer ao último Datafolha, que atribui 67% de ótimo e bom para o governo federal nas regiões metropolitanas e 71% no interior. A diferença está situada dentro da margem de erro da pesquisa. Os números são praticamente os mesmos. O resto é preconceito.
O mais provável é que as altas taxas de aprovação do governo tenham uma explicação bem mais simples: a maioria da população está satisfeita com seu trabalho. É legítimo que aqueles que não concordam com tal percepção recorram à luta política para mudá-la. O debate faz parte da democracia. E faz bem a ela. Mas é necessário criar fantasmas?
________________________________
FRANKLIN MARTINS, 60, jornalista, é ministro-chefe da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República.
sábado, junho 06, 2009
Ditadura na França?
Uma frase infeliz do presidente do STF, Gilmar Mendes, ganhou destaque na imprensa brasileira no dia de hoje. A desinteligência da maioria dos órgãos de imprensa não permite considerar o erro estrutural da frase do presidente do Supremo.
"A democracia não tolera terceiro mandato", disse Mendes. Referia-se ao desejo latente da sociedade brasileira em dar ao presidente Lula a chance de seguir no comando do país por mais quatro anos.
Bem, ou Mendes ignora que a França, por exemplo, uma das democracias mais sólidas do mundo, "tolera" não apenas terceiro mandato, mas inúmeras reeleições sucessivas ou ele considera que o país governado por Sarkozy é uma ditadura. A embaixada da França deveria protestar.
"A democracia não tolera terceiro mandato", disse Mendes. Referia-se ao desejo latente da sociedade brasileira em dar ao presidente Lula a chance de seguir no comando do país por mais quatro anos.
Bem, ou Mendes ignora que a França, por exemplo, uma das democracias mais sólidas do mundo, "tolera" não apenas terceiro mandato, mas inúmeras reeleições sucessivas ou ele considera que o país governado por Sarkozy é uma ditadura. A embaixada da França deveria protestar.
segunda-feira, maio 25, 2009
O verdadeiro código Da Vinci
O artista renascentista Leonardo da Vinci evitava a palheta e misturava as cores diretamente na tela, disseram pesquisadores italianos após reconstruírem seu trabalho passo a passo, "como se o estivessem observando enquanto pintava".
Usando um equipamento científico para analisar a obra "Madonna dei Fusi", os pesquisadores da Universidade de Florença disseram que foi possível vislumbrar praticamente cada pincelada feita pelo artista na famosa tela a óleo. "Este é o verdadeiro código Da Vinci", disse um dos responsáveis pelo estudo.
Os pesquisadores concluíram que, ao contrário de seus contemporâneos, Da Vinci não misturava as tintas na palheta, pois preferia aplicá-las em camadas diretamente sobre a tela, criando uma rica textura de cores sobrepostas.
"Que Leonardo usava a técnica da 'velatura' já se sabia, ele próprio escreveu isso num tratado, mas pela primeira vez conseguimos reconstruir sua obra passo a passo, como se o observássemos enquanto pintava", disse a pesquisadora Cecilia Frosinini.
"Conseguimos entender que tipo de materiais de pintura ele usou, quantas camadas de cores aplicou e em que espessura e sequência", disse Frosinini.
A pintura analisada pertence a uma coleção de Nova York, a chamada "Ex-Reford", uma das várias versões da mesma imagem atribuídas ao artista, segundo os pesquisadores.
Os especialistas usaram um equipamento chamado "acelerador nuclear", que lança partículas em alta velocidade, para decifrar a técnica de Da Vinci.
Autor de obras-primas como a "Mona Lisa" e a "A Última Ceia", Da Vinci é considerado um dos maiores pintores da história - e é também um dos mais imitados e copiados de todos os tempos.
Usando um equipamento científico para analisar a obra "Madonna dei Fusi", os pesquisadores da Universidade de Florença disseram que foi possível vislumbrar praticamente cada pincelada feita pelo artista na famosa tela a óleo. "Este é o verdadeiro código Da Vinci", disse um dos responsáveis pelo estudo.
Os pesquisadores concluíram que, ao contrário de seus contemporâneos, Da Vinci não misturava as tintas na palheta, pois preferia aplicá-las em camadas diretamente sobre a tela, criando uma rica textura de cores sobrepostas.
"Que Leonardo usava a técnica da 'velatura' já se sabia, ele próprio escreveu isso num tratado, mas pela primeira vez conseguimos reconstruir sua obra passo a passo, como se o observássemos enquanto pintava", disse a pesquisadora Cecilia Frosinini.
"Conseguimos entender que tipo de materiais de pintura ele usou, quantas camadas de cores aplicou e em que espessura e sequência", disse Frosinini.
A pintura analisada pertence a uma coleção de Nova York, a chamada "Ex-Reford", uma das várias versões da mesma imagem atribuídas ao artista, segundo os pesquisadores.
Os especialistas usaram um equipamento chamado "acelerador nuclear", que lança partículas em alta velocidade, para decifrar a técnica de Da Vinci.
Autor de obras-primas como a "Mona Lisa" e a "A Última Ceia", Da Vinci é considerado um dos maiores pintores da história - e é também um dos mais imitados e copiados de todos os tempos.
O slogan perfeito
Um slogan perfeito deve satisfazer a vários critérios. Primeiro, ele deve ser memorável. A memorabilidade tem a ver com a capacidade da frase ser lembrada sem auxílio. Muito disso se baseia na herança da marca e no quanto o slogan foi usado durante os anos. Mas se for um slogan novo, o que o torna memorável? A grande idéia deve ser transmitida no anúncio. Quanto mais o slogan ressoar com a grande idéia, mais memorável ele será.
Por exemplo, a frase "Meu Deus, minha Guinness!" (da cerveja Guinness) tornou-se memorável pelas ilustrações do bêbado da Guinness vendo sua cerveja sob algum tipo de ameaça (colocada no nariz de uma foca amestrada, por exemplo). Ela invocava um sorriso irônico e um toque de simpatia da parte do público pela potencial perda se a Guinness caísse.
A Guinness costumava usar o slogan "A Guinness faz bem a você" até que as autoridades exigiram que essa declaração parasse de ser usada porque a Guinness era uma cerveja, continha álcool e, por isso, não podia fazer bem a ninguém. Assim, a agência publicitária da Guinness mudou a frase.
Um bom slogan deve lembrar o nome da marca e o ideal é que o nome da marca seja incluído na frase: "Meu Deus, minha Guinness!" funciona como "Coca-cola é isso aí!". Se for bem sucedido, o slogan deve passar prontamente para a linguagem popular como um chavão. Além de uma ilustração, história ou aliteração relevante (Jaguar: "Não sonhe com ele. Dirija-o."), palavras cunhadas ou compostas (Louis Vuitton: "Epileather"), trocadilhos e rimas são boas maneiras de se criar um slogan memorável. Assim também ocorre com um jingle. No Brasil, um desses exemplos era a propaganda da Valisére, com o slogan: "o primeiro Valisére (sutiã) a gente nunca esquece".
Um bom slogan deve incluir um benefício-chave: "Projetado como nenhum outro carro do mundo" (Mercedes Benz); "A segunda maior empresa aérea internacional da Grã-Bretanha" é uma declaração 'e dai?' (da antiga Air Europe). Você pode dizer "Eu quero um carro projetado como nenhum outro carro do mundo", mas é pouco provável que você diga, "eu quero uma passagem da segunda maior empresa aérea internacional da Grã-Bretanha", "mais de você em você mesmo" (do curso de vestibular Etapa).
Existe um conselho bem conhecido no mundo do marketing: 'venda o cheiro, não o bife'. Isto significa vender os benefícios, não os recursos. Como o slogan é aquilo que resta, que perdura, certamente não se deve perder a oportunidade de implantar nele um benefício-chave.
Holiday Inn: "Satisfazendo as pessoas no mundo todo".
Karry-Lite: "Tire o peso da bagagem".
Polaroid: "A diversão é instantânea".
The Economist: "Empresa livre de qualquer problema".
Por outro lado, os seguintes slogans não têm benefícios óbvios:
Equity and Law: "Precisamos dizer mais?".
Exxon: "Somos a Exxon".
Lite Tuff: "Isto é Lite Tuff!".
Sapolio Soap: "Use Sapolio".
Além disso, um bom slogan deve diferenciar a marca: a frase "A Heineken refresca as partes que as outras cervejas não alcançam" faz isto brilhantemente. É um clássico. Quando o slogan precisou de renovação, ele foi estendido em veiculações posteriores para mostrar situações aparentemente impossíveis, como uma rodovia expressa deserta no horário do rush, com o slogan "Somente Heineken pode fazer isso" e mostrando depois situações improváveis, mas admiráveis, como um grupo de engenheiros tentando manter o silêncio com o comentário: "Que refrescante! Que Heineken!"
A distinção aqui é que o slogan deve descrever uma característica da marca que a diferencie dos concorrentes, como os slogans que transmitem diferenciação:
British Rail: "Estamos chegando lá".
Cheese Council: "Da forma que quiser, coma queijo".
Timex: "Feche a correspondência e marque o tempo".
Metropolitan Home: "Moda para a sua casa".
Tendências do anúncio publicitário
Um bom slogan também deve lembrar o nome da marca. Qual é a vantagem de veicular um anúncio publicitário no qual o nome da marca não está claro? Ainda que milhões de dólares sejam gastos dessa forma, se o nome da marca não estiver no slogan, é melhor que ele seja sugerido com firmeza. A Nike ousa veicular comerciais que transmitem somente o seu logotipo visual (o "swoosh"). A palavra Nike não é falada e não aparece. Este uso de semiótica é imensamente poderoso quando funciona, porque força o espectador a dizer o nome da marca.
Uma das melhores técnicas de lembrar o nome da marca é fazer um slogan com rima com ele. Aqui estão alguns slogans que selecionados no Banco de dados ADSlogans Unlimited (em inglês):
"Não seja vago. Peça Haig".
"Não precisava ser um inferno com Nicotinell".
"Veja os Estados Unidos no seu Chevrolet".
"Você vai ficar se perguntando para onde o amarelo foi depois de escovar seus dentes com Pepsodent".
Uma posição antiga é usar uma rima e mencionar o nome da marca sem que ele, de fato, rime. Exemplos incluem "Uma Mars por dia o ajuda a trabalhar, descansar e brincar" e "Não venderemos nenhum vinho antes do tempo (Paul Masson)". Note como a vantagem competitiva é perdida quando o nome da marca não é a rima. Isto poderia ser facilmente dito como "Uma maçã por dia o ajuda a trabalhar, descansar e brincar" ou "Ernest e Julio Gallo não venderão vinho antes do tempo".
Um slogan efetivo deve transmitir sentimentos positivos sobre a marca: Todos os slogans mencionados anteriormente fazem isto, alguns mais do que outros: "Dirija uma vez e se apaixone para sempre" ou "Coca-cola é isso aí!". Contrastando com isto, o slogan da Triumph para o seu carro esportivo TR7, em 1976: "Não parece que você pode bancar um". Ou os cigarros Newport da América: "Afinal, se fumar não é um prazer, por que se preocupar?"
Os publicitários lhe dirão que títulos de livros negativos não vendem. Eu acredito que a publicidade negativa é difícil de ser justificada. Repare como é enfadonha toda aquela falação eleitoral negativa nas campanhas políticas. Os eleitores simplesmente querem desligar a TV. Aqui está um grupo de slogans que não transmite boas notícias:
Bacardi Spice (Rum): "Destilado no inferno".
Hungry Joes: "Más notícias para as batatas cozidas".
Kellogg's Eggos Waffles: "Você nunca desejará l'eggo".
Lea and Perrins: "O molho de carne que somente uma vaca poderia odiar".
Muito importante, um bom slogan não deve ser utilizável por um concorrente: você não consegue substituir um nome de marca concorrente e usar o slogan. Por exemplo, "Meu Deus, meu Murphy!" (retirado do slogan da Guinness) simplesmente não funcionaria.
Muitos slogans não têm absolutamente nenhuma diferenciação competitiva, como "Simplesmente o melhor" e suas variantes. Você poderia acrescentar qualquer nome de marca ao slogan e ele faria sentido. E isto é freqüentemente provado pelo número de usuários de um slogan. Considere o seguinte:
Aspen: "Simplesmente o melhor".
Bishop's Nissan: "Simplesmente o melhor".
HME Firetrucks: "Simplesmente... o melhor".
Kuoni: "Simplesmente, o melhor".
Estes são apenas quatro: temos outros 25 usuários do mesmo slogan em nosso banco de dados (em inglês).
Os slogans sem graça e aromáticos de mamãe e torta de maçã sofreram uma queda. Exemplos incluem "Para aqueles que valorizam a excelência" (Henredon Furniture), "Nós fazemos melhor" (Singer) ou "Nós fazemos acontecer" (Unisys).
Um bom slogan deve ser estratégico: algumas empresas podem efetivamente transmitir sua estratégia de negócio em seus slogans, como "Inovação" (3M), "Coisas melhores para uma qualidade de vida melhor por meio da química" (DuPont) ou "A doença não tem inimigo pior" (Glaxo/Wellcome).
Slogans atraentes também tentam estar na moda, geralmente sem sucesso. Atualmente existem duas tendências populares em slogans. Uma é o slogan de uma única palavra:
Hankook Tires: "Dirigido", (também sendo usado pela Nissan nos Estados Unidos).
IBM: "Pense"(claramente roubado pela Apple com o "Pense diferente").
United Airlines: "Subindo" (porque estava em baixa).
É difícil transmitir uma mensagem complexa em uma única palavra. Isto nos leva até a outra tendência: tudo em três palavras (ou três idéias concisas).
ADSlogans Unlimited: "Verifique. Crie. Inspire".
Air France: "Nova. Rápida. Eficiente".
Chevrolet: "Olhe para ele. Experimente-o. Compre-o".
Kellogg's Rice Krispies: "Morda! Mastigue! Ataque!"
Monsanto: "Alimento. Saúde. Esperança".
Por exemplo, a frase "Meu Deus, minha Guinness!" (da cerveja Guinness) tornou-se memorável pelas ilustrações do bêbado da Guinness vendo sua cerveja sob algum tipo de ameaça (colocada no nariz de uma foca amestrada, por exemplo). Ela invocava um sorriso irônico e um toque de simpatia da parte do público pela potencial perda se a Guinness caísse.
A Guinness costumava usar o slogan "A Guinness faz bem a você" até que as autoridades exigiram que essa declaração parasse de ser usada porque a Guinness era uma cerveja, continha álcool e, por isso, não podia fazer bem a ninguém. Assim, a agência publicitária da Guinness mudou a frase.
Um bom slogan deve lembrar o nome da marca e o ideal é que o nome da marca seja incluído na frase: "Meu Deus, minha Guinness!" funciona como "Coca-cola é isso aí!". Se for bem sucedido, o slogan deve passar prontamente para a linguagem popular como um chavão. Além de uma ilustração, história ou aliteração relevante (Jaguar: "Não sonhe com ele. Dirija-o."), palavras cunhadas ou compostas (Louis Vuitton: "Epileather"), trocadilhos e rimas são boas maneiras de se criar um slogan memorável. Assim também ocorre com um jingle. No Brasil, um desses exemplos era a propaganda da Valisére, com o slogan: "o primeiro Valisére (sutiã) a gente nunca esquece".
Um bom slogan deve incluir um benefício-chave: "Projetado como nenhum outro carro do mundo" (Mercedes Benz); "A segunda maior empresa aérea internacional da Grã-Bretanha" é uma declaração 'e dai?' (da antiga Air Europe). Você pode dizer "Eu quero um carro projetado como nenhum outro carro do mundo", mas é pouco provável que você diga, "eu quero uma passagem da segunda maior empresa aérea internacional da Grã-Bretanha", "mais de você em você mesmo" (do curso de vestibular Etapa).
Existe um conselho bem conhecido no mundo do marketing: 'venda o cheiro, não o bife'. Isto significa vender os benefícios, não os recursos. Como o slogan é aquilo que resta, que perdura, certamente não se deve perder a oportunidade de implantar nele um benefício-chave.
Holiday Inn: "Satisfazendo as pessoas no mundo todo".
Karry-Lite: "Tire o peso da bagagem".
Polaroid: "A diversão é instantânea".
The Economist: "Empresa livre de qualquer problema".
Por outro lado, os seguintes slogans não têm benefícios óbvios:
Equity and Law: "Precisamos dizer mais?".
Exxon: "Somos a Exxon".
Lite Tuff: "Isto é Lite Tuff!".
Sapolio Soap: "Use Sapolio".
Além disso, um bom slogan deve diferenciar a marca: a frase "A Heineken refresca as partes que as outras cervejas não alcançam" faz isto brilhantemente. É um clássico. Quando o slogan precisou de renovação, ele foi estendido em veiculações posteriores para mostrar situações aparentemente impossíveis, como uma rodovia expressa deserta no horário do rush, com o slogan "Somente Heineken pode fazer isso" e mostrando depois situações improváveis, mas admiráveis, como um grupo de engenheiros tentando manter o silêncio com o comentário: "Que refrescante! Que Heineken!"
A distinção aqui é que o slogan deve descrever uma característica da marca que a diferencie dos concorrentes, como os slogans que transmitem diferenciação:
British Rail: "Estamos chegando lá".
Cheese Council: "Da forma que quiser, coma queijo".
Timex: "Feche a correspondência e marque o tempo".
Metropolitan Home: "Moda para a sua casa".
Tendências do anúncio publicitário
Um bom slogan também deve lembrar o nome da marca. Qual é a vantagem de veicular um anúncio publicitário no qual o nome da marca não está claro? Ainda que milhões de dólares sejam gastos dessa forma, se o nome da marca não estiver no slogan, é melhor que ele seja sugerido com firmeza. A Nike ousa veicular comerciais que transmitem somente o seu logotipo visual (o "swoosh"). A palavra Nike não é falada e não aparece. Este uso de semiótica é imensamente poderoso quando funciona, porque força o espectador a dizer o nome da marca.
Uma das melhores técnicas de lembrar o nome da marca é fazer um slogan com rima com ele. Aqui estão alguns slogans que selecionados no Banco de dados ADSlogans Unlimited (em inglês):
"Não seja vago. Peça Haig".
"Não precisava ser um inferno com Nicotinell".
"Veja os Estados Unidos no seu Chevrolet".
"Você vai ficar se perguntando para onde o amarelo foi depois de escovar seus dentes com Pepsodent".
Uma posição antiga é usar uma rima e mencionar o nome da marca sem que ele, de fato, rime. Exemplos incluem "Uma Mars por dia o ajuda a trabalhar, descansar e brincar" e "Não venderemos nenhum vinho antes do tempo (Paul Masson)". Note como a vantagem competitiva é perdida quando o nome da marca não é a rima. Isto poderia ser facilmente dito como "Uma maçã por dia o ajuda a trabalhar, descansar e brincar" ou "Ernest e Julio Gallo não venderão vinho antes do tempo".
Um slogan efetivo deve transmitir sentimentos positivos sobre a marca: Todos os slogans mencionados anteriormente fazem isto, alguns mais do que outros: "Dirija uma vez e se apaixone para sempre" ou "Coca-cola é isso aí!". Contrastando com isto, o slogan da Triumph para o seu carro esportivo TR7, em 1976: "Não parece que você pode bancar um". Ou os cigarros Newport da América: "Afinal, se fumar não é um prazer, por que se preocupar?"
Os publicitários lhe dirão que títulos de livros negativos não vendem. Eu acredito que a publicidade negativa é difícil de ser justificada. Repare como é enfadonha toda aquela falação eleitoral negativa nas campanhas políticas. Os eleitores simplesmente querem desligar a TV. Aqui está um grupo de slogans que não transmite boas notícias:
Bacardi Spice (Rum): "Destilado no inferno".
Hungry Joes: "Más notícias para as batatas cozidas".
Kellogg's Eggos Waffles: "Você nunca desejará l'eggo".
Lea and Perrins: "O molho de carne que somente uma vaca poderia odiar".
Muito importante, um bom slogan não deve ser utilizável por um concorrente: você não consegue substituir um nome de marca concorrente e usar o slogan. Por exemplo, "Meu Deus, meu Murphy!" (retirado do slogan da Guinness) simplesmente não funcionaria.
Muitos slogans não têm absolutamente nenhuma diferenciação competitiva, como "Simplesmente o melhor" e suas variantes. Você poderia acrescentar qualquer nome de marca ao slogan e ele faria sentido. E isto é freqüentemente provado pelo número de usuários de um slogan. Considere o seguinte:
Aspen: "Simplesmente o melhor".
Bishop's Nissan: "Simplesmente o melhor".
HME Firetrucks: "Simplesmente... o melhor".
Kuoni: "Simplesmente, o melhor".
Estes são apenas quatro: temos outros 25 usuários do mesmo slogan em nosso banco de dados (em inglês).
Os slogans sem graça e aromáticos de mamãe e torta de maçã sofreram uma queda. Exemplos incluem "Para aqueles que valorizam a excelência" (Henredon Furniture), "Nós fazemos melhor" (Singer) ou "Nós fazemos acontecer" (Unisys).
Um bom slogan deve ser estratégico: algumas empresas podem efetivamente transmitir sua estratégia de negócio em seus slogans, como "Inovação" (3M), "Coisas melhores para uma qualidade de vida melhor por meio da química" (DuPont) ou "A doença não tem inimigo pior" (Glaxo/Wellcome).
Slogans atraentes também tentam estar na moda, geralmente sem sucesso. Atualmente existem duas tendências populares em slogans. Uma é o slogan de uma única palavra:
Hankook Tires: "Dirigido", (também sendo usado pela Nissan nos Estados Unidos).
IBM: "Pense"(claramente roubado pela Apple com o "Pense diferente").
United Airlines: "Subindo" (porque estava em baixa).
É difícil transmitir uma mensagem complexa em uma única palavra. Isto nos leva até a outra tendência: tudo em três palavras (ou três idéias concisas).
ADSlogans Unlimited: "Verifique. Crie. Inspire".
Air France: "Nova. Rápida. Eficiente".
Chevrolet: "Olhe para ele. Experimente-o. Compre-o".
Kellogg's Rice Krispies: "Morda! Mastigue! Ataque!"
Monsanto: "Alimento. Saúde. Esperança".
Tendências do anúncio publicitário
Sem contar "a", "o" e "e", estas são as 20 palavras mais freqüentemente usadas em slogans publicitários (as porcentagens representam o número de slogans que usam a palavra do número total de slogans publicitários):
você: 11,15%
seu: 7,94%
nós: 6,03%
mundo: 4,18%
melhor: 2,67%
mais: 2,54%
bom: 2,43%
melhor que: 2,12%
novo: 1,90%
experimente: 1,85%
pessoas: 1,54%
nosso: 1,49%
primeiro: 1,42%
parecido com: 1,41%
não: 1,36%
o mais: 1,19%
somente: 1,16%
qualidade: 1,15%
grande: 1,13%
escolha: 1,08%
Fonte: Banco de dados da ADSlogans Unlimited.
você: 11,15%
seu: 7,94%
nós: 6,03%
mundo: 4,18%
melhor: 2,67%
mais: 2,54%
bom: 2,43%
melhor que: 2,12%
novo: 1,90%
experimente: 1,85%
pessoas: 1,54%
nosso: 1,49%
primeiro: 1,42%
parecido com: 1,41%
não: 1,36%
o mais: 1,19%
somente: 1,16%
qualidade: 1,15%
grande: 1,13%
escolha: 1,08%
Fonte: Banco de dados da ADSlogans Unlimited.
sexta-feira, maio 22, 2009
Pesquisa analisa cor do carro e seu simbolismo
O marketing e a psicologia são, sem dúvidas, departamentos de uma mesma estrutura conceitual: a do comportamento humano.
Vejam só. Você poderia imaginar que homens com carro cor prata seriam mais atraentes para o público feminino?
Pois é isso o que afirma uma pesquisa feita pela empresa de seguros britânica Churchil, divulgada pelo blog da jornalista Anamaria Rinaldi.
Segundo as entrevistadas, a cor do carro do homem é muito mais importante que o modelo ou o tamanho do veículo, sendo que pelo menos uma em cada dez admitiu ter saído com um motorista por causa da cor do carro dele.
E não é só isso, as britânicas consideram a cor prata a mais sexy porque lembra uma vida de glamour. Em segundo lugar vem o carro preto, cor geralmente associada à riqueza e ao conforto.
Seu carro é vermelho? Calma, você não precisa perder as esperanças. Essa cor é a preferida entre as mulheres de 13 a 19 anos porque a associam a sexo e comportamento selvagem.
As entrevistadas revelaram que acham um homem que tem carro verde deselegante e chato na hora do sexo. Já um veículo cinza representa um motorista indeciso e um carro branco, um homem sem atitude.
O pior colocado na pesquisa foi o carro roxo, que as mulheres acreditam serem de homens que preferem outros homens.
E não é só a cor que chama a atenção das mulheres, acessórios como um bom equipamento de som, TV dentro do carro, bancos de couro e ursinhos de pelúcia também são ótimos atrativos.
Vejam só. Você poderia imaginar que homens com carro cor prata seriam mais atraentes para o público feminino?
Pois é isso o que afirma uma pesquisa feita pela empresa de seguros britânica Churchil, divulgada pelo blog da jornalista Anamaria Rinaldi.
Segundo as entrevistadas, a cor do carro do homem é muito mais importante que o modelo ou o tamanho do veículo, sendo que pelo menos uma em cada dez admitiu ter saído com um motorista por causa da cor do carro dele.
E não é só isso, as britânicas consideram a cor prata a mais sexy porque lembra uma vida de glamour. Em segundo lugar vem o carro preto, cor geralmente associada à riqueza e ao conforto.
Seu carro é vermelho? Calma, você não precisa perder as esperanças. Essa cor é a preferida entre as mulheres de 13 a 19 anos porque a associam a sexo e comportamento selvagem.
As entrevistadas revelaram que acham um homem que tem carro verde deselegante e chato na hora do sexo. Já um veículo cinza representa um motorista indeciso e um carro branco, um homem sem atitude.
O pior colocado na pesquisa foi o carro roxo, que as mulheres acreditam serem de homens que preferem outros homens.
E não é só a cor que chama a atenção das mulheres, acessórios como um bom equipamento de som, TV dentro do carro, bancos de couro e ursinhos de pelúcia também são ótimos atrativos.
A invasão dos memes
Uma nova ciência, baseada na linguagem e na percepção, está tomando corpo. Esse saber, chamado de memética, aos poucos têm se disseminado, com seu aparato de novas palavras, pela Internet.
O conceito básico é que palavras, idéias, são vistas como vírus, potentes contaminadores de significados que podem ser espalhados instantâneamente e que se auto-replicam na medida em que são comunicados. O termo meme apareceu pela primeira vez no livro “ O Gene Egoísta”, de Richard Dawkins, conceituado estudioso de botânica. Nele Dawkins define o meme como um equivalente mental do gene, que reteria as informações psicológicas básicas do ser humano e que funcionaria pela imitação e com a capacidade de replicação. Os memes, nesse caso, reteriam as informações básicas da espécie e estariam relacionadas aos mecanismos de sobrevivência.
A definição inicial, no entanto, tem sido paulatinamente incrementada e ampliada. Há cada vez mais estudiosos de memes, cursos voltados para essa disciplina, e já chega a fazer parte de currículos acadêmicos. A memética tem se voltado para entender os mecanismos de formação de opiniões, de transmissão de informações, de criação de novos conceitos. Daí sua aplicabilidade a estudos dos meios de comunicação, da mídia, da publicidade, da moda, e, é claro, da própria internet. Há vários livros que já saíram, em inglês, sobre o assunto e é enorme a quantidade de sites sobre memes. A premissa fundamental de que um slogan, uma frase, uma palavra, uma idéia, um estilo, um termo, podem ser um meme, é o que conta.
O enfoque da memética, em muitos casos, tem tido um mero víes comportamental. Volta-se, em geral, para os hábitos repetidos e lugares comuns, chavões sociais passados pelas instituições ou pela própria família, de pai para filho, ou, numa empresa, de patrão para empregado.
Mas essa é só a ponta do iceberg. A subversão do conceito de meme tem sido igualmente explorada, chegando a ser proposto que se hackeie memes. A coisa evoluiu de tal forma que um mote já antigo, o da linguagem como vírus, está sendo reutilizado pelos estudiosos dos memes. A metáfora do vírus, que vocês já devem conhecer da famosa música de Laurie Anderson, “Language is a vírus”, vem por sua vez do escritor beat William Burroughs, que acreditava que somos todos controlados pela mídia e meios de comunicação e que a única forma de escapar a esse controle era emitindo, criando vírus de linguagem, coisa que ele fazia através de sua experiências com os cut-ups. Burroughs cutapeava os textos de jornais e revistas recortando-os em pedacinhos e colando-os ao acaso para daí extrair novas mensagens, reconfigurações de significados. Da mesma forma, aplicaria isso a tapes, gravando conversas, músicas, sons de rua, de bares, de vários locais e misturando tudo para obter novos efeitos, que explicará detalhadamente em A Revolução Eletrônica. A noção de vírus cai direitinho no conceito de disseminação dos memes, e mais ainda nos anti-memes ou memes hackeados.
A abordagem viral do meme não podia ser mais atual, nessa nossa época de AIDS e vírus de computador, e é sob esse aspecto que os memes tem sido utilizados por grupos undergrounds como os zippies e os culture jammers. Os primeiros, freaks cibernéticos ou cyberhippies, se autoproclamam eles mesmos um novo meme e pretendem lançar cada vez mais novos memes, unindo conceitos de tecnologia e misticismo, filosofia DIY (faça-você-mesmo) e psicodelia pela rede e pelo submundo eletrônico das raves. Já os culture jammers querem a implosão semiótica do sistema capitalista e sua mídia. Para tanto sua estratégia é a paródia, o plágio alterado (ou deturrnamento, desvio), a interferência, o ruído. Essas estratégias de assalto e sabotagem da mídia subvertem os memes propagados pela publicidade e programas de tevê e seu objetivo primordial é modificar a visão passiva que temos e absorvemos dessas mídias. Historicamente falando, um pouco do que os dadaístas, situacionistas e punks vêm fazendo ao longo do século.
Agora que você já sabe o que são memes, cuidado. Este é um meta-meme. Ele já está na sua cabeça. Espalhe-o por aí.
Por Ricardo Rosas
O conceito básico é que palavras, idéias, são vistas como vírus, potentes contaminadores de significados que podem ser espalhados instantâneamente e que se auto-replicam na medida em que são comunicados. O termo meme apareceu pela primeira vez no livro “ O Gene Egoísta”, de Richard Dawkins, conceituado estudioso de botânica. Nele Dawkins define o meme como um equivalente mental do gene, que reteria as informações psicológicas básicas do ser humano e que funcionaria pela imitação e com a capacidade de replicação. Os memes, nesse caso, reteriam as informações básicas da espécie e estariam relacionadas aos mecanismos de sobrevivência.
A definição inicial, no entanto, tem sido paulatinamente incrementada e ampliada. Há cada vez mais estudiosos de memes, cursos voltados para essa disciplina, e já chega a fazer parte de currículos acadêmicos. A memética tem se voltado para entender os mecanismos de formação de opiniões, de transmissão de informações, de criação de novos conceitos. Daí sua aplicabilidade a estudos dos meios de comunicação, da mídia, da publicidade, da moda, e, é claro, da própria internet. Há vários livros que já saíram, em inglês, sobre o assunto e é enorme a quantidade de sites sobre memes. A premissa fundamental de que um slogan, uma frase, uma palavra, uma idéia, um estilo, um termo, podem ser um meme, é o que conta.
O enfoque da memética, em muitos casos, tem tido um mero víes comportamental. Volta-se, em geral, para os hábitos repetidos e lugares comuns, chavões sociais passados pelas instituições ou pela própria família, de pai para filho, ou, numa empresa, de patrão para empregado.
Mas essa é só a ponta do iceberg. A subversão do conceito de meme tem sido igualmente explorada, chegando a ser proposto que se hackeie memes. A coisa evoluiu de tal forma que um mote já antigo, o da linguagem como vírus, está sendo reutilizado pelos estudiosos dos memes. A metáfora do vírus, que vocês já devem conhecer da famosa música de Laurie Anderson, “Language is a vírus”, vem por sua vez do escritor beat William Burroughs, que acreditava que somos todos controlados pela mídia e meios de comunicação e que a única forma de escapar a esse controle era emitindo, criando vírus de linguagem, coisa que ele fazia através de sua experiências com os cut-ups. Burroughs cutapeava os textos de jornais e revistas recortando-os em pedacinhos e colando-os ao acaso para daí extrair novas mensagens, reconfigurações de significados. Da mesma forma, aplicaria isso a tapes, gravando conversas, músicas, sons de rua, de bares, de vários locais e misturando tudo para obter novos efeitos, que explicará detalhadamente em A Revolução Eletrônica. A noção de vírus cai direitinho no conceito de disseminação dos memes, e mais ainda nos anti-memes ou memes hackeados.
A abordagem viral do meme não podia ser mais atual, nessa nossa época de AIDS e vírus de computador, e é sob esse aspecto que os memes tem sido utilizados por grupos undergrounds como os zippies e os culture jammers. Os primeiros, freaks cibernéticos ou cyberhippies, se autoproclamam eles mesmos um novo meme e pretendem lançar cada vez mais novos memes, unindo conceitos de tecnologia e misticismo, filosofia DIY (faça-você-mesmo) e psicodelia pela rede e pelo submundo eletrônico das raves. Já os culture jammers querem a implosão semiótica do sistema capitalista e sua mídia. Para tanto sua estratégia é a paródia, o plágio alterado (ou deturrnamento, desvio), a interferência, o ruído. Essas estratégias de assalto e sabotagem da mídia subvertem os memes propagados pela publicidade e programas de tevê e seu objetivo primordial é modificar a visão passiva que temos e absorvemos dessas mídias. Historicamente falando, um pouco do que os dadaístas, situacionistas e punks vêm fazendo ao longo do século.
Agora que você já sabe o que são memes, cuidado. Este é um meta-meme. Ele já está na sua cabeça. Espalhe-o por aí.
Por Ricardo Rosas
segunda-feira, maio 18, 2009
Financiamento Público de Campanha já!
Eu defendo o sistema de financiamento público de campanha opcional, como existe nos Estados Unidos, onde o candidato ou partido opta por um sistema ou pelo outro.
Os gastos de campanha podem ser financiados de duas formas: fundos públicos repassados pelo governo e contribuições privadas de eleitores organizados em grupos de interesse.
Estudos comprovam que quando há apenas contribuições privadas, como é o caso do Brasil na atualidade, a política vencedora é geralmente viesada em direção à plataforma ideal dos grupos economicamente dominantes, ou seja, têm por escopo os grupos privados e seus interesses.
Por outro lado, a representação dos partidos no Congresso tende a ser um pouco mais equilibrada. Quando há apenas contribuições públicas, a política vencedora é socialmente ótima. No entanto, a representação dos partidos passa a ser desigual com a bipolarização se tornando preponderante. É o caso da Inglaterra, onde a bipolarização entre conservadores e trabalhistas já dura um século.
É verdade que, se ambas contribuições são disponibilizadas, a política adotada é viesada em favor dos grupos sociais mais fortes e organizados e a representação dos partidos no Congresso torna-se assimétrica, com um partido dominante no longo prazo, como é o caso da França, por exemplo, que passou por um longo período de predomínio do Partido Socialista.
Por isso, o financiamento híbrido precisa vir associado ao fortalecimento dos partidos, à criação de regras mais rígidas para a manutenção de registros partidários e a adoção do voto em listas partidárias.
Democracia moderna não se faz com eleição. Até mesmo ditaduras fazem eleições e na Grécia antiga, a mãe da democracia, coexistiam eleições diretas com escravismo e opressão às mulheres e às crianças. Democracia moderna se faz com partidos fortes, ideológicos, programáticos e plurais.
O que quer dizer plurais? Que um partido de esquerda, por exemplo, pode ter em seu interior diferentes frações que convivam democraticamente exercitando o debate, sem que seja preciso que cada pequena fração se auto-proclame partido. Partidos fortes não são, necessariamente, monolíticos, mas devem, sempre, ter unidade doutrinária.
O que me surpreende no presente debate nacional sobre o tema da reforma política é a ignorância com que a imprensa majoritária trata a questão. Eu vi no programa Jô Soares uma historiadora dizer "é um absurdo usar dinheiro público para enriquecer políticos" e uma jornalista irritar-se com "o absurdo da gente não poder mais votar em quem a gente quiser" - ela referia-se ao voto em lista, a única forma de fortalecimento dos partidos capaz de dar musculatura ao raquítico sistema partidário nacional.
Quem defende financiamento público de campanha não quer "enriquecer políticos" e tratar a questão com essa pobreza de argumentos é querer desqualificar o debate previamente. Quem diz isso é que está a enriquecer políticos, porque prega a manutenção do sistema viciado que faz da política um fator de enriquecimento individual desde que a república foi inaugurada no país.
Até onde vai a simples ignorância ou burrice pura e simples de opiniões como a da historiadora do programa Jô Soares e onde começa a má fé, o desejo de induzir a opinião pública ao erro? É difícil precisar.
O financiamento público opcional ou exclusivo é um mecanismo de transparência do processo e não uma fonte de financiamento individual para "políticos". É uma forma, talvez a única, de garantir que a prática de Caixa Dois seja varrida do cenário nacional.
A imprensa plantou que o Caixa Dois é uma prática associada a PC Farias, caixa de campanha de Fernando Collor e a Delúbio Soares, tesoureiro do PT. Bem, isto é, no mínimo, uma injustiça histórica.
Em novembro de 2000, o jornal “Folha de São Paulo” publicou reportagem sobre contas paralelas do presidente reeleito em 1998, Fernando Henrique Cardoso. Segundo aquela reportagem, apresentada pela revista “Veja” naquele mesmo mês, o tesoureiro da campanha, Luiz Carlos Bresser Pereira, registrou o recebimento de R$ 43 milhões de contribuições para a campanha, deixando de declarar ao Tribunal Superior Eleitoral doações superiores a R$ 10 milhões, correspondentes a mais de 20% do total declarado.
Do ponto de vista da contabilidade oficial de campanha, são marcantes as diferenças de gastos nas campanhas eleitorais dos candidatos em 1998. Na campanha para os governadores eleitos menciona-se a divergência dos gastos declarados pelo governador
da Paraíba, José Maranhão, e pelo de Sergipe, Albano Franco, que montam R$ 116.500 e R$ 1,3 milhão, respectivamente. Já para o cargo de presidente, aquelas eleições registraram uma discrepância ainda maior, pois Ciro Gomes declarou ter gasto com a campanha R$ 1 milhão, Luiz Inácio da Silva, outros R$ 3,9 milhões, para um gasto de R$ 43 milhões declarados pelo candidato eleito Fernando Henrique Cardoso. Ora, se essa é uma prática enraizada no sistema político, ela só pode ser combatida com a mudança do sistema e não com declarações de intenções.
Desculpem a franqueza, mas atrás de seus discursos pomposos e indignados, os que defendem a manutenção do sistema atual de financiamento em campanha e a balbúrdia do sistema de coleta de votos sem lista partidária defendem, na prática, a manutenção da bandalheira. Afinal, o que será uma "reforma política" sem a mudança estrutural nessas duas áreas senão uma grande encenação para deixar tudo como está?
Os gastos de campanha podem ser financiados de duas formas: fundos públicos repassados pelo governo e contribuições privadas de eleitores organizados em grupos de interesse.
Estudos comprovam que quando há apenas contribuições privadas, como é o caso do Brasil na atualidade, a política vencedora é geralmente viesada em direção à plataforma ideal dos grupos economicamente dominantes, ou seja, têm por escopo os grupos privados e seus interesses.
Por outro lado, a representação dos partidos no Congresso tende a ser um pouco mais equilibrada. Quando há apenas contribuições públicas, a política vencedora é socialmente ótima. No entanto, a representação dos partidos passa a ser desigual com a bipolarização se tornando preponderante. É o caso da Inglaterra, onde a bipolarização entre conservadores e trabalhistas já dura um século.
É verdade que, se ambas contribuições são disponibilizadas, a política adotada é viesada em favor dos grupos sociais mais fortes e organizados e a representação dos partidos no Congresso torna-se assimétrica, com um partido dominante no longo prazo, como é o caso da França, por exemplo, que passou por um longo período de predomínio do Partido Socialista.
Por isso, o financiamento híbrido precisa vir associado ao fortalecimento dos partidos, à criação de regras mais rígidas para a manutenção de registros partidários e a adoção do voto em listas partidárias.
Democracia moderna não se faz com eleição. Até mesmo ditaduras fazem eleições e na Grécia antiga, a mãe da democracia, coexistiam eleições diretas com escravismo e opressão às mulheres e às crianças. Democracia moderna se faz com partidos fortes, ideológicos, programáticos e plurais.
O que quer dizer plurais? Que um partido de esquerda, por exemplo, pode ter em seu interior diferentes frações que convivam democraticamente exercitando o debate, sem que seja preciso que cada pequena fração se auto-proclame partido. Partidos fortes não são, necessariamente, monolíticos, mas devem, sempre, ter unidade doutrinária.
O que me surpreende no presente debate nacional sobre o tema da reforma política é a ignorância com que a imprensa majoritária trata a questão. Eu vi no programa Jô Soares uma historiadora dizer "é um absurdo usar dinheiro público para enriquecer políticos" e uma jornalista irritar-se com "o absurdo da gente não poder mais votar em quem a gente quiser" - ela referia-se ao voto em lista, a única forma de fortalecimento dos partidos capaz de dar musculatura ao raquítico sistema partidário nacional.
Quem defende financiamento público de campanha não quer "enriquecer políticos" e tratar a questão com essa pobreza de argumentos é querer desqualificar o debate previamente. Quem diz isso é que está a enriquecer políticos, porque prega a manutenção do sistema viciado que faz da política um fator de enriquecimento individual desde que a república foi inaugurada no país.
Até onde vai a simples ignorância ou burrice pura e simples de opiniões como a da historiadora do programa Jô Soares e onde começa a má fé, o desejo de induzir a opinião pública ao erro? É difícil precisar.
O financiamento público opcional ou exclusivo é um mecanismo de transparência do processo e não uma fonte de financiamento individual para "políticos". É uma forma, talvez a única, de garantir que a prática de Caixa Dois seja varrida do cenário nacional.
A imprensa plantou que o Caixa Dois é uma prática associada a PC Farias, caixa de campanha de Fernando Collor e a Delúbio Soares, tesoureiro do PT. Bem, isto é, no mínimo, uma injustiça histórica.
Em novembro de 2000, o jornal “Folha de São Paulo” publicou reportagem sobre contas paralelas do presidente reeleito em 1998, Fernando Henrique Cardoso. Segundo aquela reportagem, apresentada pela revista “Veja” naquele mesmo mês, o tesoureiro da campanha, Luiz Carlos Bresser Pereira, registrou o recebimento de R$ 43 milhões de contribuições para a campanha, deixando de declarar ao Tribunal Superior Eleitoral doações superiores a R$ 10 milhões, correspondentes a mais de 20% do total declarado.
Do ponto de vista da contabilidade oficial de campanha, são marcantes as diferenças de gastos nas campanhas eleitorais dos candidatos em 1998. Na campanha para os governadores eleitos menciona-se a divergência dos gastos declarados pelo governador
da Paraíba, José Maranhão, e pelo de Sergipe, Albano Franco, que montam R$ 116.500 e R$ 1,3 milhão, respectivamente. Já para o cargo de presidente, aquelas eleições registraram uma discrepância ainda maior, pois Ciro Gomes declarou ter gasto com a campanha R$ 1 milhão, Luiz Inácio da Silva, outros R$ 3,9 milhões, para um gasto de R$ 43 milhões declarados pelo candidato eleito Fernando Henrique Cardoso. Ora, se essa é uma prática enraizada no sistema político, ela só pode ser combatida com a mudança do sistema e não com declarações de intenções.
Desculpem a franqueza, mas atrás de seus discursos pomposos e indignados, os que defendem a manutenção do sistema atual de financiamento em campanha e a balbúrdia do sistema de coleta de votos sem lista partidária defendem, na prática, a manutenção da bandalheira. Afinal, o que será uma "reforma política" sem a mudança estrutural nessas duas áreas senão uma grande encenação para deixar tudo como está?
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