segunda-feira, março 15, 2010

Tempestade no Cerrado: o golpe da mídia

“Tempestade no Cerrado”: é o apelido que ganhou nas redações a operação de bombardeio midiático sobre o governo Lula, deflagrada nesta primeira quinzena de Março, após o convescote promovido pelo Instituto Millenium.
A expressão é inspirada na operação “Tempestade no Deserto”, realizada em fevereiro de 1991, durante a Guerra do Golfo.
Liderada pelo general norte-americano Norman Schwarzkopf, a ação militar destruiu parcela significativa das forças iraquianas. Estima-se que 70 mil pessoas morreram em decorrência da ofensiva.
A ordem nas redações da Editora Abril, de O Globo, do Estadão e da Folha de S. Paulo é disparar sem piedade, dia e noite, sem pausas, contra o presidente, contra Dilma Roussef e contra o Partido dos Trabalhadores.
A meta é produzir uma onda de fogo tão intensa que seja impossível ao governo responder pontualmente às denúncias e provocações.
As conversas tensas nos "aquários" do editores terminam com o repasse verbal da cartilha de ataque.
1) Manter permanentemente uma denúncia (qualquer que seja) contra o governo Lula nos portais informativos na Internet.
2) Produzir manchetes impactantes nas versões impressas. Utilizar fotos que ridicularizem o presidente e sua candidata.
3)Ressuscitar o caso “Mensalão”, de 2005, e explorá-lo ao máximo. Associar Lula a supostas arbitrariedades cometidas em Cuba, na Venezuela e no Irã.
4)Elevar o tom de voz nos editoriais.
5)Provocar o governo, de forma que qualquer reação possa ser qualificada como tentativa de “censura”.
6) Selecionar dados supostamente negativos na Economia e isolá-los do contexto.
7) Trabalhar os ataques de maneira coordenada com a militância paga dos partidos de direita e com a banda alugada das promotorias.
8) Utilizar ao máximo o poder de fogo dos articulistas.

Quem está por trás

Parte da estratégia tucano-midiática foi traçada por Drew Westen, norte-americano que se diz neurocientista e costuma prestar serviços de cunho eleitoral.
É autor do livro The Political Brain, que andou pela escrivaninha de José Serra no primeiro semestre do ano passado.
A tropicalização do projeto golpista vem sendo desenvolvida pelo “cientista político” Alberto Carlos Almeida, contratado a peso de ouro para formular diariamente a tática de combate ao governo.
Almeida escreveu Por que Lula? e A cabeça do brasileiro, livros que o governador de São Paulo afirma ter lido em suas madrugadas insones.

O conteúdo

As manchetes dos últimos dias, revelam a carga dos explosivos lançados sobre o território da esquerda.
Acusam Lula, por exemplo, de inaugurar uma obra inacabada e “vetada” pelo TCU.
Produzem alarde sobre a retração do PIB brasileiro em 2009.
Criam deturpações numéricas.
A Folha de S. Paulo, por exemplo, num espetacular malabarismo de ideias, tenta passar a impressão de que o projeto “Minha Casa, Minha Vida” está fadado ao fracasso.
Durante horas, seu portal na Internet afirmou que somente 0,6% das moradias previstas na meta tinham sido concluídas.
O jornal embaralha as informações para forjar a ideia de que havia alguma data definida para a entrega dos imóveis.
Na verdade, estipulou-se um número de moradias a serem financiadas, mas não um prazo para conclusão das obras. Vale lembrar que o governo é apenas parceiro num sistema tocado pela iniciativa privada.
A mesma Folha utilizou seu portal para afirmar que o preço dos alimentos tinha dobrado em um ano, ou seja, calculou uma inflação de 100% em 12 meses.
A leitura da matéria, porém, mostra algo totalmente diferente. Dobrou foi a taxa de inflação nos dois períodos pinçados pelo repórter, de 1,02% para 2,10%.
Além dos deturpadores de números, a Folha recorre aos colunistas do apocalipse e aos ratos da pena.
É o caso do repórter Kennedy Alencar. Esse, por incrível que pareça, chegou a fazer parte da assessoria de imprensa de Lula, nos anos 90.
Hoje, se utiliza da relação com petistas ingênuos e ex-petistas para obter informações privilegiadas. Obviamente, o material  é sempre moldado e amplificado de forma a constituir uma nova denúncia.
É o caso da “bomba” requentada neste março. Segundo Alencar, Lula vai “admitir” (em tom de confissão, logicamente) que foi avisado por Roberto Jefferson da existência do Mensalão.

Crimes anônimos na Internet

Todo o trabalho midiático diário é ecoado pelos hoaxes distribuídos no território virtual pelos exércitos contratados pelos dois partidos conservadores.
Três deles merecem destaque.
1)     O “Bolsa Bandido”. Refere-se a uma lei aprovada na Constituição de 1988 e regulamentada pela última vez durante o governo de FHC. Esses fatos são, evidentemente, omitidos. O auxílio aos familiares de apenados é atribuído a Lula. Para completar, distorce-se a regra para a concessão do benefício.
2)     Dilma “terrorista”. Segundo esse hoax, além de assaltar bancos, a candidata do PT teria prazer em torturar e matar pacatos pais de família. A versão mais recente do texto agrega a seguinte informação: “Dilma agia como garota de programa nos acampamentos dos terroristas”.
3)   O filho encrenqueiro. De acordo com a narração, um dos filhos de Lula teria xingado e agredido indefesas famílias de classe média numa apresentação do Cirque du Soleil.

O que fazer

Sabe-se da incapacidade dos comunicadores oficiais. Como vivem cercados de outros governistas, jamais sentem a ameaça. Pensam com o umbigo.
Raramente respondem à injúria, à difamação e à calúnia. Quando o fazem, são lentos, pouco enfáticos e frequentemente confusos.
Por conta dessa realidade, faz-se necessário que cada mente honesta e articulada ofereça sua contribuição à defesa da democracia e da verdade.
São cinco as tarefas imediatas: 
1) Cada cidadão deve estabelecer uma rede com um mínimo de 50 contatos e, por meio deles, distribuir as versões limpas dos fatos. Nesse grupo, não adianda incluir outros engajados. É preciso que essas mensagens sejam enviadas à Tia Gertrudes, ao dentista, ao dono da padaria, à cabeleireira, ao amigo peladeiro de fim de semana. Não o entupa de informação. Envie apenas o básico, de vez em quando, contextualizando os fatos.
2) Escreva diariamente nos espaços midiáticos públicos. É o caso das áreas de comentários da Folha, do Estadão, de O Globo e de Veja. Faça isso diariamente. Não precisa escrever muito. Seja claro, destaque o essencial da calúnia e da distorção. Proceda da mesma maneira nas comunidades virtuais, como Facebook e Orkut. Mas não adianta postar somente nas comunidades de política. Faç a isso, sem alarde e fanatismo, nas comunidades de artes, comportamento, futebol, etc. Tome cuidado para não desagradar os outros participantes com seu proselitismo. Seja elegante e sutil.
3) Converse com as pessoas sobre a deturpação midiática. No ponto de ônibus, na padaria, na banca de jornal. Parta sempre de uma concordância com o interlocutor, validando suas queixas e motivos, para em seguida apresentar a outra versão dos fatos.
4) Em caso de matérias com graves deturpações, escreva diretamente para a redação do veículo, especialmente para o ombudsman e ouvidores. Repasse aos amigos sua bronca.
5) Se você escreve, um pouquinho que seja, crie um blog. É mais fácil do que você pensa. Cole lá as informações limpas colhidas em bons sites, como aqueles de Azenha, PHA,Grupo Beatrice, entre outros. Mesmo que pouca gente o leia, vai fazer volume nas indicações dos motores de busca, como o Google. Monte agora o seu.
A guerra começou. Não seja um desertor.


Por Mauro Carrara

quinta-feira, março 11, 2010

Frase

"Então diz! Essa onda que tu tira qual é? Essa marra que tu tem qual é? Tira onda com ninguém, qual é? Qual é neguinho? Qual é?..." Marcelo D2

Propaganda pré-eleitoral

São Paulo de muitas faces. São Paulo de muita gente. São Paulo apaixonante. Esse é o clima do filme que a Prefeitura de São Paulo está levando ao ar em rede nacional. O filme, que mostra que pessoas do Brasil inteiro vivem na cidade, na verdade oculta um objetivo claramente eleitoral.  Usando o fato de São Paulo ser tanto o nome do estado quanto da capital, busca associar a expressao "São Paulo" a um lugar feliz, que integra todos os brasileiros, que recebe a todos de braços abertos. Só faltou a assinatura: "Serra presidente". Enquanto a campanha de Kassab ilumina o horário nobre global,  a cracolandia e a periferia da maior cidade do país seguem nas sombras do esquecimento.

terça-feira, março 09, 2010

Algodão, trigo e soberania na pauta da GloboNews

A soberana decisão do governo brasileiro de retaliar produtos dos Estados Unidos com autorização da Organização Mundial do Comércio (OMC) por conta de subsídios ilegais praticados pelo governo Obama aos produtores estadunidenses de algodão vai, ao fim e ao cabo, contribuir para que o Brasil alcance uma safra de grãos recorde este ano.
Isso se deve ao fato do trigo ter sido incluído na lista de produtos que terão as alíquotas de importação elevadas e, como o Brasil é dependente da produção externa, isso deve incentivar os agricultores do país a aumentar o investimento no cereal.
Contudo, para os comentaristas políticos da GloboNews e da Rede Globo a realidade é inversa e a atitude soberana do governo em defesa do algodão brasileiro “vai prejudicar o consumidor final”, “aumentando”, por exemplo “o preço do pãozinho da esquina”, já que o trigo usado no Brasil é, em grande parte, importado dos Estados Unidos.
Pura politicagem. Lucia Hipólito e companhia sabem fazer conta, mas constroem um discurso negativo com o objetivo claro de crucificar o governo e beneficiar a natimorta campanha de José Serra.
Os opinadores politizados do jornalismo global sabem que o trigo, por exemplo, é um dos menores componentes do preço de um pãozinho, cuja formação do valor de troca agrega mais de 15 itens, dentre os quais energia elétrica, impostos, aluguel, mão de obra, transporte, etc. Com isso esquecem uma lição básica da economia política, aquela que analisa a relação oferta-procura e cuja análise, nesse caso, indica uma tendência para o aumento da safra brasileira de grãos, e portanto, para a queda do preço do trigo ao consumidor final.
O país não é um paraíso, mas vai bem como nunca. O desespero na tentativa de construir pautas negativas para prejudicar a candidata do PT e de Lula nas eleições deste ano está se tornando não apenas evidente, mas, por vezes, ululante.

Ontem foi o Dia da Mulher. E hoje?

Em 1910, a Conferência de Mulheres Socialistas, realizada em Copenhague, aceitou a proposta de Clara Zetkin, dirigente da II Internacional, de declarar como o Dia Internacional da Mulher Trabalhadora o 8 de março, em memória de uma tragédia. Naquele data, em 1857, 129 operárias da empresa têxtil Cotton de Nova Iorque morreram queimadas em um incêndio provocado pela patronal como resposta às reivindicações de suas trabalhadoras.
Assim nasceu o dia 8 de março, como dia de luta da mulher trabalhadora e de homenagem às mártires de Nova Iorque. Mas ao longo dos anos a data foi sendo desfigurada, hoje convertendo-se em um dia dedicado a realizar a vendas de produtos e a confraternização despolitizada. Mas na prática a realidade das mulheres ainda é de exploração e dor e isso exige uma reflexão com base em dados.
As mulheres somam 70% dos 1,3 bilhões de pobres absolutos do mundo. Isto é assim, mesmo que, segundo dados da ONU, o trabalho da mulher tenha um papel de primeira ordem já que entre o 50% e 80% da produção e comercialização de alimentos está em suas mãos.
No nível da educação, 2/3 dos 876 milhões de analfabetos do mundo são mulheres. Ao cumprir os 18 anos as garotas têm em média 4,4 anos menos de educação que os homens da mesma idade. Dos 121 milhões de crianças não escolarizados no mundo, 65 milhões são meninas (ONU, Unicef).
No nível da saúde, a cada ano morrem no mundo mais de meio milhão de mulheres como consequência da gravidez e do parto, o que está diretamente relacionado ao nível de pobreza. Nos chamados "países em desenvolvimento" a taxa de mortalidade materna é de um a cada 48 partos. Em países europeus, como a Espanha, morrem 3,9 mulheres a cada 100 mil. Na Espanha 98% das mulheres recebem assistência durante a gravidez e o parto. Nos países "em desenvolvimento" 35% das mulheres não recebem atenção pré-natal; quase 50% não têm assistência especializada ao dar à luz. As últimas estatísticas indicam que há mais mulheres que homens infectadas pela Aids.
As piores condições de vida empurrarão cada vez mais a mulheres trabalhadoras e pobres aos abortos clandestinos ou aos brutais métodos dos abortos caseiros. Mulheres trabalhadoras e pobres continuarão morrendo, enquanto as clínicas clandestinas ganham fortunas graças à legislação repressiva que impede que o aborto seja realizado nos hospitais em forma gratuita e nas melhores condições médicas. Grande quantidade de jovens continuará condenada a dar à luz a filhos não planejados, que mais tarde serão abandonados ou maltratados, destruindo suas vidas e as de suas mães.
E esta deplorável situação chega à sua máxima expressão quando vemos os dados sobre a violência contra a mulher. A cada ano, pelo menos 2 milhões de meninas entre 5 e 10 anos são vendidas e compradas no mundo como escravas sexuais. A cada duas horas, uma mulher é apunhalada, apedrejada, estrangulada ou queimada viva para “salvar” a honra de um macho em fúria. Durante os conflitos armados o ataque aos direitos humanos da mulher (assassinato, violação, escravidão sexual e gravidez forçada) é utilizado como arma de guerra. No mundo, 135 milhões de meninas e mulheres sofreram mutilação genital. A cifra aumenta em dois milhões por ano. Segundo dados do Banco Mundial, pelo menos 20 por cento das mulheres do mundo sofreram maus tratos físicos ou agressões sexuais.

É essa realidade cruel e injusta que a onda mercantilista em torno do Dia Internacional da Mulher não deixa ver, eclipsando a necessidade efetiva de fazer com que o 8 de Março continue a ser, sobretudo, um dia de luta. Uma luta sem trégua. Uma luta sem fim.

segunda-feira, março 08, 2010

Veja

Veja, revista humorística de circulação nacional, acaba de inocentar Kassab, o prefeito de São Paulo. "Todas as doações recebidas por Kassab foram legais", sentencia a revista.
Para quem não lembra, acusado de receber doações ilegais na campanha de 2008, Kassab foi cassado por ter recebido mais de 20% do total arrecadado pela campanha de fonte considerada vedada pelo juiz. Entre as mencionadas fontes de doação encontram-se a Associação Imobiliária Brasileira (AIB) e outras empresas concessionárias de serviços públicos. Por lei elas são impedidas de colaborar com campanhas eleitorais. O prefeito do DEM retornou ao cargo por força de liminar.
Para Veja, todas as acusações são infundadas e o culpado de tudo é o juiz que proferiu a sentença, que tornou-se alvo de ataques morais desfechados pela revista.
Há crentes para os quais a imprensa diz a verdade e tem por função nos revelar o caminho da luz, como uma espécie de religião. Balela. Basta ler de olhos abertos para perceber que os conglomerados de comunicação não estão militando a serviço da verdade, mas sim da garantia de seus lucros e de seu espaço de poder. É isso que explica também o desespero da grande imprensa quando se fala no Brasil em controle social da mídia, coisa que existe em países como Suíça, Suécia, Canadá e França, por exemplo. Para bem executar sua atividade de plantar mentiras a serviço de seus interesses, a imprensa tupiniquim não quer que a sociedade deite os olhos sobre ela. Afinal, ver pode ser fatal.
Veja, por exemplo, só vê o que quer. Basta observar o comportamento editorial da revista amarela, que intepreta todas as acusações contra o PT como verdadeiras, ainda que improváveis. E todas as acusações ou provas contra o bloco direitista PSDB-DEM como falsas, ainda que os fatos gritem.
Um amigo diz que Veja vê, mas não ouve nada. Eu diria que ela vê, mas ouve só aquilo que quer.

sexta-feira, março 05, 2010

Frase

"Marketing político é pegar um candidato com 3% e levá-lo ao segundo turno. Pegar um candidato favorito e vencer não é marketing. É obrigação." Chico Cavalcante

Internet e recompensa

Ao comer, dormir e realizar atividades fundamentais para a preservação da vida, uma série de mecanismos funcionam para proporcionar sensação de prazer, para que aquela atividade seja freqüentemente repetida, uma vez que reforça a função biológica de sobrevivência.
Não é à toa a imensa felicidade que o sexo, uma refeição farta e uma boa noite de sono nos proporcionam. 
Um desses mecanismos envolvidos na sensação de prazer e euforia é o sistema de recompensa, uma rede de neurônios específicos que auxiliarão na resposta enviada ao cérebro.
A maioria de nossos hábitos é baseada na oferta de prazer que aquela atividade proporcionará, desde uma soneca no meio da tarde, um abrigo quente do frio, carinho, comida, atividade física.
Talvez só esses mecanismos biológicos de recompensa possam justificar a construção de uma corrente que vê na propagação das chamadas “redes sociais” da internet (twitter, blogs, facebook, coletividades remotas, etc) a realização da felicidade na terra.
A sensação de recompensa estimulada pelo poder de ter sua própria mídia e de fazê-la imediata, em tempo real, produz uma euforia compensadora que turva a visão real. De repente, somos todos "cidadãos Kane" e reagimos enquanto tal.
Contudo, um artista de TV que tem um milhão de “seguidores” no twitter não tem nada perto do alcance de um comercial de 30 segundos exibido em horário nobre, que alcança 70 ou 80 milhões de pessoas de uma vez.
A sensação de recompensa, no entanto, não permite ver que na internet você está falando apenas para os seus. São círculos que giram em torno de temas e replicam conteúdos viciados. Servem, portanto, para vender produtos porque circunscrevem, demarcam e assinalam "público-alvos", com hábitos de consumo gregários. Mas são limitados para vender idéias.
Muitos amigos meus, uma grande quantidade de “especialistas” e, é claro, as empresas que vivem da propagação do mito da comunicação horizontal consideram que a internet é a panacéia do marketing e da comunicação social. Ao dar poder de mídia, ao fazer de cada um de nós uma fonte de informação, ao permitir que isso se faça a baixo custo, a internet gera uma ilusão de poder que não resiste a uma análise mais detida.
Agora, às vésperas das eleições, páginas e páginas estão sendo impressas com análises sobre o papel fundamental, decisivo, da internet para a realização de objetivos eleitorais.
Levantamento das Associação Brasileira de Marketing Político aponta que 9% das verbas das campanhas em 2010 devem ser destinadas ao marketing digital, com envolvimento de cem agências especializadas.
A rede mundial de computadores é um instrumento importante na campanha, especialmente para estimular o público jovem, mas muito menos importante do que se propala.
Fragmentada, descentralizada, multifacetada, a internet é como uma bomba atômica dividida em bilhões de pequenos pedaços, que não tem, portanto, o poder concentrado que tem a grande mídia e que alcança, com seu efeito explosivo, segmentos de público específico.
Internet não é mídia de massas, embora alcance muita gente. Não é mídia de massas porque o conceito pressupõe foco. Para alguns analistas é difícil entender essa contradição que pode ser compreendida facilmente quando sabemos que a internet alcança muita gente, mas essa gente está abrigada em nichos específicos. Para alcançá-la, o custo é maior. O conceito de mídia de massas é diferente disso. Pressupõe baixo custo por mil. Um tiro, muitos alvejados.
Se você se basear no que circula na internet, por exemplo, para conhecer a popularidade de Lula, chegará à conclusão de que ele é o mais odiado e vilipendiado governante que já passou pelo Planalto. Mas na vida real, fora da rede, ele é o presidente com maior aprovação popular da história.
Por que isso ocorre? Porque a “opinião pública” na internet é produto da opinião das minorias organizadas; é fabricada de maneira mais célere do que na vida real e se propaga de maneira viral; porque o público mais ativo e propagador de boatos está ali atuando profissionalmente.
Há espaço para tudo na internet, mas o que prevalece são as generalidades e os preconceitos. Quando você busca quais os assuntos mais pesquisados na internet você encontra “sexo”, “celebridades” e “religião” no topo da lista. Ninguém, a não ser profissionalmente, entra na internet para pesquisar política e intervir politicamente.
Do público que acessa a internet no Brasil, 70% o fazem em Lan-Houses, pagando por hora de acesso. Seria demencial pensar que essas pessoas entrem na web para pesquisar sobre política e atuação política ou para fazer ali seu espaço de formação de voto, de decisão eleitoral.
Dizer que Obama se elegeu graças a sua estratégia de internet e que Piñeda, eleito no Chile em 2009, conquistou a vitória por conta de sua ação na web não é apenas uma falácia, mas um exagero brutal. Em ambas as campanhas a internet teve o seu papel, mas a política feita pelo método clássico, a engenharia das alianças internas, a mídia de rádio e TV e o aporte generoso de contribuições milionárias valeram muito mais que o buzz na web, que foi mais útil para tornar Obama mundialmente conhecido do que para vencer a eleição nos Estados Unidos.
No Brasil, a internet vem sendo utilizada mais como firewall preventivo ou espaço para o jogo sujo pré-eleitoral do que para construir imagens de candidatos e partidos. Essa percepção é confirmada por Elysio Pires, consultor, que disse ao Meio & Mensagem: "Toda campanha eleitoral tem um lado formal e outro negro. E a internet terá grande contribuição nesse lado mau, até porque permite a postagem de mensagens sem identificação de procedência".
Repito: não quero com isso dizer que a internet não tem importância, mas colocar essa importância em sua escala de grandeza real no momento em que vivemos.
Se você é candidato e alguém lhe disse que a internet sozinha pode elegê-lo, demita esse consultor agora. Ele é agente duplo. Está dominado pelo seu próprio sistema de recompensa e a serviço das corporações que dominam o espaço virtual. Segui-lo pode levar você a muitos lugares, menos ao Éden da vitória eleitoral.

Rapaz de bem

O cantor, compositor e pianista carioca Johnny Alf morreu ontem, aos 80 anos, em Santo André, na Grande São Paulo, onde estava morando. Há mais de três anos, Alf vinha sofrendo com um câncer de próstata.
Músico virtuoso e cantor dotado de uma voz nobre e aveludada, Johnny Alf se notabilizou por canções como "Eu e a Brisa", "Ilusão à Toa" e "Rapaz de Bem".
Muito menos midático que João Gilberto, foi, na verdade, o precursor da Bossa Nova, ao introduzir nas modulações do samba-canção o balanço improvisado próprio do jazz.
Morreu pobre, vivendo em um asilo, sorrindo ao dizer que a riqueza que acumulou deu para comprar uma cama, uma televisão, um fogão e uma geladeira.
Um gênio não recompensado pelo talento que emprestou à música do país e que olhava para a opulência dos que enriqueceram fazendo música ruim com a fina ironia de quem dizia que a vida vale muito mais que as coisas que a vida dá.

I see death people

Tancredo Neves, que atravessou a história como político conservador e que teve no período da ditadura militar uma convivência pacífica e colaborativa com o regime, foi ressuscitado em grande estilo na mídia nacional.
A volta da velha raposa ao mundo dos vivos se dá em socorro da fraca aliança café-com-leite de Serra e Aécio, que pretende colocar novamente o eixo do poder na área de maior concentração de riquezas do país.
Nessa espécie de "mesa branca" que trouxe a alma de Tancredo à convivência dos mortais, Aécio e Serra ganharam destaque em todos os telejornais, que praticamente deram ao mais mineiro dos políticos mineiros a autoria da campanha "Diretas Já", na verdade lançada pela esquerda do PT em um ato público na periferia de São Paulo.
A "coincidência" de abordagem em diferentes canais de televisão mostra que os mesmos releases foram a base de todas essas "reportagens".
É assim que se reescreve a história e se faz jornalismo. Manipulando os fatos, na cara de todos, sem a menor cerimônia.

quinta-feira, março 04, 2010

Frase

“Quando falta espaço eu faço um verso; e durmo na canção”.
Nei Lisboa.

quarta-feira, março 03, 2010

Definidas regras para as eleições 2010

Os partidos políticos terão de discriminar a origem e o destino dos recursos repassados a candidatos e comitês financeiros durante a campanha deste ano, o que poderá tornar mais difícil a prática das chamadas doações ocultas. Além disso, ao pedir o registro de uma candidatura, os políticos terão de apresentar certidão criminal digitalizada. E o eleitor que estiver fora de seu domicílio eleitoral poderá votar em trânsito.
As novidades foram aprovadas ontem (2) pelos ministros do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) com os objetivos de evitar as chamadas doações ocultas, permitir que os eleitores consultem com facilidade se um determinado político responde a processos na Justiça e qual é a situação dessas ações e garantir o voto de quem está viajando.
Segundo a resolução sobre doações de campanha, os partidos políticos deverão ter uma conta bancária específica para a arrecadação dos recursos. Para evitar as chamadas doações ocultas, as legendas poderão distribuir os recursos financeiros recebidos de pessoas físicas e jurídicas, mas deverão, obrigatoriamente, discriminar a origem e o destino desses recursos repassados a candidatos e comitês financeiros.
Até agora, os financiadores doavam recursos para os partidos, que repassavam para os candidatos, sem identificar a origem.
Pelas regras aprovadas pelo TSE, as doações poderão ser feitas por meio de cartão de crédito ou débito. Mas as doações por cartão somente poderão ser feitas por pessoa física. Essas doações estão limitadas a 10% dos rendimentos brutos obtidos pelo eleitor no ano anterior à eleição. Não poderão ser feitas doações por meio de cartões emitidos no exterior ou por cartões corporativos e empresariais. Antes de arrecadar recursos por meio de cartão, os candidatos e comitês deverão desenvolver uma página na internet específica para recebimento dessas doações.

Os ministros fizeram questão de afirmar que a Justiça Eleitoral não quer dificultar a arrecadação de recursos para as campanhas, mas apenas disciplinar as regras. O presidente do TSE, Carlos Ayres Britto, disse que o ideal seria que as doações fossem feitas por pequenos doadores. Assim ninguém ficaria refém de ninguém, segundo o ministro.
Em relação à ficha penal dos políticos, os candidatos terão de apresentar a certidão criminal digitalizada. Se existirem processos criminais, os candidatos serão convocados para fornecer documento detalhando a situação específica de cada processo. Se esse documento não for apresentado, o juiz eleitoral poderá indeferir o registro da candidatura.

Voto em trânsitoSobre o voto em trânsito, para ter esse direito, o eleitor terá de comunicar a um cartório eleitoral de 15 de julho a 15 de agosto que não estará no seu domicílio eleitoral no dia da eleição. Ele deverá indicar a capital onde pretende votar.
O TSE desistiu de alterar a distribuição das cadeiras na Câmara dos Deputados, nas assembleias legislativas e na Câmara Legislativa do Distrito Federal. Havia uma pressão para que essa distribuição fosse alterada com base na estimativa da população dos Estados feita pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 2009. Se a mudança tivesse sido aprovada, 7 Estados ganhariam cadeiras na Câmara dos Deputados e 8 perderiam. Mas o número total de 513 vagas de deputado federal seria mantido.

quinta-feira, fevereiro 18, 2010

Sem remédio

Marx dizia que a burocracia ocupa-se, fundamentalmente, em criar as condições de sua própria sobrevivência. Isso quer dizer que, em nome dessa sobrevivência, às vezes atropela-se até mesmo o bom senso, desde que uma nova atribuição e um novo carimbo sejam criados para justificar a vida gris e desinteressante da burocracia.
Lembrei dessa lição da juventude ao me deparar com a totalmente lunática resolução da Anvisa, que proibe que as farmácias deixem expostos remédios de uso livre (cuja prescrição não exija receita), como analgésicos e vitaminas nas gôndolas das drogarias do país.
O que o público ganha com isso? Rigorosamente nada. Mas em compensação a burocracia da saúde pública justifica sua existência, já que terá que exercer o controle da execução da dita resolução, criada apenas para dar a si mesma uma ocupação e para dar aos advogados das associações de farmácias uma renda suplementar.
Se você viveu, como eu, o tempo em que era preciso ir ao balcão até mesmo para pedir uma Cibalena, sabe que essa medida vai gerar filas em duplicidade; uma para pedir a medicação que sequer carece de receita e outra para pagar o produto; sabe também que quem precisa comprar remédios com receita, terá que enfrentar filas maiores, já que terá a concorrência de pessoas que estão ali apenas para comprar uma caixa de vitamina C.
Essas questões, óbvias e ululantes, passaram ao largo quando da redação do texto que se propõe a "defender os cidadãos" contra "os abusos" das redes de farmácias, que se transformaram "em supermercados da saúde", substituindo "o conhecimento médico e a rede pública de saúde" pela auto-medicação. 
Bobagem. Na verdade, a resolução parte de uma crença ao mesmo tempo comum e estranha: a de que todo mundo é imbecil e que, apenas por ver exposto numa cesta um envelope de Lactopurga, o consumidor que precisa de um analgésico, por exemplo, irá comprar o laxante digestivo por indução, ou seja, irá comprar um produto que não precisa para um mal que não o acomete. A tutela do estado, que deve acontecer em questões relevantes, é levada assim ao paroxismo, invadindo todas as áreas da vida privada, incluindo aquela onde o Lactopurga atua.
Melhor faria a Anvisa se debatesse questões relevantes, como a discriminalização da maconha ou a legalização da venda de drogas proscritas, cuja proibição tornou-se, ao longo do século XX, o indutor principal do tráfego, da corrupção e da criminalidade que se organizam em torno dela.

Frase

“Eu sou eu e minhas circunstâncias”. José Ortega y Gasset

quarta-feira, fevereiro 17, 2010

Frase

“Duas coisas a burguesia nos legou, e não podemos dispensá-las: o bom gosto e as boas maneiras”.  Vladimir Lenin

sábado, fevereiro 13, 2010

epolitics

Se você consegue ler e entender o que está escrito na língua de Edgar Alan Poe e quer ocupar os dias de ócio momesco com informações úteis sobre marketing político, leia "Learning from Obama: Lessons for Online Communicators in 2009 & Beyond", de Colin Delany, especialista em comunicação política digital e editor do site epolitics.com (http://www.epolitics.com/). O livro é baseado em uma série de artigos publicados no site e desenvolve uma descrição e análise dos diversos aspectos da campanha online do Presidente Barack Obama. Baixe gratuitamente o "Learning from Obama", clicando aqui http://www.epolitics.com/learning-from-obama.pdf.

Inglês ruim

Outro dia alguém me mandou uma postagem do Twitter em que Walter Longo, refinado executivo do grupo Young & Rubican, criticava o embaixador Celso Amorim por seu "inglês ruim". Admiro Longo e me assustei com a pequeneza desse comentário. O linguista Noam Chomsky consideraria isso um hiato cultural ou, em bom português, uma "coisa de colonizado", que pensa que o domínio da comunicação em língua estrangeira deve eliminar o sotaque, a musicalidade própria de qualquer língua e a historicidade de cada cultura. Se Antonio Banderas pensasse como Longo teria sido, no máximo, motorista de táxi em Miami. Curioso é que pessoas que reproduzem esse preconceito em relação a brasileiros que falam inglês ou outra língua preservando o sotaque não estranham quando vêem um francês ou um espanhol falar um português cheio da musicalidade própria de sua língua nativa; acham até "charmoso". O correspondente da Rede Globo em Buenos Aires, um portenho autêntico, fala 100% portunhol e todos entendem e acham pitoresco. A não ser que você queira ser ator em Hollywood, professor de português no Texas ou controlador de vôo no aeroporto de Nova Iorque, esforçar-se para falar inglês sem nenhum sotaque é pura bobagem. Os tradutores da ONU, os repórteres franceses ou alemães que cobrem o noticiário internacional falam com sotaque. Todos os embaixadores norte-americanos que passaram pelo Brasil, incluindo aquele que foi sequestrado pelo MR-8, falavam um português sofrível e jamais foram criticados por isso. Outro dia, madrugada adentro, assisti a uma entrevista do homem mais rico do Brasil, Eiki Batista, no canal Bloomberg. O influente milionário mais parecia um russo tentando falar espanhol. E conseguiu dar o seu recado. Sua fluência trôpega não impediu que se comunicasse com o rico mercado onde está ampliando sua fortuna.

Politics

Para quem gosta de marketing político a dica é passar o carnaval lendo a revista Politics Magazine, desde agora publicada em espanhol com enfoque latino-americano. Sob o comando de Jordan Lieberman, a revista traz também em seu conselho editorial, nomes como Christopher Arterton, Jose Luis Sanchis, Aleix Sanmartin, Luis Matos, Manuel Mora y Araujo, Roberto Izurieta, Jaime Duran, Mauricio De Vengoechea, Eduardo Gamarra, Gisela Rubach, Cesar Martinez, Rafael Reyes Arce e Ralph Murphine. Você pode acessar a versão digital do primeiro número, clicando aqui: http://www.zinio.com/reader.jsp?issue=416112790&o=ext&csid=cj

sexta-feira, fevereiro 12, 2010

Guerrilha na era da comunicação

A cena política está apreensiva. As verdades mais secretas, suprimidas e encobertas nos cursos de teoria marxista dos anos 70 e 80 finalmente vieram à luz. Você sabia que Friedrich Engels e Karl Marx foram praticamente os primeiros a fazer comunicação-guerrilha (depois de Till Eulenspiegel* )? Eles forjaram resenhas do Das Kapital e foram os primeiros a demonstrar “falsas ocorrências que produzem eventos reais”.
A bandida intelectual Sonja Bruenzels e o comissário para o uso correto dos significantes no espaço público, Luther Blisset, juntaram forças com o grupo autônomo a.f.r.i.k.a. e publicaram suas revelações no Manual da Comunicação-Guerrilha (Handbuch der Kommunikationsguerrilla). Eles perguntam: “Quando há Comunicação-Guerrilha?” Eles dão uma boa risada em cima das fantasiosas reclamações daqueles que acreditam na força e glória da informação mas ignoram as linguagens e lugares que determinam o sentido de palavras e signos. Na selva dos processos comunicacionais, eles seguem os caminhos exauridos e obscuros de emissores, códigos e receptores e buscam maneiras de erodir as bases do poder e da autoridade.

O que é Comunicação-Guerrilha?

Comunicação-guerrilha é ação militante, política (politische Militanz). Difere da ação militante (autônoma) convencional no sentido em que ela não somente visa destruir os códigos do poder e da soberania, mas objetiva efetivamente desfigurá-los. Comunicação-guerrilha não é uma forma particular de comunicação política que apenas traz afirmações num texto direto (como flyers, slogans, pôsteres). O objetivo não é a interrupção nem a permanente apropriação de um meio comunicacional. O objetivo é o roubo e a distorção de mensagens. Partimos da premissa de que a importância da comunicação é não só o que é dito mas também a forma da própria comunicação.
O objetivo da comunicação-guerrilha é deslegitimar o presente estado de poder e soberania. Para realizar isso, deve-se entender suas manifestações e estruturas multifacetadas. A comunicação-guerrilha tenta lidar com as estruturas de poder normativo das formas estabelecidas de comunicação assim como as estruturas de poder internalizadas ao nível do sujeito. Isto requer que sejam fabricadas situações em que se torna perceptível - por pelo menos um breve momento - que tudo poderia realmente ser bem diferente.

Por que Comunicação-Guerrilha?

A comunicação-guerrilha é um resultado das experiências com os antigos conceitos da esfera pública oposicionista (Gegenüffentlichkeitskonzepten) e práticas educacionais da esquerda. Nas sociedades do capitalismo tardio nada pode ser ganho a partir da livre difusão da verdade. A política tradicional da esquerda frequentemente parece contar com o poder persuasivo do argumento racional. A confiança de que a simples apresentação da informação representa uma forma efetiva de ação política ainda é inabalável. Supõe-se que o conteúdo crítico seja suficiente para romper a rede de mensagens manipuladas, com as quais a mídia influencia a consciência das massas. O principal problema aqui é a aceitação da idéia: “quem quer que possua os emissores pode controlar os pensamentos dos humanos”. Esta hipótese vem de um modelo de comunicação muito simples que só põe o foco no “emissor” (no caso da comunicação de massas, no geral, central e industrialmente organizada), o “meio” que transporta a informação, e o “receptor”.
A euforia em torno da sociedade da informação, tanto quanto sua oposição pessimista - que acredita no excesso de informação -, não encaram o problema crucial da democracia representativa dos cidadãos: fatos e informação não causam quaisquer consequências. Encare a coisa, mesmo que estórias de desastres, escândalos e disparidades estejam sendo publicados, eles não têm quase nenhuma consequência.

Lugares e Espaços para a Comunicação-Guerrilha

Pontos de partida para a comunicação-guerrilha são espaços públicos nos quais o poder está sendo negociado e reproduzido num nível cultural e simbólico. Primeiramente, isso se refere ao espaço público concreto, a cidade e as ruas. Ao mesmo tempo, isso abrange o espaço da mídia, que é caracterizado por um processo de comunicação de sentido único (um-para-muitos). Aqui a balança do poder é claramente visível: alguns têm o poder de determinar os assuntos da mídia e a maneira pela qual eles são tratados, outros só podem expressar sua opinião movendo os pés para votar ou com seus controles remotos, desligando sua televisão ou rádio. Um terceiro espaço, de alguma forma conectado, mas, em muitos aspectos, parte de uma estrutura inteiramente diferente, é o espaço virtual. O desenvolvimento de novas tecnologias de informação e comunicação resulta em modos qualitativamente novos, interativos, de comunicação.

Comunicação-Guerrilha não é Guerrilha de Mídia

Não construímos nosso entendimento da comunicação na base de só um aparato técnico específico, ou seja, um meio. A comunicação-guerrilha não é, então, guerrilha de mídia. Comunicação-Guerrilha pode ser vista mais como uma forma de comunicação política, que requer uma energia e atitude subversiva, assim como uma intuição para as implicações das formas de atos comunicativos - de dentro da produção da ordem simbólica. Que resta fazer? Buscar e empacotar o subversivo na comunicação, com a intenção de equipar e suprir as forças emudecidas do público opositor com as estrondosas trombetas da distorção e da super-identificação! Até este momento, como aconteceu com as muralhas de Jericó, a fundação básica da ordem reinante logo irá desmoronar e implodir. O que só deixa uma instância: detone pra valer!

Manifesto do coletivo Kommunikationsguerrilla.
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* Till Eulenspiegel é um personagem de lenda medieval do norte da Europa. Pícaro, blefador e bon-vivant, teve suas peripécias e burlas farsescas narradas em lendas e romance (Charles de Coster), que lhe granjearam a fama de herói popular. (N. do Trad.)
Verlag Libertäre Assoziation Lindenallee
72 D-20259
Hamburg
 Tradução do inglês por Ricardo Rosas. Visite o site da Kommunikationsguerrilla (www.contrast.org/KG).

quinta-feira, fevereiro 11, 2010

Gramsci e o conceito de partido

A ação política (no sentido estrito) é necessária para que se possa falar de partido "político"?  No mundo moderno, pode-se observar que, em numerosos países, os partidos orgânicos e fundamentais, por necessidades da luta ou por outras razões, se dividiram em frações, cada uma das quais toma o nome de "partido" e mesmo de partido independente.  É por isso que o Estado Maior intelectual do partido orgânico não pertence a nenhuma dessas frações, mas opera como se fosse uma força dirigente completamente independente, superior aos partidos e às vezes considerada mesmo como tal pelo público.  Essa função, pode-se estudá-la com maior precisão se se parte do ponto de vista de um jornal. (ou um grupo de jornais) , uma revista (ou grupo de revistas); estes também são "partidos" ou "frações de partidos" ou "função de determinados partidos".  Pense-se na função do Times na Inglaterra, a que tem o Corriere de la Sera na Itália, e também na função do que se chama de "imprensa de informação" , que se diz "apolítica", e mesmo no noticiário esportivo e no técnico.  De resto, o fenômeno oferece aspectos interessantes  nos países onde existe um partido único e totalitário de governo: porque tal partido não tem mais funções francamente políticas, mas apenas técnicas de propaganda, de polícia, de influência moral e cultural.  A função política é indireta: porque, se não existem outros partidos legais, existem sempre outros partidos de fato ou tendências incontroláveis legalmente, contra os quais se polemiza e luta-se como num jogo de cabra-cega. 
De qualquer modo, é certo que em tais partidos as funções culturais predominam, dando lugar a uma linguagem política de jargão: isto é, as questões políticas se revestem de formas culturais e como tais tornam-se insolúveis.
Mas há um partido tradicional que tem um caráter essencialmente "indireto", isto é, apresenta-se explicitamente como puramente "educativo" (lucus1 etc.), moralista, cultural (sic):  assim, a dita ação direta (terrorista) é concebida como "propaganda" pelo exemplo, do que se pode ainda reforçar o juízo de que o movimento libertário não é autônomo, mas vive à margem de ourtros partidos, "para educá-los", e se pode falar de um "libertarismo" inerente a todo partido orgânico.  (Que são os "libertários intelectuais ou cerebrais" senão um aspecto de tal "marginalismo" correspondente aos grandes partidos dos grupos sociais dominantes?)  A própria "seita dos economistas"2 era um aspecto histórico desse fenômeno.
Apresentam-se, portanto, duas formas de "partido" que parecem fazer abstração (como tais) da ação política imediata.: o constituído por uma elite de homens de cultura, que tem a função de dirigir do ponto de vista da cultura, da ideologia em geral, um grande movimento dos partidos afins (que são na realidade frações de um extenso partido orgânico) e, no período mais recente, partido não de elite, mas de massa, que como massa não tem outra função política do que a de uma fidelidade genérica, de tipo militar, a um centro político visível ou invisível (frequentemente o centro visível é o mecanismo de comando da força que não deseja mostrar-se à plena luz, mas operar só indiretamente por interposta pessoa e por "interposta ideologia").  A massa é simplesmente de "manobra" e vem "ocupada" com predicados morais, com preocupações sentimentais e com mitos messiânicos de esperança em uma idade fabulosa na qual todas as contradições e misérias presentes serão automaticamente resolvidas e sanadas3.
1933
[Cadernos do cárcere / Notas sobre Maquiavel, a política e o príncipe moderno / 1932-1933]
Antonio Gramsci (1891-1937)


Notas:
1 Palavra latina significando "bosque sagrado".  Não se sabe a que Gramsci faz alusão.  Talvez a alguma organização com esse nome.
2 Ver a nota Alcuni aspetti teorici e practici dell'"economismo" [Alguns aspectos teóricos e práticos do "economismo"] nos Cadernos do Cárcere de Gramsci.
3 O segundo tipo de partido corresponde ao fascismo.  O primeiro tipo de partido é provavelmente uma referência ao papel de Croce: "o partido como ideologia em geral, superior aos diversos agrupamentos mais imediatos.  Na realidade, o modo de ser do partido liberal italiano após 1876 foi de se apresentar ao país como 'uma ordem dispersada' de frações e de grupos nacionais e regionais.  As frações do liberalismo político eram tanto o catolicismo liberal dos populares quanto o nacionalismo (Croce colaborou na Politica de A.  Rocco e F. Coppola), tanto as Uniões monarquistas quanto o partido republicano e uma grande parte do socialismo, tanto os radicais democratas quanto os conservadores, tanto Sonnino, Salamandra quanto Giolitti, Orlando, Nitti e Cie.  Croce foi o teórico de todos esses grupos e grupúsculos com coquetismos e cacoetes em comum; ele foi o chefe de um escritório central de propaganda, do qual todos esses grupos se serviam e tiravam benefícios, foi o líder nacional dos movimentos culturais que nasciam para renovar as antigas formas políticas".
Fonte: GRAMSCI, Antonio.  Note sul Machiavelli sulla politica e sullo Stato moderno.  Editori Riuniti, p.25-26.
Fonte secundária: Gramsci dans le texte. Paris: Editions sociales, 1975, p. 453-455

Lula, aquele que não entende nada

Por Pedro Lima * 

FHC, o farol, o sociólogo, entende tanto de Sociologia quanto o governador de São Paulo, José Serra, entende de economia. Lula, que não entende de sociologia, levou 32 milhões de miseráveis e pobres à condição de consumidores; e que também não entende de economia; pagou as contas  de FHC, zerou a dívida com o FMI e ainda empresta algum aos ricos.
Lula, o analfabeto, que não entende de educação, criou mais escolas e universidades que seus antecessores juntos [14 universidades públicas e entendeu mais de 40 campi], e ainda criou o PRÓ-UNI, que leva o filho do pobre à universidade [meio milhão de bolsa para pobres em escolas particulares]. 
Lula, que não entende de finanças nem de contas públicas, elevou o salário mínimo de 64 para mais de 291 dólares [valores de janeiro de 2010],e não quebrou a previdência como queria FHC.
Lula, que não entende de psicologia, levantou o moral da nação e disse que o Brasil está melhor que o mundo. Embora o PIG-Partido da Imprensa Golpista, que entende de tudo, diga que não.
Lula, que não entende de engenharia, nem de mecânica, nem de nada, reabilitou o Proálcool, acreditou no biodiesel e levou o país à liderança mundial de combustíveis renováveis [maior programa de energia alternativa ao petróleo do planeta].
Lula, que não entende de política, mudou os paradigmas mundiais e colocou o Brasil na liderança dos países emergentes, passou a ser respeitado e enterrou o G-8 [criou o G-20].
Lula, que não entende de política externa nem de conciliação, pois foi sindicalista brucutu; mandou às favas a ALCA, olhou para os parceiros do sul, especialmente para os vizinhos da América Latina, onde exerce liderança absoluta sem ser imperialista. Tem fácil trânsito junto a Chaves, Fidel, Obama, Evo etc. Bobo que é, cedeu a tudo e a todos.
 Lula, que não entende de mulher nem de negro, colocou o primeiro negro no Supremo (desmoralizado por brancos) uma mulher no cargo de primeira ministra, e que pode inclusive, fazê-la sua sucessora.
Lula, que não  entende de etiqueta, sentou ao lado da rainha (a convite dela) e afrontou nossa fidalguia branca de lentes azuis. 
Lula, que não entende de desenvolvimento, nunca ouviu falar de Keynes, criou o PAC; antes mesmo que o mundo inteiro dissesse que é hora de o Estado investir; e hoje o PAC é um amortecedor da crise.
Lula, que não  entende de crise, mandou baixar o IPI e levou a indústria  automobilística a bater recorde no trimestre [como também na linha branca de eletrodomésticos]. 
Lula, que não entende de português nem de outra língua, tem fluência entre os líderes mundiais; é respeitado e citado entre as pessoas mais poderosas e influentes no mundo atual [o melhor do mundo para o Le Monde, Times, News Week, Financial Times e outros...].
Lula, que não  entende de respeito a seus pares, pois é um brucutu, já tinha empatia e relação direta com George Bush - notada até pela imprensa americana - e agora tem a mesma empatia com Barack Obama.
Lula, que não entende nada de sindicato, pois era apenas um agitador; é amigo do tal John Sweeny [presidente da AFL-CIO - American Federation Labor-Central Industrial Congres - a central de trabalhadores dos Estados Unidos, que lá sim, é única...] e entra na Casa Branca com credencial de negociador e fala direto com o Tio Sam lá, nos "States".
Lula, que não entende de geografia, pois não sabe interpretar um mapa; é ator da [maior] mudança geopolítica das Américas [na história]. 
Lula, que não entende nada de diplomacia internacional, pois nunca estará preparado, age com sabedoria em todas as frentes e se torna interlocutor universal.
Lula, que não entende nada de história, pois é apenas um locutor de bravatas; faz história e será lembrado por um grande legado, dentro e fora do Brasil. 
Lula, que não entende nada de conflitos armados nem de guerra, pois é um pacifista ingênuo, já é cotado pelos palestinos para dialogar com Israel.
Lula, que não entende nada de nada;  é bem melhor que todos os outros.

* Economista e professor de economia da UFRJ

segunda-feira, fevereiro 08, 2010

O fim do tamanho único

O jornalista e escritor estadunidense Chris Anderson afirma, no livro A Cauda Longa, que “a era do tamanho único está chegando ao fim e em seu lugar está surgindo algo novo, o mercado de variedades”. Basta lembrar que, em 1960, o carro mais procurado nos Estados Unidos, o sedã Impala, da Chevrolet, vendia mais de um milhão, ou 13% de uma indústria que não oferecia mais do que 40 tipos diferentes de automóveis. Hoje, em um mercado dez vezes maior, há mais de 250 modelos de carro disponíveis — se adicionadas as variantes para cada um dos tipos, esse número sobe para mil. Mas menos de dez deles conseguem ultrapassar 400 mil unidades vendidas anualmente, ou 0,5% do mercado.
A internet intensifica essa tendência. Se antes era difícil trabalhar com um mercado de nicho, devido ao número restrito de consumidores, com a web o público-alvo passou a estar em qualquer lugar do planeta. Mesmo que a ideia surja em uma cidade perdida no interior do Brasil, terá chance de vingar e fazer muito sucesso. “O mundo hoje é ocupado por seis bilhões de indivíduos que não precisam mais seguir o rebanho para ser ouvidos. Por mais excêntricas que sejam suas escolhas, existem 100 mil pessoas que compartilham seu gosto por iaque tibetano no espeto”, escreve Mark Penn no livro Microtendências, para concluir: “O enfoque único e padronizado está ultrapassado”.

Guerrilha na sacola

Apesar da minha intolerância quase fundamentalista a publicidade de bebida alcoólica, tenho que tirar o chapéu para a agência búlgara da cervejaria Carlsberg, que criou uma campanha de marketing de guerrilha tão simples quanto consistente. Em diversas sacolas distribuídas por mercados no país, a empresa imprimiu uma imagem em três dimensões de uma caixa da cerveja Shumensko. A ilusão permite associar que a pessoa está carregando uma caixa de cerveja com facilidade e, assim, transformou os pedestres em cartazes que perambulam pelas mais diferentes regiões do país. O anúncio foi criado pela agência publicitária Noble Graphics Creative Studio, sediada em Sofia, na Bulgária, e é exemplode guerrilha, que são as estratégias normalmente utilizadas por pequenas empresas e que envolvem uma campanha publicitária eficiente e consideravelmente mais barata. A mobilidade é uma das características deste tipo de campanha, normalmente não utilizada por grandes empresasA Carlsberg é uma cervejaria dinamarquesa fundada em 1847, com matriz em Copenhagen, na Dinamarca. Ela é presente em diversos países da Europa e do mundo, inclusive no Brasil, onde licencia para a AmBev a marca Skol. É, hoje, a quarta maior cervejaria do mundo.

O papel do slogan na campanha eleitoral

O slogan ainda é um item fundamental em qualquer campanha eleitoral, principalmente as candidaturas proporcionais, que têm a difícil tarefa de se diferenciar de centenas de concorrentes. Um bom slogan deve ser capaz de sintetizar a candidatura e a imagem do candidato em quatro ou cinco palavras fortes.
“A repetição exaustiva de quatro ou cinco palavras ‘quentes’, como por exemplo um adjetivo forte, em tudo que estiver relacionado ao candidato – discursos ou malas-diretas -, levam o eleitor a, inconscientemente, identificá-lo com elas… O slogan deve conter o contraste que favoreça o candidato” , afirma Rick Ridder, consultor do Partido Democrata dos Estados Unidos.
Vejamos a campanha de Barack Obama. Com o óbvio e pouco criativo “Yes, we can” (Sim, nós podemos), conseguiu traduzir o espírito de transformação que a sociedade americana desejava após oito anos de Bush, injetando auto-confiança em uma sociedade que padecia de queda da auto-estima com a perda de poder da outrora super-potência absoluta do planeta. O “change” (mudança) é ainda mais óbvio, mas abria-se uma avenida de significados quando acompanhava as principais peças publicitárias da campanha e reforçava a latente rejeição ao continuísmo representado pela candidatura de McCain. O mesmo slogan ("mudança") foi a peça de resistência da campanha de Ana Júlia Carepa ao governo do Pará em 2006, servindo de escada para a superação de 12 anos consecutivos de hegemonia tucana no estado.
O slogan é peça chave no “mix de marketing político” e deve ser condizente com a estratégia da campanha. Por exemplo, se um candidato a deputado estadual segmenta a sua candidatura geograficamente e escolhe uma cidade como seu principal reduto eleitoral, evidentemente que o seu slogan deve fazer referência a esta estratégia ou às demandadas dessa cidade. Se for uma região, a mesma coisa. Se for uma categoria profissional, idem.
Além disso, o slogan serve para classificar rapidamente a identidade de um candidato. Imaginemos um eleitor, vendo uma faixa de campanha de um deputado estadual com o seguinte slogan: Em defesa da Amazônia. Obviamente, o eleitor que não conhecia tal candidato, passará agora – no mínimo – a identificar a síntese da campanha, que estrategicamente tem a defesa da região e do meio ambiente como seu principal foco.
É necessário entender a cabeça do eleitor e o excesso de informações a que ele está exposto. Uma campanha eleitoral envolve centenas de candidaturas, com milhares de peças de propaganda, nos mais variados meios. E toda e qualquer peça publicitária de sua campanha deve ter o objetivo de identificar e gravar o nome e o número do candidato na cabeça do eleitor, fazendo prevalecer a sua mensagem, cuja síntese é o slogan.

domingo, fevereiro 07, 2010

Frase

"El huevo es una forma perfecta, aunque esté hecho com el culo". Bruno Munari.