sexta-feira, abril 29, 2011
terça-feira, abril 26, 2011
Publicidade: onde foi parar a isonomia?
O escopo legal é claro. Licitação é o procedimento formal em que a Administração Pública convoca, mediante condições estabelecidas em ato próprio (edital ou convite), empresas interessadas na apresentação de propostas para o oferecimento de bens e serviços.
Quando chama uma licitação, o ente público objetiva garantir a observância do princípio constitucional da isonomia - igualdade de condições entre os interessados - e a selecionar a proposta mais vantajosa para a Administração, de maneira a assegurar oportunidade igual a todos os interessados e possibilitar o comparecimento ao certame ao maior número possível de concorrentes.
Agora pesquise na internet ou pegue uma revista semanal que esteja à mão. Procure por anúncios do Banco do Brasil. Na minha frente, um anúncio não assinado por nenhuma agência e publicado em revista de circulação nacional mostra uma foto de banco de imagem, onde uma jovem toca a água de um riacho. A foto ocupa 100% da área útil de duas páginas. O título, uma obviedade escrita de maneira tosca - como que apenas obedecendo a um briefing burocrático - utiliza a fonte Helvética ou uma genérica da família, como Arial. Nada especial. Nada comprado por 250 dólares na FontHaus. Olhando com atenção não vemos nada nesse anúncio que indique que, para fazê-lo, seja necessário recrutar gênios ou investir milhões de reais em estrutura física, equipamentos ou mesmo na compra de sofisticados softwares que não possam ser adquiridos pela internet em 12 vezes sem juros no cartão de crédito. Um redator mediano bem orientado, conectado à internet em um laptop barato com um programa gráfico qualquer, faria esse anúncio em, digamos, 15 minutos. Na minha agência para fazer algo tão trivial se alguém levar muito mais que isso (15 minutos) será advertido.
Se é assim, o que explica, então, que órgãos do governo federal exijam que, para atender sua conta, a agência precise ser, previamente, milionária? O que explica que se utilizem de critérios puramente financeiros para limitar a disputa em licitações que são, em tese, de melhor técnica e menor preço?
Pense comigo: se o critério é melhor técnica e menor preço, o que impede de atender contas do governo federal agências que, apresentando a melhor técnica e o menor preço, tenham uma conta bancária ou um balanço contábil menor que o das gigantes da publicidade no Brasil?
As maiores agências que atuam no Brasil são, via de regra, multinacionais que operam aqui em um arranjo negocial similar ao usado pelo sistema de franquia ou são empresas que já atuam em contas públicas a tanto tempo que se sentem parte da máquina, operando com sede fixa em Brasília desde o tempo em que só os candangos, JK e Lúcio Costa andavam por lá. É óbvio que as multinacionais - ou aquelas que agenciam o governo federal desde os primórdios de Brasília - têm um balanço financeiro maior, aditivado por recursos milionários advindos justamente do atendimento longevo de contas públicas ou do alinhamento internacional de contas, que abstrai méritos como técnica e preço, usando o critério de assimilação de contas pela franquia de marcas associadas aos grandes grupos publicitários que atuam globalmente. Veja bem: é um círculo vicioso. Os mais ricos ficam mais ricos. Os mais pobres permanecem pobres. Essa pirâmide é, sem dúvida, estimulada pela ausência de objetividade na seleção das agências que atendem o governo federal desde sempre. Do que adianta haver envelopes não identificados para a idéia criativa quando o sistema de corte já é discriminatório?
O edital do Banco do Brasil para contratação de três agências é um exemplo de como usar critérios puramente financeiros e contábeis - conta bancária e capital acumulado - para deixar na disputa apenas as gigantes do mercado, alijando do processo 95% das agências brasileiras.
A verba do Banco do Brasil é de expressivos R$ 420 milhões por ano, maior que o orçamento anual de muitas prefeituras. Para participar do certame não basta ter o certificado do Cenp - órgão que regula e autoriza o funcionamento das agências no Brasil - ou estar filiado ao Sindicato da categoria ou mesmo à ABAP - Associação Brasileira de Agências de Publicidade. Não basta ainda ter clientes e apresentar bom portifólio ou mesmo ter a melhor idéia criativa e o mais pertinente plano de comunicação ou de mídia. Para poder disputar a licitação do Banco do Brasil com chances de vencer é preciso apresentar uma "garantia contratual" equivalente a 1%, ou seja, R$ 4 milhões e apresentar, previamente, uma estrutura de atendimento em Brasília com 15 profissionais, comprometendo-se a montar uma central de mídia com mais 8 funcionários, quando a função de bureau de mídia não consta do contrato social de agências de publicidade no Brasil e o exercício dessa prática é combatido pela ABAP. Para finalizar o rol de exigências, a agência que pretenda atender ao Banco do Brasil deve apresentar patrimônio líquido no balanço equivalente a R$ 4,2 milhões e possuir clientes que rendam verba anual de 50 milhões. Quantas agências no Brasil podem atender a esse conjunto esdrúxulo de exigências?
Não é preciso ser doutor em Direito ou membro do Ministério Público para perceber o notório dirigismo desse edital. Não é um edital, é um "é de tal". Ele tem endereço, cep e nome do destinatário, já que a absoluta maioria das agências brasileiras atende a todas as condições técnicas para responder pela conta do Banco do Brasil mas não atende às "exigências contábeis" só respondidas por meia dúzia de agências do mercado.
Conclusão: o edital foi montado visando inviabilizar a isonomia, impedindo a igualdade de condições entre as agências de diferentes portes na disputa do que é fundamental: técnica e preço.
Alguém pode argumentar que uma conta de R$ 450 milhões não pode ser entregue a uma pequena agência regional. Por que não? Não se trata de um certame de "técnica e preço"? Se eu domino a técnica - o que pode ser comprovado com o repertório de peças, o atestado de clientes e de veículos e o certificado emitido pelo Cenp - e tenho o menor preço, por que não posso atender a uma conta que não exige mais do que um grupo de profissionais reunidos em uma estrutura com computadores, softwares específicos e conexão rápida de internet? Aliás, a própria exigência de quantitativo de profissionais (23, ao todo) é questionável, porque eu posso, como gestor, organizar com 12 profissionais o que outra empresa e outro gestor menos experiente ou baseado em outra matriz gerencial precisaria mobilizar 23 ou 30 pessoas. Agência de publicidade não é uma soma fria de contingente profissional mas uma organização dinâmica a partir da necessidade de cumprir a tarefa com a melhor técnica disponível pelo menor preço possível. O exército dos Estados Unidos tinha mais soldados, mais tecnologia e mais armas e equipamentos que os vietnamitas e perdeu a guerra para a melhor técnica dos vietcongs. Técnica e preço também envolve gestão e capacidade de produzir mais com menor investimento, desde que isso se dê sem prejuízo da qualidade na prestação de serviço. Aliás, para construir uma hidrelétrica, por exemplo, o número de operários não aparece no edital. Não se faz essa exigência. A forma de organizar o trabalho depende da capacidade da empreiteira de entregar a obra com a melhor técnica pelo menor preço. Por que então definir num edital de publicidade o quantitativo de profissionais? Aqui, mais um indício de dirigismo no certame.
Nos Estados Unidos, que têm um investimento publicitário anual de US$ 184 bilhões, as 20 maiores agências concentram apenas 15% do total. O bolo publicitário no Brasil é menor, mas está longe de ser desprezível: US$ 6 bilhões. Contudo, as 20 maiores agências detêm 60% desse montante. Das 1.800 agências existentes no Brasil, 1.318 têm pouco mais de meio por cento da receita. O governo federal, que tem muitas contas tão expressivas como a do Banco do Brasil usada aqui como exemplo, poderia usar sua lógica de cotas para estimular a geração de emprego no setor a partir do estabelecimento de critérios verdadeiramente isonômicos, permitindo que mais empresas possam prestar o mesmo serviço ao governo.
Vendo a propaganda do Banco do Brasil na TV, na mídia impressa e na web não posso deixar de pensar "eu faria melhor". Mas não apenas eu. Centenas de agências de todo porte poderiam fazer melhor. E mais barato. Se o critério fosse verdadeiramente pautado em técnica e preço. Mas não é.
Até quando?
Quando chama uma licitação, o ente público objetiva garantir a observância do princípio constitucional da isonomia - igualdade de condições entre os interessados - e a selecionar a proposta mais vantajosa para a Administração, de maneira a assegurar oportunidade igual a todos os interessados e possibilitar o comparecimento ao certame ao maior número possível de concorrentes.
Agora pesquise na internet ou pegue uma revista semanal que esteja à mão. Procure por anúncios do Banco do Brasil. Na minha frente, um anúncio não assinado por nenhuma agência e publicado em revista de circulação nacional mostra uma foto de banco de imagem, onde uma jovem toca a água de um riacho. A foto ocupa 100% da área útil de duas páginas. O título, uma obviedade escrita de maneira tosca - como que apenas obedecendo a um briefing burocrático - utiliza a fonte Helvética ou uma genérica da família, como Arial. Nada especial. Nada comprado por 250 dólares na FontHaus. Olhando com atenção não vemos nada nesse anúncio que indique que, para fazê-lo, seja necessário recrutar gênios ou investir milhões de reais em estrutura física, equipamentos ou mesmo na compra de sofisticados softwares que não possam ser adquiridos pela internet em 12 vezes sem juros no cartão de crédito. Um redator mediano bem orientado, conectado à internet em um laptop barato com um programa gráfico qualquer, faria esse anúncio em, digamos, 15 minutos. Na minha agência para fazer algo tão trivial se alguém levar muito mais que isso (15 minutos) será advertido.
Se é assim, o que explica, então, que órgãos do governo federal exijam que, para atender sua conta, a agência precise ser, previamente, milionária? O que explica que se utilizem de critérios puramente financeiros para limitar a disputa em licitações que são, em tese, de melhor técnica e menor preço?
Pense comigo: se o critério é melhor técnica e menor preço, o que impede de atender contas do governo federal agências que, apresentando a melhor técnica e o menor preço, tenham uma conta bancária ou um balanço contábil menor que o das gigantes da publicidade no Brasil?
As maiores agências que atuam no Brasil são, via de regra, multinacionais que operam aqui em um arranjo negocial similar ao usado pelo sistema de franquia ou são empresas que já atuam em contas públicas a tanto tempo que se sentem parte da máquina, operando com sede fixa em Brasília desde o tempo em que só os candangos, JK e Lúcio Costa andavam por lá. É óbvio que as multinacionais - ou aquelas que agenciam o governo federal desde os primórdios de Brasília - têm um balanço financeiro maior, aditivado por recursos milionários advindos justamente do atendimento longevo de contas públicas ou do alinhamento internacional de contas, que abstrai méritos como técnica e preço, usando o critério de assimilação de contas pela franquia de marcas associadas aos grandes grupos publicitários que atuam globalmente. Veja bem: é um círculo vicioso. Os mais ricos ficam mais ricos. Os mais pobres permanecem pobres. Essa pirâmide é, sem dúvida, estimulada pela ausência de objetividade na seleção das agências que atendem o governo federal desde sempre. Do que adianta haver envelopes não identificados para a idéia criativa quando o sistema de corte já é discriminatório?
O edital do Banco do Brasil para contratação de três agências é um exemplo de como usar critérios puramente financeiros e contábeis - conta bancária e capital acumulado - para deixar na disputa apenas as gigantes do mercado, alijando do processo 95% das agências brasileiras.
A verba do Banco do Brasil é de expressivos R$ 420 milhões por ano, maior que o orçamento anual de muitas prefeituras. Para participar do certame não basta ter o certificado do Cenp - órgão que regula e autoriza o funcionamento das agências no Brasil - ou estar filiado ao Sindicato da categoria ou mesmo à ABAP - Associação Brasileira de Agências de Publicidade. Não basta ainda ter clientes e apresentar bom portifólio ou mesmo ter a melhor idéia criativa e o mais pertinente plano de comunicação ou de mídia. Para poder disputar a licitação do Banco do Brasil com chances de vencer é preciso apresentar uma "garantia contratual" equivalente a 1%, ou seja, R$ 4 milhões e apresentar, previamente, uma estrutura de atendimento em Brasília com 15 profissionais, comprometendo-se a montar uma central de mídia com mais 8 funcionários, quando a função de bureau de mídia não consta do contrato social de agências de publicidade no Brasil e o exercício dessa prática é combatido pela ABAP. Para finalizar o rol de exigências, a agência que pretenda atender ao Banco do Brasil deve apresentar patrimônio líquido no balanço equivalente a R$ 4,2 milhões e possuir clientes que rendam verba anual de 50 milhões. Quantas agências no Brasil podem atender a esse conjunto esdrúxulo de exigências?
Não é preciso ser doutor em Direito ou membro do Ministério Público para perceber o notório dirigismo desse edital. Não é um edital, é um "é de tal". Ele tem endereço, cep e nome do destinatário, já que a absoluta maioria das agências brasileiras atende a todas as condições técnicas para responder pela conta do Banco do Brasil mas não atende às "exigências contábeis" só respondidas por meia dúzia de agências do mercado.
Conclusão: o edital foi montado visando inviabilizar a isonomia, impedindo a igualdade de condições entre as agências de diferentes portes na disputa do que é fundamental: técnica e preço.
Alguém pode argumentar que uma conta de R$ 450 milhões não pode ser entregue a uma pequena agência regional. Por que não? Não se trata de um certame de "técnica e preço"? Se eu domino a técnica - o que pode ser comprovado com o repertório de peças, o atestado de clientes e de veículos e o certificado emitido pelo Cenp - e tenho o menor preço, por que não posso atender a uma conta que não exige mais do que um grupo de profissionais reunidos em uma estrutura com computadores, softwares específicos e conexão rápida de internet? Aliás, a própria exigência de quantitativo de profissionais (23, ao todo) é questionável, porque eu posso, como gestor, organizar com 12 profissionais o que outra empresa e outro gestor menos experiente ou baseado em outra matriz gerencial precisaria mobilizar 23 ou 30 pessoas. Agência de publicidade não é uma soma fria de contingente profissional mas uma organização dinâmica a partir da necessidade de cumprir a tarefa com a melhor técnica disponível pelo menor preço possível. O exército dos Estados Unidos tinha mais soldados, mais tecnologia e mais armas e equipamentos que os vietnamitas e perdeu a guerra para a melhor técnica dos vietcongs. Técnica e preço também envolve gestão e capacidade de produzir mais com menor investimento, desde que isso se dê sem prejuízo da qualidade na prestação de serviço. Aliás, para construir uma hidrelétrica, por exemplo, o número de operários não aparece no edital. Não se faz essa exigência. A forma de organizar o trabalho depende da capacidade da empreiteira de entregar a obra com a melhor técnica pelo menor preço. Por que então definir num edital de publicidade o quantitativo de profissionais? Aqui, mais um indício de dirigismo no certame.
Nos Estados Unidos, que têm um investimento publicitário anual de US$ 184 bilhões, as 20 maiores agências concentram apenas 15% do total. O bolo publicitário no Brasil é menor, mas está longe de ser desprezível: US$ 6 bilhões. Contudo, as 20 maiores agências detêm 60% desse montante. Das 1.800 agências existentes no Brasil, 1.318 têm pouco mais de meio por cento da receita. O governo federal, que tem muitas contas tão expressivas como a do Banco do Brasil usada aqui como exemplo, poderia usar sua lógica de cotas para estimular a geração de emprego no setor a partir do estabelecimento de critérios verdadeiramente isonômicos, permitindo que mais empresas possam prestar o mesmo serviço ao governo.
Vendo a propaganda do Banco do Brasil na TV, na mídia impressa e na web não posso deixar de pensar "eu faria melhor". Mas não apenas eu. Centenas de agências de todo porte poderiam fazer melhor. E mais barato. Se o critério fosse verdadeiramente pautado em técnica e preço. Mas não é.
Até quando?
segunda-feira, abril 25, 2011
Príncipe? Súditos? Plebéia? Afinal, em que século estamos?
Faz sentido, em pleno 2011, um regime que não privilegia mérito, talento, adesão política ou inteligência e sim herança genética?
A monarquia britânica - que paira acima do estado e das instituições democráticas - é um aleijão político e social, perpetuado às custas da queima de altas somas de dinheiro público para manter o luxo e a exposição de uma família que vive como milionária sem precisar trabalhar.
Essa ebulição da mídia em torno do casamento do príncipe William com sua amiga de faculdade Kate Middleton - chamada pelos jornais e telejornais, de maneira infame, de "plebéia" - é um patético espetáculo circense onde os palhaços estão na platéia, assistindo a perpetuação de uma estrutura anti-democrática sustentada num ideal romântico doentio, em nome de um equilíbrio de poder imaginário que, na verdade, começou a enfraquecer por volta do ano 1200.
A saúde política - ética e social - do ocidente no século XXI não pode conviver sem dor com esse parasitário e sombrio eco medieval que deveria incomodar a todos.
A monarquia britânica - que paira acima do estado e das instituições democráticas - é um aleijão político e social, perpetuado às custas da queima de altas somas de dinheiro público para manter o luxo e a exposição de uma família que vive como milionária sem precisar trabalhar.
Essa ebulição da mídia em torno do casamento do príncipe William com sua amiga de faculdade Kate Middleton - chamada pelos jornais e telejornais, de maneira infame, de "plebéia" - é um patético espetáculo circense onde os palhaços estão na platéia, assistindo a perpetuação de uma estrutura anti-democrática sustentada num ideal romântico doentio, em nome de um equilíbrio de poder imaginário que, na verdade, começou a enfraquecer por volta do ano 1200.
A saúde política - ética e social - do ocidente no século XXI não pode conviver sem dor com esse parasitário e sombrio eco medieval que deveria incomodar a todos.
quinta-feira, abril 21, 2011
segunda-feira, abril 18, 2011
Copa do Mundo: "Dá pra sentir o cheiro daqui"
Sou um torcedor de futebol esporádico mas já fui um desses que saem aos domingos para os estádios; que sofrem, se alegram e torcem por seu clube com fervor quase religioso. Até joguei por curto período no infantil de um dos grandes clubes locais e integrei a seleção de futebol de salão da escola onde conclui o ensino médio. Não sou, portanto, um leigo total no tema.
Me interesso, como todos os nascidos neste país, pelo destino da seleção canarinho; sofro com os pernas de pau que têm nos representado e até desejo boa sorte ao nosso escrete, mas tenho certeza (porque acompanho as partidas do campeonado europeu na tv) que precisaríamos de onze nilmares e onze gansos - é isso mesmo: vinte e dois craques em campo - para ter alguma chance de vencer uma copa contra a competência tática, o vigor físico e o talento em ascensão exibidos pelo futebol europeu.
Como apreciador da arte, tenho acompanhado as artimanhas dos cartolas internacionais em relação a Copa de 2014 com interesse redobrado. E me divirto com o seguidismo da imprensa de plantão ao discurso interesseiro da FIFA e da CBF.
Há algumas semanas o secretário-geral da FIFA, Jérôme Valcke, deu um piti público cobrando o governo brasileiro para que acelerasse as construções para a Copa. O governo brasileiro respondeu com um cronograma azeitado, afirmando que se não houver um terremoto como o do Japão por aqui as obras estarão concluídas quando elas precisam estar concluídas: em 2014. Isso não evitou muita gritaria na imprensa que nunca questiona nada a respeito de nada. Me diverte o fato de ninguém nas redações achar no mínimo estranho que um governo - não este governo, mas qualquer governo - pudesse se auto-sabotar de maneira tão imbecil, recusando-se a fazer as obras necessárias para garantir o certame mundial de futebol, evento de maior visibilidade global e cujo fracasso em um país como o nosso resultaria na desgraça eterna de governantes e partidos que por ventura cometessem tal heresia. O Brasil é um país de amantes do futebol, mas não só isso. É um dos países com maior taxa de desenvolvimento sustentável no mundo - melhor que Índia e China, que crescem sem reduzir a pobreza - e tem, por certo, recursos para tocar as obras necessárias.
A crítica da FIFA seria por alguma divergência com a CBF? Nada. A imprensa especializada noticiou fartamente que Valcke e Ricardo Teixeira tinham tirado férias juntos e que estavam "de bem". Então, o que estaria por trás dessa gritaria pública? É simples pressão da FIFA para que o governo brasileiro coloque mais dinheiro público nas mãos da CBF e das empreiteiras. Não sei se vocês sabem, mas mundialmente as empreiteiras têm envolvimento com, digamos, pressões multidirecionais por dinheiro público, cujo fluxo garante a lucratividade generosa desse ramo de negócio. Corrupção não é, como a jaboticabeira, um fenômeno brasileiro, ao contrário do que tentam nos ensinar a todos, buscando com isso macular a auto-estima nacional.
As razões do piti recente dos cartolas mundiais são as mesmas que explicam a escolha de cidades brasileiras sem nenhuma infraestrutura futebolística ou tradição de futebol, como Manaus-AM, para sediar jogos da Copa. Esse fim de mundo exige mais investimentos em infra-estrutura para garantir a realização do evento e, por ser mais distante e só poder ser acessada por avião, exige que mais dinheiro circule para garantir que os torcedores lá cheguem e se instalem. Belém, metrópole da floresta e porta de entrada da Amazônia, que tem acesso rodoviário e um estádio olímpico pronto, não precisaria construir um novo aeroporto ou um estádio do zero para garantir os jogos da Copa, mas apenas fazer pequenos ajustes no entorno do estádio e uma ampliação parcial no aeroporto, reduzindo assim o volume de recursos investidos, o envolvimento de empreiteiras e, portanto, o lucro da operação toda. Agora você entendeu. Não é de futebol que se trata, mas de capitalismo selvagem, de exacerbação dos lucros.
A percepção inicial dessa jogatina foi de Andrew Jennings, único jornalista a ser banido das coletivas de imprensa promovidas pela FIFA. Inglês, nascido, portanto, no país onde o futebol surgiu, o jornalista já escreveu dois livros sobre as sujeiras da Comitê Olímpico Internacional (COI) e um nessa mesma vibe sobre a Federação Internacional de Futebol Association. É dele a instigante e elucidativa frase: "Copa do Mundo? FIFA? Empreiteiras? Dá para sentir o cheiro daqui".
Me interesso, como todos os nascidos neste país, pelo destino da seleção canarinho; sofro com os pernas de pau que têm nos representado e até desejo boa sorte ao nosso escrete, mas tenho certeza (porque acompanho as partidas do campeonado europeu na tv) que precisaríamos de onze nilmares e onze gansos - é isso mesmo: vinte e dois craques em campo - para ter alguma chance de vencer uma copa contra a competência tática, o vigor físico e o talento em ascensão exibidos pelo futebol europeu.
Como apreciador da arte, tenho acompanhado as artimanhas dos cartolas internacionais em relação a Copa de 2014 com interesse redobrado. E me divirto com o seguidismo da imprensa de plantão ao discurso interesseiro da FIFA e da CBF.
Há algumas semanas o secretário-geral da FIFA, Jérôme Valcke, deu um piti público cobrando o governo brasileiro para que acelerasse as construções para a Copa. O governo brasileiro respondeu com um cronograma azeitado, afirmando que se não houver um terremoto como o do Japão por aqui as obras estarão concluídas quando elas precisam estar concluídas: em 2014. Isso não evitou muita gritaria na imprensa que nunca questiona nada a respeito de nada. Me diverte o fato de ninguém nas redações achar no mínimo estranho que um governo - não este governo, mas qualquer governo - pudesse se auto-sabotar de maneira tão imbecil, recusando-se a fazer as obras necessárias para garantir o certame mundial de futebol, evento de maior visibilidade global e cujo fracasso em um país como o nosso resultaria na desgraça eterna de governantes e partidos que por ventura cometessem tal heresia. O Brasil é um país de amantes do futebol, mas não só isso. É um dos países com maior taxa de desenvolvimento sustentável no mundo - melhor que Índia e China, que crescem sem reduzir a pobreza - e tem, por certo, recursos para tocar as obras necessárias.
A crítica da FIFA seria por alguma divergência com a CBF? Nada. A imprensa especializada noticiou fartamente que Valcke e Ricardo Teixeira tinham tirado férias juntos e que estavam "de bem". Então, o que estaria por trás dessa gritaria pública? É simples pressão da FIFA para que o governo brasileiro coloque mais dinheiro público nas mãos da CBF e das empreiteiras. Não sei se vocês sabem, mas mundialmente as empreiteiras têm envolvimento com, digamos, pressões multidirecionais por dinheiro público, cujo fluxo garante a lucratividade generosa desse ramo de negócio. Corrupção não é, como a jaboticabeira, um fenômeno brasileiro, ao contrário do que tentam nos ensinar a todos, buscando com isso macular a auto-estima nacional.
As razões do piti recente dos cartolas mundiais são as mesmas que explicam a escolha de cidades brasileiras sem nenhuma infraestrutura futebolística ou tradição de futebol, como Manaus-AM, para sediar jogos da Copa. Esse fim de mundo exige mais investimentos em infra-estrutura para garantir a realização do evento e, por ser mais distante e só poder ser acessada por avião, exige que mais dinheiro circule para garantir que os torcedores lá cheguem e se instalem. Belém, metrópole da floresta e porta de entrada da Amazônia, que tem acesso rodoviário e um estádio olímpico pronto, não precisaria construir um novo aeroporto ou um estádio do zero para garantir os jogos da Copa, mas apenas fazer pequenos ajustes no entorno do estádio e uma ampliação parcial no aeroporto, reduzindo assim o volume de recursos investidos, o envolvimento de empreiteiras e, portanto, o lucro da operação toda. Agora você entendeu. Não é de futebol que se trata, mas de capitalismo selvagem, de exacerbação dos lucros.
A percepção inicial dessa jogatina foi de Andrew Jennings, único jornalista a ser banido das coletivas de imprensa promovidas pela FIFA. Inglês, nascido, portanto, no país onde o futebol surgiu, o jornalista já escreveu dois livros sobre as sujeiras da Comitê Olímpico Internacional (COI) e um nessa mesma vibe sobre a Federação Internacional de Futebol Association. É dele a instigante e elucidativa frase: "Copa do Mundo? FIFA? Empreiteiras? Dá para sentir o cheiro daqui".
sexta-feira, abril 15, 2011
O mito, a imprensa e a insanidade
O mito é um relato, uma descrição sempre fabulosa, do que se supõe ter acontecido no passado impreciso. Trata-se, sobretudo, de uma narrativa, um modo, segundo Platão, de expressar verdades que escapam ao raciocínio. Uma fundamentação do mundo e das coisas do mundo, no qual se aponta uma origem. Esta origem pode ser tanto de algo particular quanto do próprio cosmos. Tem por agentes, divindades. Assim, o mito situa a divindade no Mundo. Graças à ação divina, tem-se o mundo e, através dela, todas as coisas que nele existem. Desse modo, explica-se a existência dos fenômenos naturais, dos seres vivos, das sociedades humanas. Tudo está contido nessa fabulação. Os povos antigos se valiam do mito como explicação primeira do próprio cosmos. O mito do herói é, grande medida, a base de grande parte das narrativas morais desde a Grécia antiga e, hoje, da narrativa publicizada pela imprensa.
Na mitologia grega os heróis ou semideuses eram personagens posicionados no meio do caminho entre os homens e os deuses. Possuíam poderes especiais que dava a eles capacidades que superavam os atributos humanos (força, inteligência, velocidade), mas eram, como os homens, mortais. De acordo com a mitologia clássica, os heróis eram filhos de deuses com seres humanos, a fusão do céu e da terra.
Os heróis de hoje são a pálida sombra dos heróis mitológicos. O conceito de heroísmo atual reflete as areias movediças da história. Baseia-se no mérito e na humanidade, valorizando a vitória sobre o mal, enaltecendo o altruísmo, mas reservando ao humano o que é humano. As divinidades heróicas desapareceram quando deixamos de acreditar nelas, como sugere a canção de Paulinho Moska. Essa curva conceitual se iniciou na Europa. O conceito moderno de herói surgiu ali, na época do Renascimento. A Idade Média anterior não valorizava as realizações humanas ao ponto de qualificá-las como heróicas. Vivendo tolhidos pelo "pecado do homem" instituído pela moral cristã, os escolásticos católicos romanos da Europa medieval enfatizavam a vida após a morte. A grandeza, toda ela, vinha de Deus, não do homem, pelo que os verdadeiros heróis cristãos eram os mártires, os missionários e os padres preparando-se para a salvação. O Renascimento redescobriu os clássicos da literatura grega e romana como Plutarco e Cícero, e alterou esta visão.
Com o advento da mídia de massas, o heroísmo democratizou-se no século 20 e a ênfase foi para os que a história esquece. Os heróis incógnitos de todos os dias passaram a ganhar notoriedade midiática. Acreditou-se que todo ser humano era intrinsecamente heróico. Mas ser um herói numa época em que a instantaneidade dos fatos domina os meios é ainda é mais complexo. A transparência exige infalibilidade. Falhas pessoais podem por vezes lançar sombras sobre as grandes ações aos olhos do público. Poucos estados modernos no Ocidente são sociedades homogêneas, capazes de se congregarem em torno de “heróis nacionais”. Os heróis modernos - como o operário pobre que, por força própria e tenacidade, tornou-se o presidente do Brasil mais bem avaliado de todos os tempos - encontram oposição. Uma cidadania politizada raramente partilha de um padrão unificado de herói.
A grande imprensa é uma fábrica de mitos e heróis. Todos reconhecem isso. O que poucos reconhecem é o tamanho da responsabilidade que isso trás.
As redações estavam em polvorosa naquela manhã de abril. Ali, a história um tanto turba de certo Wellington Menezes de Oliveira – o atirador que matou 12 crianças no ataque a uma escola em Realengo, na Zona Oeste da cidade. Onde havia demência e tragédia, perceberam a matéria-prima suficiente para construir um mito. Tinha a opção de construir o mito do herói que salvou as crianças, o policial militar que enfrentou o assassino; a opção de destacar as vítimas como heróis inocentes da luta contra a violência ou, simplesmente, escolher enaltecer o assassino, expor seu rosto e sua história em todos os telejornais, abrir as capas das revistas, as folhas de frente dos jornais. Três opções - o herói, as vítimas ou o algoz - uma só escolha.
Sabemos hoje que os mitos podem ser tanto os olimpianos quanto aqueles personagens alçados a esta condição de superestrelas da imprensa por sua conduta criminosa, por serem assassinos seriais, por seres prostitutas que se tornaram escritoras de sucesso, por serem engenhosos fugitivos de cadeias ou mesmo anônimos vulgares humanizados pelo Big Brother.
A cena diante da imprensa, que serviria para construir um mito naquela semana de abril de 2011, estava manchada com o sangue de muitos inocentes. Diante da pauta jornalística, a escola carioca invadida por um esquizofrênico que enfrentou seus demônios internos encarnados em modestas crianças uniformizadas. Ele atirou 60 vezes. Conduzido por seus desejos, queria matar 60 vezes. Matou uma dúzia de jovens, especialmente meninas. Feriu mais de uma dezena. Findou seus dias numa escada, perfurado por projéteis como os que vitimaram crianças e virou, nos dias que se sucederiam um mito tão visível que se incorporou ao tecido social, passou a marcá-lo, a manchá-lo, a imprimí-lo com sua face, com suas palavras, com sua voz, com seu perfil cuja história, a certa altura, parece querer justificar seu ato extremo por uma infância de discriminação e por seus pesadelos internos.
No final de semana que se sucedeu ao fato as revistas semanais de maior circulação e alcance trouxeram, todas elas, a foto de Wellington de Oliveira, o assassino de crianças inocentes, estampada na capa. Era a glória de uma mente perturbada, arrancada do anonimato de onde jamais sairia não fosse a covardia de abater quem não podia se defender.
"Um louco é um louco", se diz. Tentar entender, com mente sã, as motivações de um ato insano, é uma empreitada inglória. Podemos entender a origem - fisiológica, psicológica - do distúrbio. Mas não há parâmetro para nós que possa ser medido por alguém que atravessou a fronteira da sanidade. Como entender, então, que pessoas à frente de um órgão de imprensa, compreendendo que a busca de notoriedade está na raiz de atos extremos como os de Wellington, o recompensem com a capa de sua edição de domingo? Como entender que ele tenha recebido, ao preço de vidas de crianças inocentes, a encomenda que buscava? Sim, todos sabemos que a matéria-prima da notícia é o raro, o paradoxo, o imprevisto e o caos, aparente ou verdadeiro. Todos sabem que esta rede de notícias trabalhando sempre em busca da novidade tira do público a capacidade de avaliação e compreensão das informações e, em certa medida, anula a sua capacidade de produzir signos interpretantes necessários para o acompanhamento de todas as notícias. Que os consumidores fiquem hipnotizados diante da imprensa é rotineiro. Mas como entender que a imprensa, ela própria, feita por homens e mulheres, perca a sanidade ao ponto de transformar em herói e mito o assassino frio da escola do Realengo?
Por que a capa dessas revistas não prestou uma homenagem às crianças vitimadas? Por que não enalteceu os educadores que saíram em defesa das crianças? Por que não retratou o sargento Márcio Alves, que enfrentou e, sem saber o poder bélico do contendor, o alvejou, salvando com isso sabe-se lá quantas vidas?
O assassino não tinha uma motivação racional. Não procurava difundir uma causa, não queria libertar reféns, não estava a se vingar de bulling. Ele só queria desesperadamente sair do anonimato e enfrentar as vozes que o impeliam à ação. Os vídeos que deixou gravado em seu computador revelam isso. Quantos outros como ele seguirão esse exemplo?
O jornalista Arbex Jr fala, ao se referir-se à fabricação da notícia, em estratégia de sedução: "um dos desafios enfrentados diariamente pelos estrategistas da mídia consiste, precisamente, na elaboração de estratégias de sedução do telespectador/ leitor, operando em um inevitável espaço de ambigüidade do fato comunicativo. Trata-se de transformar a ambigüidade em seu oposto – o consenso aparente, imposto, fabricado por técnicas de propaganda".
É disso que se trata. A face nua do assassino seduz, vende revistas. Seu olhar vazio denota mistério. Não se trata, então, de fazer o certo, de educar, de exercer a função pedagógica que a mídia democrática deveria ter. Trata-se de contar os trocados. É o cobre em troca de sangue, como se dizia no período medieval.
Wellington, o insano, imolou-se. Vestiu seu uniforme de combate para matar crianças a sangue frio. Ele criou um personagem e o encarnou até o fim. Só a fama e a esquizofrenia - qual a fronteira entre elas? - permitem a criação dessa espécie de personagem permanente. Se o ídolo precisa ter certas características que o distanciam dos simples mortais, se ele precisa ser alguém com habilidades extraordinárias, como enquadrar Wellington na categoria do mito?
Ocorre que vivemos a era da massificação do mito. Um bom exemplo disso são os reality shows, onde as câmeras de TV transformam em celebridades personagens comuns e sem importância, dando relevo às mais simples rotinas diárias, como dormir, comer, escovar os dentes, cantar, abraçar coqueiros ou decorar a casa. O nome Big Brother foi apropriado do romance “1984”, de George Orwell, que retratava um estado totalitário onde cada cidadão era vigiado através um aparelho de TV pelo qual interagia com o grande ditador, que se apresentava como "o Grande Irmão".
Arbex Jr fala da existência de um jogo narcísico nestes processos de identificação dos massa media: "Há uma elevada dose de narcisismo nesses processos de identificação. Mesmo inconscientemente, escolho os aspectos que merecem ser iluminados na composição de tal ou qual personagem, os aspectos que melhor me descrevam para mim mesmo e para os outros de acordo com aquilo que penso a meu respeito. Ou, ao contrário, escolho a figura que deve ser odiada por se opor à minha imagem ideal".
No caso de Realengo, a imprensa, essa fábrica de mitos e de narrativas heróicas, optou por dar ao assassino a fama pela qual ele viveu, matou e morreu.
O preço? A vida e a dor de muitos inocentes.
Na mitologia grega os heróis ou semideuses eram personagens posicionados no meio do caminho entre os homens e os deuses. Possuíam poderes especiais que dava a eles capacidades que superavam os atributos humanos (força, inteligência, velocidade), mas eram, como os homens, mortais. De acordo com a mitologia clássica, os heróis eram filhos de deuses com seres humanos, a fusão do céu e da terra.
Os heróis de hoje são a pálida sombra dos heróis mitológicos. O conceito de heroísmo atual reflete as areias movediças da história. Baseia-se no mérito e na humanidade, valorizando a vitória sobre o mal, enaltecendo o altruísmo, mas reservando ao humano o que é humano. As divinidades heróicas desapareceram quando deixamos de acreditar nelas, como sugere a canção de Paulinho Moska. Essa curva conceitual se iniciou na Europa. O conceito moderno de herói surgiu ali, na época do Renascimento. A Idade Média anterior não valorizava as realizações humanas ao ponto de qualificá-las como heróicas. Vivendo tolhidos pelo "pecado do homem" instituído pela moral cristã, os escolásticos católicos romanos da Europa medieval enfatizavam a vida após a morte. A grandeza, toda ela, vinha de Deus, não do homem, pelo que os verdadeiros heróis cristãos eram os mártires, os missionários e os padres preparando-se para a salvação. O Renascimento redescobriu os clássicos da literatura grega e romana como Plutarco e Cícero, e alterou esta visão.
Com o advento da mídia de massas, o heroísmo democratizou-se no século 20 e a ênfase foi para os que a história esquece. Os heróis incógnitos de todos os dias passaram a ganhar notoriedade midiática. Acreditou-se que todo ser humano era intrinsecamente heróico. Mas ser um herói numa época em que a instantaneidade dos fatos domina os meios é ainda é mais complexo. A transparência exige infalibilidade. Falhas pessoais podem por vezes lançar sombras sobre as grandes ações aos olhos do público. Poucos estados modernos no Ocidente são sociedades homogêneas, capazes de se congregarem em torno de “heróis nacionais”. Os heróis modernos - como o operário pobre que, por força própria e tenacidade, tornou-se o presidente do Brasil mais bem avaliado de todos os tempos - encontram oposição. Uma cidadania politizada raramente partilha de um padrão unificado de herói.
A grande imprensa é uma fábrica de mitos e heróis. Todos reconhecem isso. O que poucos reconhecem é o tamanho da responsabilidade que isso trás.
As redações estavam em polvorosa naquela manhã de abril. Ali, a história um tanto turba de certo Wellington Menezes de Oliveira – o atirador que matou 12 crianças no ataque a uma escola em Realengo, na Zona Oeste da cidade. Onde havia demência e tragédia, perceberam a matéria-prima suficiente para construir um mito. Tinha a opção de construir o mito do herói que salvou as crianças, o policial militar que enfrentou o assassino; a opção de destacar as vítimas como heróis inocentes da luta contra a violência ou, simplesmente, escolher enaltecer o assassino, expor seu rosto e sua história em todos os telejornais, abrir as capas das revistas, as folhas de frente dos jornais. Três opções - o herói, as vítimas ou o algoz - uma só escolha.
Sabemos hoje que os mitos podem ser tanto os olimpianos quanto aqueles personagens alçados a esta condição de superestrelas da imprensa por sua conduta criminosa, por serem assassinos seriais, por seres prostitutas que se tornaram escritoras de sucesso, por serem engenhosos fugitivos de cadeias ou mesmo anônimos vulgares humanizados pelo Big Brother.
A cena diante da imprensa, que serviria para construir um mito naquela semana de abril de 2011, estava manchada com o sangue de muitos inocentes. Diante da pauta jornalística, a escola carioca invadida por um esquizofrênico que enfrentou seus demônios internos encarnados em modestas crianças uniformizadas. Ele atirou 60 vezes. Conduzido por seus desejos, queria matar 60 vezes. Matou uma dúzia de jovens, especialmente meninas. Feriu mais de uma dezena. Findou seus dias numa escada, perfurado por projéteis como os que vitimaram crianças e virou, nos dias que se sucederiam um mito tão visível que se incorporou ao tecido social, passou a marcá-lo, a manchá-lo, a imprimí-lo com sua face, com suas palavras, com sua voz, com seu perfil cuja história, a certa altura, parece querer justificar seu ato extremo por uma infância de discriminação e por seus pesadelos internos.
No final de semana que se sucedeu ao fato as revistas semanais de maior circulação e alcance trouxeram, todas elas, a foto de Wellington de Oliveira, o assassino de crianças inocentes, estampada na capa. Era a glória de uma mente perturbada, arrancada do anonimato de onde jamais sairia não fosse a covardia de abater quem não podia se defender.
"Um louco é um louco", se diz. Tentar entender, com mente sã, as motivações de um ato insano, é uma empreitada inglória. Podemos entender a origem - fisiológica, psicológica - do distúrbio. Mas não há parâmetro para nós que possa ser medido por alguém que atravessou a fronteira da sanidade. Como entender, então, que pessoas à frente de um órgão de imprensa, compreendendo que a busca de notoriedade está na raiz de atos extremos como os de Wellington, o recompensem com a capa de sua edição de domingo? Como entender que ele tenha recebido, ao preço de vidas de crianças inocentes, a encomenda que buscava? Sim, todos sabemos que a matéria-prima da notícia é o raro, o paradoxo, o imprevisto e o caos, aparente ou verdadeiro. Todos sabem que esta rede de notícias trabalhando sempre em busca da novidade tira do público a capacidade de avaliação e compreensão das informações e, em certa medida, anula a sua capacidade de produzir signos interpretantes necessários para o acompanhamento de todas as notícias. Que os consumidores fiquem hipnotizados diante da imprensa é rotineiro. Mas como entender que a imprensa, ela própria, feita por homens e mulheres, perca a sanidade ao ponto de transformar em herói e mito o assassino frio da escola do Realengo?
Por que a capa dessas revistas não prestou uma homenagem às crianças vitimadas? Por que não enalteceu os educadores que saíram em defesa das crianças? Por que não retratou o sargento Márcio Alves, que enfrentou e, sem saber o poder bélico do contendor, o alvejou, salvando com isso sabe-se lá quantas vidas?
O assassino não tinha uma motivação racional. Não procurava difundir uma causa, não queria libertar reféns, não estava a se vingar de bulling. Ele só queria desesperadamente sair do anonimato e enfrentar as vozes que o impeliam à ação. Os vídeos que deixou gravado em seu computador revelam isso. Quantos outros como ele seguirão esse exemplo?
O jornalista Arbex Jr fala, ao se referir-se à fabricação da notícia, em estratégia de sedução: "um dos desafios enfrentados diariamente pelos estrategistas da mídia consiste, precisamente, na elaboração de estratégias de sedução do telespectador/ leitor, operando em um inevitável espaço de ambigüidade do fato comunicativo. Trata-se de transformar a ambigüidade em seu oposto – o consenso aparente, imposto, fabricado por técnicas de propaganda".
É disso que se trata. A face nua do assassino seduz, vende revistas. Seu olhar vazio denota mistério. Não se trata, então, de fazer o certo, de educar, de exercer a função pedagógica que a mídia democrática deveria ter. Trata-se de contar os trocados. É o cobre em troca de sangue, como se dizia no período medieval.
Wellington, o insano, imolou-se. Vestiu seu uniforme de combate para matar crianças a sangue frio. Ele criou um personagem e o encarnou até o fim. Só a fama e a esquizofrenia - qual a fronteira entre elas? - permitem a criação dessa espécie de personagem permanente. Se o ídolo precisa ter certas características que o distanciam dos simples mortais, se ele precisa ser alguém com habilidades extraordinárias, como enquadrar Wellington na categoria do mito?
Ocorre que vivemos a era da massificação do mito. Um bom exemplo disso são os reality shows, onde as câmeras de TV transformam em celebridades personagens comuns e sem importância, dando relevo às mais simples rotinas diárias, como dormir, comer, escovar os dentes, cantar, abraçar coqueiros ou decorar a casa. O nome Big Brother foi apropriado do romance “1984”, de George Orwell, que retratava um estado totalitário onde cada cidadão era vigiado através um aparelho de TV pelo qual interagia com o grande ditador, que se apresentava como "o Grande Irmão".
Arbex Jr fala da existência de um jogo narcísico nestes processos de identificação dos massa media: "Há uma elevada dose de narcisismo nesses processos de identificação. Mesmo inconscientemente, escolho os aspectos que merecem ser iluminados na composição de tal ou qual personagem, os aspectos que melhor me descrevam para mim mesmo e para os outros de acordo com aquilo que penso a meu respeito. Ou, ao contrário, escolho a figura que deve ser odiada por se opor à minha imagem ideal".
No caso de Realengo, a imprensa, essa fábrica de mitos e de narrativas heróicas, optou por dar ao assassino a fama pela qual ele viveu, matou e morreu.
O preço? A vida e a dor de muitos inocentes.
segunda-feira, março 21, 2011
Três perguntas impertinentes e uma conclusão peremptória à luz do noticiário internacional
1. Quem fornece armamento pesado (fuzis, metralhadoras, tanques) e alimenta (munição, água, medicamentos, víveres, abrigo) os chamados "rebeldes" que lutam, com apoio da ONU, para derrubar o governo da Líbia?
2. Estados Unidos, França e Grã-Bretanha, que hoje bombardeiam alvos civis na Líbia, não foram as mesmas nações que patrocinaram a desastrosa invasão do Iraque e do Afeganistão, em nome de encontrar e desmantelar supostas "armas de destruição em massas" que jamais foram encontradas?
3. Por que para os Estados Unidos o inimigo de hoje é sempre o amigo de ontem? Depois de anos de afastamento, Kadaffi buscou como nunca uma aproximação com a Casa Branca nos últimos anos, restabelecendo relações diplomáticas com os EUA em 2006, assinando um acordo contra a imigração ilegal para a Itália em 2008 e criando recentemente um regime de concessão das bacias petrolíferas para transnacionais como a British Petroleum (BP) e a ENI italiana. Então, por trás da ação das grandes potências não estaria a simples necessidade de trocar um ditador enfraquecido por um homem de sua inteira confiança na direção de um país rico em petróleo de excelente qualidade e em reservas de gás natural?
Não se iludam: o que acontece na Líbia não é a insurreição das massas contra um regime nacionalista decadente e sim a ofensiva imperialista ávida por petróleo e gás contra as parcas conquistas nacionalistas de um regime bonapartista agonizante.
2. Estados Unidos, França e Grã-Bretanha, que hoje bombardeiam alvos civis na Líbia, não foram as mesmas nações que patrocinaram a desastrosa invasão do Iraque e do Afeganistão, em nome de encontrar e desmantelar supostas "armas de destruição em massas" que jamais foram encontradas?
3. Por que para os Estados Unidos o inimigo de hoje é sempre o amigo de ontem? Depois de anos de afastamento, Kadaffi buscou como nunca uma aproximação com a Casa Branca nos últimos anos, restabelecendo relações diplomáticas com os EUA em 2006, assinando um acordo contra a imigração ilegal para a Itália em 2008 e criando recentemente um regime de concessão das bacias petrolíferas para transnacionais como a British Petroleum (BP) e a ENI italiana. Então, por trás da ação das grandes potências não estaria a simples necessidade de trocar um ditador enfraquecido por um homem de sua inteira confiança na direção de um país rico em petróleo de excelente qualidade e em reservas de gás natural?
Não se iludam: o que acontece na Líbia não é a insurreição das massas contra um regime nacionalista decadente e sim a ofensiva imperialista ávida por petróleo e gás contra as parcas conquistas nacionalistas de um regime bonapartista agonizante.
quarta-feira, março 09, 2011
Da breve Perestroika à eterna era Putin
Análises traçam paralelos entre a União Soviética e a Rússia atual. Entre os pontos mais evidentes, estariam a burocracia, o sistema de partido único, o desrespeito aos preceitos democráticos e o renascimento de um “imperialismo russo”. No entanto, o período Putin está longe de se parecer com estagnação da era Brejnev.
por Vladislav Inozemtsev
Rússia de 2010 não é a União Soviética do fim dos anos 1970. Mas é verdade que as duas têm muito em comum: lá, onde reinava absoluto o Partido Comunista da União Soviética (PCUS), encontra-se desde então o Partido Rússia Unida, presidido por Vladimir Putin e constituído por 46% de funcionários de diversas hierarquias. O Soviete Supremo foi substituído pela Duma, a Assembleia Nacional, cujos deputados são eleitos a partir de listas de partidos formuladas pelo Kremlin – os partidos que estiverem fora de seu controle não são elegíveis. Toda manifestação de oposição é reprimida, a televisão é censurada e os tribunais costumam dar ganho de causa ao Estado. No âmbito da economia, tem-se agora o “neosovietismo”: na época de Leonid Brejnev, presidente de 1977 a 1982, os hidrocarbonetos e as matérias-primas constituíam 55% das exportações; hoje representam 80%. O número de funcionários públicos aumentou, assim como os efetivos das forças de segurança. As grandes empresas estão sob o controle do Estado e, em termos de política externa, o desaparecimento da União Soviética é percebido, segundo Putin1, como “a maior catástrofe geopolítica do século XX”.
Mas, ao mesmo tempo, a Rússia atual é radicalmente diferente do que foi a União Soviética. Monstruoso sob vários aspectos, o regime no poder governa uma nação paradoxalmente livre. Para uma classe de privilegiados, hoje é possível sair e entrar no país quando quiser. Assim, mais de cinco milhões de russos vivem no exterior, mas conservando sua cidadania original. A economia do país está aberta para o mundo: em 2009, o volume do comércio exterior representou 40,7% do seu PIB (Produto Interno Bruto), contra 18,3% nos Estados Unidos. Sua cultura e suas redes de informação são difundidas para fora dos limites territoriais. Encontram-se hoje no país jornais ocidentais e, nas grandes cidades, há retransmissoras de televisões estrangeiras. Ao contrário da China, a Rússia não censura a internet. Alguns veículos criticam abertamente o regime político, ainda que com um saldo de assassinatos escandalosos de vários jornalistas. O exercício da atividade comercial é livre – o país conta, hoje, com 1,5 milhão de pequenas e médias empresas – e os cidadãos podem se tornar proprietários de seus apartamentos ou casas, sem qualquer limitação prévia de área dos terrenos. Enquanto isso, brotam bancos privados e companhias industriais.
Esse sistema é único. Um misto de “quase soviético” e “pseudo-ocidental”, ele tem produzido uma situação tal que, segundo palavras do historiador russo, Aleksei Miller, “a pessoa chega a se sentir livre dentro de uma Rússia radicalmente diversa dos padrões democráticos”2. Ao menos em dois aspectos, o modelo de Putin é indiscutivelmente mais bem-sucedido que o de Brejnev.
No que diz respeito à política, na época soviética, o poder era exercido num vácuo, no interior de fronteiras impermeáveis e acompanhado por uma ideologia considerada brutal e simplista pelo Ocidente, ainda que apoiada por muitos russos. Era dentro desse contexto que o PCUS mantinha sua “verticalidade do poder” e lutava contra todo o pensamento alternativo e qualquer iniciativa que ameaçasse seu papel de “farol”. Essa ideologia entrou em colapso em favor de um capitalismo livre de qualquer princípio. As fronteiras estão abertas, os russos podem viajar para o exterior, criticar o poder, além de receber e difundir as informações que quiserem. Por isso, ainda que na última década vários princípios autoritários, característicos da era Brejnev, tenham reaparecido, eles não despertaram muita resistência dentro da população.
Propriedade privada
No aspecto socioeconômico, o sistema soviético dizia fundamentar-se pela distribuição de bens básicos para a sobrevivência. Com a Perestroika, política introduzida em 1985 para reestruturar a economia soviética, os reformistas russos e os ocidentais que aconselharam o primeiro governo democrático do país se convenceram de que o acesso à propriedade privada evitaria o retorno do autoritarismo e da dependência para com o Estado. Mas isso não ocorreu. O crescimento econômico dos anos 2000 provocou o enriquecimento de muitos cidadãos e, ao mesmo tempo, garantiu sua lealdade ao novo regime. Custe o que custar, as classes média e alta tentam assegurar a perenidade de seu status.
O ex-presidente e atual primeiro ministro, Vladimir Putin, ainda atrai aplausos daqueles que consideram que esse foi o principal serviço que ele prestou ao país. Para sustentar essa estabilidade econômica, o governo defende a produção nacional com medidas protecionistas e oferece a dezenas de milhares de companhias russas uma situação de quase monopólio sobre as mercadorias. O aumento bruto dos custos3 está elevando os preços no varejo, mesmo sobre a mercadoria europeia, mas isso é compensado destinando-se aos mais pobres parte dos dividendos obtidos com o petróleo.
Desta forma, os dirigentes russos foram muito bem-sucedidos ao utilizar um modelo de governo que seus antecessores comunistas nem mesmo ousaram sonhar. Eles melhoraram o nível de vida dos trabalhadores, ao mesmo tempo que adiaram as eleições livres e suprimiram o direito de greve e manifestações. Puseram a justiça a serviço da burocracia e isolaram-se do povo.
Espaço social
Como resultado, temos uma sociedade livre sob o controle de um poder autoritário, uma simbiose impossível segundo os critérios sociológicos ocidentais. Se a Rússia pode aceitar tudo em prol de sua liberdade, defendida apaixonadamente durante a Perestroika, é porque a noção de ação coletiva é amplamente desacreditada. O segredo da Rússia de Putin deve-se a um rápido crescimento do espaço social, onde o cidadão tem a sensação de poder resolver as contradições do sistema individualmente.
A magnitude e a força da Perestroika de 1985 se explicam pela origem social múltipla de seus adeptos, que apenas em circunstâncias especiais conseguiriam agir em conjunto. O sistema soviético não tolerava a emergência de grupos sociais muito numerosos; ele também censurava opiniões divergentes, sufocava culturas alternativas, reprimia a vida religiosa; os russos não tinham acesso à história autêntica de seu país e não deveriam manifestar nacionalismo. Um professor universitário ateu ou um camponês religioso ortodoxo tinha as mesmas razões de descontentamento com relação ao sistema. As “respostas individuais” aos desafios existentes eram impossíveis. A isso, juntou-se uma economia rudimentar, privilegiando a expansão da indústria militar antes de responder às necessidades básicas dos cidadãos, que já se encontravam esmagados por um sistema burocrático, por sua vez engessado pelo partido.
Desde que Mikhail Gorbatchev lançou a ideia de mudança, atraiu milhões de simpatizantes. Alguns queriam reformas e a modernização do sistema; outros, sua destruição total. Todos, de qualquer modo, sabiam que a resolução individual dos problemas passaria por profundas transformações. Daí a grande variedade de cidadãos convertidos à Perestroika: os mineradores (que hoje morrem dentro dos poços, porque seus dirigentes se recusam a investir em segurança) lutaram com o mesmo entusiasmo dos primeiros empresários privados pelas mudanças radicais, que apoiados pelos burocratas locais e não tendo outra opção, desistiram de suas carteirinhas do Partido Comunista e proclamaram a independência das repúblicas nacionais.
O sistema atual não reproduz os erros do anterior. Ele soube se livrar a tempo de milhões de cidadãos muito ativos – que saíram do país nos anos 1990 –, cujos posicionamentos políticos teriam, sem dúvida, criado um novo tipo de dissidência. Para a maioria dos cidadãos, o sistema também deu acesso a diversas formas de enriquecimento e autonomia graças ao desenvolvimento do comércio, às possibilidades de mobilidade social (por vezes vertical e horizontal) e ao direito de cruzar fronteiras. O sistema também soube encontrar um equilíbrio judiciário entre interesses e potencial: às pessoas talentosas e determinadas, ele ofereceu posições lucrativas nos negócios e, para as outras, postos dentro de uma burocracia gangrenada pela corrupção.
O sistema soviético gastou uma energia colossal para convencer os cidadãos de sua superioridade em todas as áreas. Agora, isso parece um desperdício. A sociedade russa é uma sociedade “sem cidadãos”: como ela pôde se transformar nessa estrutura leve e desagregada? A resposta, sem dúvida, deve ser buscada dentro das especificidades de sua elite e nos seus trampolins sociais. Na maioria das sociedades que se modernizam, existem vários tipos de elite – política, empresarial, intelectual, militar. No caso da Rússia, essas divisões foram apagadas durante o período de transição para o capitalismo. As elites universitárias e militares foram consideradas inúteis e seus trabalhos praticamente pararam de ser remunerados. Ao mesmo tempo, a esfera material absorveu o conjunto de valores sociais, e as elites políticas se viram tête-à-tête com o povo, que reclamava suas riquezas. O mundo dos negócios começou, então, a definir os valores sociais e a penetrar, de acordo com sua própria expansão, as estruturas do poder. Nesta primeira etapa – até o início dos anos 2000 –, o aparelho do Estado dependia em grande parte desta esfera econômica, e ainda estava longe de se ater a qualquer princípio ideológico.
A situação se deteriorou muito ao longo dos últimos dez anos. A chegada de Putin foi acompanhada por uma nova categoria de personalidades cada vez mais jovens, sem outro desejo além do enriquecimento pessoal e aceitando de bom grado as incríveis possibilidades que lhes oferecem os dirigentes políticos. Os homens de negócios que tenham tido algum poder no período anterior foram imediatamente declarados indesejáveis. O Estado se estruturou aos poucos como uma empresa em escala nacional (nos primeiros anos, um bom número de grandes empresas fora devolvido ao controle do poder), e os funcionários, em nível regional e federal, também entraram para o mundo dos negócios. Nos anos 1990, ninguém se surpreendia ao saber que um governador de uma região pudesse estar à frente de um grupo bancário ou industrial; em 2000, todos achavam normal que a indicação para o cargo de governador ou ministro passasse por amigos ou parentes de diretores de alguma empresa comercial da região.
A ascensão dos siloviki, representantes das forças públicas nos ministérios do Interior, da Defesa e da Segurança, deu-se no mesmo cenário, levando a um recorde de corrupção. A privatização dos bens da indústria militar, postos em liquidação, fez com que os funcionários do Ministério da Defesa ganhassem milhões – o preço dos equipamentos militares foi multiplicado por oito ou nove na última década. No final dos anos 2000, as bases da nova realidade russa foram estabelecidas: livre conversão do poder em moeda e em bens, e vice-versa. A elite consolidada considerava sua atividade não como um serviço prestado à nação, mas como uma forma particular de transação comercial. Paradoxalmente, ela é muito aberta: cooptação regular de novas normas e possibilidade de abandonar o navio para se dedicar exclusivamente aos negócios. Os ocidentais tendem a pensar que a burocracia russa é ineficaz, mas ela é realmente bem eficiente – há, simplesmente, outros critérios de eficiência e outra visão de deveres.
Modelo exclusivo
A Rússia, nessa situação inédita, funciona segundo leis e códigos próprios. O país não é uma pálida réplica da democracia europeia, não é uma ditadura oriental revista e corrigida graças às ligações que teve com a história da Europa. Tampouco é a União Soviética ressuscitada dentro de sua ideologia de toda poderosa, nem um modelo de “transição autoritária”, já que sua economia não está evoluindo da acumulação de bens para o pós-industrial, mas segundo o esquema inverso.
Hoje, a Rússia é um sistema resultante do rápido colapso de todas as orientações morais e de todos os ideais de uma sociedade, dentro de um mundo dominado por motivações materialistas. Ela traçou seu próprio caminho. Ela não existiria se os europeus se recusassem a comprar petróleo de empresas semicriminosas, se seus dirigentes não se alegrassem em fazer parte das atividades da Gazprom – a maior fornecedora de gás natural do mundo –, se os investidores não estivessem em busca de bolhas especulativas nos mercados de valores mobiliários e imobiliários russos. Ela não existiria sem as sociedades off-shore, através das quais os empresários possuem abertamente (e os funcionários russos também, mas secretamente) 70% das grandes indústrias do país. O modelo russo seguiu um desenvolvimento lógico, que ainda pode perdurar por muito tempo, já que o descontentamento social não é evidente. Os cidadãos que o contestam são livres para se expressar dentro de esferas que não seja a política. Até mesmo os que querem brincar de desordeiros não são impedidos: simplesmente não têm plateia, nem mobilizam ninguém.
A sociedade russa, portanto, integrou o cinismo que a preside sob uma forma mais discreta, funcionando como qualquer comunidade ocidental: primazia pelo dinheiro e consumo, nivelamento de normas culturais, docilidade das populações, difusão maciça de tecnologias alienantes. O único problema desse sistema é sua incapacidade em formar uma classe intelectual e, portanto, para produzir conhecimentos indispensáveis. Os intelectuais permanecem supérfluos num país dedicado à exploração de seus recursos naturais, mas poderiam ser muito úteis quando as rivalidades econômicas mundiais se revelarem duras. O presidente Dmitri Medvedev entendeu bem isso. Ele não tem nenhuma intenção de desmontar o regime existente, mas sabe que é incompatível com o progresso tecnológico. Será que ele irá lançar reformas verdadeiras? Se for o caso, será que poderia mudar o sistema sem provocar sua destruição? Seja qual for a orientação política, democratas ou liberais, as chances dessas reformas acontecerem são obviamente maiores na Rússia de hoje do que seriam na União Soviética do passado.
Vladislav Inozemtsev é diretor do Centro de Pesquisas sobre Sociedade Pós-industrial e redator-chefe da revista Svobodnaïa Mysl
1 Comunicado à Assembleia Nacional, 25 de abril de 2005, disponível em: http://archive.kremlin.ru/text/appears/2005/04/87049.html
2 Aleksei Miller, “Da democracia do século XIX à do século XXI, e o que vem depois?”, em Vladislav Inozemtsev, Démocratie et modernisation: Débats sur lês défis du XXIè siècle, Evropa, Moscou, 2010, p.101 (em russo).
3 Na Rússia, o preço dos metais e materiais de construção é um dos mais elevados do mundo. O quilômetro de estrada entre Moscou e São Petersburgo custou 23 milhões de euros, e o custo de extração de gás foi multiplicado por sete entre 2000 e 2009. Vedomosti, Moscou, 14 de agosto de 2009, 14 de abril, 31 de maio e 1º de junho de 2010.
Le Monde Diplomatique Brasil
por Vladislav Inozemtsev
Rússia de 2010 não é a União Soviética do fim dos anos 1970. Mas é verdade que as duas têm muito em comum: lá, onde reinava absoluto o Partido Comunista da União Soviética (PCUS), encontra-se desde então o Partido Rússia Unida, presidido por Vladimir Putin e constituído por 46% de funcionários de diversas hierarquias. O Soviete Supremo foi substituído pela Duma, a Assembleia Nacional, cujos deputados são eleitos a partir de listas de partidos formuladas pelo Kremlin – os partidos que estiverem fora de seu controle não são elegíveis. Toda manifestação de oposição é reprimida, a televisão é censurada e os tribunais costumam dar ganho de causa ao Estado. No âmbito da economia, tem-se agora o “neosovietismo”: na época de Leonid Brejnev, presidente de 1977 a 1982, os hidrocarbonetos e as matérias-primas constituíam 55% das exportações; hoje representam 80%. O número de funcionários públicos aumentou, assim como os efetivos das forças de segurança. As grandes empresas estão sob o controle do Estado e, em termos de política externa, o desaparecimento da União Soviética é percebido, segundo Putin1, como “a maior catástrofe geopolítica do século XX”.
Mas, ao mesmo tempo, a Rússia atual é radicalmente diferente do que foi a União Soviética. Monstruoso sob vários aspectos, o regime no poder governa uma nação paradoxalmente livre. Para uma classe de privilegiados, hoje é possível sair e entrar no país quando quiser. Assim, mais de cinco milhões de russos vivem no exterior, mas conservando sua cidadania original. A economia do país está aberta para o mundo: em 2009, o volume do comércio exterior representou 40,7% do seu PIB (Produto Interno Bruto), contra 18,3% nos Estados Unidos. Sua cultura e suas redes de informação são difundidas para fora dos limites territoriais. Encontram-se hoje no país jornais ocidentais e, nas grandes cidades, há retransmissoras de televisões estrangeiras. Ao contrário da China, a Rússia não censura a internet. Alguns veículos criticam abertamente o regime político, ainda que com um saldo de assassinatos escandalosos de vários jornalistas. O exercício da atividade comercial é livre – o país conta, hoje, com 1,5 milhão de pequenas e médias empresas – e os cidadãos podem se tornar proprietários de seus apartamentos ou casas, sem qualquer limitação prévia de área dos terrenos. Enquanto isso, brotam bancos privados e companhias industriais.
Esse sistema é único. Um misto de “quase soviético” e “pseudo-ocidental”, ele tem produzido uma situação tal que, segundo palavras do historiador russo, Aleksei Miller, “a pessoa chega a se sentir livre dentro de uma Rússia radicalmente diversa dos padrões democráticos”2. Ao menos em dois aspectos, o modelo de Putin é indiscutivelmente mais bem-sucedido que o de Brejnev.
No que diz respeito à política, na época soviética, o poder era exercido num vácuo, no interior de fronteiras impermeáveis e acompanhado por uma ideologia considerada brutal e simplista pelo Ocidente, ainda que apoiada por muitos russos. Era dentro desse contexto que o PCUS mantinha sua “verticalidade do poder” e lutava contra todo o pensamento alternativo e qualquer iniciativa que ameaçasse seu papel de “farol”. Essa ideologia entrou em colapso em favor de um capitalismo livre de qualquer princípio. As fronteiras estão abertas, os russos podem viajar para o exterior, criticar o poder, além de receber e difundir as informações que quiserem. Por isso, ainda que na última década vários princípios autoritários, característicos da era Brejnev, tenham reaparecido, eles não despertaram muita resistência dentro da população.
Propriedade privada
No aspecto socioeconômico, o sistema soviético dizia fundamentar-se pela distribuição de bens básicos para a sobrevivência. Com a Perestroika, política introduzida em 1985 para reestruturar a economia soviética, os reformistas russos e os ocidentais que aconselharam o primeiro governo democrático do país se convenceram de que o acesso à propriedade privada evitaria o retorno do autoritarismo e da dependência para com o Estado. Mas isso não ocorreu. O crescimento econômico dos anos 2000 provocou o enriquecimento de muitos cidadãos e, ao mesmo tempo, garantiu sua lealdade ao novo regime. Custe o que custar, as classes média e alta tentam assegurar a perenidade de seu status.
O ex-presidente e atual primeiro ministro, Vladimir Putin, ainda atrai aplausos daqueles que consideram que esse foi o principal serviço que ele prestou ao país. Para sustentar essa estabilidade econômica, o governo defende a produção nacional com medidas protecionistas e oferece a dezenas de milhares de companhias russas uma situação de quase monopólio sobre as mercadorias. O aumento bruto dos custos3 está elevando os preços no varejo, mesmo sobre a mercadoria europeia, mas isso é compensado destinando-se aos mais pobres parte dos dividendos obtidos com o petróleo.
Desta forma, os dirigentes russos foram muito bem-sucedidos ao utilizar um modelo de governo que seus antecessores comunistas nem mesmo ousaram sonhar. Eles melhoraram o nível de vida dos trabalhadores, ao mesmo tempo que adiaram as eleições livres e suprimiram o direito de greve e manifestações. Puseram a justiça a serviço da burocracia e isolaram-se do povo.
Espaço social
Como resultado, temos uma sociedade livre sob o controle de um poder autoritário, uma simbiose impossível segundo os critérios sociológicos ocidentais. Se a Rússia pode aceitar tudo em prol de sua liberdade, defendida apaixonadamente durante a Perestroika, é porque a noção de ação coletiva é amplamente desacreditada. O segredo da Rússia de Putin deve-se a um rápido crescimento do espaço social, onde o cidadão tem a sensação de poder resolver as contradições do sistema individualmente.
A magnitude e a força da Perestroika de 1985 se explicam pela origem social múltipla de seus adeptos, que apenas em circunstâncias especiais conseguiriam agir em conjunto. O sistema soviético não tolerava a emergência de grupos sociais muito numerosos; ele também censurava opiniões divergentes, sufocava culturas alternativas, reprimia a vida religiosa; os russos não tinham acesso à história autêntica de seu país e não deveriam manifestar nacionalismo. Um professor universitário ateu ou um camponês religioso ortodoxo tinha as mesmas razões de descontentamento com relação ao sistema. As “respostas individuais” aos desafios existentes eram impossíveis. A isso, juntou-se uma economia rudimentar, privilegiando a expansão da indústria militar antes de responder às necessidades básicas dos cidadãos, que já se encontravam esmagados por um sistema burocrático, por sua vez engessado pelo partido.
Desde que Mikhail Gorbatchev lançou a ideia de mudança, atraiu milhões de simpatizantes. Alguns queriam reformas e a modernização do sistema; outros, sua destruição total. Todos, de qualquer modo, sabiam que a resolução individual dos problemas passaria por profundas transformações. Daí a grande variedade de cidadãos convertidos à Perestroika: os mineradores (que hoje morrem dentro dos poços, porque seus dirigentes se recusam a investir em segurança) lutaram com o mesmo entusiasmo dos primeiros empresários privados pelas mudanças radicais, que apoiados pelos burocratas locais e não tendo outra opção, desistiram de suas carteirinhas do Partido Comunista e proclamaram a independência das repúblicas nacionais.
O sistema atual não reproduz os erros do anterior. Ele soube se livrar a tempo de milhões de cidadãos muito ativos – que saíram do país nos anos 1990 –, cujos posicionamentos políticos teriam, sem dúvida, criado um novo tipo de dissidência. Para a maioria dos cidadãos, o sistema também deu acesso a diversas formas de enriquecimento e autonomia graças ao desenvolvimento do comércio, às possibilidades de mobilidade social (por vezes vertical e horizontal) e ao direito de cruzar fronteiras. O sistema também soube encontrar um equilíbrio judiciário entre interesses e potencial: às pessoas talentosas e determinadas, ele ofereceu posições lucrativas nos negócios e, para as outras, postos dentro de uma burocracia gangrenada pela corrupção.
O sistema soviético gastou uma energia colossal para convencer os cidadãos de sua superioridade em todas as áreas. Agora, isso parece um desperdício. A sociedade russa é uma sociedade “sem cidadãos”: como ela pôde se transformar nessa estrutura leve e desagregada? A resposta, sem dúvida, deve ser buscada dentro das especificidades de sua elite e nos seus trampolins sociais. Na maioria das sociedades que se modernizam, existem vários tipos de elite – política, empresarial, intelectual, militar. No caso da Rússia, essas divisões foram apagadas durante o período de transição para o capitalismo. As elites universitárias e militares foram consideradas inúteis e seus trabalhos praticamente pararam de ser remunerados. Ao mesmo tempo, a esfera material absorveu o conjunto de valores sociais, e as elites políticas se viram tête-à-tête com o povo, que reclamava suas riquezas. O mundo dos negócios começou, então, a definir os valores sociais e a penetrar, de acordo com sua própria expansão, as estruturas do poder. Nesta primeira etapa – até o início dos anos 2000 –, o aparelho do Estado dependia em grande parte desta esfera econômica, e ainda estava longe de se ater a qualquer princípio ideológico.
A situação se deteriorou muito ao longo dos últimos dez anos. A chegada de Putin foi acompanhada por uma nova categoria de personalidades cada vez mais jovens, sem outro desejo além do enriquecimento pessoal e aceitando de bom grado as incríveis possibilidades que lhes oferecem os dirigentes políticos. Os homens de negócios que tenham tido algum poder no período anterior foram imediatamente declarados indesejáveis. O Estado se estruturou aos poucos como uma empresa em escala nacional (nos primeiros anos, um bom número de grandes empresas fora devolvido ao controle do poder), e os funcionários, em nível regional e federal, também entraram para o mundo dos negócios. Nos anos 1990, ninguém se surpreendia ao saber que um governador de uma região pudesse estar à frente de um grupo bancário ou industrial; em 2000, todos achavam normal que a indicação para o cargo de governador ou ministro passasse por amigos ou parentes de diretores de alguma empresa comercial da região.
A ascensão dos siloviki, representantes das forças públicas nos ministérios do Interior, da Defesa e da Segurança, deu-se no mesmo cenário, levando a um recorde de corrupção. A privatização dos bens da indústria militar, postos em liquidação, fez com que os funcionários do Ministério da Defesa ganhassem milhões – o preço dos equipamentos militares foi multiplicado por oito ou nove na última década. No final dos anos 2000, as bases da nova realidade russa foram estabelecidas: livre conversão do poder em moeda e em bens, e vice-versa. A elite consolidada considerava sua atividade não como um serviço prestado à nação, mas como uma forma particular de transação comercial. Paradoxalmente, ela é muito aberta: cooptação regular de novas normas e possibilidade de abandonar o navio para se dedicar exclusivamente aos negócios. Os ocidentais tendem a pensar que a burocracia russa é ineficaz, mas ela é realmente bem eficiente – há, simplesmente, outros critérios de eficiência e outra visão de deveres.
Modelo exclusivo
A Rússia, nessa situação inédita, funciona segundo leis e códigos próprios. O país não é uma pálida réplica da democracia europeia, não é uma ditadura oriental revista e corrigida graças às ligações que teve com a história da Europa. Tampouco é a União Soviética ressuscitada dentro de sua ideologia de toda poderosa, nem um modelo de “transição autoritária”, já que sua economia não está evoluindo da acumulação de bens para o pós-industrial, mas segundo o esquema inverso.
Hoje, a Rússia é um sistema resultante do rápido colapso de todas as orientações morais e de todos os ideais de uma sociedade, dentro de um mundo dominado por motivações materialistas. Ela traçou seu próprio caminho. Ela não existiria se os europeus se recusassem a comprar petróleo de empresas semicriminosas, se seus dirigentes não se alegrassem em fazer parte das atividades da Gazprom – a maior fornecedora de gás natural do mundo –, se os investidores não estivessem em busca de bolhas especulativas nos mercados de valores mobiliários e imobiliários russos. Ela não existiria sem as sociedades off-shore, através das quais os empresários possuem abertamente (e os funcionários russos também, mas secretamente) 70% das grandes indústrias do país. O modelo russo seguiu um desenvolvimento lógico, que ainda pode perdurar por muito tempo, já que o descontentamento social não é evidente. Os cidadãos que o contestam são livres para se expressar dentro de esferas que não seja a política. Até mesmo os que querem brincar de desordeiros não são impedidos: simplesmente não têm plateia, nem mobilizam ninguém.
A sociedade russa, portanto, integrou o cinismo que a preside sob uma forma mais discreta, funcionando como qualquer comunidade ocidental: primazia pelo dinheiro e consumo, nivelamento de normas culturais, docilidade das populações, difusão maciça de tecnologias alienantes. O único problema desse sistema é sua incapacidade em formar uma classe intelectual e, portanto, para produzir conhecimentos indispensáveis. Os intelectuais permanecem supérfluos num país dedicado à exploração de seus recursos naturais, mas poderiam ser muito úteis quando as rivalidades econômicas mundiais se revelarem duras. O presidente Dmitri Medvedev entendeu bem isso. Ele não tem nenhuma intenção de desmontar o regime existente, mas sabe que é incompatível com o progresso tecnológico. Será que ele irá lançar reformas verdadeiras? Se for o caso, será que poderia mudar o sistema sem provocar sua destruição? Seja qual for a orientação política, democratas ou liberais, as chances dessas reformas acontecerem são obviamente maiores na Rússia de hoje do que seriam na União Soviética do passado.
Vladislav Inozemtsev é diretor do Centro de Pesquisas sobre Sociedade Pós-industrial e redator-chefe da revista Svobodnaïa Mysl
1 Comunicado à Assembleia Nacional, 25 de abril de 2005, disponível em: http://archive.kremlin.ru/text/appears/2005/04/87049.html
2 Aleksei Miller, “Da democracia do século XIX à do século XXI, e o que vem depois?”, em Vladislav Inozemtsev, Démocratie et modernisation: Débats sur lês défis du XXIè siècle, Evropa, Moscou, 2010, p.101 (em russo).
3 Na Rússia, o preço dos metais e materiais de construção é um dos mais elevados do mundo. O quilômetro de estrada entre Moscou e São Petersburgo custou 23 milhões de euros, e o custo de extração de gás foi multiplicado por sete entre 2000 e 2009. Vedomosti, Moscou, 14 de agosto de 2009, 14 de abril, 31 de maio e 1º de junho de 2010.
Le Monde Diplomatique Brasil
segunda-feira, janeiro 31, 2011
Marketing de guerrilha e comunicação global
A propaganda se modifica de acordo com a cultura e a tecnologia da época. "O homem vê o mundo do ponto onde se encontra", escreveu Marx. Mas e se estivermos em todo lugar? As modificações tecnológicas e a microfonia multi-cultural estão produzindo a ubiquidade.
Nos últimos anos, a cultura globalizada e a tecnologia de comunicação via satélite permitiram um grande avanço nas percepções do ser humano com relação ao local onde vive e o globo terrestre, em uma lógica “glocal”. Além destes fatores, a publicidade por meios convencionais começa a mostrar sinais de saturação, exigindo intervenções no próprio ambiente, com as chamadas “guerrilhas”. Unindo a publicidade de guerrilha com o pensamento glocal, chega-se a uma estratégia ainda incipiente, mas muito interessante: a Guerrilha via Satélite.
Chamada também de Neo Land Art, GeoAds, Rooftop Advertising e Mapvertising, a Guerrilha via Satélite, consiste em utilizar recursos tecnológicos de posicionamento geográfico (GPS, Google Maps e Google Earth) para que as ações de guerrilha possam ser observadas corretamente apenas a grandes altitudes.
Todo ano, fazendeiros da cidade japonesa de Inakadate decoram suas colheitas em um estilo que lembra as pixelizações de videogames. As imagens geradas são resultado da plantação do arroz kodaimai, que possui folhas amarelas e roxas, junto com suas verdadeiras plantações de romãs-tsugaru de folhas verdes. A temática mais recente para as plantações de Inakadate foram as xilogravuras do artista Hokusai. Outros anunciantes que utilizaram as plantações para veicular peças foram a Swiss Air, a Firefox, e muitos outros pelo mundo.
Tal estilo de anunciar usado pela Swiss Air, Firefox e Apple recebeu o nome de Cropvertising (pois crop significa colheita ou plantação em inglês), e diz-se que surgiu com os relatos dos anos 70 de plantações com imagens estranhas formadas para supostamente fornecer coordenadas de navegação aérea a OVNIs. O sucesso que tais boatos geraram acabou por viabilizar o uso do cropvertising.
Embora pareça um desperdício de investimento para muitos anunciantes, vale lembrar que a própria Apple investiu alto para se tornar visível no Google Earth e Google Maps. A peça de guerrilha cobria 893.240 metros quadrados, representando seu carro-chefe da época, o iPod. A peça foi construída sobre uma mina abandonada no oeste remoto da Austrália e demorou mais de 2 anos.
O maior banner do mundo fica em Dubai, criado para a empresa Sorough Real Estate, e entrou para o Guiness Book devido ao tamanho equivalente a 4.046,87 metros quadrados. Sua localização foi planejada para estar em rotas de vôo e assim atingir aproximadamente 14 milhões de pessoas por um ano.
Talvez considerado o mestre da Guerrilha via Satélite, o land artist Henk Hofstra realizou duas obras que ganharam notoriedade no Google Earth: o Urban River e o Eggcident. No projeto Urban River, o artista holandês pintou as ruas de Drachten, na própria Holanda, com um tom muito vibrante de azul, dando a impressão de que a cidade teria sido construída sobre a água, como Veneza. Este rio de mentira gerou grande interesse na população holandesa, inspirando o artista em sua segunda obra, o Eggcident, mostrando ovos fritos gigantes sobre as ruas. A Guerrilha via Satélite foi realizada na cidade de Leeuwarden desta vez. Cada ovo com 30,48m de largura inclui uma base branca pintada representando a clara, e uma bolha em relevo amarela representando a gema.
Semelhante ao trabalho de Henk Hofstra, o arquiteto Carlos Martinez e o artista plástico Pippilotti Risttransformaram o centro financeiro de St. Gallen, na Suíça, em uma sala de estar pública, ocupando todo o bairro. A obra foi chamada de StadtLounge (“louge da cidade”).
Uma ação divertida foi a tentativa no mundo real do sucesso infantil “Onde está Wally?”, para ser feito no Google Earth. “Where On Earth Is Waldo?” (“Onde na Terra está Waldo? – Wally é apelido para Waldo) é criação de Melanie Cole, uma estudante de Arte Midiática que criou esta ação como projeto de graduação. A imagem gigante de Wally foi pintada em telhados de Vancouver, criando um jogo em escala mundial de “Onde está Wally?”.
Evoluindo com o conceito de mapa virtual, a Disney e o Google Earth uniram-se para criar um novo “megamapa” que permitirá explorer o Walt Disney World’s Magic Kingdom, Epcot, Animal Kingdom, Disney’s Hollywood Studios e 22 hotéis e resorts da Disney. Assim, o usuário do Google Earth poderá realizar uma “caminhada virtual” por todos estes lugares, como se o usuário estivesse fisicamente nestes locais. Este mapa torna-se então uma ferramenta incrivelmente útil para planejamento de viagens, especialmente se for uma viagem rara ou mesmo de “uma vez na vida”.
Uma das ações que revolucionariam os conceitos de Guerrilha via Satélite foi produzida pelo artista sueco Erik Nordenenkar para a empresa DHL, que declarou (através de vídeo e recibos) ter criado “o maior desenho do mundo” ao enviar uma pasta plástica equipada com um GPS em uma trajetória ininterrupta por 110.664km, numa viagem de 55 dias em aviões e caminhões da DHL. Porém, tal ação provou-se falsa.
Muitos blogueiros e sites questionaram o fato de que a DHL teria de fazer loops desnecessários e paradas na rota para produzir um auto-retrato, além do fato de que o sinal de GPS não poderia ser traçado de dentro de uma maleta de alumínio. Ao levantarem a questão e mostrarem os elos soltos na ação, a DHL confirmou ao jornal Telegraph que a obra de arte foi um projeto inteiramente fictício, e que a empresa permitiu que o artista filmasse no armazém da empresa em Estocolmo, sendo que na verdade o GPS nunca foi enviado a lugar algum. Após a revelação, Nordenenkar adicionou uma nota de rodapé em seu site declarando que “Este é um trabalho fictício. A DHL não transportou o GPS em momento algum”.
Por falar em recordes mundiais, a ação do site de apostas Betfair, de criar uma mensagem num terreno nas proximidades do aeroporto de Viena para saudar os visitantes da cidade por conta dos jogos da Eurocopa, está sendo considerado o maior outdoor do mundo.
A Guerrilha via Satélite ainda não é viável em termos financeiros e mesmo com relação a branding, uma vez que a utilização de recursos como o Google Earth e o Google Maps não possui representatividade suficiente entre as pessoas no planeta para que esta ferramenta se torne um verdadeiro canal de divulgação. Porém, o buzz de quem o faz atualmente é suficiente para alavancar consideravelmente a percepção de uma marca entre os vários meios de comunicação.
Se você ainda não leu "Manual de Marketing de Guerrilha" (Labor Editorial, 2010) leia. Se não tem, compre no www.laboreditorial.com. Mais do que um livro, é um guia de sobrevivência na era da hipercomunicação.
Nos últimos anos, a cultura globalizada e a tecnologia de comunicação via satélite permitiram um grande avanço nas percepções do ser humano com relação ao local onde vive e o globo terrestre, em uma lógica “glocal”. Além destes fatores, a publicidade por meios convencionais começa a mostrar sinais de saturação, exigindo intervenções no próprio ambiente, com as chamadas “guerrilhas”. Unindo a publicidade de guerrilha com o pensamento glocal, chega-se a uma estratégia ainda incipiente, mas muito interessante: a Guerrilha via Satélite.
Chamada também de Neo Land Art, GeoAds, Rooftop Advertising e Mapvertising, a Guerrilha via Satélite, consiste em utilizar recursos tecnológicos de posicionamento geográfico (GPS, Google Maps e Google Earth) para que as ações de guerrilha possam ser observadas corretamente apenas a grandes altitudes.
Todo ano, fazendeiros da cidade japonesa de Inakadate decoram suas colheitas em um estilo que lembra as pixelizações de videogames. As imagens geradas são resultado da plantação do arroz kodaimai, que possui folhas amarelas e roxas, junto com suas verdadeiras plantações de romãs-tsugaru de folhas verdes. A temática mais recente para as plantações de Inakadate foram as xilogravuras do artista Hokusai. Outros anunciantes que utilizaram as plantações para veicular peças foram a Swiss Air, a Firefox, e muitos outros pelo mundo.
Tal estilo de anunciar usado pela Swiss Air, Firefox e Apple recebeu o nome de Cropvertising (pois crop significa colheita ou plantação em inglês), e diz-se que surgiu com os relatos dos anos 70 de plantações com imagens estranhas formadas para supostamente fornecer coordenadas de navegação aérea a OVNIs. O sucesso que tais boatos geraram acabou por viabilizar o uso do cropvertising.
Embora pareça um desperdício de investimento para muitos anunciantes, vale lembrar que a própria Apple investiu alto para se tornar visível no Google Earth e Google Maps. A peça de guerrilha cobria 893.240 metros quadrados, representando seu carro-chefe da época, o iPod. A peça foi construída sobre uma mina abandonada no oeste remoto da Austrália e demorou mais de 2 anos.
O maior banner do mundo fica em Dubai, criado para a empresa Sorough Real Estate, e entrou para o Guiness Book devido ao tamanho equivalente a 4.046,87 metros quadrados. Sua localização foi planejada para estar em rotas de vôo e assim atingir aproximadamente 14 milhões de pessoas por um ano.
Talvez considerado o mestre da Guerrilha via Satélite, o land artist Henk Hofstra realizou duas obras que ganharam notoriedade no Google Earth: o Urban River e o Eggcident. No projeto Urban River, o artista holandês pintou as ruas de Drachten, na própria Holanda, com um tom muito vibrante de azul, dando a impressão de que a cidade teria sido construída sobre a água, como Veneza. Este rio de mentira gerou grande interesse na população holandesa, inspirando o artista em sua segunda obra, o Eggcident, mostrando ovos fritos gigantes sobre as ruas. A Guerrilha via Satélite foi realizada na cidade de Leeuwarden desta vez. Cada ovo com 30,48m de largura inclui uma base branca pintada representando a clara, e uma bolha em relevo amarela representando a gema.
Semelhante ao trabalho de Henk Hofstra, o arquiteto Carlos Martinez e o artista plástico Pippilotti Risttransformaram o centro financeiro de St. Gallen, na Suíça, em uma sala de estar pública, ocupando todo o bairro. A obra foi chamada de StadtLounge (“louge da cidade”).
Uma ação divertida foi a tentativa no mundo real do sucesso infantil “Onde está Wally?”, para ser feito no Google Earth. “Where On Earth Is Waldo?” (“Onde na Terra está Waldo? – Wally é apelido para Waldo) é criação de Melanie Cole, uma estudante de Arte Midiática que criou esta ação como projeto de graduação. A imagem gigante de Wally foi pintada em telhados de Vancouver, criando um jogo em escala mundial de “Onde está Wally?”.
Evoluindo com o conceito de mapa virtual, a Disney e o Google Earth uniram-se para criar um novo “megamapa” que permitirá explorer o Walt Disney World’s Magic Kingdom, Epcot, Animal Kingdom, Disney’s Hollywood Studios e 22 hotéis e resorts da Disney. Assim, o usuário do Google Earth poderá realizar uma “caminhada virtual” por todos estes lugares, como se o usuário estivesse fisicamente nestes locais. Este mapa torna-se então uma ferramenta incrivelmente útil para planejamento de viagens, especialmente se for uma viagem rara ou mesmo de “uma vez na vida”.
Uma das ações que revolucionariam os conceitos de Guerrilha via Satélite foi produzida pelo artista sueco Erik Nordenenkar para a empresa DHL, que declarou (através de vídeo e recibos) ter criado “o maior desenho do mundo” ao enviar uma pasta plástica equipada com um GPS em uma trajetória ininterrupta por 110.664km, numa viagem de 55 dias em aviões e caminhões da DHL. Porém, tal ação provou-se falsa.
Muitos blogueiros e sites questionaram o fato de que a DHL teria de fazer loops desnecessários e paradas na rota para produzir um auto-retrato, além do fato de que o sinal de GPS não poderia ser traçado de dentro de uma maleta de alumínio. Ao levantarem a questão e mostrarem os elos soltos na ação, a DHL confirmou ao jornal Telegraph que a obra de arte foi um projeto inteiramente fictício, e que a empresa permitiu que o artista filmasse no armazém da empresa em Estocolmo, sendo que na verdade o GPS nunca foi enviado a lugar algum. Após a revelação, Nordenenkar adicionou uma nota de rodapé em seu site declarando que “Este é um trabalho fictício. A DHL não transportou o GPS em momento algum”.
Por falar em recordes mundiais, a ação do site de apostas Betfair, de criar uma mensagem num terreno nas proximidades do aeroporto de Viena para saudar os visitantes da cidade por conta dos jogos da Eurocopa, está sendo considerado o maior outdoor do mundo.
A Guerrilha via Satélite ainda não é viável em termos financeiros e mesmo com relação a branding, uma vez que a utilização de recursos como o Google Earth e o Google Maps não possui representatividade suficiente entre as pessoas no planeta para que esta ferramenta se torne um verdadeiro canal de divulgação. Porém, o buzz de quem o faz atualmente é suficiente para alavancar consideravelmente a percepção de uma marca entre os vários meios de comunicação.
Se você ainda não leu "Manual de Marketing de Guerrilha" (Labor Editorial, 2010) leia. Se não tem, compre no www.laboreditorial.com. Mais do que um livro, é um guia de sobrevivência na era da hipercomunicação.
quinta-feira, janeiro 20, 2011
Olimpíadas: logotipo pode ser plágio
Após apresentar o logotipo das Olímpiadas do Rio de Janeiro/2016, o Comitê Organizador do evento deverá prestar esclarecimento a Paul Major, presidente da ONG norte-americana Telluride Foundation. A acusação é de que a marca olímpica tenha sido copiada do símbolo da instituição. A semelhança é realmente grande, embora não se possa dizer que a logotipo das Olimpíadas seja uma cópia exata da identidade da ONG estadunidense, pode-se dizer sim que esta parece ter inspirado aquela.
"Embora seja um grande elogio que o Rio 2016 use um logotipo semelhante à nossa marca, é preocupante, já que tivemos um incidente semelhante há cerca de seis anos", explicou Major ao O Estado de S. Paulo, lembrando do caso em que a sua logormarca foi utilizada no carnaval de Salvador, em 2004.
Na época, o presidente chegou a comunicar a organização do evento de que entraria na Justiça, caso desenho não sofresse alterações. Segundo Major, o logo foi publicado pela primeira vez no mês de dezembro de 2000, e conta com todos os direitos reservados pelo desenho.
Desta vez, Major afastou a hipótese de processar o Comitê Organizador dos Jogos do Rio 2016, mas não descarta a ideia de entrar em contrato com os dirigentes e resolver a questão. "Não estamos interessados em uma briga com o comitê. Amamos a Olimpíada e gostaríamos de ser solidários. No entanto iremos rever esta questão com o nosso advogado de marcas", concluiu.
O criador da logomarca para os Jogos do Rio de Janeiro, Fred Gelli, da Agência Tátil Design, negou qualquer tipo de plágio em sua obra. Segundo o artista, sua inspiração foi definida pelo briefing do evento, onde foi recomendado que a marca transmitisse as características cariocas, brasileiras e os valores da competição.
Além da semelhança com o logo da Telluride Foundation, o desenho escolhido para as Olimpíadas de 2016 também guarda semelhanças inquietantes com obra "A Dança", do pintor francês Henri Matissi.
"Embora seja um grande elogio que o Rio 2016 use um logotipo semelhante à nossa marca, é preocupante, já que tivemos um incidente semelhante há cerca de seis anos", explicou Major ao O Estado de S. Paulo, lembrando do caso em que a sua logormarca foi utilizada no carnaval de Salvador, em 2004.
Na época, o presidente chegou a comunicar a organização do evento de que entraria na Justiça, caso desenho não sofresse alterações. Segundo Major, o logo foi publicado pela primeira vez no mês de dezembro de 2000, e conta com todos os direitos reservados pelo desenho.
Desta vez, Major afastou a hipótese de processar o Comitê Organizador dos Jogos do Rio 2016, mas não descarta a ideia de entrar em contrato com os dirigentes e resolver a questão. "Não estamos interessados em uma briga com o comitê. Amamos a Olimpíada e gostaríamos de ser solidários. No entanto iremos rever esta questão com o nosso advogado de marcas", concluiu.
O criador da logomarca para os Jogos do Rio de Janeiro, Fred Gelli, da Agência Tátil Design, negou qualquer tipo de plágio em sua obra. Segundo o artista, sua inspiração foi definida pelo briefing do evento, onde foi recomendado que a marca transmitisse as características cariocas, brasileiras e os valores da competição.
Além da semelhança com o logo da Telluride Foundation, o desenho escolhido para as Olimpíadas de 2016 também guarda semelhanças inquietantes com obra "A Dança", do pintor francês Henri Matissi.
Bebida alcoólica faz mal à saúde
Do mesmo modo que os comerciais de cigarros foram proibidos e a propaganda de cigarro e seus rótulos passaram a ter uma frase de advertência que alerta o consumidor para o malefício de consumir aquele produto, o estímulo ao consumo do álcool deveria ser coibido com limitações rigorosas à sua comunicação de marketing (como a restrição de horário para a exibição de comerciais que estimulam o uso da droga), obrigatoriedade de advertência ao consumidor e sobre-taxas tributárias que ajudassem a custear o tratamento das vítimas diretas e indiretas da ingestão de bebidas. Ao contrário, a mídia escancarada que estimula jovens a partir dos 13 anos a consumir esse entorpecente líquido é tão eficiente que a produção de cerveja no Brasil superou todas as expectativas e alcançou em 2010 a marca recorde de 12,6 bilhões de litros, um crescimento de 18% em relação a 2009, crescendo mais do que o dobro do PIB.
Com esse resultado, o Brasil se tornou no ano passado o terceiro maior mercado de cerveja do mundo, atrás apenas da China, com produção na faixa de 40 bilhões de litros, e EUA, com 35 bilhões de litros.
Num ano só, o Brasil deixou para trás gigantes como Rússia e Alemanha.
Os números são do Sindicerv (Sindicato Nacional de Cerveja) e devem ser divulgados nos próximos dias.
Segundo Gilmar Viana, presidente do Sindicerv, esse resultado se deve a três fatores. Em primeiro lugar, ao crescimento da renda, depois à estabilidade dos preços, e, em terceiro, ao clima favorável no país ao consumo de cerveja.
No mesmo período, cresceu em igual proporção o número de acidentes de trânsito fatais ou imobilizantes, as moléstias mentais desencadeadas em função do consumo de bebidas alcoólicas e os homicídios violentos.
É verdade que toda a história da humanidade está permeada pelo consumo de álcool. Registros arqueológicos revelam que os primeiros indícios sobre o consumo de álcool pelo ser humano data de aproximadamente 6000 a.C., sendo, portanto, um costume extremamente antigo e que tem persistido por milhares de anos, o que não quer dizer que seja benéfico em nenhum aspecto. A abusiva propaganda de bebida no Brasil associada a um potente lobby da indústria do vinho – que enganosamente é visto como “benéfico” - a noção de álcool como uma substância divina, por exemplo, pode ser encontrada em inúmeros exemplos na mitologia, sendo talvez um dos fatores responsáveis pela manutenção do hábito de beber ao longo do tempo. Inicialmente, as bebidas tinham conteúdo alcoólico relativamente baixo, como por exemplo, o vinho e a cerveja, já que dependiam exclusivamente do processo de fermentação. Com o advento do processo de destilação, introduzido na Europa pelos árabes na Idade Média, surgiram novos tipos de bebidas alcoólicas, que passaram a ser utilizadas na sua forma destilada. Nesta época, este tipo de bebida passou a ser considerado como um remédio para todas as doenças, pois “dissipavam as preocupações mais rapidamente do que o vinho e a cerveja, além de produzirem um alívio mais eficiente da dor”, surgindo então a palavra whisky (do gálico usquebaugh, que significa “água da vida”). A partir da Revolução Industrial, registrou-se um grande aumento na oferta deste tipo de bebida, contribuindo para um maior consumo e, conseqüentemente, gerando um aumento no número de pessoas que passaram a apresentar algum tipo de problema devido ao uso excessivo de álcool.
Apesar do consumo legal e estimulado em larga escala, o álcool também é considerado uma droga psicotrópica, pois ele atua no sistema nervoso central, provocando uma mudança no comportamento de quem o consome, além de ter potencial para desenvolver dependência mesmo em pequenas quantidades.
Baseado em uma indústria milionária e poderosa, o álcool é uma das poucas drogas psicotrópicas que tem seu consumo admitido e até incentivado pela sociedade. Esse é um dos motivos pelo qual ele é encarado de forma diferenciada, quando comparado com as demais drogas. Apesar de sua ampla aceitação social, o consumo de bebidas alcoólicas é um problema não apenas de saúde pública, mas também econômico. Gerando lucros extraordinário para a indústria que o produz e distribui, o álcool gera prejuízos enormes para a sociedade e para as contas públicas porque incrementa o gasto em saúde pública, elevando o índice de internações, de óbito de jovens e mulheres e de surgimento de moléstias mentais associadas. Além de causar cirrose, esteatose, gastrite, impotência sexual e hipertensão, problemas relacionados ao consumo de bebida estão também no topo das causas de acidentes de trabalho.
A dependência do álcool é uma condição frequente, atingindo cerca de 5 a 10% da população adulta brasileira.
Não existe o "beber moderado", como pensam alguns, porque a distinção entre esse quadro e o beber "problemático" ocorre de maneira diferenciada em cada indivíduo e em geral transcorre de forma lenta. Alguns dos sinais que surgem no decorrer da vida de quem bebe "socialmente" com freqüência: desenvolvimento da tolerância, ou seja, a necessidade de beber cada vez maiores quantidades de álcool para obter os mesmos efeitos; o aumento da importância do álcool na vida da pessoa; a percepção do “grande desejo” de beber e da falta de controle em relação a quando parar; síndrome de abstinência (aparecimento de sintomas desagradáveis após ter ficado algumas horas sem beber) e o aumento da ingestão de álcool para aliviar a síndrome de abstinência.
A síndrome de abstinência do álcool é um quadro que aparece pela redução ou parada brusca da ingestão de bebidas alcoólicas após um período de consumo crónico. A síndrome tem início 6-8 horas após a parada da ingestão de álcool, sendo caracterizada pelo tremor das mãos, acompanhado de distúrbios gastrointestinais, distúrbios de sono e um estado de inquietação geral (abstinência leve). Cerca de 5% dos que entram em abstinência leve evoluem para a síndrome de abstinência severa ou delirium tremens que, além da acentuação dos sinais e sintomas acima referidos, caracteriza-se por tremores generalizados, agitação intensa e desorientação no tempo e espaço.
Onde está o congresso nacional, que permite que essa droga continue a ser consumida sob o estímulo de propaganda legal, postos legais de distribuição e incentivo fiscal? Provavelmente, está tomando uma dose para comemorar o resultado do crescimento recorde na venda desse veneno líquido para os brasileiros. Saúde, Brasil!
Com esse resultado, o Brasil se tornou no ano passado o terceiro maior mercado de cerveja do mundo, atrás apenas da China, com produção na faixa de 40 bilhões de litros, e EUA, com 35 bilhões de litros.
Num ano só, o Brasil deixou para trás gigantes como Rússia e Alemanha.
Os números são do Sindicerv (Sindicato Nacional de Cerveja) e devem ser divulgados nos próximos dias.
Segundo Gilmar Viana, presidente do Sindicerv, esse resultado se deve a três fatores. Em primeiro lugar, ao crescimento da renda, depois à estabilidade dos preços, e, em terceiro, ao clima favorável no país ao consumo de cerveja.
No mesmo período, cresceu em igual proporção o número de acidentes de trânsito fatais ou imobilizantes, as moléstias mentais desencadeadas em função do consumo de bebidas alcoólicas e os homicídios violentos.
É verdade que toda a história da humanidade está permeada pelo consumo de álcool. Registros arqueológicos revelam que os primeiros indícios sobre o consumo de álcool pelo ser humano data de aproximadamente 6000 a.C., sendo, portanto, um costume extremamente antigo e que tem persistido por milhares de anos, o que não quer dizer que seja benéfico em nenhum aspecto. A abusiva propaganda de bebida no Brasil associada a um potente lobby da indústria do vinho – que enganosamente é visto como “benéfico” - a noção de álcool como uma substância divina, por exemplo, pode ser encontrada em inúmeros exemplos na mitologia, sendo talvez um dos fatores responsáveis pela manutenção do hábito de beber ao longo do tempo. Inicialmente, as bebidas tinham conteúdo alcoólico relativamente baixo, como por exemplo, o vinho e a cerveja, já que dependiam exclusivamente do processo de fermentação. Com o advento do processo de destilação, introduzido na Europa pelos árabes na Idade Média, surgiram novos tipos de bebidas alcoólicas, que passaram a ser utilizadas na sua forma destilada. Nesta época, este tipo de bebida passou a ser considerado como um remédio para todas as doenças, pois “dissipavam as preocupações mais rapidamente do que o vinho e a cerveja, além de produzirem um alívio mais eficiente da dor”, surgindo então a palavra whisky (do gálico usquebaugh, que significa “água da vida”). A partir da Revolução Industrial, registrou-se um grande aumento na oferta deste tipo de bebida, contribuindo para um maior consumo e, conseqüentemente, gerando um aumento no número de pessoas que passaram a apresentar algum tipo de problema devido ao uso excessivo de álcool.
Apesar do consumo legal e estimulado em larga escala, o álcool também é considerado uma droga psicotrópica, pois ele atua no sistema nervoso central, provocando uma mudança no comportamento de quem o consome, além de ter potencial para desenvolver dependência mesmo em pequenas quantidades.
Baseado em uma indústria milionária e poderosa, o álcool é uma das poucas drogas psicotrópicas que tem seu consumo admitido e até incentivado pela sociedade. Esse é um dos motivos pelo qual ele é encarado de forma diferenciada, quando comparado com as demais drogas. Apesar de sua ampla aceitação social, o consumo de bebidas alcoólicas é um problema não apenas de saúde pública, mas também econômico. Gerando lucros extraordinário para a indústria que o produz e distribui, o álcool gera prejuízos enormes para a sociedade e para as contas públicas porque incrementa o gasto em saúde pública, elevando o índice de internações, de óbito de jovens e mulheres e de surgimento de moléstias mentais associadas. Além de causar cirrose, esteatose, gastrite, impotência sexual e hipertensão, problemas relacionados ao consumo de bebida estão também no topo das causas de acidentes de trabalho.
A dependência do álcool é uma condição frequente, atingindo cerca de 5 a 10% da população adulta brasileira.
Não existe o "beber moderado", como pensam alguns, porque a distinção entre esse quadro e o beber "problemático" ocorre de maneira diferenciada em cada indivíduo e em geral transcorre de forma lenta. Alguns dos sinais que surgem no decorrer da vida de quem bebe "socialmente" com freqüência: desenvolvimento da tolerância, ou seja, a necessidade de beber cada vez maiores quantidades de álcool para obter os mesmos efeitos; o aumento da importância do álcool na vida da pessoa; a percepção do “grande desejo” de beber e da falta de controle em relação a quando parar; síndrome de abstinência (aparecimento de sintomas desagradáveis após ter ficado algumas horas sem beber) e o aumento da ingestão de álcool para aliviar a síndrome de abstinência.
A síndrome de abstinência do álcool é um quadro que aparece pela redução ou parada brusca da ingestão de bebidas alcoólicas após um período de consumo crónico. A síndrome tem início 6-8 horas após a parada da ingestão de álcool, sendo caracterizada pelo tremor das mãos, acompanhado de distúrbios gastrointestinais, distúrbios de sono e um estado de inquietação geral (abstinência leve). Cerca de 5% dos que entram em abstinência leve evoluem para a síndrome de abstinência severa ou delirium tremens que, além da acentuação dos sinais e sintomas acima referidos, caracteriza-se por tremores generalizados, agitação intensa e desorientação no tempo e espaço.
Onde está o congresso nacional, que permite que essa droga continue a ser consumida sob o estímulo de propaganda legal, postos legais de distribuição e incentivo fiscal? Provavelmente, está tomando uma dose para comemorar o resultado do crescimento recorde na venda desse veneno líquido para os brasileiros. Saúde, Brasil!
quarta-feira, janeiro 12, 2011
Meio ambiente: o problema é a solução
As preocupações ambientais, sob a forma de conservação da natureza ou de crítica à industrialização, existem praticamente desde o início da revolução industrial.
No entanto, ao longo do século XIX e boa parte do século XX, mantiveram-se restritas a algumas elites ou a movimentos políticos minoritários de cariz anarquista. A publicação do livro “Silent Spring” de Rachel Carson em 1962, onde esta denunciava os impactes do uso de pesticidas, marca um ponto de viragem - é a partir da década de 60 que explodem os movimentos ambientalistas de várias naturezas e que a ecologia é transportada para o discurso público e dos media. A preservação da biodiversidade, a poluição da atmosfera, da água e dos solos, o uso de fertilizantes e pesticidas químicos, a depleção das reservas energéticas, o consumo exponencial de recursos naturais finitos e o problema da explosão demográfica tornaram-se a base da crítica ao modelo de desenvolvimento da sociedade ocidental por parte dos “ambientalistas”. É sobretudo na década de 80, com o problema do buraco do ozono devido às emissões de CFCs, que desperta a consciência de que estes problemas são globais e que as suas soluções também terão necessariamente de o ser. O aparente sucesso do Protocolo de Montreal (para eliminar as emissões de CFCs) não se traduziu, no entanto, na mesma capacidade para lidar de forma eficaz com a maioria dos problemas ambientais, apesar dos avanços que se deram nas últimas duas décadas. As alterações climáticas puseram a nú de forma dramática as fragilidades daquilo a que se chama a “comunidade internacional” no que toca à cooperação para resolver problemas comuns.
Leia a íntegra do artigo de Ana Bastos no link http://www.esquerda.net/virus/media/virus11.pdf
No entanto, ao longo do século XIX e boa parte do século XX, mantiveram-se restritas a algumas elites ou a movimentos políticos minoritários de cariz anarquista. A publicação do livro “Silent Spring” de Rachel Carson em 1962, onde esta denunciava os impactes do uso de pesticidas, marca um ponto de viragem - é a partir da década de 60 que explodem os movimentos ambientalistas de várias naturezas e que a ecologia é transportada para o discurso público e dos media. A preservação da biodiversidade, a poluição da atmosfera, da água e dos solos, o uso de fertilizantes e pesticidas químicos, a depleção das reservas energéticas, o consumo exponencial de recursos naturais finitos e o problema da explosão demográfica tornaram-se a base da crítica ao modelo de desenvolvimento da sociedade ocidental por parte dos “ambientalistas”. É sobretudo na década de 80, com o problema do buraco do ozono devido às emissões de CFCs, que desperta a consciência de que estes problemas são globais e que as suas soluções também terão necessariamente de o ser. O aparente sucesso do Protocolo de Montreal (para eliminar as emissões de CFCs) não se traduziu, no entanto, na mesma capacidade para lidar de forma eficaz com a maioria dos problemas ambientais, apesar dos avanços que se deram nas últimas duas décadas. As alterações climáticas puseram a nú de forma dramática as fragilidades daquilo a que se chama a “comunidade internacional” no que toca à cooperação para resolver problemas comuns.
Leia a íntegra do artigo de Ana Bastos no link http://www.esquerda.net/virus/media/virus11.pdf
Belém 395
Belém tem. Essa forma
de lágrima que
se derrama quente
na face mágica do dia;
que se refaz, de repente,
na dor intensa ou na alegria
imensa. Belém tem.
Essa história torta
que se retrata em portas
e alpendres nobres ou
pobres vielas de terra
marrom e valas e capins.
Belém tem. Confins eternos,
carinhos ternos, reversos
que só a gente faz. E essa gente
bela que se rebela em tons
e sons que enrubesce
o sol e engrandece a noite.
Belém tem. Essa tenacidade
que faz dessa cidade
o melhor lugar pra se dizer
amém. Belém tem.
de lágrima que
se derrama quente
na face mágica do dia;
que se refaz, de repente,
na dor intensa ou na alegria
imensa. Belém tem.
Essa história torta
que se retrata em portas
e alpendres nobres ou
pobres vielas de terra
marrom e valas e capins.
Belém tem. Confins eternos,
carinhos ternos, reversos
que só a gente faz. E essa gente
bela que se rebela em tons
e sons que enrubesce
o sol e engrandece a noite.
Belém tem. Essa tenacidade
que faz dessa cidade
o melhor lugar pra se dizer
amém. Belém tem.
quarta-feira, janeiro 05, 2011
Marcas fortes
Pesquisa recente divulgada pela BrandAnalytics revela o valor de 180 marcas no Brasil. Todas elas somadas valem cerca de R$ 76 bilhões. Somente as 40 primeiras do ranking, como a Natura, Perdigão e Vivo, respondem por 80% desse valor. A máxima de que as marcas são os ativos mais valiosos de uma empresa está cada vez mais em evidência. “Além disso, o preço é um fator poderoso que facilita o posicionamento das marcas. Alguém duvida que a percepção de preço alto esteja associada a imagem de produto de qualidade superior?” instiga Paulo Rogério Di Vicenzi Rodrigues, consultor em gestão de marcas e diretor da QualiData. Isso não significa que adotar o caminho do preço mais baixo esteja errado. “Quem opta por essa estratégia, concentra esforços na estratégia de liderança baseada em custos, e para obter sucesso nesse caminho é preciso manter altos volumes ou grande giro de comercialização, procurando atender principalmente consumidores que enfrentam contingências econômicas”, explica Paulo Rogério.
Glossário Anatec
Para facilitar a vida dos profissionais da comunicação, ou mesmo para aqueles que querem apenas ter enriquecimento intelectual, a ANATEC, Associação dos Editores de Publicações, criou o Glossário Anatec – uma ferramenta muito útil para o exercício das atividades próprias desse universo, que até então acompanhava a edição do Guia impresso da instituição. A grande novidade, é que agora o Glossário está disponível na internet e sua consulta é muito fácil e prática. Além disso, a edição foi ampliada e traz 1800 verbetes, palavras, termos e expressões encontradas na íntegra para consultas online. O Glossário, sob conceituação, pesquisa e redação de Mauro Rosso, dicionarista, ensaísta e autor de obras literárias, vai muito além de simples definições, traz informações e temas comuns de acordo com o universo dos meios de comunicação: publicações segmentadas, jornais e periódicos, cenários públicos e privados. Sua consulta é gratuita e pode ser feita na página inicial do site da ANATEC: www.anatec.org.br.
Entretenimento e Mídia Global
Outros dados que se destacam na pesquisa "Entretenimento e Mídia Global", da PricewaterhouseCoopers:
A média de crescimento da América Latina em entretenimento e mídia em 2013 será de 5,1%.
O volume gasto no mundo em entretenimento e mídia em 2013 será de US$ 73 bilhões.
Estima-se que 69% dos investimentos em entretenimento na América Latina virão do Brasil e do México.
O total da publicidade em jornais no mundo vai crescer de US$ 3,8 bilhões em 2008 para US$ 4,1 bilhões em 2013.
Rádio e mídia exterior também vão crescer no mundo de US$ 1,9 bilhão para US$ 2 bilhões.
A publicidade em videogames deverá dobrar, mundialmente, saltando de US$ 23 milhões para US$ 47 milhões.
A publicidade em revistas no mundo crescerá moderadamente, de US$ 1,3 bilhões em 2008 para US% 1,4 bilhões.
A publicidade online e os gastos com acesso à internet terão crescimento anual de dois dígitos.
Na publicidade na TV, a América Latina também se destaca com o crescimento mais rápido em cinco anos, saindo de investimentos de US$ 12,2 bilhões em 2008 para US$ 13,1 bilhões em 2013.
A média de crescimento da América Latina em entretenimento e mídia em 2013 será de 5,1%.
O volume gasto no mundo em entretenimento e mídia em 2013 será de US$ 73 bilhões.
Estima-se que 69% dos investimentos em entretenimento na América Latina virão do Brasil e do México.
O total da publicidade em jornais no mundo vai crescer de US$ 3,8 bilhões em 2008 para US$ 4,1 bilhões em 2013.
Rádio e mídia exterior também vão crescer no mundo de US$ 1,9 bilhão para US$ 2 bilhões.
A publicidade em videogames deverá dobrar, mundialmente, saltando de US$ 23 milhões para US$ 47 milhões.
A publicidade em revistas no mundo crescerá moderadamente, de US$ 1,3 bilhões em 2008 para US% 1,4 bilhões.
A publicidade online e os gastos com acesso à internet terão crescimento anual de dois dígitos.
Na publicidade na TV, a América Latina também se destaca com o crescimento mais rápido em cinco anos, saindo de investimentos de US$ 12,2 bilhões em 2008 para US$ 13,1 bilhões em 2013.
Crescimento contínuo
De acordo com a pesquisa “Entretenimento e Mídia Global”, da PricewaterhouseCoopers, a publicidade brasileira deve crescer de um volume marcado em R$ 9,456 milhões em 2008 para R$ 10,6 em 2013. O crescimento, efetivamente, só vai acontecer a partir deste ano, 2011. O Brasil lidera o crescimento na América Latina, que se destaca das outras regiões do mundo com um desempenho positivo.
Religião e propaganda
Em entrevista ao M&M, o teólogo e professor da PUC-SP, Mario Sergio Cortella, afirma que “não existe religião sem propaganda e publicidade”. Ele diz que há duas naturezas de publicidade no universos religioso: a que deseja vencer as pessoas e se transforma em fanatismo; e a que tenta convencer, chamada de proselitismo. Mario ainda afirma que “a publicidade é o haicai do mundo da comunicação”, elogiando a concisão das mensagens publicitárias e a capacidade de dizer muito com poucas palavras.
quarta-feira, dezembro 29, 2010
terça-feira, dezembro 28, 2010
Universidade de Princeton: "bem-estar emocional está ligado à renda"
O ditado que dinheiro não compra a felicidade foi posto em questão pela academia.
O bem-estar emocional das pessoas – ou seja, felicidade – é proporcional à sua renda, até o patamar de 75 mil dólares anuais (cerca de 130 mil reais), de acordo com estudo publicado hoje no periódico científico Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS).
Para as pessoas que ganham menos que isso, Angus Deaton, economista do Centro de Saúde e Bem-Estar da Universidade de Princeton, diz: “Os problemas são tão imediatos que é difícil ser feliz. Isso interfere com o quanto o contentamento com a vida que se leva”.
Deaton e Daniel Kahneman analisaram uma pesquisa de opinião do Instituto Gallup, feita com 450 mil americanos em 2008 e 2009. Ela incluía perguntas sobre a satisfação com dia-a-dia e também com a felicidade geral com as suas vidas.
A felicidade aumentava conforme a renda crescia, mas o efeito parava aos 75 mil dólares, Deaton afirmou. Por outro lado, o sentimento geral de sucesso continua a crescer de acordo com o crescimento do poder aquisitivo depois daquele ponto.
“Dar mais dinheiro que 75 mil dólares não vai alterar significativamente o humor rotineiro de alguém, mas vai fazê-lo sentir que tem uma vida melhor,” disse o economista em uma entrevista.
Não é surpreendente que alguém que passe a ganhar o dobro do seu salário se sinta bem-sucedida, mas isso quer dizer que ela se sinta mais feliz, explica Deaton.
Os resultados foram semelhantes em outras instâncias. Por exemplo, as pessoas se sentiam mais felizes nos fins-de-semana, mas seu sentimento mais profundo de bem-estar não mudava.
Daniel Kahneman, que ganhou o prêmio Nobel de Economia em 2002, realizou o estudo com Deaton para entender melhor a relação entre políticas públicas e crescimento econômico. Alguns estudiosos questionam o valor do crescimento de uma economia aos indivíduos, e Deaton disse que a questão está longe de ser resolvida. Mas complementou: “Fazer este estudo me trouxe um grande bem-estar emocional. Como economista, eu tendo a crer que dinheiro faz bem, e foi bom descobrir provas disso”.
A pesquisa também reforçou o dado de estudos anteriores, de que, de maneira geral, as pessoas são bastante satisfeitas com suas vidas. Em outra pesquisa global do Gallup, os Estados Unidos e o Brasil estiveram entre as nações mais felizes, atrás dos países escandinavos, Canadá, Costa Rica, Suíça e Nova Zelândia.
A conclusão dos dados da pesquisa da Universidade estadunidense é que, para ser feliz, então, o importante não é ser rico, mas sim não ser pobre, segundo as entrevistas feitas com mais de 450 mil cidadãos dos Estados Unidos.
Isso, ao contrário do que possa parecer, não é um cheque em branco ao consumismo e ao capitalismo, mas uma denúncia velada de que, ao privar a maioria do necessário a uma existência digna, o capitalismo monopolista limita, sim, a possibilidade da felicidade individual dos seres humanos.
O bem-estar emocional das pessoas – ou seja, felicidade – é proporcional à sua renda, até o patamar de 75 mil dólares anuais (cerca de 130 mil reais), de acordo com estudo publicado hoje no periódico científico Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS).
Para as pessoas que ganham menos que isso, Angus Deaton, economista do Centro de Saúde e Bem-Estar da Universidade de Princeton, diz: “Os problemas são tão imediatos que é difícil ser feliz. Isso interfere com o quanto o contentamento com a vida que se leva”.
Deaton e Daniel Kahneman analisaram uma pesquisa de opinião do Instituto Gallup, feita com 450 mil americanos em 2008 e 2009. Ela incluía perguntas sobre a satisfação com dia-a-dia e também com a felicidade geral com as suas vidas.
A felicidade aumentava conforme a renda crescia, mas o efeito parava aos 75 mil dólares, Deaton afirmou. Por outro lado, o sentimento geral de sucesso continua a crescer de acordo com o crescimento do poder aquisitivo depois daquele ponto.
“Dar mais dinheiro que 75 mil dólares não vai alterar significativamente o humor rotineiro de alguém, mas vai fazê-lo sentir que tem uma vida melhor,” disse o economista em uma entrevista.
Não é surpreendente que alguém que passe a ganhar o dobro do seu salário se sinta bem-sucedida, mas isso quer dizer que ela se sinta mais feliz, explica Deaton.
Os resultados foram semelhantes em outras instâncias. Por exemplo, as pessoas se sentiam mais felizes nos fins-de-semana, mas seu sentimento mais profundo de bem-estar não mudava.
Daniel Kahneman, que ganhou o prêmio Nobel de Economia em 2002, realizou o estudo com Deaton para entender melhor a relação entre políticas públicas e crescimento econômico. Alguns estudiosos questionam o valor do crescimento de uma economia aos indivíduos, e Deaton disse que a questão está longe de ser resolvida. Mas complementou: “Fazer este estudo me trouxe um grande bem-estar emocional. Como economista, eu tendo a crer que dinheiro faz bem, e foi bom descobrir provas disso”.
A pesquisa também reforçou o dado de estudos anteriores, de que, de maneira geral, as pessoas são bastante satisfeitas com suas vidas. Em outra pesquisa global do Gallup, os Estados Unidos e o Brasil estiveram entre as nações mais felizes, atrás dos países escandinavos, Canadá, Costa Rica, Suíça e Nova Zelândia.
A conclusão dos dados da pesquisa da Universidade estadunidense é que, para ser feliz, então, o importante não é ser rico, mas sim não ser pobre, segundo as entrevistas feitas com mais de 450 mil cidadãos dos Estados Unidos.
Isso, ao contrário do que possa parecer, não é um cheque em branco ao consumismo e ao capitalismo, mas uma denúncia velada de que, ao privar a maioria do necessário a uma existência digna, o capitalismo monopolista limita, sim, a possibilidade da felicidade individual dos seres humanos.
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