Um slogan perfeito deve satisfazer a vários critérios. Primeiro, ele deve ser memorável. A memorabilidade tem a ver com a capacidade da frase ser lembrada sem auxílio. Muito disso se baseia na herança da marca e no quanto o slogan foi usado durante os anos. Mas se for um slogan novo, o que o torna memorável? A grande idéia deve ser transmitida no anúncio. Quanto mais o slogan ressoar com a grande idéia, mais memorável ele será.
Por exemplo, a frase "Meu Deus, minha Guinness!" (da cerveja Guinness) tornou-se memorável pelas ilustrações do bêbado da Guinness vendo sua cerveja sob algum tipo de ameaça (colocada no nariz de uma foca amestrada, por exemplo). Ela invocava um sorriso irônico e um toque de simpatia da parte do público pela potencial perda se a Guinness caísse.
A Guinness costumava usar o slogan "A Guinness faz bem a você" até que as autoridades exigiram que essa declaração parasse de ser usada porque a Guinness era uma cerveja, continha álcool e, por isso, não podia fazer bem a ninguém. Assim, a agência publicitária da Guinness mudou a frase.
Um bom slogan deve lembrar o nome da marca e o ideal é que o nome da marca seja incluído na frase: "Meu Deus, minha Guinness!" funciona como "Coca-cola é isso aí!". Se for bem sucedido, o slogan deve passar prontamente para a linguagem popular como um chavão. Além de uma ilustração, história ou aliteração relevante (Jaguar: "Não sonhe com ele. Dirija-o."), palavras cunhadas ou compostas (Louis Vuitton: "Epileather"), trocadilhos e rimas são boas maneiras de se criar um slogan memorável. Assim também ocorre com um jingle. No Brasil, um desses exemplos era a propaganda da Valisére, com o slogan: "o primeiro Valisére (sutiã) a gente nunca esquece".
Um bom slogan deve incluir um benefício-chave: "Projetado como nenhum outro carro do mundo" (Mercedes Benz); "A segunda maior empresa aérea internacional da Grã-Bretanha" é uma declaração 'e dai?' (da antiga Air Europe). Você pode dizer "Eu quero um carro projetado como nenhum outro carro do mundo", mas é pouco provável que você diga, "eu quero uma passagem da segunda maior empresa aérea internacional da Grã-Bretanha", "mais de você em você mesmo" (do curso de vestibular Etapa).
Existe um conselho bem conhecido no mundo do marketing: 'venda o cheiro, não o bife'. Isto significa vender os benefícios, não os recursos. Como o slogan é aquilo que resta, que perdura, certamente não se deve perder a oportunidade de implantar nele um benefício-chave.
Holiday Inn: "Satisfazendo as pessoas no mundo todo".
Karry-Lite: "Tire o peso da bagagem".
Polaroid: "A diversão é instantânea".
The Economist: "Empresa livre de qualquer problema".
Por outro lado, os seguintes slogans não têm benefícios óbvios:
Equity and Law: "Precisamos dizer mais?".
Exxon: "Somos a Exxon".
Lite Tuff: "Isto é Lite Tuff!".
Sapolio Soap: "Use Sapolio".
Além disso, um bom slogan deve diferenciar a marca: a frase "A Heineken refresca as partes que as outras cervejas não alcançam" faz isto brilhantemente. É um clássico. Quando o slogan precisou de renovação, ele foi estendido em veiculações posteriores para mostrar situações aparentemente impossíveis, como uma rodovia expressa deserta no horário do rush, com o slogan "Somente Heineken pode fazer isso" e mostrando depois situações improváveis, mas admiráveis, como um grupo de engenheiros tentando manter o silêncio com o comentário: "Que refrescante! Que Heineken!"
A distinção aqui é que o slogan deve descrever uma característica da marca que a diferencie dos concorrentes, como os slogans que transmitem diferenciação:
British Rail: "Estamos chegando lá".
Cheese Council: "Da forma que quiser, coma queijo".
Timex: "Feche a correspondência e marque o tempo".
Metropolitan Home: "Moda para a sua casa".
Tendências do anúncio publicitário
Um bom slogan também deve lembrar o nome da marca. Qual é a vantagem de veicular um anúncio publicitário no qual o nome da marca não está claro? Ainda que milhões de dólares sejam gastos dessa forma, se o nome da marca não estiver no slogan, é melhor que ele seja sugerido com firmeza. A Nike ousa veicular comerciais que transmitem somente o seu logotipo visual (o "swoosh"). A palavra Nike não é falada e não aparece. Este uso de semiótica é imensamente poderoso quando funciona, porque força o espectador a dizer o nome da marca.
Uma das melhores técnicas de lembrar o nome da marca é fazer um slogan com rima com ele. Aqui estão alguns slogans que selecionados no Banco de dados ADSlogans Unlimited (em inglês):
"Não seja vago. Peça Haig".
"Não precisava ser um inferno com Nicotinell".
"Veja os Estados Unidos no seu Chevrolet".
"Você vai ficar se perguntando para onde o amarelo foi depois de escovar seus dentes com Pepsodent".
Uma posição antiga é usar uma rima e mencionar o nome da marca sem que ele, de fato, rime. Exemplos incluem "Uma Mars por dia o ajuda a trabalhar, descansar e brincar" e "Não venderemos nenhum vinho antes do tempo (Paul Masson)". Note como a vantagem competitiva é perdida quando o nome da marca não é a rima. Isto poderia ser facilmente dito como "Uma maçã por dia o ajuda a trabalhar, descansar e brincar" ou "Ernest e Julio Gallo não venderão vinho antes do tempo".
Um slogan efetivo deve transmitir sentimentos positivos sobre a marca: Todos os slogans mencionados anteriormente fazem isto, alguns mais do que outros: "Dirija uma vez e se apaixone para sempre" ou "Coca-cola é isso aí!". Contrastando com isto, o slogan da Triumph para o seu carro esportivo TR7, em 1976: "Não parece que você pode bancar um". Ou os cigarros Newport da América: "Afinal, se fumar não é um prazer, por que se preocupar?"
Os publicitários lhe dirão que títulos de livros negativos não vendem. Eu acredito que a publicidade negativa é difícil de ser justificada. Repare como é enfadonha toda aquela falação eleitoral negativa nas campanhas políticas. Os eleitores simplesmente querem desligar a TV. Aqui está um grupo de slogans que não transmite boas notícias:
Bacardi Spice (Rum): "Destilado no inferno".
Hungry Joes: "Más notícias para as batatas cozidas".
Kellogg's Eggos Waffles: "Você nunca desejará l'eggo".
Lea and Perrins: "O molho de carne que somente uma vaca poderia odiar".
Muito importante, um bom slogan não deve ser utilizável por um concorrente: você não consegue substituir um nome de marca concorrente e usar o slogan. Por exemplo, "Meu Deus, meu Murphy!" (retirado do slogan da Guinness) simplesmente não funcionaria.
Muitos slogans não têm absolutamente nenhuma diferenciação competitiva, como "Simplesmente o melhor" e suas variantes. Você poderia acrescentar qualquer nome de marca ao slogan e ele faria sentido. E isto é freqüentemente provado pelo número de usuários de um slogan. Considere o seguinte:
Aspen: "Simplesmente o melhor".
Bishop's Nissan: "Simplesmente o melhor".
HME Firetrucks: "Simplesmente... o melhor".
Kuoni: "Simplesmente, o melhor".
Estes são apenas quatro: temos outros 25 usuários do mesmo slogan em nosso banco de dados (em inglês).
Os slogans sem graça e aromáticos de mamãe e torta de maçã sofreram uma queda. Exemplos incluem "Para aqueles que valorizam a excelência" (Henredon Furniture), "Nós fazemos melhor" (Singer) ou "Nós fazemos acontecer" (Unisys).
Um bom slogan deve ser estratégico: algumas empresas podem efetivamente transmitir sua estratégia de negócio em seus slogans, como "Inovação" (3M), "Coisas melhores para uma qualidade de vida melhor por meio da química" (DuPont) ou "A doença não tem inimigo pior" (Glaxo/Wellcome).
Slogans atraentes também tentam estar na moda, geralmente sem sucesso. Atualmente existem duas tendências populares em slogans. Uma é o slogan de uma única palavra:
Hankook Tires: "Dirigido", (também sendo usado pela Nissan nos Estados Unidos).
IBM: "Pense"(claramente roubado pela Apple com o "Pense diferente").
United Airlines: "Subindo" (porque estava em baixa).
É difícil transmitir uma mensagem complexa em uma única palavra. Isto nos leva até a outra tendência: tudo em três palavras (ou três idéias concisas).
ADSlogans Unlimited: "Verifique. Crie. Inspire".
Air France: "Nova. Rápida. Eficiente".
Chevrolet: "Olhe para ele. Experimente-o. Compre-o".
Kellogg's Rice Krispies: "Morda! Mastigue! Ataque!"
Monsanto: "Alimento. Saúde. Esperança".
segunda-feira, maio 25, 2009
Tendências do anúncio publicitário
Sem contar "a", "o" e "e", estas são as 20 palavras mais freqüentemente usadas em slogans publicitários (as porcentagens representam o número de slogans que usam a palavra do número total de slogans publicitários):
você: 11,15%
seu: 7,94%
nós: 6,03%
mundo: 4,18%
melhor: 2,67%
mais: 2,54%
bom: 2,43%
melhor que: 2,12%
novo: 1,90%
experimente: 1,85%
pessoas: 1,54%
nosso: 1,49%
primeiro: 1,42%
parecido com: 1,41%
não: 1,36%
o mais: 1,19%
somente: 1,16%
qualidade: 1,15%
grande: 1,13%
escolha: 1,08%
Fonte: Banco de dados da ADSlogans Unlimited.
você: 11,15%
seu: 7,94%
nós: 6,03%
mundo: 4,18%
melhor: 2,67%
mais: 2,54%
bom: 2,43%
melhor que: 2,12%
novo: 1,90%
experimente: 1,85%
pessoas: 1,54%
nosso: 1,49%
primeiro: 1,42%
parecido com: 1,41%
não: 1,36%
o mais: 1,19%
somente: 1,16%
qualidade: 1,15%
grande: 1,13%
escolha: 1,08%
Fonte: Banco de dados da ADSlogans Unlimited.
sexta-feira, maio 22, 2009
Pesquisa analisa cor do carro e seu simbolismo
O marketing e a psicologia são, sem dúvidas, departamentos de uma mesma estrutura conceitual: a do comportamento humano.
Vejam só. Você poderia imaginar que homens com carro cor prata seriam mais atraentes para o público feminino?
Pois é isso o que afirma uma pesquisa feita pela empresa de seguros britânica Churchil, divulgada pelo blog da jornalista Anamaria Rinaldi.
Segundo as entrevistadas, a cor do carro do homem é muito mais importante que o modelo ou o tamanho do veículo, sendo que pelo menos uma em cada dez admitiu ter saído com um motorista por causa da cor do carro dele.
E não é só isso, as britânicas consideram a cor prata a mais sexy porque lembra uma vida de glamour. Em segundo lugar vem o carro preto, cor geralmente associada à riqueza e ao conforto.
Seu carro é vermelho? Calma, você não precisa perder as esperanças. Essa cor é a preferida entre as mulheres de 13 a 19 anos porque a associam a sexo e comportamento selvagem.
As entrevistadas revelaram que acham um homem que tem carro verde deselegante e chato na hora do sexo. Já um veículo cinza representa um motorista indeciso e um carro branco, um homem sem atitude.
O pior colocado na pesquisa foi o carro roxo, que as mulheres acreditam serem de homens que preferem outros homens.
E não é só a cor que chama a atenção das mulheres, acessórios como um bom equipamento de som, TV dentro do carro, bancos de couro e ursinhos de pelúcia também são ótimos atrativos.
Vejam só. Você poderia imaginar que homens com carro cor prata seriam mais atraentes para o público feminino?
Pois é isso o que afirma uma pesquisa feita pela empresa de seguros britânica Churchil, divulgada pelo blog da jornalista Anamaria Rinaldi.
Segundo as entrevistadas, a cor do carro do homem é muito mais importante que o modelo ou o tamanho do veículo, sendo que pelo menos uma em cada dez admitiu ter saído com um motorista por causa da cor do carro dele.
E não é só isso, as britânicas consideram a cor prata a mais sexy porque lembra uma vida de glamour. Em segundo lugar vem o carro preto, cor geralmente associada à riqueza e ao conforto.
Seu carro é vermelho? Calma, você não precisa perder as esperanças. Essa cor é a preferida entre as mulheres de 13 a 19 anos porque a associam a sexo e comportamento selvagem.
As entrevistadas revelaram que acham um homem que tem carro verde deselegante e chato na hora do sexo. Já um veículo cinza representa um motorista indeciso e um carro branco, um homem sem atitude.
O pior colocado na pesquisa foi o carro roxo, que as mulheres acreditam serem de homens que preferem outros homens.
E não é só a cor que chama a atenção das mulheres, acessórios como um bom equipamento de som, TV dentro do carro, bancos de couro e ursinhos de pelúcia também são ótimos atrativos.
A invasão dos memes
Uma nova ciência, baseada na linguagem e na percepção, está tomando corpo. Esse saber, chamado de memética, aos poucos têm se disseminado, com seu aparato de novas palavras, pela Internet.
O conceito básico é que palavras, idéias, são vistas como vírus, potentes contaminadores de significados que podem ser espalhados instantâneamente e que se auto-replicam na medida em que são comunicados. O termo meme apareceu pela primeira vez no livro “ O Gene Egoísta”, de Richard Dawkins, conceituado estudioso de botânica. Nele Dawkins define o meme como um equivalente mental do gene, que reteria as informações psicológicas básicas do ser humano e que funcionaria pela imitação e com a capacidade de replicação. Os memes, nesse caso, reteriam as informações básicas da espécie e estariam relacionadas aos mecanismos de sobrevivência.
A definição inicial, no entanto, tem sido paulatinamente incrementada e ampliada. Há cada vez mais estudiosos de memes, cursos voltados para essa disciplina, e já chega a fazer parte de currículos acadêmicos. A memética tem se voltado para entender os mecanismos de formação de opiniões, de transmissão de informações, de criação de novos conceitos. Daí sua aplicabilidade a estudos dos meios de comunicação, da mídia, da publicidade, da moda, e, é claro, da própria internet. Há vários livros que já saíram, em inglês, sobre o assunto e é enorme a quantidade de sites sobre memes. A premissa fundamental de que um slogan, uma frase, uma palavra, uma idéia, um estilo, um termo, podem ser um meme, é o que conta.
O enfoque da memética, em muitos casos, tem tido um mero víes comportamental. Volta-se, em geral, para os hábitos repetidos e lugares comuns, chavões sociais passados pelas instituições ou pela própria família, de pai para filho, ou, numa empresa, de patrão para empregado.
Mas essa é só a ponta do iceberg. A subversão do conceito de meme tem sido igualmente explorada, chegando a ser proposto que se hackeie memes. A coisa evoluiu de tal forma que um mote já antigo, o da linguagem como vírus, está sendo reutilizado pelos estudiosos dos memes. A metáfora do vírus, que vocês já devem conhecer da famosa música de Laurie Anderson, “Language is a vírus”, vem por sua vez do escritor beat William Burroughs, que acreditava que somos todos controlados pela mídia e meios de comunicação e que a única forma de escapar a esse controle era emitindo, criando vírus de linguagem, coisa que ele fazia através de sua experiências com os cut-ups. Burroughs cutapeava os textos de jornais e revistas recortando-os em pedacinhos e colando-os ao acaso para daí extrair novas mensagens, reconfigurações de significados. Da mesma forma, aplicaria isso a tapes, gravando conversas, músicas, sons de rua, de bares, de vários locais e misturando tudo para obter novos efeitos, que explicará detalhadamente em A Revolução Eletrônica. A noção de vírus cai direitinho no conceito de disseminação dos memes, e mais ainda nos anti-memes ou memes hackeados.
A abordagem viral do meme não podia ser mais atual, nessa nossa época de AIDS e vírus de computador, e é sob esse aspecto que os memes tem sido utilizados por grupos undergrounds como os zippies e os culture jammers. Os primeiros, freaks cibernéticos ou cyberhippies, se autoproclamam eles mesmos um novo meme e pretendem lançar cada vez mais novos memes, unindo conceitos de tecnologia e misticismo, filosofia DIY (faça-você-mesmo) e psicodelia pela rede e pelo submundo eletrônico das raves. Já os culture jammers querem a implosão semiótica do sistema capitalista e sua mídia. Para tanto sua estratégia é a paródia, o plágio alterado (ou deturrnamento, desvio), a interferência, o ruído. Essas estratégias de assalto e sabotagem da mídia subvertem os memes propagados pela publicidade e programas de tevê e seu objetivo primordial é modificar a visão passiva que temos e absorvemos dessas mídias. Historicamente falando, um pouco do que os dadaístas, situacionistas e punks vêm fazendo ao longo do século.
Agora que você já sabe o que são memes, cuidado. Este é um meta-meme. Ele já está na sua cabeça. Espalhe-o por aí.
Por Ricardo Rosas
O conceito básico é que palavras, idéias, são vistas como vírus, potentes contaminadores de significados que podem ser espalhados instantâneamente e que se auto-replicam na medida em que são comunicados. O termo meme apareceu pela primeira vez no livro “ O Gene Egoísta”, de Richard Dawkins, conceituado estudioso de botânica. Nele Dawkins define o meme como um equivalente mental do gene, que reteria as informações psicológicas básicas do ser humano e que funcionaria pela imitação e com a capacidade de replicação. Os memes, nesse caso, reteriam as informações básicas da espécie e estariam relacionadas aos mecanismos de sobrevivência.
A definição inicial, no entanto, tem sido paulatinamente incrementada e ampliada. Há cada vez mais estudiosos de memes, cursos voltados para essa disciplina, e já chega a fazer parte de currículos acadêmicos. A memética tem se voltado para entender os mecanismos de formação de opiniões, de transmissão de informações, de criação de novos conceitos. Daí sua aplicabilidade a estudos dos meios de comunicação, da mídia, da publicidade, da moda, e, é claro, da própria internet. Há vários livros que já saíram, em inglês, sobre o assunto e é enorme a quantidade de sites sobre memes. A premissa fundamental de que um slogan, uma frase, uma palavra, uma idéia, um estilo, um termo, podem ser um meme, é o que conta.
O enfoque da memética, em muitos casos, tem tido um mero víes comportamental. Volta-se, em geral, para os hábitos repetidos e lugares comuns, chavões sociais passados pelas instituições ou pela própria família, de pai para filho, ou, numa empresa, de patrão para empregado.
Mas essa é só a ponta do iceberg. A subversão do conceito de meme tem sido igualmente explorada, chegando a ser proposto que se hackeie memes. A coisa evoluiu de tal forma que um mote já antigo, o da linguagem como vírus, está sendo reutilizado pelos estudiosos dos memes. A metáfora do vírus, que vocês já devem conhecer da famosa música de Laurie Anderson, “Language is a vírus”, vem por sua vez do escritor beat William Burroughs, que acreditava que somos todos controlados pela mídia e meios de comunicação e que a única forma de escapar a esse controle era emitindo, criando vírus de linguagem, coisa que ele fazia através de sua experiências com os cut-ups. Burroughs cutapeava os textos de jornais e revistas recortando-os em pedacinhos e colando-os ao acaso para daí extrair novas mensagens, reconfigurações de significados. Da mesma forma, aplicaria isso a tapes, gravando conversas, músicas, sons de rua, de bares, de vários locais e misturando tudo para obter novos efeitos, que explicará detalhadamente em A Revolução Eletrônica. A noção de vírus cai direitinho no conceito de disseminação dos memes, e mais ainda nos anti-memes ou memes hackeados.
A abordagem viral do meme não podia ser mais atual, nessa nossa época de AIDS e vírus de computador, e é sob esse aspecto que os memes tem sido utilizados por grupos undergrounds como os zippies e os culture jammers. Os primeiros, freaks cibernéticos ou cyberhippies, se autoproclamam eles mesmos um novo meme e pretendem lançar cada vez mais novos memes, unindo conceitos de tecnologia e misticismo, filosofia DIY (faça-você-mesmo) e psicodelia pela rede e pelo submundo eletrônico das raves. Já os culture jammers querem a implosão semiótica do sistema capitalista e sua mídia. Para tanto sua estratégia é a paródia, o plágio alterado (ou deturrnamento, desvio), a interferência, o ruído. Essas estratégias de assalto e sabotagem da mídia subvertem os memes propagados pela publicidade e programas de tevê e seu objetivo primordial é modificar a visão passiva que temos e absorvemos dessas mídias. Historicamente falando, um pouco do que os dadaístas, situacionistas e punks vêm fazendo ao longo do século.
Agora que você já sabe o que são memes, cuidado. Este é um meta-meme. Ele já está na sua cabeça. Espalhe-o por aí.
Por Ricardo Rosas
segunda-feira, maio 18, 2009
Financiamento Público de Campanha já!
Eu defendo o sistema de financiamento público de campanha opcional, como existe nos Estados Unidos, onde o candidato ou partido opta por um sistema ou pelo outro.
Os gastos de campanha podem ser financiados de duas formas: fundos públicos repassados pelo governo e contribuições privadas de eleitores organizados em grupos de interesse.
Estudos comprovam que quando há apenas contribuições privadas, como é o caso do Brasil na atualidade, a política vencedora é geralmente viesada em direção à plataforma ideal dos grupos economicamente dominantes, ou seja, têm por escopo os grupos privados e seus interesses.
Por outro lado, a representação dos partidos no Congresso tende a ser um pouco mais equilibrada. Quando há apenas contribuições públicas, a política vencedora é socialmente ótima. No entanto, a representação dos partidos passa a ser desigual com a bipolarização se tornando preponderante. É o caso da Inglaterra, onde a bipolarização entre conservadores e trabalhistas já dura um século.
É verdade que, se ambas contribuições são disponibilizadas, a política adotada é viesada em favor dos grupos sociais mais fortes e organizados e a representação dos partidos no Congresso torna-se assimétrica, com um partido dominante no longo prazo, como é o caso da França, por exemplo, que passou por um longo período de predomínio do Partido Socialista.
Por isso, o financiamento híbrido precisa vir associado ao fortalecimento dos partidos, à criação de regras mais rígidas para a manutenção de registros partidários e a adoção do voto em listas partidárias.
Democracia moderna não se faz com eleição. Até mesmo ditaduras fazem eleições e na Grécia antiga, a mãe da democracia, coexistiam eleições diretas com escravismo e opressão às mulheres e às crianças. Democracia moderna se faz com partidos fortes, ideológicos, programáticos e plurais.
O que quer dizer plurais? Que um partido de esquerda, por exemplo, pode ter em seu interior diferentes frações que convivam democraticamente exercitando o debate, sem que seja preciso que cada pequena fração se auto-proclame partido. Partidos fortes não são, necessariamente, monolíticos, mas devem, sempre, ter unidade doutrinária.
O que me surpreende no presente debate nacional sobre o tema da reforma política é a ignorância com que a imprensa majoritária trata a questão. Eu vi no programa Jô Soares uma historiadora dizer "é um absurdo usar dinheiro público para enriquecer políticos" e uma jornalista irritar-se com "o absurdo da gente não poder mais votar em quem a gente quiser" - ela referia-se ao voto em lista, a única forma de fortalecimento dos partidos capaz de dar musculatura ao raquítico sistema partidário nacional.
Quem defende financiamento público de campanha não quer "enriquecer políticos" e tratar a questão com essa pobreza de argumentos é querer desqualificar o debate previamente. Quem diz isso é que está a enriquecer políticos, porque prega a manutenção do sistema viciado que faz da política um fator de enriquecimento individual desde que a república foi inaugurada no país.
Até onde vai a simples ignorância ou burrice pura e simples de opiniões como a da historiadora do programa Jô Soares e onde começa a má fé, o desejo de induzir a opinião pública ao erro? É difícil precisar.
O financiamento público opcional ou exclusivo é um mecanismo de transparência do processo e não uma fonte de financiamento individual para "políticos". É uma forma, talvez a única, de garantir que a prática de Caixa Dois seja varrida do cenário nacional.
A imprensa plantou que o Caixa Dois é uma prática associada a PC Farias, caixa de campanha de Fernando Collor e a Delúbio Soares, tesoureiro do PT. Bem, isto é, no mínimo, uma injustiça histórica.
Em novembro de 2000, o jornal “Folha de São Paulo” publicou reportagem sobre contas paralelas do presidente reeleito em 1998, Fernando Henrique Cardoso. Segundo aquela reportagem, apresentada pela revista “Veja” naquele mesmo mês, o tesoureiro da campanha, Luiz Carlos Bresser Pereira, registrou o recebimento de R$ 43 milhões de contribuições para a campanha, deixando de declarar ao Tribunal Superior Eleitoral doações superiores a R$ 10 milhões, correspondentes a mais de 20% do total declarado.
Do ponto de vista da contabilidade oficial de campanha, são marcantes as diferenças de gastos nas campanhas eleitorais dos candidatos em 1998. Na campanha para os governadores eleitos menciona-se a divergência dos gastos declarados pelo governador
da Paraíba, José Maranhão, e pelo de Sergipe, Albano Franco, que montam R$ 116.500 e R$ 1,3 milhão, respectivamente. Já para o cargo de presidente, aquelas eleições registraram uma discrepância ainda maior, pois Ciro Gomes declarou ter gasto com a campanha R$ 1 milhão, Luiz Inácio da Silva, outros R$ 3,9 milhões, para um gasto de R$ 43 milhões declarados pelo candidato eleito Fernando Henrique Cardoso. Ora, se essa é uma prática enraizada no sistema político, ela só pode ser combatida com a mudança do sistema e não com declarações de intenções.
Desculpem a franqueza, mas atrás de seus discursos pomposos e indignados, os que defendem a manutenção do sistema atual de financiamento em campanha e a balbúrdia do sistema de coleta de votos sem lista partidária defendem, na prática, a manutenção da bandalheira. Afinal, o que será uma "reforma política" sem a mudança estrutural nessas duas áreas senão uma grande encenação para deixar tudo como está?
Os gastos de campanha podem ser financiados de duas formas: fundos públicos repassados pelo governo e contribuições privadas de eleitores organizados em grupos de interesse.
Estudos comprovam que quando há apenas contribuições privadas, como é o caso do Brasil na atualidade, a política vencedora é geralmente viesada em direção à plataforma ideal dos grupos economicamente dominantes, ou seja, têm por escopo os grupos privados e seus interesses.
Por outro lado, a representação dos partidos no Congresso tende a ser um pouco mais equilibrada. Quando há apenas contribuições públicas, a política vencedora é socialmente ótima. No entanto, a representação dos partidos passa a ser desigual com a bipolarização se tornando preponderante. É o caso da Inglaterra, onde a bipolarização entre conservadores e trabalhistas já dura um século.
É verdade que, se ambas contribuições são disponibilizadas, a política adotada é viesada em favor dos grupos sociais mais fortes e organizados e a representação dos partidos no Congresso torna-se assimétrica, com um partido dominante no longo prazo, como é o caso da França, por exemplo, que passou por um longo período de predomínio do Partido Socialista.
Por isso, o financiamento híbrido precisa vir associado ao fortalecimento dos partidos, à criação de regras mais rígidas para a manutenção de registros partidários e a adoção do voto em listas partidárias.
Democracia moderna não se faz com eleição. Até mesmo ditaduras fazem eleições e na Grécia antiga, a mãe da democracia, coexistiam eleições diretas com escravismo e opressão às mulheres e às crianças. Democracia moderna se faz com partidos fortes, ideológicos, programáticos e plurais.
O que quer dizer plurais? Que um partido de esquerda, por exemplo, pode ter em seu interior diferentes frações que convivam democraticamente exercitando o debate, sem que seja preciso que cada pequena fração se auto-proclame partido. Partidos fortes não são, necessariamente, monolíticos, mas devem, sempre, ter unidade doutrinária.
O que me surpreende no presente debate nacional sobre o tema da reforma política é a ignorância com que a imprensa majoritária trata a questão. Eu vi no programa Jô Soares uma historiadora dizer "é um absurdo usar dinheiro público para enriquecer políticos" e uma jornalista irritar-se com "o absurdo da gente não poder mais votar em quem a gente quiser" - ela referia-se ao voto em lista, a única forma de fortalecimento dos partidos capaz de dar musculatura ao raquítico sistema partidário nacional.
Quem defende financiamento público de campanha não quer "enriquecer políticos" e tratar a questão com essa pobreza de argumentos é querer desqualificar o debate previamente. Quem diz isso é que está a enriquecer políticos, porque prega a manutenção do sistema viciado que faz da política um fator de enriquecimento individual desde que a república foi inaugurada no país.
Até onde vai a simples ignorância ou burrice pura e simples de opiniões como a da historiadora do programa Jô Soares e onde começa a má fé, o desejo de induzir a opinião pública ao erro? É difícil precisar.
O financiamento público opcional ou exclusivo é um mecanismo de transparência do processo e não uma fonte de financiamento individual para "políticos". É uma forma, talvez a única, de garantir que a prática de Caixa Dois seja varrida do cenário nacional.
A imprensa plantou que o Caixa Dois é uma prática associada a PC Farias, caixa de campanha de Fernando Collor e a Delúbio Soares, tesoureiro do PT. Bem, isto é, no mínimo, uma injustiça histórica.
Em novembro de 2000, o jornal “Folha de São Paulo” publicou reportagem sobre contas paralelas do presidente reeleito em 1998, Fernando Henrique Cardoso. Segundo aquela reportagem, apresentada pela revista “Veja” naquele mesmo mês, o tesoureiro da campanha, Luiz Carlos Bresser Pereira, registrou o recebimento de R$ 43 milhões de contribuições para a campanha, deixando de declarar ao Tribunal Superior Eleitoral doações superiores a R$ 10 milhões, correspondentes a mais de 20% do total declarado.
Do ponto de vista da contabilidade oficial de campanha, são marcantes as diferenças de gastos nas campanhas eleitorais dos candidatos em 1998. Na campanha para os governadores eleitos menciona-se a divergência dos gastos declarados pelo governador
da Paraíba, José Maranhão, e pelo de Sergipe, Albano Franco, que montam R$ 116.500 e R$ 1,3 milhão, respectivamente. Já para o cargo de presidente, aquelas eleições registraram uma discrepância ainda maior, pois Ciro Gomes declarou ter gasto com a campanha R$ 1 milhão, Luiz Inácio da Silva, outros R$ 3,9 milhões, para um gasto de R$ 43 milhões declarados pelo candidato eleito Fernando Henrique Cardoso. Ora, se essa é uma prática enraizada no sistema político, ela só pode ser combatida com a mudança do sistema e não com declarações de intenções.
Desculpem a franqueza, mas atrás de seus discursos pomposos e indignados, os que defendem a manutenção do sistema atual de financiamento em campanha e a balbúrdia do sistema de coleta de votos sem lista partidária defendem, na prática, a manutenção da bandalheira. Afinal, o que será uma "reforma política" sem a mudança estrutural nessas duas áreas senão uma grande encenação para deixar tudo como está?
quarta-feira, abril 08, 2009
Imagens
G20: vítima fatal teria sido agredida por policiais
Um vídeo divulgado pela versão on-line do diário britânico "Guardian" e reproduzido pelo site de notícias G1, mostra o que seria a ação policial sobre Ian Tomlinson, semana passada, durante um protesto contra a reunião do G20 (grupo de líderes de países desenvolvidos e em desenvolvimento) em Londres.
Ian, de 47 anos, morreu de infarto no dia 1º no ato, em ato em frente ao Banco da Inglaterra, no distrito financeiro de Londres, na véspera da cúpula.
Segundo o jornal, as imagens teriam sido feitas por um americano em visita à cidade, às 19h29 daquele dia.
Nelas, o homem é empurrado por um policial e cai no chão. Outras pessoas ajudam-no então a se levantar.
A corregedoria da polícia local disse que as imagens serão avaliadas na investigação sobre a morte de Tomlinson. Está sendo apurado se o contato dele com os policiais contribuiu para provocar a sua morte.
Tomlinson não participava dos protestos. Jornaleiro, ele trabalhava em uma banca próximo ao local e tentava romper um cordão policial.
Imagens da Associated Press, feitas e divulgadas no dia, mostraram a polícia chegando e ameaçando um homem deitado no chão, em frente a uma cafeteria. No entanto, a agência não conseguiu comprovar se é o mesmo homem mostrado no vídeo do "Guardian". O video pode ser assistido no link:
http://www.guardian.co.uk/uk/2009/apr/07/video-g20-police-assault
O encontro do G20 foi um importante momento para a consolidação da liderança brasileira no mundo. Durante o evento, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, reconheceu que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva é o "político mais popular da Terra". Obama fez o comentário em uma roda de líderes mundiais, pouco antes do início da reunião do G20, em uma sala de conferência do Excel Center, em Londres.
Um vídeo da BBC registra a cena em que os dois se cumprimentam. Obama troca um aperto de mãos com o presidente brasileiro, olha para o primeiro-ministro da Austrália, Kevin Rudd, e diz, apontando para Lula: "Esse é o cara! Eu adoro esse cara!".
Em seguida, enquanto Lula cumprimenta Rudd, Obama diz, novamente apontando para Lula : "Esse é o político mais popular da Terra".
Rudd aproveita a deixa e diz : "O mais popular político de longo mandato".
"É porque ele é boa pinta", acrescenta Obama.
Após o encontro, líderes mundiais se comprometeram a regular grandes fundos de investimento pela primeira vez e criar um novo conselho de supervisão para monitorar o sistema financeiro global, de acordo com o esboço do comunicado oficial. O documento declara: "A era de segredos bancários acabou."
Ian, de 47 anos, morreu de infarto no dia 1º no ato, em ato em frente ao Banco da Inglaterra, no distrito financeiro de Londres, na véspera da cúpula.
Segundo o jornal, as imagens teriam sido feitas por um americano em visita à cidade, às 19h29 daquele dia.
Nelas, o homem é empurrado por um policial e cai no chão. Outras pessoas ajudam-no então a se levantar.
A corregedoria da polícia local disse que as imagens serão avaliadas na investigação sobre a morte de Tomlinson. Está sendo apurado se o contato dele com os policiais contribuiu para provocar a sua morte.
Tomlinson não participava dos protestos. Jornaleiro, ele trabalhava em uma banca próximo ao local e tentava romper um cordão policial.
Imagens da Associated Press, feitas e divulgadas no dia, mostraram a polícia chegando e ameaçando um homem deitado no chão, em frente a uma cafeteria. No entanto, a agência não conseguiu comprovar se é o mesmo homem mostrado no vídeo do "Guardian". O video pode ser assistido no link:
http://www.guardian.co.uk/uk/2009/apr/07/video-g20-police-assault
O encontro do G20 foi um importante momento para a consolidação da liderança brasileira no mundo. Durante o evento, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, reconheceu que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva é o "político mais popular da Terra". Obama fez o comentário em uma roda de líderes mundiais, pouco antes do início da reunião do G20, em uma sala de conferência do Excel Center, em Londres.
Um vídeo da BBC registra a cena em que os dois se cumprimentam. Obama troca um aperto de mãos com o presidente brasileiro, olha para o primeiro-ministro da Austrália, Kevin Rudd, e diz, apontando para Lula: "Esse é o cara! Eu adoro esse cara!".
Em seguida, enquanto Lula cumprimenta Rudd, Obama diz, novamente apontando para Lula : "Esse é o político mais popular da Terra".
Rudd aproveita a deixa e diz : "O mais popular político de longo mandato".
"É porque ele é boa pinta", acrescenta Obama.
Após o encontro, líderes mundiais se comprometeram a regular grandes fundos de investimento pela primeira vez e criar um novo conselho de supervisão para monitorar o sistema financeiro global, de acordo com o esboço do comunicado oficial. O documento declara: "A era de segredos bancários acabou."
terça-feira, abril 07, 2009
Moradia popular com design. Um desafio.
No momento em que o governo federal lança o mais ambicioso programa habitacional em mais de cinco décadas em um país que enfrenta um deficit habitacional de 7 milhões de unidades e onde as populações empobrecidas se amontoam em favelas e áreas de risco de inundação e desabamento, provoca curiosidade saber como serão as casas construídas com incentivo público nessa primeira fase do projeto.
Em geral, moradia popular é sinônimo de arquitetura ausente, conforto de conteiner e engenharia de linha de produção.
Quanto a este último item, nada a contestar, especialmente porque a necessidade obriga a se empregar uma velocidade imensa para compensar a inoperância dos governos passados, ciosos em pagar juros da dívida externa e ociosos em resolver os problemas do povo brasileiro.
A iniciativa do chamado "PAC da moradia" é extraordinariamente positiva especialmente em um cenário internacional de crise que desmonta a economia, desestimula investimentos e mina a auto-estima de indivíduos e coletividades.
Diante do peso da iniciativa, me ocorre uma preocupação quase prosaica: mas e o desenho das casas populares do projeto? Por que não melhorar para dar ao povo não apenas moradia, mas conforto e, de quebra, uma estética que fuja da sucessão de casebres que parecem pequenos galinheiros perfilados na paisagem?
Pois a X-House (http://www.xhouse.se), uma pequena construtora sueca que projeta casas pré fabricadas, fez um modelo simples, barato e muito bem desenhado de uma unidade habitacional projetada de acordo com critérios de ergonomia, bom senso estético e simetria, com angulações no telhado que possibilitam assimilar à arquitetura conceitos sustentáveis como energia solar e aproveitamento de água da chuva, sem destoar do todo.
Vejam aqui o modelo Selma, com 60m². Mas a construtora disponibiliza até mesmo unidades com 15m² que conseguem manter o padrão.
Seria um bom desafio lançar um concurso nacional para arquitetos, designers e engenheiros para que as novas moradias populares permanecessem baratas, mas incorporassem estética e conforto como itens de qualidade de vida.
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Em geral, moradia popular é sinônimo de arquitetura ausente, conforto de conteiner e engenharia de linha de produção.
Quanto a este último item, nada a contestar, especialmente porque a necessidade obriga a se empregar uma velocidade imensa para compensar a inoperância dos governos passados, ciosos em pagar juros da dívida externa e ociosos em resolver os problemas do povo brasileiro.
A iniciativa do chamado "PAC da moradia" é extraordinariamente positiva especialmente em um cenário internacional de crise que desmonta a economia, desestimula investimentos e mina a auto-estima de indivíduos e coletividades.
Diante do peso da iniciativa, me ocorre uma preocupação quase prosaica: mas e o desenho das casas populares do projeto? Por que não melhorar para dar ao povo não apenas moradia, mas conforto e, de quebra, uma estética que fuja da sucessão de casebres que parecem pequenos galinheiros perfilados na paisagem?
Pois a X-House (http://www.xhouse.se), uma pequena construtora sueca que projeta casas pré fabricadas, fez um modelo simples, barato e muito bem desenhado de uma unidade habitacional projetada de acordo com critérios de ergonomia, bom senso estético e simetria, com angulações no telhado que possibilitam assimilar à arquitetura conceitos sustentáveis como energia solar e aproveitamento de água da chuva, sem destoar do todo.
Vejam aqui o modelo Selma, com 60m². Mas a construtora disponibiliza até mesmo unidades com 15m² que conseguem manter o padrão.
Seria um bom desafio lançar um concurso nacional para arquitetos, designers e engenheiros para que as novas moradias populares permanecessem baratas, mas incorporassem estética e conforto como itens de qualidade de vida.
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domingo, abril 05, 2009
Versos, filosofia
Ninguém pode construir em teu lugar as pontes
que precisas passar, para atravessar o rio da vida
- ninguém, exceto tu, só tu.
Existe por certo atalhos sem número, e pontes,
e semideuses que se oferecerão para levar-te
além do rio: mas isso te custará
a tua própria pessoa:
tu te hipotecarias e te perderias.
Existe no mundo um único caminho
onde só tu podes passar. Onde leva?
Não pergunte, segue-o.
(F. Nietzsche)
que precisas passar, para atravessar o rio da vida
- ninguém, exceto tu, só tu.
Existe por certo atalhos sem número, e pontes,
e semideuses que se oferecerão para levar-te
além do rio: mas isso te custará
a tua própria pessoa:
tu te hipotecarias e te perderias.
Existe no mundo um único caminho
onde só tu podes passar. Onde leva?
Não pergunte, segue-o.
(F. Nietzsche)
sexta-feira, abril 03, 2009
Militante fashion
Quem foi que disse que militante tem que andar fora de moda? No site http://www.militantclothing.co.uk/ você pode comprar camisetas e outras peças de vestuário, com o design clássico da arte de rua, ornamentadas com a clássica estrela de cinco pontas sobre fundo vermelho, que está desde sempre associada aos movimentos de esquerda. A foto dos modelos foi feita com uma simples polaroid e o site tem um design moderno e leve. Pura comunicação militante.
quinta-feira, abril 02, 2009
José Saramago e o Dia da Mulher
Acabo de ver nos noticiários da televisão manifestações de mulheres em todo o mundo e pergunto-me uma vez mais que desgraçado mundo é este em que ainda metade da população tem que sair à rua para reivindicar o que para todos já deveria ser óbvio.
Chegam-me informações oficiais de solenes instituições que dizem que pelo mesmo trabalho a mulher cobra 16 por cento menos, e seguramente esta cifra está falseada para evitar a vergonha de uma diferença ainda maior. Dizem que os conselhos de administração funcionam melhor quando são compostos por mulheres, mas os governos não se atrevem a recomendar que quarenta por cento, já não digamos cinquenta, sejam compostos por mulheres, ainda que, quando chega o colapso, como na Islândia, chamem mulheres para dirigir a vida pública e a banca. Dizem que para evitar a corrupção na organização do trânsito em Lima vão colocar guardas mulheres, porque se comprovou que nem se deixam subornar nem pedem coimas. Sabemos que a sociedade não funcionaria sem o trabalho das mulheres, e que sem a conversação das mulheres, como escrevi há algum tempo, o planeta sairia da sua órbita, nem a casa nem quem nelas habitam teriam a qualidade humana que as mulheres colocam, enquanto os homens passam sem ver, ou, vendo, não se dão conta de que isto é coisa de dois e que o modelo masculino já não serve.
Continuo vendo manifestações de mulheres na rua. Elas sabem o que querem, isto é, não ser humilhadas, coisificadas, desprezadas, assassinadas. Querem ser avaliadas pelo seu trabalho e não pelo acidental de cada dia.
Dizem que as minhas melhores personagens são mulheres e creio que têm razão. Às vezes penso que as mulheres que descrevi são propostas que eu mesmo quereria seguir. Talvez sejam só exemplos, talvez não existam, mas de uma coisa estou seguro: com elas o caos não se teria instalado neste mundo porque sempre conheceram a dimensão do humano.
8 de Março - By José Saramago
Chegam-me informações oficiais de solenes instituições que dizem que pelo mesmo trabalho a mulher cobra 16 por cento menos, e seguramente esta cifra está falseada para evitar a vergonha de uma diferença ainda maior. Dizem que os conselhos de administração funcionam melhor quando são compostos por mulheres, mas os governos não se atrevem a recomendar que quarenta por cento, já não digamos cinquenta, sejam compostos por mulheres, ainda que, quando chega o colapso, como na Islândia, chamem mulheres para dirigir a vida pública e a banca. Dizem que para evitar a corrupção na organização do trânsito em Lima vão colocar guardas mulheres, porque se comprovou que nem se deixam subornar nem pedem coimas. Sabemos que a sociedade não funcionaria sem o trabalho das mulheres, e que sem a conversação das mulheres, como escrevi há algum tempo, o planeta sairia da sua órbita, nem a casa nem quem nelas habitam teriam a qualidade humana que as mulheres colocam, enquanto os homens passam sem ver, ou, vendo, não se dão conta de que isto é coisa de dois e que o modelo masculino já não serve.
Continuo vendo manifestações de mulheres na rua. Elas sabem o que querem, isto é, não ser humilhadas, coisificadas, desprezadas, assassinadas. Querem ser avaliadas pelo seu trabalho e não pelo acidental de cada dia.
Dizem que as minhas melhores personagens são mulheres e creio que têm razão. Às vezes penso que as mulheres que descrevi são propostas que eu mesmo quereria seguir. Talvez sejam só exemplos, talvez não existam, mas de uma coisa estou seguro: com elas o caos não se teria instalado neste mundo porque sempre conheceram a dimensão do humano.
8 de Março - By José Saramago
terça-feira, março 31, 2009
Globo e Folha de S Paulo: escolas às avessas
Maurício Dias, na Carta Capital que está nas bancas, lê a imprensa e revela como, ao partidarizar o noticiário e tornar-se um aríete da oposição, a grande imprensa dá diariamente uma aula magna de como não fazer jornalismo.
"Na Folha de S Paulo, apesar de não estar citado entre os partidos que teriam recebido dinheiro para o caixa 2, o PT foi o principal alvo. Para ilustrar a reportagem, o jornal optou por uma foto do presidente da Fiesp, Paulo Skaf, que aparecia em companhia do petista Patrus Ananias, que nada tem a ver com a história. O que dirá sobre isso o já desacreditado ombudsman do jornal?
Na coluna Painel, há três notas,a de abertura, inclusive, onde se afirma que o PT teme ser investigado nesse episódio. O redator, talvez por privilégios mediúnicos, manifesta o temor de um partido que até agora não está na lista divulgada, que inclui PSDB, DEM e PPS, entre outros.[...]"
"Esses exemplos refletem o espírito que norteou o trabalho da imprensa sobre o caso.
Seria bom que a Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP) fosse mais honesta quando condenasse as críticas que o presidente Lula faz à maneira como a imprensa brasileira trata o governo, os partidos aliados e, principalmente, o Partido dos Trabalhadores".
"Na Folha de S Paulo, apesar de não estar citado entre os partidos que teriam recebido dinheiro para o caixa 2, o PT foi o principal alvo. Para ilustrar a reportagem, o jornal optou por uma foto do presidente da Fiesp, Paulo Skaf, que aparecia em companhia do petista Patrus Ananias, que nada tem a ver com a história. O que dirá sobre isso o já desacreditado ombudsman do jornal?
Na coluna Painel, há três notas,a de abertura, inclusive, onde se afirma que o PT teme ser investigado nesse episódio. O redator, talvez por privilégios mediúnicos, manifesta o temor de um partido que até agora não está na lista divulgada, que inclui PSDB, DEM e PPS, entre outros.[...]"
"Esses exemplos refletem o espírito que norteou o trabalho da imprensa sobre o caso.
Seria bom que a Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP) fosse mais honesta quando condenasse as críticas que o presidente Lula faz à maneira como a imprensa brasileira trata o governo, os partidos aliados e, principalmente, o Partido dos Trabalhadores".
Frase
"O financiamento privado das campanhas eleitorais facilita e legaliza a promiscuidade entre as grandes empresas e os políticos. Para um partido de esquerda como o PT, essa promiscuidade é fatal"
Valter Pomar
Valter Pomar
sexta-feira, março 27, 2009
"O marketing moderno tem as digitais de Goebbels"
Entrevista conduzida pela jornalista Melanie Retz, da revista "Histórica!" tendo como tema as técnicas da propaganda do nacional-socialismo alemão e a atualidade dos métodos persuasivos daquele modelo de propaganda.
Retz - O que eles fizeram de diferente do que era feito anteriormente?
Cavalcante - Tudo, no sentido em que leram todas as referências anteriores e criaram seu próprio caminho semiótico. Há evidentes elementos da relação estímulo-resposta que estará, mais tarde, na base da cibernética de Norbert Wiener, por exemplo, e isso é novo.
A inovação está presente, também, se você compara a propaganda fascista com a hitlerista. Verá que os italianos guardavam um núcleo racional, que em Goebbels desaparece. O que chamo de “núcleo racional” é um elemento de ligação entre aquilo que se apresenta como “promessa” e aquilo que efetivamente será “entregue”.
Alguns chamam a esse método de “falácia lógica”, mas o termo é impreciso. As falácias, para se tornarem persuasivas, não precisam ser lógicas. Quando George W. Bush disse ao mundo que Saddan Russein tinha em seu poder armas de destruição em massa que colocaria em risco não apenas a segurança dos Estados Unidos, mas a vida na terra, um contingente gigantesco de pessoas acreditou nisso e não há qualquer lógica em um país possuir armas de destruição em massas dessa magnitude e não avançar (como faz os Estados Unidos, por exemplo) sobre seus contendores. Mas as pessoas acreditam. Por que? Por ser racional ou lógico? Ao contrário. É por se basear nos preconceitos, naquilo que já está na cabeça das pessoas, consolidado pela ideologia e pela cultura.
Domenach marca bem a diferença entre, por exemplo, a propaganda hitlerista e a propaganda bolchevique. Segundo ele, na concepção bolchevique a propaganda é “a tradução da tática”, mas os seus slogans correspondem sempre a uma realidade. Quando Lenin diz “pão, paz e terra” ele está dizendo que irá expropriar o latifúndio, distribuir terras e assinar a paz com os alemães. Quando Goebbels diz que vai à guerra “em defesa da civilização cristã” ele quer motivar as massas em torno do que as massas querem ouvir, mas não corresponde a uma intenção verdadeira. Goebbels e Hitler sabiam o que o povo queria ouvir e diziam o que o povo queria ouvir, ou seja, retroativamente poderíamos dizer que seriam discípulos dos grandes teóricos do marketing de hoje. Sabiam que a Alemanha derrotada e mergulhada na crise econômica precisava de um líder que unificasse o país e construir os símbolos e o discurso que consolidasse a promessa de dias melhores e de um país forte e respeitado era necessário e urgente. Nada se assemelha mais ao marketing de Kotler ou Trout & Ries do que isso. É pavloviano: a relação entre estímulo e recompensa se expressa em uma indução que pode ou não se realizar, mas cuja motivação não é a verdade, é o desejo.
Retz - Quais técnicas de propaganda utilizadas por Hitler ainda são amplamente utilizadas nos dias de hoje?
Cavalcante - A idéia de que a linha mestra da propaganda nunca deve ser abandonada, de que qualquer variação tem que afirmar a mesma coisa, de que o sucesso da propaganda é assegurado pela repetição e pela constância, são matrizes do marketing e da propaganda contemporâneos lançadas por Goebbels antes da tomada do poder e durante a campanha nazista na II Guerra Mundial.
As técnicas de geração de propaganda listadas por Domenach foram aquelas aperfeiçoadas e sistematizadas por Goebbels. Posso listá-las e afirmar que todas estão em prática na atualidade, usadas por partidos, governos, ONGs preservacionistas e corporações mundiais de marca. Algumas dessas técnicas se aplicam somente à propaganda político-ideológica, outras têm um desdobramento imediato na atividade comercial.
Chama-se "argumentum ad nauseam" a repetição incansável de uma idéia, que deve ser repetida suficientemente não para se tornar verdade, como dizem alguns, mas para se tornar familiar ao ponto de parecer verdade. Esta técnica funciona melhor quando se tem acesso ilimitado à mídia. Ao contrário do que se diz, também, não é preciso ter o “controle” sobre os meios, basta ter acesso privilegiado a eles para impor o Argumentum ad nauseam.
"Apelo à autoridade" é a citação de uma figura proeminente para apoiar um posicionamento, idéia, argumento ou alguma ação em desenvolvimento. No marketing comercial isso se aplica quando um produto se reporta a uma marca notória ou quando ela usa um personagem conhecido para anunciá-la.
Já o "Apelo ao medo" é a busca de apoio a uma idéia ou causa ou pessoa, instigando o medo na população em geral. Goebbels usou o livro "Os Alemães devem Morrer", de Theodore Kaufman, para afirmar que os Aliados procuravam o extermínio do povo alemão e, com isso, obter o apoio do povo. No marketing comercial isso se aplica quando você agrega à uma marca atributos que remetem à felicidade, à realização e ao êxito, dando a impressão de que não usufruir desse produto ou marca nos condenará ao isolamento social e à infelicidade. Há um comercial de uma marca de desodorante que mostra como o rapaz franzino e feio torna-se atraente ao sexo oposto ao usá-lo. A mensagem aparentamente positiva guarda o seu oposto de modo subjacente: o medo de que o não uso desse produto acarrete em solidão e insucesso reprodutivo.
"Bode Expiatório" é a técnica de atribuir culpa a um indivíduo ou grupo que não seja efetivamente responsável, aliviando sentimentos de culpa de partes responsáveis ou desviando a atenção da necessidade de resolver um problema cuja culpa foi atribuída àquele que está emitindo a propaganda.
Chama-se "Desaprovação" a técnica usada para criar rejeição a uma ação ou idéia sugerindo que ela é popular entre grupos odiados, ameaçadores ou que estejam em conflito com o público-alvo. Assim, se um grupo que apoia uma idéia é levado a crer que pessoas indesejáveis e conflitantes também a apoiam, os membros do grupo podem decidir mudar sua posição.
"Efeito dominó" ou "vitória inevitável" é a técnica de buscar convencer a audiência a colaborar com uma ação "com a qual todos estão colaborando" ou "junte-se a nós". Essa técnica reforça o desejo natural das pessoas de estar no lado vitorioso e visa a convencer a audiência que um programa é a expressão de um movimento de massa irresistível e que é de seu interesse se juntar a ele. A "vitória inevitável" incita aqueles que ainda não aderiram a um projeto a fazê-lo, pois a vitória é certa. Os que já aderiram se sentem confortados com a idéia de que tomaram a decisão correta e apropriada.
"Estereotipificação ou Rotulagem" é a técnica que busca provocar a rejeição em uma audiência rotulando o objeto da campanha de propaganda como algo que o público-alvo teme, desgosta, tem aversão ou considera indesejável.
O uso do "Homem comum" ou “homem comum” como ícone de agregação é uma técnica comum, que busca convencer a audiência de que as posições do propagandista possuem identidade direta com o público-alvo. É utilizada para obter a confiança do público comunicando-se da maneira comum e no estilo da audiência. Propagandistas usam a linguagem e modos comuns (e até as roupas, quando em comunicações audiovisuais presenciais) numa busca de identificar seus pontos de vista com aqueles da "pessoa média". Um exemplo no marketing comercial é a comunicação das Casas Bahia, que mostram como “garoto propaganda” sempre alguém que parece com a media da população e se veste de modo a despertar identidade com o público.
A técnica das "Palavras Virtuosas" consiste em usar palavras tiradas do sistema de valores do público-alvo, tendem a produzir uma imagem positiva quando associadas a uma pessoa ou causa. Exemplos mais comuns são paz, felicidade, segurança, liderança, liberdade, etc.
"Propaganda Enganosa" é um termo de conhecimento universal. Consiste em oferecer o que não se tem, forçando o comprador, ou consumidor a comprar outro produto, a idéia é chamar a atenção e aumentar as vendas, mesmo que uma parcela mínima desista de comprar ou a repulsar a empresa. No marketing comercial a propaganda enganosa é passível de ações judiciais segundo a legislação brasileira, mas o fato de haver lei específica para isso é sinal de que sua aplicabilidade é possível.
Na técnica da "Racionalização", indivíduos ou grupos usam afirmações genéricas favoráveis para racionalizar e justificar atos e crenças questionáveis. Frases genéricas e agradáveis são frequentemente usadas para justificar essas ações ou crenças.
Todo mundo sabe o que é um slogan, mas a técnica do slogan surgiu na propaganda política. Consiste no uso de uma frase curta e impactante que pode incluir “rotulação”. Se slogans podem ser criados a respeito de determinada idéia, devem sê-lo, pois bons slogans são idéias auto-perpetuáveis. “Se é Bayer é bom” é um slogan tão simples e bom quanto “Cinqüenta anos em cinco”. Ambos são são conceitos que se expandem.
Os nazistas usavam também a chamada "Super-simplificação", afirmações vagas, favoráveis, são usadas para prover respostas simples para complexos problemas sociais, políticos, econômicos ou militares. Na comunicação mercadológica ela apresenta soluções simples resolvidas por artefatos que parecem mágicos. A comunicação do iPhone diz "Pense diferente". Ou seja, se você tem um iPhone você não tem um aparelho de telefone que pode conectar à internet e receber emails, você tem estilo, personalidade e distingue-se dos demais. A objetividade é submetida a uma subjetividade poderosa e infalível.
Outra técnica era o uso de "Termos de Efeito", palavras de intenso apelo emocional tão intimamente associadas a conceitos e crenças muito valorizados que convencem sem a necessidade de informação ou razões que as apoiem. Elas apelam para emoções como o amor à pátria, lar, desejo de paz, liberdade, glória, honra, etc. Solicitam o apoio sem o exame da razão. Embora as palavras e frases sejam vagas e sugiram coisas diferentes para pessoas diferentes, sua conotação é sempre favorável.
A igreja criou o "Testemunho", que foi apropriado pela propaganda política. Testemunhos são depoimentos, citações, dentro ou fora de contexto, efetuadas especialmente para apoiar ou rejeitar uma idéia, ação, programa ou personalidade. Explora-se a reputação ou papel (especialista, figura pública respeitada, etc.) daquele que é citado. O testemunho dá uma sanção oficial de uma pessoa ou autoridade respeitada à mensagem de propaganda. Isso é feito num esforço de causar no público-alvo uma identificação com a autoridade ou para que aceite a opinião da autoridade como sua própria.
A técnica de projetar qualidades positivas ou negativas (elogios ou censuras) de uma pessoa, entidade, objetivo ou valor (de um indivíduo, grupo, organização, nação, raça, etc.) para outro, objetivando tornar esse segundo mais aceitável ou desacreditá-lo chama-se "Transferência". Essa técnica é geralmente usada para transferir culpa de uma parte em conflito para outra. Ela evoca uma resposta emocional, que estimula o público-alvo a identificar-se com autoridades reconhecidas.
Afirmações deliberadamente vagas, ou "vagueidade intencional", tem por objetivo deixar que a audiência possa interpretá-las livremente. A intenção é mobilizar a audiência pelo uso de frases indefinidas, sem que se analise sua validade ou determine sua razoabilidade ou aplicação.
Esses métodos e técnicas consagrados por Goebbels ainda estão em uso, seja no marketing político ou institucional, seja no marketing comercial.
Retz - O senhor acredita que a construção de uma identidade visual para o Nazismo e para o próprio Hitler contribuíram para a difusão da ideologia nazista?
Cavalcante - Sim, a identidade visual teve um papel importantíssimo como parte do sistema de comunicação aplicado àquela conjuntura.
Em marketing se diz que a personalidade de uma instituição ou produto pode alcançar a complexidade de um indivíduo, por isso, para se destacar das demais, a corporação deve se tornar marca, uma maneira simples de manipular e controlar sua capacidade de informação, evolução e maturação assim como seu deslocamento no tempo e no espaço.
A imagem gráfica da marca do partido nacional-socialista é tão impactante quanto bem elaborada. Vermelho, branco, e preto – as cores usadas por Hitler - já eram as cores da bandeira do velho Império Alemão, mas a princípio a bandeira nazista era preto e branca. O vermelho foi introduzido para disputar o visual com as organizações de esquerda, o Partido Social-Democrata e o Partido Comunista.
Perceba que eles não tinham apenas um logotipo, mas uma marca – logotipo + imagotipo + desenho aplicado – ou seja, tinham uma identidade visual complexa, com variáveis do desenho básico, diferentes formas de aplicá-los, tipologia definida, logotipos de produtos derivados (a SS nazista tinha logo própria, mas que estava associada como design ao logotipo matriz). A identidade visual era, junto com a retórica dirigida de maneira precisa, elemento estrutural da difusão do discurso e da conduta de agregação do nazismo.
É certo que a Igreja, os romanos e mesmo os jacobinos ou os patriarcas da revolução norte-americana utilizaram elementos formadores da idéia de identidade visual, mas nenhum deles os utilizou em sua plenitude e cabalidade, de forma sistêmica, como “desenho corporativo”, como signo verbal, fonético e gráfico que, juntos, projetam uma imagem.
A escolha da suástica ou cruz gamada como símbolo do partido foi deliberada. Sociedades teosóficas nos Estados Unidos usavam o símbolo muito antes do nazismo. É um ícone místico associado à pureza e ao poder em muitas culturas em tempos diferentes, dos índios Hopi aos Astecas, dos Celtas aos Budistas, dos Gregos aos Hindus. Na forma como foi apropriada pelos nazistas, os “braços” do desenho estão apontando para o sentido horário, ou seja, indo para a direita e gira a figura de modo a um dos braços esteja sempre no topo. A força da marca é tamanha que no Brasil seu uso é crime, de acordo com a lei 7.716. O símbolo, a representação gráfica, tornou-se “a coisa em si”, no sentido em que Karel Cosig dá ao termo em seu livro “Dialética do Concreto”.
Retz - A preocupação com os discursos, com o enquadramento das fotos, o bigode característico, as fotos com crianças e animais, a construção de obras enormes, a preocupação com a simetria, os uniformes impecáveis de suas forças armadas, a cadência e disciplina das marchas, os gritos de guerra, o jogo de luzes, a repetição da suástica. Tudo isso pode ser considerado tática de propaganda?
Cavalcante - Tudo isso é propaganda. Alguns chamam à propaganda nazista de “técnicas de desinformação”. Esse conceito é uma idiotice imposta pelo departamento de Estado dos Estados Unidos. Não há desinformação na propaganda nazista. O que é há é informação dirigida. A política nazista e sua ideologia são anti-humanistas e devem ser combatidas, mas não podemos dizer que eles “desinformam” ao manipular o sentido da informação. Eles informam de muitas maneiras porque essa informação não é apenas verbal. Der Triumph des Willens (O triunfo da vontade), por exemplo, dirigido e montado por Leni Riefenstahl, é uma aula de como informar “poder” de modo cabal. Ali se inaugurou a linguagem do documentário moderno e se criou muitos dos planos de câmera e de direção de fotografia que depois seriam usados pela publicidade comercial e nos vídeos-clips.
Retz - Hitler conseguiu convencer uma das populações mais cultas do mundo sobre suas idéias. O senhor acredita que isso se deve, em grande parte, à propaganda (a propaganda tem realmente toda essa força?) ou a crise social e o fato de ele se basear em conceitos e preconceitos comuns aos alemães (como a mitologia nórdica e o anti-semitismo) também teve grande peso?
Cavalcante - O subjetivo só se propaga quando há uma objetividade que a legitime. A propaganda não teria sido bem sucedida se as condições materiais não fossem favoráveis. Mas as condições materiais poderiam ter passado ao largo se a subjetividade dos formuladores e ideólogos do nazismo não tivessem tido a capacidade de percebê-la, de introduzir seus elementos persuasivos e neutralizar o argumento adversário. A boa propaganda não prospera senão no terreno que lhe foi preparado.
Retz - Em seu texto no blog, o senhor comenta que Hitler dizia que "as massas não se lembrarão das idéias mais simples a menos que sejam repetidas centenas de vezes" e que a "palavra de ordem" deve ser apresentada sob diferentes aspectos mas sempre apresentando a mesma fórmula, as alterações na propaganda não devem prejudicar o fundo dos "ensinamentos a que se propõe", apenas a forma. A propaganda hoje segue esse mesmo princípio?
Cavalcante - Existe em marketing, desde a década de 50, um conceito que atravessou os anos e parece se eternizar: Unique Selling Proposition (em português, Proposição Única de Venda). O que é USP? Significa que “o consumidor tem que recordar apenas uma coisa de um anúncio: um só argumento de venda, um só conceito sobressalente”, escreveu Rosser Reeves em 1960. As lições de Reeves formam um sistema completo de estratégia publicitária, calcado, é claro, nos ensinamentos de Goebbels: 1) todo anúncio deve fazer uma proposição concreta ao consumidor; 2) a proposição deve ser algo que a concorrência não pode dar ou que a esta não ocorreu mencionar; 3) a proposição deve ter uma força que seja capaz de influenciar milhões de pessoas, quer dizer, deve criar legiões de novos consumidores desse produto.
A palavra “Unique” tem um triplo sentido: único, só e nada mais. Quer dizer, o que estamos propondo ninguém mais pode propor. O que o nazismo propunha? Após a humilhação da derrota na I Guerra, uma Alemanha de pé, um império forte e próspero, superior, indutor de cultura e de conceitos, “a nova Roma” de dois mil anos. A guerra, o fim das liberdades democráticas, o regime de partido único, o assassinato de comunistas e judeus, tudo isso estava a serviço da proposição única de venda, daquilo que fazia daquele grupo de pessoas e de suas idéias, “pessoas especiais”.
Podemos ver traços desses pressupostos nas religiões e nas corporações de marca. Ter USP faz do nosso produto ou serviço algo incomparável e superior.
“Se não temos uma proposta tão boa como para que possa ser única, é que não temos uma boa proposta”, escreveu Reeves.
Quem não vê no marketing moderno, e não apenas no marketing político de nossos dias, as digitais de Goebbels é cego ou simplesmente não sabe ler.
Retz - O que eles fizeram de diferente do que era feito anteriormente?
Cavalcante - Tudo, no sentido em que leram todas as referências anteriores e criaram seu próprio caminho semiótico. Há evidentes elementos da relação estímulo-resposta que estará, mais tarde, na base da cibernética de Norbert Wiener, por exemplo, e isso é novo.
A inovação está presente, também, se você compara a propaganda fascista com a hitlerista. Verá que os italianos guardavam um núcleo racional, que em Goebbels desaparece. O que chamo de “núcleo racional” é um elemento de ligação entre aquilo que se apresenta como “promessa” e aquilo que efetivamente será “entregue”.
Alguns chamam a esse método de “falácia lógica”, mas o termo é impreciso. As falácias, para se tornarem persuasivas, não precisam ser lógicas. Quando George W. Bush disse ao mundo que Saddan Russein tinha em seu poder armas de destruição em massa que colocaria em risco não apenas a segurança dos Estados Unidos, mas a vida na terra, um contingente gigantesco de pessoas acreditou nisso e não há qualquer lógica em um país possuir armas de destruição em massas dessa magnitude e não avançar (como faz os Estados Unidos, por exemplo) sobre seus contendores. Mas as pessoas acreditam. Por que? Por ser racional ou lógico? Ao contrário. É por se basear nos preconceitos, naquilo que já está na cabeça das pessoas, consolidado pela ideologia e pela cultura.
Domenach marca bem a diferença entre, por exemplo, a propaganda hitlerista e a propaganda bolchevique. Segundo ele, na concepção bolchevique a propaganda é “a tradução da tática”, mas os seus slogans correspondem sempre a uma realidade. Quando Lenin diz “pão, paz e terra” ele está dizendo que irá expropriar o latifúndio, distribuir terras e assinar a paz com os alemães. Quando Goebbels diz que vai à guerra “em defesa da civilização cristã” ele quer motivar as massas em torno do que as massas querem ouvir, mas não corresponde a uma intenção verdadeira. Goebbels e Hitler sabiam o que o povo queria ouvir e diziam o que o povo queria ouvir, ou seja, retroativamente poderíamos dizer que seriam discípulos dos grandes teóricos do marketing de hoje. Sabiam que a Alemanha derrotada e mergulhada na crise econômica precisava de um líder que unificasse o país e construir os símbolos e o discurso que consolidasse a promessa de dias melhores e de um país forte e respeitado era necessário e urgente. Nada se assemelha mais ao marketing de Kotler ou Trout & Ries do que isso. É pavloviano: a relação entre estímulo e recompensa se expressa em uma indução que pode ou não se realizar, mas cuja motivação não é a verdade, é o desejo.
Retz - Quais técnicas de propaganda utilizadas por Hitler ainda são amplamente utilizadas nos dias de hoje?
Cavalcante - A idéia de que a linha mestra da propaganda nunca deve ser abandonada, de que qualquer variação tem que afirmar a mesma coisa, de que o sucesso da propaganda é assegurado pela repetição e pela constância, são matrizes do marketing e da propaganda contemporâneos lançadas por Goebbels antes da tomada do poder e durante a campanha nazista na II Guerra Mundial.
As técnicas de geração de propaganda listadas por Domenach foram aquelas aperfeiçoadas e sistematizadas por Goebbels. Posso listá-las e afirmar que todas estão em prática na atualidade, usadas por partidos, governos, ONGs preservacionistas e corporações mundiais de marca. Algumas dessas técnicas se aplicam somente à propaganda político-ideológica, outras têm um desdobramento imediato na atividade comercial.
Chama-se "argumentum ad nauseam" a repetição incansável de uma idéia, que deve ser repetida suficientemente não para se tornar verdade, como dizem alguns, mas para se tornar familiar ao ponto de parecer verdade. Esta técnica funciona melhor quando se tem acesso ilimitado à mídia. Ao contrário do que se diz, também, não é preciso ter o “controle” sobre os meios, basta ter acesso privilegiado a eles para impor o Argumentum ad nauseam.
"Apelo à autoridade" é a citação de uma figura proeminente para apoiar um posicionamento, idéia, argumento ou alguma ação em desenvolvimento. No marketing comercial isso se aplica quando um produto se reporta a uma marca notória ou quando ela usa um personagem conhecido para anunciá-la.
Já o "Apelo ao medo" é a busca de apoio a uma idéia ou causa ou pessoa, instigando o medo na população em geral. Goebbels usou o livro "Os Alemães devem Morrer", de Theodore Kaufman, para afirmar que os Aliados procuravam o extermínio do povo alemão e, com isso, obter o apoio do povo. No marketing comercial isso se aplica quando você agrega à uma marca atributos que remetem à felicidade, à realização e ao êxito, dando a impressão de que não usufruir desse produto ou marca nos condenará ao isolamento social e à infelicidade. Há um comercial de uma marca de desodorante que mostra como o rapaz franzino e feio torna-se atraente ao sexo oposto ao usá-lo. A mensagem aparentamente positiva guarda o seu oposto de modo subjacente: o medo de que o não uso desse produto acarrete em solidão e insucesso reprodutivo.
"Bode Expiatório" é a técnica de atribuir culpa a um indivíduo ou grupo que não seja efetivamente responsável, aliviando sentimentos de culpa de partes responsáveis ou desviando a atenção da necessidade de resolver um problema cuja culpa foi atribuída àquele que está emitindo a propaganda.
Chama-se "Desaprovação" a técnica usada para criar rejeição a uma ação ou idéia sugerindo que ela é popular entre grupos odiados, ameaçadores ou que estejam em conflito com o público-alvo. Assim, se um grupo que apoia uma idéia é levado a crer que pessoas indesejáveis e conflitantes também a apoiam, os membros do grupo podem decidir mudar sua posição.
"Efeito dominó" ou "vitória inevitável" é a técnica de buscar convencer a audiência a colaborar com uma ação "com a qual todos estão colaborando" ou "junte-se a nós". Essa técnica reforça o desejo natural das pessoas de estar no lado vitorioso e visa a convencer a audiência que um programa é a expressão de um movimento de massa irresistível e que é de seu interesse se juntar a ele. A "vitória inevitável" incita aqueles que ainda não aderiram a um projeto a fazê-lo, pois a vitória é certa. Os que já aderiram se sentem confortados com a idéia de que tomaram a decisão correta e apropriada.
"Estereotipificação ou Rotulagem" é a técnica que busca provocar a rejeição em uma audiência rotulando o objeto da campanha de propaganda como algo que o público-alvo teme, desgosta, tem aversão ou considera indesejável.
O uso do "Homem comum" ou “homem comum” como ícone de agregação é uma técnica comum, que busca convencer a audiência de que as posições do propagandista possuem identidade direta com o público-alvo. É utilizada para obter a confiança do público comunicando-se da maneira comum e no estilo da audiência. Propagandistas usam a linguagem e modos comuns (e até as roupas, quando em comunicações audiovisuais presenciais) numa busca de identificar seus pontos de vista com aqueles da "pessoa média". Um exemplo no marketing comercial é a comunicação das Casas Bahia, que mostram como “garoto propaganda” sempre alguém que parece com a media da população e se veste de modo a despertar identidade com o público.
A técnica das "Palavras Virtuosas" consiste em usar palavras tiradas do sistema de valores do público-alvo, tendem a produzir uma imagem positiva quando associadas a uma pessoa ou causa. Exemplos mais comuns são paz, felicidade, segurança, liderança, liberdade, etc.
"Propaganda Enganosa" é um termo de conhecimento universal. Consiste em oferecer o que não se tem, forçando o comprador, ou consumidor a comprar outro produto, a idéia é chamar a atenção e aumentar as vendas, mesmo que uma parcela mínima desista de comprar ou a repulsar a empresa. No marketing comercial a propaganda enganosa é passível de ações judiciais segundo a legislação brasileira, mas o fato de haver lei específica para isso é sinal de que sua aplicabilidade é possível.
Na técnica da "Racionalização", indivíduos ou grupos usam afirmações genéricas favoráveis para racionalizar e justificar atos e crenças questionáveis. Frases genéricas e agradáveis são frequentemente usadas para justificar essas ações ou crenças.
Todo mundo sabe o que é um slogan, mas a técnica do slogan surgiu na propaganda política. Consiste no uso de uma frase curta e impactante que pode incluir “rotulação”. Se slogans podem ser criados a respeito de determinada idéia, devem sê-lo, pois bons slogans são idéias auto-perpetuáveis. “Se é Bayer é bom” é um slogan tão simples e bom quanto “Cinqüenta anos em cinco”. Ambos são são conceitos que se expandem.
Os nazistas usavam também a chamada "Super-simplificação", afirmações vagas, favoráveis, são usadas para prover respostas simples para complexos problemas sociais, políticos, econômicos ou militares. Na comunicação mercadológica ela apresenta soluções simples resolvidas por artefatos que parecem mágicos. A comunicação do iPhone diz "Pense diferente". Ou seja, se você tem um iPhone você não tem um aparelho de telefone que pode conectar à internet e receber emails, você tem estilo, personalidade e distingue-se dos demais. A objetividade é submetida a uma subjetividade poderosa e infalível.
Outra técnica era o uso de "Termos de Efeito", palavras de intenso apelo emocional tão intimamente associadas a conceitos e crenças muito valorizados que convencem sem a necessidade de informação ou razões que as apoiem. Elas apelam para emoções como o amor à pátria, lar, desejo de paz, liberdade, glória, honra, etc. Solicitam o apoio sem o exame da razão. Embora as palavras e frases sejam vagas e sugiram coisas diferentes para pessoas diferentes, sua conotação é sempre favorável.
A igreja criou o "Testemunho", que foi apropriado pela propaganda política. Testemunhos são depoimentos, citações, dentro ou fora de contexto, efetuadas especialmente para apoiar ou rejeitar uma idéia, ação, programa ou personalidade. Explora-se a reputação ou papel (especialista, figura pública respeitada, etc.) daquele que é citado. O testemunho dá uma sanção oficial de uma pessoa ou autoridade respeitada à mensagem de propaganda. Isso é feito num esforço de causar no público-alvo uma identificação com a autoridade ou para que aceite a opinião da autoridade como sua própria.
A técnica de projetar qualidades positivas ou negativas (elogios ou censuras) de uma pessoa, entidade, objetivo ou valor (de um indivíduo, grupo, organização, nação, raça, etc.) para outro, objetivando tornar esse segundo mais aceitável ou desacreditá-lo chama-se "Transferência". Essa técnica é geralmente usada para transferir culpa de uma parte em conflito para outra. Ela evoca uma resposta emocional, que estimula o público-alvo a identificar-se com autoridades reconhecidas.
Afirmações deliberadamente vagas, ou "vagueidade intencional", tem por objetivo deixar que a audiência possa interpretá-las livremente. A intenção é mobilizar a audiência pelo uso de frases indefinidas, sem que se analise sua validade ou determine sua razoabilidade ou aplicação.
Esses métodos e técnicas consagrados por Goebbels ainda estão em uso, seja no marketing político ou institucional, seja no marketing comercial.
Retz - O senhor acredita que a construção de uma identidade visual para o Nazismo e para o próprio Hitler contribuíram para a difusão da ideologia nazista?
Cavalcante - Sim, a identidade visual teve um papel importantíssimo como parte do sistema de comunicação aplicado àquela conjuntura.
Em marketing se diz que a personalidade de uma instituição ou produto pode alcançar a complexidade de um indivíduo, por isso, para se destacar das demais, a corporação deve se tornar marca, uma maneira simples de manipular e controlar sua capacidade de informação, evolução e maturação assim como seu deslocamento no tempo e no espaço.
A imagem gráfica da marca do partido nacional-socialista é tão impactante quanto bem elaborada. Vermelho, branco, e preto – as cores usadas por Hitler - já eram as cores da bandeira do velho Império Alemão, mas a princípio a bandeira nazista era preto e branca. O vermelho foi introduzido para disputar o visual com as organizações de esquerda, o Partido Social-Democrata e o Partido Comunista.
Perceba que eles não tinham apenas um logotipo, mas uma marca – logotipo + imagotipo + desenho aplicado – ou seja, tinham uma identidade visual complexa, com variáveis do desenho básico, diferentes formas de aplicá-los, tipologia definida, logotipos de produtos derivados (a SS nazista tinha logo própria, mas que estava associada como design ao logotipo matriz). A identidade visual era, junto com a retórica dirigida de maneira precisa, elemento estrutural da difusão do discurso e da conduta de agregação do nazismo.
É certo que a Igreja, os romanos e mesmo os jacobinos ou os patriarcas da revolução norte-americana utilizaram elementos formadores da idéia de identidade visual, mas nenhum deles os utilizou em sua plenitude e cabalidade, de forma sistêmica, como “desenho corporativo”, como signo verbal, fonético e gráfico que, juntos, projetam uma imagem.
A escolha da suástica ou cruz gamada como símbolo do partido foi deliberada. Sociedades teosóficas nos Estados Unidos usavam o símbolo muito antes do nazismo. É um ícone místico associado à pureza e ao poder em muitas culturas em tempos diferentes, dos índios Hopi aos Astecas, dos Celtas aos Budistas, dos Gregos aos Hindus. Na forma como foi apropriada pelos nazistas, os “braços” do desenho estão apontando para o sentido horário, ou seja, indo para a direita e gira a figura de modo a um dos braços esteja sempre no topo. A força da marca é tamanha que no Brasil seu uso é crime, de acordo com a lei 7.716. O símbolo, a representação gráfica, tornou-se “a coisa em si”, no sentido em que Karel Cosig dá ao termo em seu livro “Dialética do Concreto”.
Retz - A preocupação com os discursos, com o enquadramento das fotos, o bigode característico, as fotos com crianças e animais, a construção de obras enormes, a preocupação com a simetria, os uniformes impecáveis de suas forças armadas, a cadência e disciplina das marchas, os gritos de guerra, o jogo de luzes, a repetição da suástica. Tudo isso pode ser considerado tática de propaganda?
Cavalcante - Tudo isso é propaganda. Alguns chamam à propaganda nazista de “técnicas de desinformação”. Esse conceito é uma idiotice imposta pelo departamento de Estado dos Estados Unidos. Não há desinformação na propaganda nazista. O que é há é informação dirigida. A política nazista e sua ideologia são anti-humanistas e devem ser combatidas, mas não podemos dizer que eles “desinformam” ao manipular o sentido da informação. Eles informam de muitas maneiras porque essa informação não é apenas verbal. Der Triumph des Willens (O triunfo da vontade), por exemplo, dirigido e montado por Leni Riefenstahl, é uma aula de como informar “poder” de modo cabal. Ali se inaugurou a linguagem do documentário moderno e se criou muitos dos planos de câmera e de direção de fotografia que depois seriam usados pela publicidade comercial e nos vídeos-clips.
Retz - Hitler conseguiu convencer uma das populações mais cultas do mundo sobre suas idéias. O senhor acredita que isso se deve, em grande parte, à propaganda (a propaganda tem realmente toda essa força?) ou a crise social e o fato de ele se basear em conceitos e preconceitos comuns aos alemães (como a mitologia nórdica e o anti-semitismo) também teve grande peso?
Cavalcante - O subjetivo só se propaga quando há uma objetividade que a legitime. A propaganda não teria sido bem sucedida se as condições materiais não fossem favoráveis. Mas as condições materiais poderiam ter passado ao largo se a subjetividade dos formuladores e ideólogos do nazismo não tivessem tido a capacidade de percebê-la, de introduzir seus elementos persuasivos e neutralizar o argumento adversário. A boa propaganda não prospera senão no terreno que lhe foi preparado.
Retz - Em seu texto no blog, o senhor comenta que Hitler dizia que "as massas não se lembrarão das idéias mais simples a menos que sejam repetidas centenas de vezes" e que a "palavra de ordem" deve ser apresentada sob diferentes aspectos mas sempre apresentando a mesma fórmula, as alterações na propaganda não devem prejudicar o fundo dos "ensinamentos a que se propõe", apenas a forma. A propaganda hoje segue esse mesmo princípio?
Cavalcante - Existe em marketing, desde a década de 50, um conceito que atravessou os anos e parece se eternizar: Unique Selling Proposition (em português, Proposição Única de Venda). O que é USP? Significa que “o consumidor tem que recordar apenas uma coisa de um anúncio: um só argumento de venda, um só conceito sobressalente”, escreveu Rosser Reeves em 1960. As lições de Reeves formam um sistema completo de estratégia publicitária, calcado, é claro, nos ensinamentos de Goebbels: 1) todo anúncio deve fazer uma proposição concreta ao consumidor; 2) a proposição deve ser algo que a concorrência não pode dar ou que a esta não ocorreu mencionar; 3) a proposição deve ter uma força que seja capaz de influenciar milhões de pessoas, quer dizer, deve criar legiões de novos consumidores desse produto.
A palavra “Unique” tem um triplo sentido: único, só e nada mais. Quer dizer, o que estamos propondo ninguém mais pode propor. O que o nazismo propunha? Após a humilhação da derrota na I Guerra, uma Alemanha de pé, um império forte e próspero, superior, indutor de cultura e de conceitos, “a nova Roma” de dois mil anos. A guerra, o fim das liberdades democráticas, o regime de partido único, o assassinato de comunistas e judeus, tudo isso estava a serviço da proposição única de venda, daquilo que fazia daquele grupo de pessoas e de suas idéias, “pessoas especiais”.
Podemos ver traços desses pressupostos nas religiões e nas corporações de marca. Ter USP faz do nosso produto ou serviço algo incomparável e superior.
“Se não temos uma proposta tão boa como para que possa ser única, é que não temos uma boa proposta”, escreveu Reeves.
Quem não vê no marketing moderno, e não apenas no marketing político de nossos dias, as digitais de Goebbels é cego ou simplesmente não sabe ler.
quarta-feira, março 25, 2009
A Globo, o Fim do Mundo e a moradia popular
Nesta quarta-feira, 25, na apresentação do pacote habitacional do governo federal em Brasília, a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Roussef (na foto ao lado), disse que o programa habitacional não é emergencial. É estrutural.Segundo ela, é fundamental que a União subsidie a construção de casas para diminuir o déficit habitacional. "Não é possível acreditar que a preço de mercado a população de baixa renda terá acesso a moradia sem auxílio do poder público", afirmou a Ministra.
Dilma disse que o programa de habitação integra o modelo de desenvolvimento do governo Lula porque centra não só no aumento das possibilidades das famílias de baixa renda terem acesso à compra da casa própria, mas também será um gerador de emprego e renda.
"Nesse sentido, o programa é uma grande novidade já que a última ação de Estado com vista a acesso da população à casa própria foi feito há cerca de 20 ou 30 anos, com o BNH (Banco Nacional de Habitação)", afirmou. A ministra disse ainda que o programa tem uma função anticíclica.
Segundo ela, outro objetivo do modelo definido para o programa é compatibilizar o valor da prestação que será pago pelas famílias com a sua capacidade de pagamento. Dilma afirmou que não há como a faixa de renda mais pobre da população ter acesso a moradia sem a participação de recursos subsidiados da União. "É fundamental que a União aporte recursos subsidiados para isso", disse.
Ela citou que o modelo do programa prevê, por exemplo, que a primeira prestação só será paga após a entrega do imóvel para evitar que o comprador acumule despesas com prestação e aluguel.
O evidente caráter positivo da medida do governo se manifestou no entusiasmo das construtoras e da indústria de insumos do setor, até mesmo nas bolsas de valores, que apresentaram alta em função da ação. Centenas e milhares de operários trabalharão nas obras que injetarão recursos na economia local, mas também nas prefeituras e governos que arrecadarão com a movimentação econômica que esse volume de dinheiro gerará em escala. A diminuição do desemprego além de beneficiar diretamente os indivíduos, vítimas diretas da crise, beneficiará o Estado, já que desonerará as caixas de auxílio social que impactam a dívida interna.
Só coisa positiva, certo? Um exemplo do país ao mundo, no momento em que as maiores economias do planeta patinam rumo à recessão, certo?
Errado, segundo a GloboNews, o canal do fim do mundo. A emissora paga da Rede Globo conseguiu encontrar somente pontos negativos na ação do governo que construirá casa para trabalhadores pobres. Segundo os entrevistados do canal, na sua totalidade elementos anti-governo e ligados às legendas de oposição, a construção de um milhão de casas populares provocará "caos urbano", "não resolverá o problema" (quem disse que construir um milhão de casas resolveria o deficit de 7 milhões de residências?), "confinará os pobres na periferia", "o presidente não deu prazo", "não há terrenos", "vão derrubar árvores", "haverá agressão ao meio ambiente", "o mutuário não terá capacidade para honrar a prestação", "os pobres não têm capacidade de endividamento", "o projeto não sairá do papel", "é eleitoreiro", "o congresso não vai aprovar o pacote", "será uma grande frustração", "as construtoras não têm know-how para construir moradia popular", "produzirá adensamento populacional sem água, esgoto e energia elétrica", "os urbanistas vêem problema", "terra é cara; é um desafio achar terra para toda essa gente", "os problemas serão muitos", "não haverá casa para todos", "vai piorar a qualidade do transporte", "dependerá da boa vontade de governadores e prefeitos", "lançará mão do Fundo de Garantia e isso é um risco", "coloca em risco o futuro do país", "não é um plano de longo prazo", "é um plano de longo prazo", "é um plano de curto prazo", "as pessoas vão ficar empilhadas", "o trabalhador ficará longe do emprego", "a qualidade do material de construção será ruim", etc. Se isso não é o fim do mundo é o seu prenúncio eloqüente, por certo.
É hilariante a tentativa de transformar um mero panfleto eletrônico em veículo noticioso. Na GloboNews não toca samba. Nem pagode. É só chorinho. Um choro amarelo e cínico.
O cinismo se manifesta amarelado na manipulação deliberada da notícia, para torcer os fatos até que eles digam o que os donos e os capatazes da emissora querem.
Na matéria sobre o evento que lançou o desafio de construir um milhão de moradias, por exemplo, após a frase "até os governadores presentes na cerimônia viram problemas na ação do governo" surge um dos governadores presentes dizendo algo como "Sem terrenos, não temos como construir; esta é a primeira coisa a fazer". Corte rápido.
O que era mesmo que o governador estava dizendo? Que o programa habitacional era um problema? Que não ia funcionar? Que ia produzir caos urbano. Não. Longe disso. Essa é a versão que a GloboNews transmitiu, manipulando a edição, aos seus assinantes.
O que o governador estava dizendo era o óbvio: que as prefeituras e governos estaduais precisam fazer a sua parte. Não estava dizendo que o plano era "um problema", mas que alguns passos deveriam ser dados para além da iniciativa presente do governo federal. Ao discordar, os jornalistas da emissora não polemizam. Constroem uma versão politizada com o que quer que o entrevistado diga.
Como arauto do Apocalipse, o jornalismo da Globonews reza pelo fim do mundo. Quer que as baratas herdem a Terra.
Marketing Político Radical em Portugal
O Bloco de Esquerda é um partido político português que surgiu da iniciativa do Partido Socialista Revolucionário - seção da Quarta Internacional nas terras de Luis de Camões. O PSR conseguiu fazer dez anos antes o que a LCR francesa quer fazer agora: construir uma frente de esquerda ampla, potencializando a ação política de vários grupos e ativistas independentes que, ao longo da jornada, afinem suas semelhanças e debatam suas diferenças.
O Bloco é a organização de esquerda de maior crescimento na Europa e a que melhor usa a internet como instrumento de marketing político radical.
Entrando no link abaixo você vê o primeiro debate das Políticas de Igualdade com transmissão direta online, que teve a Globalização como tema. Participaram os intelectuais José Manuel Pureza, Marisa Matias, Mónica Frechaut e Sandro Mendonça, com moderação de Miguel Reis.
http://igualdade.bloco.org/index.php?option=com_content&task=view&id=51&Itemid=3
O uso da internet pelo Bloco é extremamente profissional e permite, através de um mix de sites, blogs e links que se integram em um rede articulada, visibilizar tudo. A vida partidária está na web. Há desde vídeos (http://www.blocomotiva.net/) de mobilizações de estudantes secundaristas - feito profissionalmente, editado profissionalmente, com sonoras bem escolhidas, iluminação correta - até revistas temáticas diversas que só podem ser baixadas on-line, em PDF.
Nenhum partido brasileiro tem tamanha desenvoltura na rede.
Se você se interessou, veja "Nasceu uma Estrela", um documentário sobre a história da formação do Bloco de Esquerda, realizado por Jorge Costa e Daniel Oliveira. Inclui entrevistas com dezenas de "bloquistas" e também observadores e ativistas de vários quadrantes: Carvalho da Silva, Boaventura Sousa Santos, Ulisses Garrido, André Freire, Pedro Magalhães entre outros. Tudo on-line no link
http://www.bloco.org/index.php?option=com_content&task=view&id=1642&Itemid=1
O Bloco é a organização de esquerda de maior crescimento na Europa e a que melhor usa a internet como instrumento de marketing político radical.
Entrando no link abaixo você vê o primeiro debate das Políticas de Igualdade com transmissão direta online, que teve a Globalização como tema. Participaram os intelectuais José Manuel Pureza, Marisa Matias, Mónica Frechaut e Sandro Mendonça, com moderação de Miguel Reis.
http://igualdade.bloco.org/index.php?option=com_content&task=view&id=51&Itemid=3
O uso da internet pelo Bloco é extremamente profissional e permite, através de um mix de sites, blogs e links que se integram em um rede articulada, visibilizar tudo. A vida partidária está na web. Há desde vídeos (http://www.blocomotiva.net/) de mobilizações de estudantes secundaristas - feito profissionalmente, editado profissionalmente, com sonoras bem escolhidas, iluminação correta - até revistas temáticas diversas que só podem ser baixadas on-line, em PDF.
Nenhum partido brasileiro tem tamanha desenvoltura na rede.
Se você se interessou, veja "Nasceu uma Estrela", um documentário sobre a história da formação do Bloco de Esquerda, realizado por Jorge Costa e Daniel Oliveira. Inclui entrevistas com dezenas de "bloquistas" e também observadores e ativistas de vários quadrantes: Carvalho da Silva, Boaventura Sousa Santos, Ulisses Garrido, André Freire, Pedro Magalhães entre outros. Tudo on-line no link
http://www.bloco.org/index.php?option=com_content&task=view&id=1642&Itemid=1
segunda-feira, março 23, 2009
Mutatis mutandis
A expressão latina significa "fazendo as mudanças necessárias". Podemos dizer que toda crítica à ausência do Estado na Amazônia pode ser admitida, mutatis mutandis.
O general Augusto Heleno Pereira que permaneceu os últimos anos à frente do Comando Militar da Amazônia (CMA), com sede em Manaus, decidiu em 2008 inscrever seu nome na história.
Tornou-se notório, então, ao expressar opiniões reacionárias e retrógradas acerca de temas delicados, uma das quais defendia a permanência do "deus-dará" a que estava entregue a reserva Raposa Serra do Sol, em Rondônia. Ele defendia que as coisas ficassem como estavam, embora a retórica fosse coberta por um difuso "interesse nacional". Agora, faltando apenas dois anos para trocar o uniforme de campanha pelo pijama de bolinhas azuis, o general volta a abrir o verbo para criticar a "ausência do Estado" na região, acusando o Estado e o governo de "não conhecer a Amazônia".
Para ele, só quem conhece a região é o Exército, "o maior interessado na saúde, na educação, na qualidade de vida do brasileiro e do índio".
Tudo indica que o general foi reprovado na disciplina "Educação Moral e Cívica".
O Exército, general, faz parte do Estado. É o seu braço armado. Se o Exército está lá, lá está o Estado. Se o Exército está na Terra do Meio, lá está o Estado brasileiro; se está no Haiti, lá está o Estado brasileiro, que é quem paga as contas, inclusive o salário do General, e define a política, demarca o escopo das ações, etc. Muda o perfil do Estado e lá se vai, junto, uma leitura da função das FFAA. Por isso não há autonomização entre Exército e Estado. Este contém aquele. Estado é uma instituição organizada políticamente, socialmente e juridicamente, ocupando um território definido. Exército é sua instância coercitiva, sua arma de auto-defesa. O Exército não é, então, um ente à parte. Não se pode dizer "O Exército", como faz o General, sem que se ouça "O Estado".
Aliás, a crença reacionária da separação entre o braço armado e o corpo social é que é a matriz de todos os golpes de Estado, como os que proliferaram na América Latina nas décadas de 60 e 70. A ideologia da segurnaça nacional foi parida do pressuposto de que as Forças Armadas (hegemonizadas pelo Exército) eram não apenas uma parte distinta do Estado, mas a sua "melhor parte", a sua vanguarda.
Ao general devemos esclarecer que a noção moderna de estado surgiu com Maquiavel e Hobbes, e inclui os seguintes aspectos: a) uma população formada por membros socialmente relacionados entre si; b) um território; c) um governo que tem o poder de estabelecer leis e usar a coerção, de modo a regular o comportamento dos indivíduos dentro de certos limites; d) independência e reconhecimento político de outros estados. Um debate importante em filosofia política é o de saber qual deve ser o papel do estado na regulação da vida dos indivíduos. Filósofos como John Locke e Robert Nozick defendem que o papel do estado deve ser muito limitado, de modo a não pôr em causa a liberdade individual. John Rawls, por sua vez, acha que o estado deve intervir para garantir uma maior justiça social, o que se apresenta dramaticamente verdadeiro quando diante de uma crise econômica tudo o que resta ao sistema financeiros de grandes países é recorrer ao Estado para sobreviver.
Os marxistas defendem um estado forte, que vá perdendo força na medida em que a sociedade avance para a saciedade. Aliás, não existe uma teoria marxista do Estado. O que existem são formulações genéricas, fragmentos, muitas vezes contraditórios entre si. A teoria althusseriana implica uma ligação umbilical entre Estado e aparelhos ideológicos, enquanto a de Gramsci pressupõe uma maior autonomia dos aparelhos privados em relação ao Estado em sentido estrito. Essa autonomia abre a possibilidade — que Althusser nega explicitamente — de que a ideologia (ou o sistema de ideologias) das classes oprimidas obtenha a hegemonia mesmo antes de tais classes terem conquistado o poder de Estado. Portanto, não seria possível falar de uma teoria marxista de Estado e muito menos de uma teoria da transição do Estado capitalista para o Estado socialista. Esta é uma tese defendida por Norberto Bobbio e por grande parte dos teóricos marxistas modernos. Lúcio Colleti chegará às mesmas conclusões, embora percorrendo caminhos diferentes. Para ele, Marx estava mais preocupado em teorizar o fim do Estado e, portanto, não havia interesse em construir uma teoria do Estado. Os anarquistas, por sua vez, defendem que a existência do estado não se justifica. Defendem uma utópica auto-organização em comunas autônomas, que levada à prática no estágio atual conduziria o mundo à barbárie das guerras tribais, religiosas e regionais antes mesmo dos conflitos entre potências.
O Estado está presente na Amazônia, sim. Desde seu surgimento no Brasil Império. O que foi a Transamazônia senão a presença desastrosa do Estado? O que foi a exploração de minérios em Serra Pelada? O que é o Sivan e a Zona Franca de Manaus? O que foi a dizimação física dos guerrilheiros do Araguaia senão a presença do Estado senão a presença do Estado na Amazônia?
Ocorre que o que quer do Estado a sociedade não coincide com o que quer o general, que propugna um papel para as Forças Armadas que avança perigosamente sobre o espaço autônomo da sociedade civil organizada, podendo colocar em risco as liberdades democráticas.
A rigor não há "menos Estado", "mais estado" nem "melhor Estado". O que houve no passado recente foi a redução e liquidação das funções sociais do Estado e minimização das funções redistribuitivas do Estado. Se há "mais Estado" ou "menos Estado" não faz diferença quando não se mexe na política.
O que falta na Amazônia é justamente política, a política humanista e socialmente responsável que ajude o homem e a mulher da Amazônia a viverem da floresta e na floresta e não contra ela.
O general Augusto Heleno Pereira que permaneceu os últimos anos à frente do Comando Militar da Amazônia (CMA), com sede em Manaus, decidiu em 2008 inscrever seu nome na história.
Tornou-se notório, então, ao expressar opiniões reacionárias e retrógradas acerca de temas delicados, uma das quais defendia a permanência do "deus-dará" a que estava entregue a reserva Raposa Serra do Sol, em Rondônia. Ele defendia que as coisas ficassem como estavam, embora a retórica fosse coberta por um difuso "interesse nacional". Agora, faltando apenas dois anos para trocar o uniforme de campanha pelo pijama de bolinhas azuis, o general volta a abrir o verbo para criticar a "ausência do Estado" na região, acusando o Estado e o governo de "não conhecer a Amazônia".
Para ele, só quem conhece a região é o Exército, "o maior interessado na saúde, na educação, na qualidade de vida do brasileiro e do índio".
Tudo indica que o general foi reprovado na disciplina "Educação Moral e Cívica".
O Exército, general, faz parte do Estado. É o seu braço armado. Se o Exército está lá, lá está o Estado. Se o Exército está na Terra do Meio, lá está o Estado brasileiro; se está no Haiti, lá está o Estado brasileiro, que é quem paga as contas, inclusive o salário do General, e define a política, demarca o escopo das ações, etc. Muda o perfil do Estado e lá se vai, junto, uma leitura da função das FFAA. Por isso não há autonomização entre Exército e Estado. Este contém aquele. Estado é uma instituição organizada políticamente, socialmente e juridicamente, ocupando um território definido. Exército é sua instância coercitiva, sua arma de auto-defesa. O Exército não é, então, um ente à parte. Não se pode dizer "O Exército", como faz o General, sem que se ouça "O Estado".
Aliás, a crença reacionária da separação entre o braço armado e o corpo social é que é a matriz de todos os golpes de Estado, como os que proliferaram na América Latina nas décadas de 60 e 70. A ideologia da segurnaça nacional foi parida do pressuposto de que as Forças Armadas (hegemonizadas pelo Exército) eram não apenas uma parte distinta do Estado, mas a sua "melhor parte", a sua vanguarda.
Ao general devemos esclarecer que a noção moderna de estado surgiu com Maquiavel e Hobbes, e inclui os seguintes aspectos: a) uma população formada por membros socialmente relacionados entre si; b) um território; c) um governo que tem o poder de estabelecer leis e usar a coerção, de modo a regular o comportamento dos indivíduos dentro de certos limites; d) independência e reconhecimento político de outros estados. Um debate importante em filosofia política é o de saber qual deve ser o papel do estado na regulação da vida dos indivíduos. Filósofos como John Locke e Robert Nozick defendem que o papel do estado deve ser muito limitado, de modo a não pôr em causa a liberdade individual. John Rawls, por sua vez, acha que o estado deve intervir para garantir uma maior justiça social, o que se apresenta dramaticamente verdadeiro quando diante de uma crise econômica tudo o que resta ao sistema financeiros de grandes países é recorrer ao Estado para sobreviver.
Os marxistas defendem um estado forte, que vá perdendo força na medida em que a sociedade avance para a saciedade. Aliás, não existe uma teoria marxista do Estado. O que existem são formulações genéricas, fragmentos, muitas vezes contraditórios entre si. A teoria althusseriana implica uma ligação umbilical entre Estado e aparelhos ideológicos, enquanto a de Gramsci pressupõe uma maior autonomia dos aparelhos privados em relação ao Estado em sentido estrito. Essa autonomia abre a possibilidade — que Althusser nega explicitamente — de que a ideologia (ou o sistema de ideologias) das classes oprimidas obtenha a hegemonia mesmo antes de tais classes terem conquistado o poder de Estado. Portanto, não seria possível falar de uma teoria marxista de Estado e muito menos de uma teoria da transição do Estado capitalista para o Estado socialista. Esta é uma tese defendida por Norberto Bobbio e por grande parte dos teóricos marxistas modernos. Lúcio Colleti chegará às mesmas conclusões, embora percorrendo caminhos diferentes. Para ele, Marx estava mais preocupado em teorizar o fim do Estado e, portanto, não havia interesse em construir uma teoria do Estado. Os anarquistas, por sua vez, defendem que a existência do estado não se justifica. Defendem uma utópica auto-organização em comunas autônomas, que levada à prática no estágio atual conduziria o mundo à barbárie das guerras tribais, religiosas e regionais antes mesmo dos conflitos entre potências.
O Estado está presente na Amazônia, sim. Desde seu surgimento no Brasil Império. O que foi a Transamazônia senão a presença desastrosa do Estado? O que foi a exploração de minérios em Serra Pelada? O que é o Sivan e a Zona Franca de Manaus? O que foi a dizimação física dos guerrilheiros do Araguaia senão a presença do Estado senão a presença do Estado na Amazônia?
Ocorre que o que quer do Estado a sociedade não coincide com o que quer o general, que propugna um papel para as Forças Armadas que avança perigosamente sobre o espaço autônomo da sociedade civil organizada, podendo colocar em risco as liberdades democráticas.
A rigor não há "menos Estado", "mais estado" nem "melhor Estado". O que houve no passado recente foi a redução e liquidação das funções sociais do Estado e minimização das funções redistribuitivas do Estado. Se há "mais Estado" ou "menos Estado" não faz diferença quando não se mexe na política.
O que falta na Amazônia é justamente política, a política humanista e socialmente responsável que ajude o homem e a mulher da Amazônia a viverem da floresta e na floresta e não contra ela.
sexta-feira, março 20, 2009
Brasil de Fato e o cerco aos meios militantes de comunicação
Recebi de João Pedro Stedile a correspondência a seguir que socializo, em solidariedade, com os leitores deste espaço.
Estimados amigos e amigas,
Fui incumbido pelo conselho editorial do Jornal Brasil de fato, que reúne 25 companheiros e companheiras representando diversos setores de nossa sociedade e dos movimentos sociais, a lhes escrever.
Vocês têm acompanhado o esforço de centenas de militantes, dos mais diferentes movimentos sociais, para construir o jornal Brasil de Fato, que já completa seis anos de imprensa popular comprometida com os interesses de nosso povo (2003-2009).
Fizemos em janeiro passado um belo ato celebrativo durante o Fórum Social Mundial em Belém.
Além de resistir num contexto tão adverso de crise - de projeto, de ideologia da esquerda, dos movimentos populares e descenso do movimento de massas - foi possível dar passos e avançar na construção de um jornal de esquerda.
Breve balanço
Conseguimos superar muitas dificuldades relacionadas com boicote da entrega (que agora está normalizada pelo serviço de correios), da freqüência da entrega, da qualidade do jornal, de sua cobertura nacional.
Mantivemos o jornal impresso semanal, que circula às quartas-feiras, sem faltar nenhuma edição. O jornal se destina a militantes sociais e interessados em conhecer a realidade das lutas com uma visão diferente daquela construída pela mídia corporativa. Também temos feito edições massivas, destinadas à população em geral, quando se trata de temas importantes da luta conjuntural. E já chegamos a atingir a tiragem de um milhão de exemplares.
Recentemente, editamos um jornal especial para denunciar as falcatruas da oligarquia Sarney, que quer desrespeitar a vontade popular e retomar o comando do governo do Maranhão.
Mantemos também uma página na internet que é referência para os movimentos sociais, com milhares de acessos mensais: www.brasildefato.com.br.
Enviamos um boletim eletrônico semanal, com resumo das notícias e artigos, para 84 mil militantes de movimentos sociais. Se você ainda não recebe o boletim, se cadastre enviando um correio para: agencia@brasildefato.com.br.
Estamos articulados com uma agência de rádio que faz programas diários de áudio, enviando gratuitamente a centenas de rádios comunitárias e comerciais. E edita também programas em espanhol no intercâmbio com rádios co-irmãs da América Latina.
Se você tiver contato com alguma rádio comunitária ou programa que considera interessante, nossa agência pode enviar programas gratuitamente.
Mantemos um intercâmbio cultural com dezenas de publicações populares de todo o país e da América Latina.
Estamos fazendo um esforço, para que logo, logo, o jornal possa também distribuir vídeos e material audiovisual para serem utilizados pelos canais de televisão comunitária e educativa, espalhados pelo país.
Temos correspondentes jornalistas brasileiros, exclusivos, morando em Caracas, La Paz, Asunción, Paris e Estados Unidos, que nos ajudam com seu trabalho militante.
Como vêem, temos muita coisa boa sendo feita.
Todo esse esforço somente terá futuro e autonomia caso se sustente no apoio militante das assinaturas. Temos recebido apoio publicitário de diversas empresas e administrações públicas progressistas, que consideram nosso esforço importante para a democratização dos meios de comunicação no Brasil. Isso é importante. Mas o fundamental são as assinaturas.
Por isso, estamos entrando em contato com todos os militantes, amigos, simpatizantes. Nos ajudem a construir a imprensa popular brasileira. Faça sua assinatura. Renove. Motive um amigo a também fazê-la. Faça um presente para um/a amigo/a. Fique por dentro das principais informações da classe trabalhadora.
Motive seu sindicato, paróquia, centro acadêmico, movimento a também fazer assinaturas.
Seja também um correspondente voluntário. Envie notícias, matérias, cartas, fotos, seus comentários, sugestões de pauta, críticas. Participe.
Um forte abraço, em nome do conselho editorial.
João Pedro Stedile
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João Pedro Stedile
As antinomias de John Downing
O texto a seguir é um brevíssimo capítulo do livro "Marketing Político Radical", que publiquei pela Labor Editorial em 2001 e está agora na segunda edição."O que ocorre cotidianamente sob o nome de comunicação é pouco mais do que um monólogo dominante em benefício do iniciador do processo, o emissor da mensagem-base: os meios de comunicação de massas.
“A retroalimentação não é empregada para proporcionar a oportunidade de diálogo autêntico” escreve Beltrán. “O receptor das mensagens é passivo e está submetido, uma vez que quase nunca se lhe dá a oportunidade adequada para atuar também como verdadeiro e livre emissor; seu papel consiste em escutar e obedecer”.
A esse respeito, em 1993, o pesquisador Douglas Gomery publicou o resultado de um estudo inquietante.
De acordo com suas pesquisas, 54% duma amostra composta por crianças com idades compreendidas entre os quatro e os seis anos de idade a quem perguntaram de quem gostavam mais, se dos pais ou da televisão, escolheram a televisão como objeto de seu afeto.
Esse resultado mostra a perversão do que chamamos de “imageficação”: a cultura comunicacional que se caracteriza pelo predomínio da imagem sobre a palavra ou do ver sobre o pensar.
“Imageficação” é a predominância da forma sobre o conteúdo, uma modalidade de aprisionamento do pensamento na irresistível sedução da imagem.
A prática da “imageficação” é caracterizada pelo predomínio do pathos, entendido como (apelo à) emoção, aos afetos e ao desejo, sobre o logos encarado no seu sentido restrito de palavra, razão ou pensamento. O seu ethos, caráter ou disposição (modo de ser), parece residir precisamente na ausência desse logos, ou, o que significa o mesmo, ter-se eclipsado sob o domínio do sugestivo e da atratividade instantânea, irrefletida e efêmera.
Para Giovanni Sartori, a entrada de cena da televisão transforma o homem simbólico em homo-videns. A imagem passa a ter primazia sobre a palavra. O homem passa a ver mais e ter a necessidade de ver. Tendo a necessidade de ver, o homem acaba por perder a sua capacidade cognitiva que dispensa a visão.
O predomínio da visão, segundo o autor italiano, “é um passo atrás”, deixa o homem mais próximo dos seus ancestrais, o faz retroceder do inteligível para o sensível. Sendo assim, a televisão apaga os conceitos, reduz a possibilidade do homem de raciocinar e produz imagens. A tele-visão (visão à distância) limita a possibilidade de abstração e o enfrentamento dos problemas de forma racional.
A política, desde o seu princípio, tem na palavra o símbolo que necessita para se expressar, para exercer sua capacidade de abstração. A imagem não necessita de palavras para tal; a imagem se basta por si mesma. Por isso, a política reduzida à imagem é uma forma de despolitização: reduz a racionalidade e remete à emocionalidade. Enquanto a palavra constitui um universo simbólico, a imagem não tem nenhuma função senão produzir um estímulo visual e emocional. E, para a televisão, o que é visível tem papel principal, enquanto a narração possui um caráter secundário.
Por isso, no combate pela visibilidade em um mundo marcado pela seleção midiática do tangível, os movimentos sociais e contra-hegemônicos recorrem a diversas formas de comunicação militante como um mecanismo de romper a ditadura da visão a partir da força do argumento. A luta central da comunicação militante é o embate radical e sem quartel pelo predomínio da palavra.
Esse combate não é novo. “A impressão e distribuição da propaganda deve estar organizada de modo que não falhe nunca” – escrevia Fidel Castro quatro anos antes da tomada de Havana. “Dou uma importância decisiva a isto, porque os manifestos sozinhos, circulando por todo o país clandestinamente, além de manter a moral elevada, fazem o trabalho de milhares de ativistas, convertem cada cidadão entusiasta em um militante que repete os argumentos e idéias expostas”.
Certamente não estamos em 1955. O que é novo em nosso tempo são as múltiplas formas de domínio midiático associadas ao poder da produção de mídia pelos movimentos sociais e os questionamentos que o monopólio dos meios de massa provoca em um número tão grande de pessoas no mundo inteiro.
O fenômeno vem ocorrendo na comunicação em todas as direções, enquanto os recursos tecnológicos que o reforçam são modificados a cada dia principalmente pela indústria digital. Os movimentos sociais contestadores da ordem vem usufruindo desse ambiente diverso.
Alguns estudos apresentam inspiradoras experiências de comunicação militante, tais como o realizado por Rubim sobre a comunicação na guerrilha zapatista. Também é certo que os exemplos coletados por John D. H. Downing em seu livro “Mídia Radical” demonstram contestação aos meios de comunicação tradicionais, a sedimentação de uma cultura de comunicação distinta e estabelecem um cenário onde se destacam novos protagonistas, como os movimentos sociais, que cada vez mais fazem uso de ferramentas de comunicação militante.
Mas muitos que citam como referência o livro de John D. H. Downing, não se propõem a analisar a fundo as formas de comunicação militantes ali analisadas e empregadas por movimentos de contestação ao sistema como forma de mobilização política. Erram na origem: assimilam a idéia de que “radical” é a “mídia” em si e não sua mensagem, seu conteúdo.
Publicado em uma dezena de línguas, inclusive o português, o livro elata experiências contestadoras, mas expande de maneira quase infinita o conceito de “mídia”, contextualizando seu uso em vários momentos da história humana, como nas Revoluções Francesa e Industrial.
Em sua análise agressivamente ampliada, praticamente tudo é “mídia radical”. Downing vê “mídia radical” nas lutas dos escravos pela liberdade nas Américas, no movimento feminista no ocidente, nos movimentos pacifistas nos EUA contra a Guerra do Vietnã, na resistência das Mães da Plaza de Maio na Argentina, no black power nos EUA, entre inúmeros outros modelos de ações contestadoras.
O teatro, o grafite, os folhetins, a panfletagem, o vídeo, o vestuário, a fotografia, as intervenções de rua, manifestações públicas, greves, entre outros, seriam “mídias radicais”. Também, é claro, há “mídia radical” nas redes on-line. A importância da Internet para o cenário político, cultural e econômico da atualidade é contextualizada, lembrando o poder que esta tem como veículo de transformações sociais e como “mídia radical alternativa”.
Downing defende sua tese ilustrando-a: “O papel da mídia radical pode ser visto como o de tentar quebrar o silêncio, refutar as mentiras e fornecer a verdade. Esse é o modelo da contra-informação, que tem um forte elemento de validade, especialmente sob regimes opressores e extremamente reacionários. Nesses cenários, a mídia radical tem a missão não apenas de fornecer ao público os fatos que lhe são negados, mas também pesquisar novas formas de desenvolver uma perspectiva de questionamento do processo hegemônico e fortalecer o sentimento de confiança do público em seu poder de engendrar mudanças construtivas”.
Ora, é certo que a modernidade imagética impulsionada pela reprodutibilidade técnica das imagens alterou a paisagem urbana, o cotidiano e a sensibilidade dos homens e mulheres nas cidades. Henri Lefebvre já se ocupou exaustivamente do tempo.
Nesse ambiente urbano, em certo momento, o imaginário moderno passou a ser decorado pelas imagens e pelos produtos derivados da chamada cultura de massas, na qual se insere o marketing e a propaganda, mas também outras variáveis, como as marcas de identificação tribal de grupos, uma forma primitiva revivida como decodificação do cotidiano. A cultura pop midiatizada segue sendo a fonte de onde jorram os ícones e os significados que vão compor um imaginário específico, o modo como cada um incorpora esses elementos que, a rigor seriam para uniformizar e são, então, incorporados como formas de diferenciação.
A “grafologia” do homem moderno, atrelada às artes gráficas e ao vídeo, ganha novos ares com os cartazes de rua, moda, homens-sanduíche, cartões de visita, web-videos e um emergente mercado editorial. Mas considerar que essas formas de exposição são, genericamente, “mídia” é, no mínimo, abusivo.
As antinomias de Downing são evidentes. Sua impaciência histórica, seus erros de análise, suas confusões metodológicas que o leva a confundir mídia (artefato ou instância de intermediação da mensagem) com o próprio conteúdo da mensagem (o conceito em si ou seu conteúdo qualitativo), são gritantes. Sua propaganda anarquista aberta ou dissimulada em oposição ao marxismo e ao socialismo emanam em cada página (como na crítica desqualificada a Lênin e aos bolcheviques). Mas mesmo assim seu trabalho passou a ser incorporado como a grande referência ou mesmo como “a novidade” da análise de comunicação para a esquerda mundial.
Surpreende a rápida propagação de seu conceito e a veloz adesão a ele, inclusive na academia, sem que se faça uma análise minimamente crítica da soma das informações que reúne e da validade, pertinência e consistência de seus argumentos.
No afã de encontrar uma explicação qualquer para as formas contestadoras de comunicação – formas militantes de comunicação – produziu-se uma adesão acrítica e em escala ao arremedo conceitual de Downing.
Moniz Sodré classifica a mídia como “o conjunto dos meios de comunicação”. Não pode, portanto, ser radical; não lhe cabe “assumir posição”. Na verdade é o seu conteúdo, a sua estratégia, a sua comunicação, o seu marketing (as modalidades de efetivação das trocas simbólicas) que podem ser radicais. O marketing, como uma política de linguagem e uma técnica de administração de demanda formadora ou interventora da consciência humana (construtora de posicionamento) é que pode se radicalizar.
O conceito de Downing não apenas é incorreto como pode nos induzir ao erro de análise que nos remeteria, uma vez mais, ao passado - representado pela adesão ao silogismo de McLuhan, que estabelece que “o meio é a mensagem” quando o meio, para sermos rigorosos, não passa da "metade". Ela em si não se inteira, não consuma o processo subjetivo, não sendo, por isso um sujeito determinante, mas um elemento determinado, cuja função referencial é configurada e não auto-configurante.
Dito de outro modo: "a mídia" não pensa; é um instrumento do pensamento de outrem, que transforma idéias, culturas e pressupostos em códigos interpretáveis. Pensar a mídia como "antimediadora" (Baudrillard), despotencializa nossa capacidade de tomar de assalto as formas midiáticas vigentes, dentre as quais a mídia eletrônica e os novos meios digitais ou mesmo construir outras formas de uso social dos meios.
Quando Downing fala em “mídia radical” ele faz uma redução mecanicista do aparelho midiático, que passa a ser visto como um teatro que é, em si, radical, mesmo sem atores, sem contexto ou mesmo texto. A radicalidade humana passa a não ser mais uma subjetividade, mas uma materialidade. O conteúdo qualitativo do discurso, o "mundus radicalis inteliligibilis", os conceitos, as concepções mentais, as ideologias radicais são reduzidos à mecânica dos meios, atribuindo ao artefato de suporte e transporte da mensagem um caráter supremo e indutor. Por mais que esgarce a conceituação de “mídia”, o autor canadense termina em um beco sem saída conceitual, onde a forma (media, meio, mediação, intermediação) prevalece sobre o conteúdo e o submete. Essa suposição não resiste à menor análise.
No modelo de Downing, o ser humano é subordinado e o meio é subordinador. Convertido à condição de "homo communicans", o indivíduo mergulha no fluxo incessante dos mass-media de onde não pode sair. De acordo com o derrotismo engajado de Downing, as pessoas estariam fatalmente dispersas e apartadas de sua capacidade de abstração. Ora, se a mídia é, em si, radical, ela prescinde de um conteúdo radical vivo, que só pode ser provido por homens e mulheres concretos e suas organizações sociais complexas.
A mídia não é a mensagem, é a metade do caminho. É uma ponte ou um caminho e não o ato de caminhar. Não pode, portanto, ser determinante, mas sim, determinada. Mesmo em seu formato ampliado, é um meio e não um fim. Para ser radical, o meio teria que poder manifestar-se independentemente da razão humana, assumindo o ânima radical, o caráter de demiurgo.
Por sua vez, o marketing pode ser radical porque diferente da mídia, não é um artefato, mas uma idéia ou um conjunto de idéias que, como uma disciplina teórica, admite modulações. Não é uma coisa, mas sim um corpo de formulações, um saber. Pode, portanto, ser radical, conservador, comercial, institucional, político, etc. Marketing é um conteúdo que se expressa em um método, uma abordagem, uma concepção de como reger processos humanos de trocas, sejam elas materiais ou simbólicas.
No entanto, a mídia, toda ela, é um meio inanimado, técnico; enquanto tal é o receptáculo de qualquer conteúdo. Permite tanto a mensagem radical progressista quanto a mensagem radical reacionária; tanto a mensagem revolucionária da ruptura com o sistema, quando a mensagem conservadora da mercantilização das idéias; falar em mídia radical porque este ou aquele artefato midiático ou mesmo uma indumentária permite-se usar para expressar a fala contestadora seria como chamar de “mídia radical” a um automóvel usado como carro-bomba.
O simplismo do argumento de Downing é desalentador e chama a atenção pelo esforço em dar uma sobrevida “de esquerda” a um amálgama estranho das concepções conservadoras e passadas de McLuhan somadas a pressupostos anarquistas ultrapassados.
O estudo das formas de comunicação (e não de “mídia”, como quer Downing) dos movimentos sociais e dos partidos e governos de esquerda efetivam não só a ação reativa aos bloqueios da comunicação dos meios de massas, privados, mas confirmam-se como apropriações efetivas da comunicação midiática pelos sujeitos sociais, pelos agentes das ações coletivas, para construírem e difundirem referenciais simbólicos diferenciados e possibilitarem que a “televivência”, ou mesmo o espetáculo midiático não esteja baseado apenas nas premissas do consumismo e do mercado, mas questionem o modelo hegemônico, não mais como receptor, mas como produtor da própria comunicação.
As experiências práticas de comunicação militante como componentes da lutas sociais têm um caráter de combate simbólico alicerçado em pressupostos como a democracia radical e o respeito à alteridade, um dos princípios dos movimentos socialistas desde o século XIX.
Socialismo é alteridade. O prefixo alter, do latim, significa “se colocar no lugar do outro” na relação interpessoal, com consideração, valorização, identificação, dialogando com o outro “como igual”.
Nas práticas de comunicação militante os movimentos de emancipação dos jovens, trabalhadores, mulheres, minorias sexuais e ecologistas encontram espaços de existência pública, não sendo apenas espectadores dos meios de comunicação de massa e da política feita pela direita. Os praticantes da comunicação militante têm por princípio exercitar a autocrítica, recriar utopias de uma transformação social que coloque novamente no horizonte a tomada do poder pela via de movimentos concêntricos, que coloquem em xeque as forças hegemônicas a partir de seus altares discursivos que se edificam na mídia de massas.
Originário na teoria da comunicação militante, o pensamento do marketing político radical, dos grupos políticos que o praticam e dos movimentos sociais que pretendam intervir no campo simbólico, baseia suas formulações em valores socialistas tais como liberdade, democracia, apoio mútuo, igualdade, solidariedade e reciprocidade que estão na estrutura edificante das esquerdas tradicionais e do pensamento socialista.
É chamado “paradigma conflitual-dialético” o arcabouço analítico e teórico da comunicação social baseado nas hipóteses de Karl Marx, especialmente aquelas difundidas e sistematizadas na obra “A ideologia Alemã”.
O paradigma conflitual-dialético distingue transmissão (transporte da informação no tempo) e comunicação (transporte de informação no espaço). Compreende que o objeto de uma transmissão não existe, como tal, antes de ser transmitido, não podendo ser, portanto, radical pela densidade de sua plataforma (mídia), mas sim pelo seu conteúdo intrínseco.
Marx afirma em “A ideologia alemã” que em um sistema capitalista a classe social detentora dos meios de produção material igualmente mantém controle sobre a produção e a difusão das idéias que são as de seu tempo.
As classes dominantes desfrutam de poder midiático, o que lhes permite veicular, valorizar e fazer prevalecer sua ideologia, isto é, seus modos próprios de representar a realidade, e, por tal via e de tal modo, exercer sua “dominação”.
O marketing político radical trabalha com essa base, que vê a relação infra-estrutura X superestrutura vinculada ao desenrolar histórico e este ao estágio de desenvolvimento capitalista dos meios de comunicação.
1º estágio: fins do século XIX a 1920 – forma monopolística de acumulação corresponde à implantação dos meios mais simples como telégrafo e telefone.
2º estágio: criação de grandes conglomerados (megacorporações), início da expansão e internacionalização de capitais especulados dos anos 50 ao fim do século passado – correspondem aos meios mais complexos jornais, revistas, cinema, rádio e televisão. É nessa última fase que se torna corrente a “ideologia do mercado”, cuja divulgação e pretenso consenso em torno de sua inevitabilidade facilitam a reprodução do capital em escala planetária (globalização).
A transmissão da informação massificada pelos meios de comunicação persegue objetivos comerciais e financeiros; pretende-se transcultural e multinacional, isto é, mundializada, mas na verdade mascara os conflitos sociais.
Louis Althusser (1981-1990) filósofo francês tem grande importância para o desenvolvimento do paradigma conflitual-dialético.
Foi Althusser quem cunhou a expressão “Aparelho Ideológico de Estado” para representar as instituições sociais como a Igreja, a Escola, as Forças Armadas, o Poder Judiciário, os Partidos Políticos, a Comunicação e seus órgãos, etc. – todas reprodutoras incessantes das ideologias representativas do capitalismo. Para isso, os AIEs devem ser (parecer) “autônomos” em relação a toda forma de controle por parte das classes dominantes.
Não haveria, portanto, qualquer outro modo de os meios de comunicação vir a funcionar ideologicamente a não ser aquele representado por sua alegada “objetividade” ou suposta “neutralidade”.
A mídia cria um “quadro imaginário” das condições reais da produção capitalista, ocultando, com mais ou menos sutileza ou sofisticação a “perversa realidade de sua exploração” – por exemplo, a valorização de “intelectuais para a mídia”, de aventureiros culturais, pessoas “fora de série”, etc.
O funcionamento dos AIEs não é imediatamente perceptível, porque se pensa sempre no Estado opressor e repressor, mas não se cuida da diferença entre o poder do Estado e o de sua constituição como aparelho (organização, disposição e dispositivo), conjunto de mecanismos com finalidade de difusão ideológica. O Estado e as classes sociais que o apóiam recorrerão sempre que for preciso ao uso ostensivo de uma “força repressora”.
A partir de Althusser, as diferenças entre “poder político” e “poder simbólico” passam a ser relevantes para entendermos a relação entre mídia e poder. Enquanto forma de poder, o “poder político” se concretizaria com os recursos da autoridade política através de instituições políticas; já o poder simbólico, definido como a capacidade de intervir no curso dos acontecimentos, de influenciar as ações dos outros e produzir eventos por meio da produção e da transmissão de formas simbólicas, tem como recursos os meios de informação e comunicação, e seria a base daquilo que John Thompson designa de “instituições culturais (a Igreja, escolas e universidades, as indústrias da mídia, etc.).
Embora diferenciados, “poder político” e “poder simbólico” associam-se no exercício prático do poder governamental. Um estado enquanto instituição paradigmática do poder político, composto por “uma gama de instituições que se dedicam essencialmente à coordenação e à regulamentação, e que desempenham estas atividades de uma maneira relativamente centralizada dentro de um território mais ou menos circunscrito”, pode se valer tanto do “poder político” de maneira autoritária e coercitiva – como ocorre em regimes autoritários ou totalitários –, quanto da difusão de formas simbólicas que procuram cultivar e sustentar a crença na legitimidade do poder político.
É assim que se estabelece o uso político do poder simbólico como forma de legitimação do poder político. A afirmação de Enzensberger de que somente uma prática revolucionária pode extrair virtude de uma troca democrática inscrita na mídia, hoje confiscada e pervertida, se reafirma na prática do marketing político radical como instrumento de apreensão simbólica do cotidiano, de compreensão das instâncias políticas, das relações de classe, da ação dos sujeitos organizados. Para tal, é preciso ver que enquanto meio de transmissão e difusão de bens simbólicos, a mídia (coeficiente e não efetuadora de ideologia) é, sim, uma instância de poder que se presta à prática anti-hegemônica e ao estabelecimento de estratégias do marketing político radical.
Pensadores contemporâneos criticaram Althusser e Thompson por considerarem seus pensamentos formalistas ou excessivamente abstratos.
Imagine o que diriam da tautologia radical de John Downing."
quinta-feira, março 19, 2009
Frase
"Os donos do capital vão estimular a classe trabalhadora a comprar bens caros, casas e tecnologia, fazendo-os dever cada vez mais, até que se torne insuportável. O débito não pago levará os bancos à falência, que terão que ser nacionalizados pelo Estado."
Karl Marx (Das Kapital, 1867)
Karl Marx (Das Kapital, 1867)
quarta-feira, março 18, 2009
Raposa Serra do Sol
Antepenúltimo a votar no julgamento do processo de demarcação das terras indígenas da reserva Raposa/Serra do Sol (RR), no STF (Supremo Tribunal Federal), o ministro Marco Aurélio Mello demonstrou hoje, do alto de sua toga, que se considera um sábio entre ignorantes. Propôs a nulidade da ação, deixando transparecer com isso que os juízes que votaram antes dele não leram os autos. No entendimento de Marco Aurélio, a ação deve ser "saneada" e "reiniciada" e a reserva deve ser “remarcada”; contrariando a Constituição Federal, alega que as terras da União localizadas na área e tomadas por posseiros seriam “propriedades legais”. Propõe inclusive novas audiências das partes envolvidas e a elaboração de mais documentos sobre a região. Antes dele, já houve oito votos favoráveis à demarcação de forma contínua da reserva.
segunda-feira, março 16, 2009
Do blog do Castagna Maia
Uma tal SIP - Sociedade Interamericana de Imprensa divulgou hoje, segundo informa Noblat, um relatório onde diz que “o Presidente Lula continua atacando a imprensa brasileira” por meio de críticas desmedidas” e desqualificações.
II - Só pode ser um delírio. A única declaração do Presidente da República que vi a respeito foi a de evitar ler jornais porque “dá azia”. E só. Não houve crítica, não houve nada.
III - A imprensa é que se julga acima de tudo, acima da lei, acima de qualquer autoridade. Ou seja, a imprensa não pode ser criticada porque qualquer crítica seria “desmedida”. A imprensa pode ofender, pode caluniar, pode acusar sem provas, e continua tudo bem, tudo como estava antes.
IV - E quem é essa tal SIP? Financiada por quem? O problema desse tipo de notícia absurda é que tenta passar a visão de uma republiqueta, de um ditadorzinho a praguejar contra a Imprensa. Não é nada disso, Lula tem sido até generoso frente aos absurdos que são publicados
II - Só pode ser um delírio. A única declaração do Presidente da República que vi a respeito foi a de evitar ler jornais porque “dá azia”. E só. Não houve crítica, não houve nada.
III - A imprensa é que se julga acima de tudo, acima da lei, acima de qualquer autoridade. Ou seja, a imprensa não pode ser criticada porque qualquer crítica seria “desmedida”. A imprensa pode ofender, pode caluniar, pode acusar sem provas, e continua tudo bem, tudo como estava antes.
IV - E quem é essa tal SIP? Financiada por quem? O problema desse tipo de notícia absurda é que tenta passar a visão de uma republiqueta, de um ditadorzinho a praguejar contra a Imprensa. Não é nada disso, Lula tem sido até generoso frente aos absurdos que são publicados
Conexão Amazônia
Na edição do programa televisivo Mahhatan Conection, levado ao ar na tarde de 16 de março pelo canal GNT, a reunião entre os presidente Lula e Obama tornou-se a pauta do dia dos comentaristas, comandados por Lucas Mendes e Caio Blinder.
No meio de polêmicas em camadas, característico do programa, surge um debate sobre a frase de Obama, que disse desejar começar sua visita ao Brasil chegando “pela Amazônia” e que temia "se perder na floresta", embora esse fosse o desejo de seus adversários.
Alguns falam do ar, da biodiversidade, dos rios, etc. Riquezas tangíveis da região mais cobiçada do planeta.
Diogo Mainardi, um dos debatedores menos interessantes, emite a seguinte pérola: “A maior riqueza [da Amazônia] parece ser a produção de eletrodomésticos, motos e computadores”.
Não fosse a idiotice em si da afirmação, o tempo se incumbiu de piorar as coisas para o escrevinhador da Veja. Mainardi foi confrontado por Ricardo Amorin, que demarcou: “...Mas você está falando de Manaus [e não da Amazônia]”.
Fora da área de alcance da câmera, Mainardi retrucou: “Mas a população está toda lá”.
A Amazônia na cabeça de Mainardi é... Manaus. Ou seja, o que ele pensa sobre a Amazônia é subproduto do marketing de Manaus para se tornar a porta de entrada da região, e do Amazonas, para ser a síntese totalizadora da maior floresta preservada do mundo.
Que Mainardi não passa de um imbecil mal informado, isso todo mundo que é minimamente letrado já sabe. Escritor fracassado, com diversas obras esquecíveis publicadas e encalhadas, “Didi” (apelido carinhoso ainda usado em família) ocupou uma coluna na revista Veja com objetivo de tecer comentários genéricos sobre tudo e acabou ganhando notoriedade ao se tornar porta-voz do anti-petismo das elites reacionárias.
Filho de um publicitário polêmico e criativo, Ênio Mainardi, Diogo nasceu rico e tenta a todo custo mostrar que é culto "de berço" e inteligente como seu pai. Não é. É apenas um "mané".
Para ganhar audiência, tornou o presidente Lula seu alvo número um, a quem considera representante “do Brasil inculto”, essa plebe ignara que dá mais de 80% de aprovação ao presidente operário, que Mainardi considera "uma anta".
O comentarista de Mahhatan Conection forma, com o ex-cineasta Arnaldo Jabor, a chamada “dupla afetada” de adversários do presidente e do petismo. Na verdade, duas antas direitistas a serviço do retrocesso do país ao império entreguista do tucanato.
Quem sabe se, por azar dos brasileiros, José Serra se tornar presidente Mainardi não assume o Ibama e tenta fazer, na prática, aquilo que diz querer fazer na teoria.
Pensar que Manaus é a síntese da Amazônia já seria uma estupidez de grande envergadura. Mas pensar uma cidade no meio do nada, praticamente isolada por via rodoviária do resto do mundo, concentra a maior parte da população da Amazônia é uma daquelas burrices que mereceriam uma estátua.
A ignorância de Mainardi sobre a Amazônia retrata seu menosprezo pelo Brasil e pelos brasileiros, manifesto em sua escrita, seja “literária” ou “jornalística”.
Não se pode confirmar exatamente desde quando a Amazônia é habitada, mas sabe-se que desde antes da chegada dos europeus, no século XVI, os índios já viviam na região.
Desses mais de 500 anos de história, a formação populacional da Amazônia, assim como a brasileira, preserva ainda hoje características da grande miscigenação entre as diversas raças. Mainardi está infenso a isso. Pensa-se europeu puro.
Herança da colonização européia, o brasileiro, e o povo amazônico, em particular, apresentam traços do índio, o branco e o negro. É antítese do que Mainardi admira. Ribeirinhos, índios, seringueiros, garimpeiros, pescadores, operários, executivos somos todos a síntese qualitativa de inúmeros povos.
Com cerca de 20 milhões de pessoas vivendo nos nove estados da Amazônia Legal, a densidade demográfica é de cerca de 3,4 habitantes por Km2, com 62% da população vivendo nos centros urbanos.
Manaus possui população de mais de 1,4 milhão de pessoas. Belém, mais de 1,5 milhões de habitantes, embora o Senso de 2000 apresente números diferentes, porque não considera as áreas de expansão da cidade. Se incluir a grande Belém, com Ananindeua e sua periferia, Belém pode chegar a 2 milhões de seres humanos.
O Pará e Belém foram derrotados em uma guerra de branding.
A ineficácia da comunicação de sucessivos governos paraenses fez Belém perder o lugar de porta de entrada da Amazônia e o Pará perder o status de estado amazônico mais populoso para Manaus e Amazonas, respectivamente.
O Amazonas soube utilizar a confusão semântica provocada pela expressão “Amazonas” e a expressão “Amazon”, em inglês, para vender-se como sendo “A” Amazônia.
Mainardi, como um bobo, caiu no conto do marketing de Amazonino Mendes.
Mainardi é "a anta" dos professores primários de geografia.
No meio de polêmicas em camadas, característico do programa, surge um debate sobre a frase de Obama, que disse desejar começar sua visita ao Brasil chegando “pela Amazônia” e que temia "se perder na floresta", embora esse fosse o desejo de seus adversários.
Alguns falam do ar, da biodiversidade, dos rios, etc. Riquezas tangíveis da região mais cobiçada do planeta.
Diogo Mainardi, um dos debatedores menos interessantes, emite a seguinte pérola: “A maior riqueza [da Amazônia] parece ser a produção de eletrodomésticos, motos e computadores”.
Não fosse a idiotice em si da afirmação, o tempo se incumbiu de piorar as coisas para o escrevinhador da Veja. Mainardi foi confrontado por Ricardo Amorin, que demarcou: “...Mas você está falando de Manaus [e não da Amazônia]”.
Fora da área de alcance da câmera, Mainardi retrucou: “Mas a população está toda lá”.
A Amazônia na cabeça de Mainardi é... Manaus. Ou seja, o que ele pensa sobre a Amazônia é subproduto do marketing de Manaus para se tornar a porta de entrada da região, e do Amazonas, para ser a síntese totalizadora da maior floresta preservada do mundo.
Que Mainardi não passa de um imbecil mal informado, isso todo mundo que é minimamente letrado já sabe. Escritor fracassado, com diversas obras esquecíveis publicadas e encalhadas, “Didi” (apelido carinhoso ainda usado em família) ocupou uma coluna na revista Veja com objetivo de tecer comentários genéricos sobre tudo e acabou ganhando notoriedade ao se tornar porta-voz do anti-petismo das elites reacionárias.
Filho de um publicitário polêmico e criativo, Ênio Mainardi, Diogo nasceu rico e tenta a todo custo mostrar que é culto "de berço" e inteligente como seu pai. Não é. É apenas um "mané".
Para ganhar audiência, tornou o presidente Lula seu alvo número um, a quem considera representante “do Brasil inculto”, essa plebe ignara que dá mais de 80% de aprovação ao presidente operário, que Mainardi considera "uma anta".
O comentarista de Mahhatan Conection forma, com o ex-cineasta Arnaldo Jabor, a chamada “dupla afetada” de adversários do presidente e do petismo. Na verdade, duas antas direitistas a serviço do retrocesso do país ao império entreguista do tucanato.
Quem sabe se, por azar dos brasileiros, José Serra se tornar presidente Mainardi não assume o Ibama e tenta fazer, na prática, aquilo que diz querer fazer na teoria.
Pensar que Manaus é a síntese da Amazônia já seria uma estupidez de grande envergadura. Mas pensar uma cidade no meio do nada, praticamente isolada por via rodoviária do resto do mundo, concentra a maior parte da população da Amazônia é uma daquelas burrices que mereceriam uma estátua.
A ignorância de Mainardi sobre a Amazônia retrata seu menosprezo pelo Brasil e pelos brasileiros, manifesto em sua escrita, seja “literária” ou “jornalística”.
Não se pode confirmar exatamente desde quando a Amazônia é habitada, mas sabe-se que desde antes da chegada dos europeus, no século XVI, os índios já viviam na região.
Desses mais de 500 anos de história, a formação populacional da Amazônia, assim como a brasileira, preserva ainda hoje características da grande miscigenação entre as diversas raças. Mainardi está infenso a isso. Pensa-se europeu puro.
Herança da colonização européia, o brasileiro, e o povo amazônico, em particular, apresentam traços do índio, o branco e o negro. É antítese do que Mainardi admira. Ribeirinhos, índios, seringueiros, garimpeiros, pescadores, operários, executivos somos todos a síntese qualitativa de inúmeros povos.
Com cerca de 20 milhões de pessoas vivendo nos nove estados da Amazônia Legal, a densidade demográfica é de cerca de 3,4 habitantes por Km2, com 62% da população vivendo nos centros urbanos.
Manaus possui população de mais de 1,4 milhão de pessoas. Belém, mais de 1,5 milhões de habitantes, embora o Senso de 2000 apresente números diferentes, porque não considera as áreas de expansão da cidade. Se incluir a grande Belém, com Ananindeua e sua periferia, Belém pode chegar a 2 milhões de seres humanos.
O Pará e Belém foram derrotados em uma guerra de branding.
A ineficácia da comunicação de sucessivos governos paraenses fez Belém perder o lugar de porta de entrada da Amazônia e o Pará perder o status de estado amazônico mais populoso para Manaus e Amazonas, respectivamente.
O Amazonas soube utilizar a confusão semântica provocada pela expressão “Amazonas” e a expressão “Amazon”, em inglês, para vender-se como sendo “A” Amazônia.
Mainardi, como um bobo, caiu no conto do marketing de Amazonino Mendes.
Mainardi é "a anta" dos professores primários de geografia.
The Economist: Lula certo, FHC errado
Matéria da revista inglesa The Economist publicada na semana passada reconhece o equívoco de um dos principais pilares do governo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB): a venda indiscriminada de empresas e bancos estatais. No texto, a publicação afirma que até há pouco tempo no Brasil, acreditava-se que um fatores prejudiciais à economia brasileira seria a influência estatal no setor financeiro. Segundo a revista, entretanto, esse controle estatal é o que dá hoje ao País uma situação favorável perante os demais países e, diante da crise mundial, confere uma "situação favorável incomum ao Brasil".
A matéria se refere à manutenção da gestão estatal, por parte do governo Luiz Inácio Lula da Silva, do Banco do Brasil, da Caixa Econômica e do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), instituições financeiras líderes de empréstimos para empresas e que FHC tentou, sem sucesso, privatizar.
A matéria se refere à manutenção da gestão estatal, por parte do governo Luiz Inácio Lula da Silva, do Banco do Brasil, da Caixa Econômica e do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), instituições financeiras líderes de empréstimos para empresas e que FHC tentou, sem sucesso, privatizar.
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