sexta-feira, setembro 25, 2009

De volta ao marketing de guerrilha

Entrevista concedida por Chico Cavalcante, no dia 23 de setembro de 2009, às estudantes Laís Veloso, Marina Eiró e Daniela Gonçalves, da Universidade da Amazônia.


1- A mudança no perfil do consumidor moderno implica na criação de novas estratégias de marketing para atender essa demanda de “consumidores multimídia”. Como exemplo desse tipo de estratégia, temos a ação realizada pelo canal Fox para o seriado 24h, na cidade de São Paulo. Em sua opinião, esse tipo de estratégia seria bem aceito pelo consumidor paraense? Por quê?


CC – Seria bem aceito pelo consumidor, sim, desde que não fosse invasiva e que não se tornasse a forma dominante de comunicação, já que o contato direto e persistente com o público pode, sempre, implicar em reações inesperadas, como a interpretação de que essa forma de propaganda é inadequada porque extrapola o limite da privacidade das pessoas. A propaganda via mensagem de celular, uma forma de guerrilha, é um exemplo de propaganda invasora e inconveniente e que, na minha opinião, produz mais efeitos negativos que positivos para quem a usa. É uma das formas mais antipáticas de contato com o público. Você comprou o celular e paga a sua conta para ter o direito de se comunicar, não para servir de canal de recepção de propaganda que você não optou por receber.
A guerrilha não é necessariamente invasiva. Ela pode usar mídia de permissão e pode chegar ao público da forma em que esse público a aceite. A guerrilha é filha da hipercomunicação, do mundo saturado de propaganda. Por isso, para entender o surgimento dessa estratégia e seus mecanismos de abordagem é preciso, antes, entender que não foi só o perfil do consumidor que mudou. Mudou o capitalismo. A base produtiva se alterou através de uma sucessão de revoluções tecnológicas e com elas houve um giro que remontou o marketing, alterando seus paradigmas. A priori a ênfase era dada ao preço, as pessoas eram motivadas fundamentalmente pelo preço, quanto menor o preço, mais atrativo era o produto/serviço. Posteriormente vieram status, hoje podemos dizer que a ênfase é dada à qualidade do produto/serviço e ao atendimento. Antes, Henry Ford podia dizer que o cliente poderia escolher qualquer cor para o seu carro desde que fosse “preto”; hoje o cliente influencia até sobre o design dos modelos que saem das montadoras. Logo, o Marketing da organização deve concentrar os 5p's (praça, preço, produto, promoção e pessoas) na qualidade do serviço oferecido ao cliente.  No velho paradigma do marketing, conceitos-chave, tais como target (público-alvo), mídias tradicionais (como TV, Rádio, Jornais e Revistas) e anúncios/comerciais, faziam parte do jargão de todos aqueles que trabalhavam com comunicação, seja no lado da empresa, agência ou cliente. Fenômenos como Google, Youtube, Second Life, Wikipedia e Blogs têm menos de 10 anos de existência mas já produziram uma revolução. Como pensar em ações de Marketing na atualidade sem considerar essas possibilidades de conteúdo e mídia?Além destes sites e novas ferramentas de base micro-eletrônica, como o email marketing ou CRM – Customer Relationship Management (Gerenciamento do Relacionamento com Clientes) o consumidor atual possui uma rede de pontos de atenção muito maior. Pergunte ao adolescente o que ele prefere: ficar sem computador ou televisão?


2- Segundo pesquisas realizadas nos Estados Unidos, cada pessoa vê em média 1,5 mil mensagens comerciais diariamente (pesquisa feita em grandes metrópoles). Isso diminui consideravelmente o poder e a eficácia das peças publicitárias. Em Belém, em sua opinião, já existe esse congestionamento de informação de mídias tradicionais? Se sim, qual a maneira que as agências estão encontrando para driblar esse excesso de informação?


CC - 1,5 mil mensagens acontecem em lugares onde a publicidade está condicionada a um aparato legal que a limita. Em Belém esse número é maior. Em cidades onde o adensamento urbano é desordenado e onde a legislação de ocupação dos espaços é permanentemente desobedecida ou simplesmente não existe, a poluição produzida pela propaganda suja gera um ruído, auditivo e visual, muito maior. Veja, por exemplo, o caos das placas de lojas que avançam para o meio fio ou que tomam a totalidade das fachadas das lojas ou as placas de outdoor claudicantes que ameaçam desabar sobre as pessoas e estranhamente “fazem curvas” nas esquinas, para não perder nem um centímetro da área pública ocupada pela mensagem publicitária. A propaganda precisa ser permissiva para ser assimilada como algo que não agride o público que pretende influenciar. O maior problema da propaganda suja que se vê nas ruas é que, diante da gritaria generalizada da concorrência, a maior parte das agências de publicidade sugere a seus clientes gritar mais alto, produzindo mais ruído e, portanto, menor percepção das mensagens. Para driblar esse ruído é preciso fazer comunicação com planejamento, ter foco no conceito e, também, sugerir alternativas de mídia.


3- A sua agência praticou ou pratica alguma ação de marketing de guerrilha?


CC - Diariamente fazemos guerrilha, embora as ações efetivamente de guerrilha em nossa cidade sejam incipientes porque a cultura da mídia de massas ainda é a que prevalece.
Por exemplo, desenvolvemos, recentemente, uma ação de guerrilha com armas on-line usando email marketing (uma das táticas de guerrilha) para nosso cliente Farmácia Formosa. A ação consistiu no envio de uma mala direta nominal e leve para parte de nosso banco de dados. Disparamos cerca de mil e quinhentos emails focais (para um público efetivamente fidelizado) mostrando uma promoção relâmpago de produtos Nívea. A mala sugeria que o cliente fosse à farmácia em até 24 horas para usufruir dos descontos. Geramos 15% a mais de procura pelos produtos com um único clique, sem poluir as ruas ou o meio ambiente nem gerar embaraços para transeuntes. O custo da ação por ticket foi de fração de centavos.
Há pessoas que leram os textos sobre guerrilha de maneira equivocada e pensam que fazer guerrilha é fazer gracinha. Fazer guerrilha é gerar, a um custo baixo, um resultado alto para o cliente, seja isso através da mídia convencional ou alternativa. È isso que ensina Levinson. É isso que entendo por guerrilha.
Um exemplo do que não fazer é executar ações que geram visibilidade e ao mesmo tempo produzem antipatia. Fantasiar pessoas para distribuir panfletos nos sinais é um mau exemplo clássico, mas não é o único. Outro dia eu estava no aeroporto de Belém vindo de uma longa viagem; eu estava cansado e, no meio da esteira de malas, havia uma mala de papelão totalmente adesivada com o logotipo de uma rede de supermercados local. A mala girando na esteira impedia que malas reais se movessem mais rápido e isso aumentava o tempo de espera de quem estava ali querendo pegar sua bagagem e ir embora para casa. A reclamação contra a “palhaçada” era geral. Isso não é guerrilha. É “fogo amigo”; é atirar contra si mesmo. A agência vendeu para o cliente essa palhaçada como sendo “ação de guerrilha”, algo moderno e “bacana”. Mas não é. É só marketing ruim.
Um exemplo grandioso desse tipo de ação amalucada camuflada de guerrilha foi a campanha assinada pela Turner Broadcasting, que parou boa parte da cidade de Boston com os pacotes deixados para divulgar o cartoon “Aqua Teen Hunger Force”.  A força policial isolou as áreas achando que os pacotes continham bombas e isso gerou um caos no trânsito da cidade. A dupla contratada para deixar os pacotes pela cidade foi presa pela polícia. A agência conseguiu o buzz. Mandou o nome do desenho animado e da agência pro mundo inteiro. Mas junto, associaram o nome do cliente e o da agência ao fantasma social que mais assusta os estadunidenses: o terrorismo. Novamente, parecia guerrilha mas era só marketing ruim.


4- Que tipo de cliente, em sua opinião, seria adequado para desenvolver esse tipo de estratégia?


CC - Tendo sido criada para ajudar pequenas empresas a gerarem visibilidade e lucro com baixo investimento de mídia, a guerrilha evoluiu e hoje se aplica indistintamente para todo tipo de cliente. No primeiro livro sobre o tema, Levinson menciona um artigo da Harvard Business Review, assinado por Welsh e White, que diz que pequenos negócios não são versões menores de um grande negócio. Por causa da falta de recursos dos pequenos negócios, estes precisam utilizar diferentes tipos de estratégias de marketing e táticas. Mas os recursos se tornaram escassos para todos e os congestionamentos das vias de comunicação mudaram o cenário. Hoje, tanto grandes corporações, lojas de esquina quanto organizações não governamentais podem se beneficiar da tática.


5- Hoje, todos os profissionais de marketing vêm enfrentando o mesmo problema: como atingir os consumidores, cada vez mais resistentes às propagandas tradicionais, com orçamentos menores e mais retorno. A partir disso, surgiram o Buzz Marketing, o Marketing Viral e o Marketing de guerrilha. A PQ Media, uma empresa de pesquisas americana, calcula que os marqueteiros gastaram só nos Estados Unidos, US$ 1,35 bilhão em marketing de boca a boca no ano passado, 38% a mais que no ano anterior (pesquisa realizada em 2008). Em Belém, já existe certa confiança por parte dos anunciantes em investir nesse tipo de estratégia? 


CC - Marketing viral e buzz marketing (boca-a-boca) são elementos táticos dentro de uma estratégia de guerrilha. São meios. Guerrilha não é um meio, é uma estratégia, ou seja, uma disciplina que se vale de diferentes táticas, de múltiplos meios. Um cartão de visita inovador ou uma atendente de telefone de bom humor são gestos tão guerrilheiros quanto descer um prédio de rapel para vender o seriado 24 horas, mas essa lição básica que está nos ensinamentos de Levinson parece letra morta diante da adrenalina de sair à rua e tentar impactar o público “na marra”. Embora alguns autores tentem distinguir viral e buzz como sendo uma “disciplina” de marketing, não são. São ferramentas, apenas.
Alguns autores falam da “guerrilha”, enquanto interferências visuais no espaço urbano. Entre estas interferências, citam o graffiti, stencil (desenho grafitado através de uma máscara), lambe-lambe, adesivos de rua e outras. Trata-se de um modelo mais delimitado, uma segmentação, mas essas ferramentas podem ser guerrilha ou não de acordo com seus objetivos mercadológicos. Ou seja, não são guerrilha em si, mas podem ser guerrilha para si, se são incorporados a um arsenal de vendas que se abriga sob o escopo de uma estratégia de guerrilha.
Em Belém  não há cultura de investir em ações alternativas como centrais em campanha de mídia a não ser em ONGs e em partidos políticos em tempos de eleições. No dia a dia, as grandes e pequenas empresas locais seguem investindo 99% de sua verba em mídia de massas.


6- O Marketing de guerrilha provém de mídia espontânea, que é causar impacto no público com um baixo custo. O objetivo é o buzz, ou seja, que todos saiam falando do produto e da maneira que foi divulgada esse produto, no marketing de guerrilha, é importante que se crie uma ilusão de espontaneidade, assim, cria-se a imagem de marca inusitada, diferente e descontraída. Dentro do mercado paraense (Belém), existe uma grande quantidade de micro, pequenas e médias empresas que muito poderiam se utilizar das estratégias do marketing de guerrilha para anunciar seus serviços. Porém isso não ocorre, por quê?  


CC - Nem toda marca, nem todo produto, nem todo cliente quer ter uma imagem “inusitada”, “diferente” e “descontraída”. Esse objetivo não é universal, nem deve ser. O que todo cliente quer é vender o seu produto ou serviço e edificar sua marca. A guerrilha é uma ótima ferramenta para ajudar a vender produtos e edificar marcas, seja de uma empresa conservadora como a Ford, McDonald ou as Casas Bahia ou de empresas de vanguarda, como o Greenpeace, Apple ou Unilever.
Embora a mídia espontânea seja desejável em qualquer modalidade de marketing, ela não é uma pré-condição para uma boa ação de guerrilha.
Essa pré-condição é uma leitura recente e controversa que se faz hoje, mas não recordo que essa pré-condição esteja nos pilares dos ensinamentos de Levinson sobre o tema. Por exemplo, no livro “Marketing de guerrilha com armas on-line” Levinson apresenta recursos que tornarão mais interessantes e eficientes a presença online, como endereço e assinatura de e-mail, posicionamento do logotipo da empresa, uso correto de embalagens e auxílios audiovisuais. São armas que garantem o conforto do cliente, facilitam os pedidos, aumentam a rapidez das entregas, aperfeiçoam o pagamento, a formação de preços, os mecanismos de feedback mas não se fala ali em “mídia espontânea” ou de ocupação gratuita de espaço na mídia de massas, ferramentas típicas das Relações Públicas e que podem ser apropriados pela guerrilha mas não são, digamos, mecanismos nativos da guerrilha.
Do mesmo modo, a “ilusão de espontaneidade” não é uma necessidade vital da guerrilha, mas sim de uma de suas táticas, o Ambush Marketing, termo que define aquelas ações artificiais que simulam movimentos sociais reais, como a feita pela Oi, que ao vender celulares desbloqueados simulou a existência de um “movimento” a favor do desbloqueio de aparelhos. Quando veio a lei que exigia o desbloqueio, eles comemoram como se fosse tudo produto do “movimento” pela liberdade de escolha que haviam criado artificialmente.
Por que empresa que poderia usar guerrilha como o centro de sua estratégia de comunicação negligencia seu uso? É simples: porque estão presas ao passado, quando só se podia fazer comunicação efetiva através dos meios de comunicação de massas.

Chega de saudade

Honduras é um pequeno país quase sem importância, não fosse o fato de estar confortavelmente implantado acima de uma reserva petrolífera considerável. A confirmação do potencial energético se deu com prospecções profundas feitas por uma empresa norueguesa há um ano, a pedido do governo hondurenho.
No exercício de seu mandato presidencial, Manuel Zelaya, um homem da centro-direita nacionalista, acionou judicialmente as empresas estadunidenses que vendiam petróleo caro a seu país e se aproximou do grupo Petrocaribe, criado pela Venezuela.
A reforma constitucional proposta pelo governo não previa apenas uma consulta popular para dar ao povo do país a oportunidade de reeleger o presidente, mas principalmente previa que os recursos naturais de Honduras não poderiam ser entregues para outros países. Era a senha para se armar um golpe. Ou, como se dizia nos anos 60, era "a receita para o caos".
Do choque de interesses econômicos e do realinhamento político de Zelaya, veio o golpe militar em 28 de junho, que depôs o presidente e colocou em seu lugar um fantoche em quem ninguém votou, ladeado por uma junta governativa nomeada pelos militares.
Milhares de hondurenhos iniciaram em diversas regiões do país, caminhadas em direção à capital Tegucigalpa e à cidade de San Pedro Sula, no norte, para exigir a restituição do presidente eleito, Manuel Zelaya, deposto em pelas Forças Armadas. As marchas foram organizadas pela Frente Nacional de Resistência Contra o Golpe de Estado, formada por dezenas de organizações civis que, desde que Zelaya foi tirado do poder, mobilizam-se contra o governo auto-proclamado, liderado por Roberto Micheletti.
As manifestações foram duramente reprimidas pelas forças armadas hondurenhas.
A comunidade internacional rejeitou o golpe e passou a desconhecer o governo golpista. O Brasil assumiu a vanguarda na denúncia do golpe e na defesa do retorno do presidente eleito ao poder. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva reivindicou, na Assembléia Geral da ONU, o imediato retorno ao poder de Manuel Zelaya e que a comunidade internacional fique alerta sobre a inviolabilidade da Embaixada do Brasil em Tegucigalpa, a capital do país.
Lula pediu mais “vontade política” para confrontar situações que conspiram contra a paz, o desenvolvimento e a democracia, e citou o golpe de Estado de 28 de Junho nas Honduras, cujo líder, disse, tem “refúgio garantido” na Embaixada do Brasil em Tegucigalpa.
Mas existe um lugar onde o golpe hondurenho tem uma saudosista acolhida: o noticiário da rede Globo. Na noite de 24  de setembro, no Jornal Nacional, uma matéria tentava justificar o golpe como uma decisão da "Suprema Corte", ou seja, os militares não deram um golpe, apenas "cumpriram uma decisão judicial".
Ontem, 23 de setembro, Arnaldo Jabor, cronista do Jornal da Globo, criticou o governo brasileiro pela postura democrática e obediente à tradição de nossa diplomacia – a acolhida a Zelaya na embaixada do Brasil – e afirmou, desavergonhadamente, que o que aconteceu no pequeno país foi um “golpe brando”, já que foi revestido de decisão da suprema corte.
Jabor esquece que todo golpe militar esconde-se nos escaninhos escuros da legalidade. O mesmo aconteceu em 1964 no Brasil, em 1973 no Chile e é uma característica dos golpes de estado: exibir o porrete em uma mão e o código civil em outra. Nenhum golpe assume sua ilegalidade. Afirma-se, ao contrário, na defesa dos preceitos constitucionais. O golpe é feito em nome da lei, embora a viole. É um mecanismo de dissimulação clássico. E persistente.
A rigor, uma ditadura não precisaria de leis, já que possui a força. Mas na prática não é assim. A lei serve para dar suporte social e político aos seus desmandos. O AI-5 era uma necessidade política dos militares brasileiros para seguir prendendo, torturando e matando a sombra de nossos compêndios legais e do silêncio de uma imprensa covarde. A mesma imprensa que considera branda a ditadura hondurenha e classifica como “ditabranda” a ditadura sanguinária que se instaurou no Brasil em abril de 1964.
A saudade da Globo é justificada.
A TV Globo foi fundada exatamente um ano depois do golpe de 64.

Senado aprova limite de verba publicitária

A verba destinada à publicidade do governo federal brasileiro poderá ser apenas 0,1% maior do que a utilizada no ano anterior. A determinação é um complemento de um projeto de Lei aprovado nessa última quarta-feira, 23, pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado.
Com a nova regulamentação, os investimentos em propaganda dos Estados poderão subir somente 0,3% em relação ao ano anterior, enquanto o dos municípios não poderá ultrapassar uma margem de aumento de 0,5%. A restrição, entretanto, não é válida para a publicidade obrigatória, como a publicação e divulgação de editais e balanços de empresas públicas.
Apesar de restringir o aumento da verba de publicidade, a proposta não prevê nenhuma forma de punição para quem burlar ou desrespeitar a regra. No último mês de agosto, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva havia vetado a emenda da Lei de Diretrizes Orçamentárias, que restringia o montante investido em publicidade no ano de 2009. De acordo com as estimativas do governo, e verba reservada para a publicidade no ano de 2010 chega a R$ 699 milhões, quantia 19% maior do que o autorizado para uso em 2009.
No debate, o senador Aloizio Mercadante (PT-SP) manifestou posição contrária ao projeto. Alegou, entre outras razões, o fato de a proposta não prever punição para quem burlar as regras sugeridas, o que tornaria "inócuas" as medidas. Mesmo assim, desistiu do pedido de vista que chegou a considerar, depois de ouvir do presidente da CCJ, senador Demosténes Torres (DEM-GO), de que o debate poderá ser reaberto na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE), onde o texto ainda será examinado, em decisão terminativa.
Depois de ser aprovado pela CCJ, o complemento da Lei será encaminhado à Comissão de Assuntos Econômicos para a avaliação e seguirá, posteriormente, para a votação na Câmara. Se a regra passar pelo Congresso, as novas medidas passarão a constar como um dos artigos da Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF), a Lei Complementar 101, de 2000.

quarta-feira, setembro 23, 2009

Aprendendo a ver e a escrever com Bergman

Um dia no princípio de Maio, em plena Primavera, faz calor.

(...)

Subitamente, Émilie surge à entrada da cozinha, muito bem vestida com um terno cinzento claro de mangas transparentes e traz um cinto largo, bordado. Dirige-se a Alexandre com voz grave.

ÉMILIE: Quando acabares de beber o chocolate, gostava de falar contigo. (...) Vamos os dois à biblioteca para cumprimentar alguém que veio visitar-nos. 
(Silêncio) É alguém que te quer falar. (Silêncio) Não é preciso chorares.

ALEXANDRE: Mas o que é que eu fiz?

ÉMILIE: Sabes melhor que ninguém. Anda, vamos à biblioteca.

A mãe levanta-se, e pega no filho pela mão. Dirigem-se os dois à biblioteca. Ali encontra o bispo que folheia um livro do pai, e que imediatamente olha e sorri para os que entram. Visto da perspectiva de Alexandre, Edvard Vergérus é impressionante: alto, ombros largos, rosto comprido com mossas e envolto numa cabeleira cinzenta clara, barba, e olhos dum azul intenso. Veste uma casaca de pastor e a sua cruz de ouro cintila no tecido escuro. Estende uma mão a Alexandre. Alexandre faz-lhe uma vénia profunda. A mãe senta-se no enorme canapé de couro.

EDVARD VERGÉRUS: Bom-dia, Alexandre.

ALEXANDRE: Bom-dia.

EDVARD: Tu e eu já nos encontramos. 
(Silêncio) Em circunstâncias dolorosas. (Silêncio) Quando enterrei o teu pai.

ALEXANDRE: Sim.

EDVARD: A partir daí a tua mãe, que não tem apoio masculino, já me consultou algumas vezes para me fazer saber das suas preocupações. O que é perfeitamente natural. Sou um amigo íntimo da tua avó e o pastor desta paróquia.

ÉMILIE: Durante este período difícil, Monsenhor foi muito bom para mim e não sei como conseguiria aguentar sem a sua ajuda.

EDVARD: Também falamos de ti, pequeno.

O bispo está sentado no sofá em frente da mesa da biblioteca, puxou dum estojo de cabedal e retirou dele um cachimbo e um saquinho cheio de tabaco. Enche cuidadosamente o cachimbo e acende-o nas costas do sofá e observa Alexandre com os olhos a brilhar, dum azul intenso.

ÉMILIE: Já disse ao senhor Bispo como me sinto orgulhosa e feliz com os meus filhos queridos.

EDVARD: Ouvi dizer que tu e as tuas irmãs vão bem na escola. Que sois atentos, trabalhadores e tiveram boas notas pelo Natal. É assim, Alexandre?

ALEXANDRE 
(murmura): É.

EDVARD: Não precisas de ter medo. Sou teu amigo e só te quero bem. Acreditas ou não?

ALEXANDRE: 
(quase a chorar): Acredito.

EDVARD: Mas trabalhar bem e ter boas notas não é tudo na vida.

ÉMILIE: Alexandre, assoa-te.

Alexandre assoa-se.

ÉMILIE: Tens o lenço todo sujo! A Maj não te deu hoje um lenço limpo?

ALEXANDRE: Deu. (Assoa-se e murmura) Sujidade de merda.

EDVARD 
(que é surdo dum ouvido): Como te dizia, trabalhar bem e ter boas notas não é tudo na vida.

ÉMILIE: Ouve o que diz Monsenhor, Alexandre.

EDVARD: Mas ele está a ouvir-me. Não estás, Alexandre? E estás um pouco apreensivo com o que vou dizer, não é?

Alexandre resmunga.

EDVARD: Estás a crescer, Alexandre. Por isso vou falar contigo como um adulto falaria com outro adulto. És capaz de me dizer, és capaz de me explicar o que é mentira e o que é verdade? És capaz?

Alexandre continua calado.

EDVARD: Talvez penses que é uma pergunta estúpida, e de facto é. Estava apenas a brincar. Tu sabes muito bem o que é mentira e o que é verdade.

ALEXANDRE: Sei.

EDVARD: Muito bem, meu rapaz, muito bem. E também sabes por que se mente.

ALEXANDRE: Porque não se quer dizer a verdade.

EDVARD: Essa é uma resposta astuta, meu caro. Mas não te safas assim tão facilmente. Por isso te pergunto: Por que é que não se quer dizer a verdade?

ALEXANDRE: Não sei.

Alexandre olha para o chão, sente o esqueleto a liquefazer-se lentamente, a abandoná-lo pela planta dos pés e a espalhar-se sobre o tapete oriental da biblioteca. O bispo sorri sozinho, mergulha um comprido dedo amarelado no fornilho do cachimbo para acamar o tabaco. Émilie, com ar desalentado, olha para o filho recalcitrante.

EDVARD: Temos muito tempo, Alexandre e a tua resposta interessa-me de tal maneira que vou esperar por ela o tempo que for preciso. Não acreditas, mas é verdade.

ALEXANDRE: Mente-se para se conseguir ua vantagem.

EDVARD: Bem respondido, meu rapaz. Bem e de forma concisa. Agora vou continuar com o meu interrogatório e perdoa-me se te vou fazer algumas perguntas um pouco mais pessoais. Podes contar-nos, a mim e à tua mãe, por que mentiste na escola?

ALEXANDRE: O quê?

ÉMILIE: O teu professor escreveu-me a dizer que andas a espalhar na aula as mais incríveis mentiras.

ALEXANDRE: O quê?

ÉMILIE: Vais negar... que andaste a dizer aos teus colegas que... que eu te tinha vendido a um circo ambulante 
(lê a carta) e que no fim deste trimestre as pessoas do circo te vêm cá buscar? Que te vão ensinar a ser acrobata e a montar a cavalo com uma cigana da tua idade chamada Tamara.

Alexandre fica calado, vencido.

EDVARD: Como deves compreender, a tua mãe sentiu receio e pena quando leu esta carta. Não sabia o que fazer. Eu propus-lhe discutir contigo este assunto tão aborrecido, por isso aqui estou.

ÉMILIE: Devias ficar reconhecido por Monsenhor perder o seu tempo por tua causa, Alexandre. Não achas?

Alexandre baixa a cabeçe.

EDVARD: Dizíamos há pouco que aquele que mente quer, graças à sua mentira, obter uma vantagem. Agora, segundo toda a lógica, eu pergunto-te: que vantagem achavas tu que obtinhas ao dizeres que a tua mãe te tinha vendido a um circo?

ALEXANDRE: Não sei.

EDVARD 
(sorrindo): Acho que sabes muito bem, mas que tens vergonha de dizer. Tens vergonha, é isso? Está bem, meu caro. Está muito bem. Isso só demonstra que no futuro evitarás deixar-te levar por tais fantasias. Agora vais pedir perdão à tua mãe pelo desgosto e pela inquietação que lhe provocaste. Vá, pede perdão à tua mãe. (Silêncio) Estás a ouvir o que te digo, Alexandre?

Alexandre mantém os ombros crispados e a cabeça baixa, não chora mais, cerra os punhos e acaba por se dirigir à mãe.

ALEXANDRE: Mamã, peço perdão por ter mentido e prometo não voltar a fazê-lo.

A mãe beija um Alexandre completamente petrificado e puxa-o para si, sentando-o nos joelhos. Alexandre deixa-se ficar assim, inerte, como uma marioneta sem fios.

EDVARD: Está bem, Alexandre. O assunto está resolvido e não vamos falar mais nisto. Sabes que a imaginação é algo de magnífico, é uma força enorme, um dom de Deus. Entre os homens, são os grandes artistas, os poetas, os músicos, que se servem dela.

O bispo pôs-se de pé e dá pancadinhas na cabeça de Alexandre com a mão enorme e ossuda. 



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Ingmar Bergman, Fanny & Alexandre; Excertos.

Os sete passos de Jay Levinson para uma propaganda persuasiva





1. Encontre o drama inerente em sua oferta - Afinal, você planeja ganhar dinheiro vendendo um produto ou serviço ou ambos. As razões que as pessoas têm para comprar de você devem dar uma dica do drama inerente ao seu produto ou serviço. Alguma coisa em sua oferta precisa ser inerente ao interesse de alguém ou você não iria por à venda. Para a bebida energética para atletas, é a alta concentração de líqüidos revitalizantes e sais minerais.


2. Traduza o drama inerente em um benefício ou vantagem real - Lembre-se sempre que as pessoas compram benefícios, e não características. As pessoas não compram xampu; as pessoas compram um bom visual ou limpeza ou cabelos manuseáveis. As pessoas não compram carros; as pessoas compram velocidade, status, estilo, economia, performance e poder. Uma mãe não compra cereais; ela compra nutrição, apesar que muitas compram qualquer coisa que suas crianças comam – qualquer coisa. Então, encontre o maior beneficio em sua oferta e escreva-o. Deve vir direto da característica inerente ao drama. E mesmo que você tenha quatro ou cinco benefícios, fique com apenas um ou dois – três, no máximo.
3. Apresente seus benefícios de forma tão plausível quanto possível - Existe um mundo de diferenças entre honestidade e plausibilidade. Você pode ser 100% honesto (aliás, como sempre deve ser) e as pessoas ainda não acreditarem em você. Você deve ir mais além da honestidade, além das barreiras que a propaganda erigiu com sua tendência de exagerar, e apresentar seu benefício de uma forma que seja aceito sem qualquer dúvida. Uma empresa de cereais poderia dizer, “uma tigela de nosso produto provê sua criança com quase a mesma quantidade que uma pílula de complemento vitaminar”. Esta frase começa com o drama inerente, transforma-o em beneficio e é apresentado de forma plausível. A frase soa como uma verdade incontestável.
4. Chame a atenção das pessoas - As pessoas não prestam atenção às propagandas. Elas só prestam atenção às coisas que lhes interessam. E, às vezes, elas encontram essas coisas numa propaganda. Então você consegue interessá-las. E enquanto você está aí, faça com que este interesse se volte para seu produto ou serviço, não só o seu anúncio. Tenho certeza de que você se lembra de algum anúncio interessante, mas não se lembra do produto. Muitos publicitários criam anúncios mais interessantes do que o produto que estão anunciando. Você pode evitar esta armadilha, memorizando esta frase: Esqueça o anúncio… O produto ou serviço é interessante? A companhia de cereais poderia colocar seu ponto de vista, mostrando uma imagem de duas mãos quebrando uma cápsula de vitaminas de onde caem cereais em uma tigela de visual apetitoso.
5. Motive sua audiência a fazer alguma coisa - Convide-os a visitar sua loja, como a empresa de alimentos faria. Diga-lhes para telefonar, preencher um cupom, enviar uma embalagem ou código de barras, fazer uma degustação ou pedir uma demonstração gratuita. Não se contente com pouco. Para fazer o marketing de guerrilha funcionar, você precisa dizer às pessoas exatamente o que você quer que elas façam.
6. Esteja certo de se comunicar claramente - Talvez você saiba do que está falando, mas e os seus leitores e ouvintes? Note que as pessoas não estão realmente pensando no seu negócio e que não irão prestar atenção totalmente no seu anúncio – mesmo quando elas estiverem prestando atenção. Coloque-se como alguém de fora para ter certeza que está passando sua mensagem. Você poderia mostrar o anúncio para 10 pessoas e perguntar qual o ponto principal para elas. Se uma pessoa não entendeu, quer dizer que 10% das pessoas poderão não entender. E se você rodar o anúncio para 500.000 pessoas, pode ser que 50.000 não venham a entender o ponto principal. Isso é inaceitável. Cem por cento da audiência deve entender o ponto principal. A empresa de cereais poderia fazer isso começando com um título ou subtítulo dizendo “Dar nosso produto a suas crianças é como lhes dar vitaminas – só que muito mais gostoso”. Tolerância zero à ambigüidade!
7. Meça sua peça de publicidade em função de estratégia criativa - Sua estratégia criativa deve servir como guia e vai fornecer dicas para o conteúdo do seu anúncio. Se você não fizer isso, você acaba criando as peças de publicidade no vácuo. E isso não é ser criativo. Se o anúncio vai na linha de sua estratégia, então você pode julgá-lo contra outros elementos. Não se deixe enganar pela simplicidade deste método. Ele funciona perfeitamente com qualquer produto ou serviço e pode transformar seu negócio porque aborda a natureza humana.
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 Jay Conrad Levinson é o criador do conceito "Marketing de Guerrilha"

sexta-feira, setembro 18, 2009

Relendo J.B. Thompson II

J. B. Thompson concebe o poder enquanto capacidade conferida institucionalmente ao indivíduo ou ao grupo para levar a cabo a defesa de certos interesses ou a concretização de propósitos previamente definidos. Essa capacidade manifesta‑se principalmente nas esferas política, militar e económica, as quais, constituindo embora cada uma um universo referencial próprio, estão estreitamente interligadas e condicionam‑se reciprocamente, como o demonstrara Bertrand Russell. Este filósofo britânico procuraria contornar a prevalecente ideia marxista de que a economia é o motor da História, apresentando como alternativa a sede de poder, condição sine qua non de toda a evolução política. Na análise que faz em finais da década de trinta das várias formas de poder que marcaram até então o presente século, denunciaria não só as articulções existentes entre os interesses económicos, a expansão territorial e a intervenção militar, mas também — à semelhança de Foucault, mais tarde — o facto de a verdade funcionar como o mais eficaz instrumento do poder político.
Ao contrário de Russell, porém, Foucault, na sua “arqueologia” da verdade, não se limitaria à abordagem dos efeitos da propaganda sobre a opinião pública. O autor de Surveiller et Punir e de la Volonté de savoir encontrará igualmente no próprio discurso científico um dos traços constitutivos da “economia política da verdade”. Enquanto sistema de procedimentos orientados para a produção e circulação de proposições, a verdade é, de acordo com Foucault, indissociável dos sistemas de poder que a regulam. Daí ser legítimo falar de um regime de verdade.
O poder revela‑se, portanto, como um elemento estruturador e consolidativo da ordem social, determinando o estatuto hegemónico deste ou daquele grupo, que o mesmo é dizer, definindo o grau de dominação, de repressão e de influência exercidas, ainda que inconscientemente, sobre os restantes grupos. No seio desse grupo circula uma linguagem própria — a que Roland Barthes deu o nome de encrática — emanada do poder, incrustrada de dogmas e, por vezes, doxomaníaca, que não admite contradição nem coexistência com outras linguagens, suas contestatárias. Assim, as relações assimétricas que, no interior do tecido social, se constróem de acordo com os ditâmes do poder, são justificadas e naturalizadas dentro de um vocabulário que vai buscar os seus significantes à ideologia dominante. É nesse sentido que Terry Eagleton irá argumentar que toda a ideologia marca o ponto em que o poder penetra e se instala no cerne dos discursos, intervindo activamente nos processos de construção de sentidos.
Note‑se, todavia, que nem todos os discursos partilham do poder. Roland Barthes, embora admitindo não haver texto sem ideologia, reconhece que no interior da logosfera (‘le monde du langage’) é impossível aspirar a uma harmonização ideológica dos diferentes sociolectos — linguagens alimentadas por certas ficções, ou, como ousará ainda qualificar, por certas ‘paranóias’  — que entre si competem pela hegemonia.

quinta-feira, setembro 17, 2009

10 razões para legalizar as drogas


1 – ENCARAR O VERDADEIRO PROBLEMA - Os burocratas que constroem as políticas sobre drogas têm usado a proibição como uma cortina de fumaça para evitar encarar os fatores sociais e econômicos que levam as pessoas a usar drogas. A maior parte do uso ilegal e do uso legal de drogas é recreacional. A pobreza e o desespero estão na raiz da maioria do uso problemático da droga, e somente dirigindo-se a estas causas fundamentais é que poderemos esperar diminuir significativamente o número de usuários problemáticos.
2 – ELIMINAR O MERCADO DO TRÁFICO - O mercado de drogas é comandado pela demanda e milhões de pessoas demandam drogas atualmente ilegais. Se a produção, suprimento e uso de algumas drogas são criminalizados, cria-se um vazio que é preenchido pelo crime organizado. Os lucros neste mercado são de bilhões de dólares. A legalização força o crime organizado a sair do comércio de drogas, acaba com sua renda e permite-nos regular e controlar o mercado (isto é prescrever, licenciar, controle de venda a menores, regulação de propaganda, etc..).
3 – REDUÇÃO DRÁSTICA DO CRIME - O preço de drogas ilegais é determinado por um mercado de alta demanda e não regulado. Usar drogas ilegais é muito caro. Isto significa que alguns usuários dependentes recorrem ao roubo para conseguir dinheiro (corresponde a 50% do crime contra a propriedade na Inglaterra e é estimado em 5 bilhões de dólares por ano). A maioria da violência associada com o negócio ilegal da droga é causada por sua ilegalidade. A legalização permitiria regular o mercado e determinar um preço muito mais baixo acabando com a necessidade dos usuários de roubar para conseguir dinheiro.Nosso sistema judiciário seria aliviado e o número de pessoas em prisões seria reduzido drasticamente, economizando-se bilhões de dólares. Por causa do preço baixo, os fumantes de cigarro não têm que roubar para manter seu hábito. Não há também violência associada com o mercado de tabaco legal.
4 – USUÁRIOS DE DROGA ESTÃO AUMENTANDO - As pesquisas na Inglaterra mostram que quase a metade de todos os adolescentes entre 15 e 16 anos já usou uma droga ilegal. Cerca de 1,5 milhão de pessoas usa ecstasy todo fim de semana. Entre os jovens, o uso ilegal da droga é visto como normal. Intensificar a guerra contra as drogas não está reduzindo a demanda. Na Holanda, onde as leis do uso da maconha são muito menos repressivas, o seu uso entre os jovens é o mais baixo da Europa. A legalização aceita que o uso da droga é normal e que é uma questão social e não uma questão de justiça criminal. Cabe a nós decidirmos como vamos lidar com isto. Em 1970, na Inglaterra, havia 9.000 condenações ou advertências por uso de droga e 15% de novas pessoas tinham usado uma droga ilegal. Em 1995 os números eram de 94.000 e 45%. A proibição não funciona.
5 – POSSIBILITAR O ACESSO A INFORMAÇÃO VERDADEIRA E A RIQUEZA DA EDUCAÇÃO - Um mundo de desinformação sobre drogas e uso de drogas é engendrado pelos ignorantes e preconceituosos burocratas da política e por alguns meios de comunicação que vendem mitos e mentiras para benefício próprio. Isto cria muito dos riscos e dos perigos associados com o uso de drogas. A legalização ajudaria a disseminar informação aberta, honesta e verdadeira aos usuários e aos não-usuários para ajudar-lhes a tomar decisões de usar ou não usar e de como usar. Poderíamos começar a pesquisar novamente as drogas atualmente ilícitas e descobrir todos seus usos e efeitos – positivos e negativos.
6 – TORNAR O USO MAIS SEGURO PARA O USUÁRIO - A proibição conduziu à estigmatização e marginalização dos usuários de drogas. Os países que adotam políticas ultra-proibicionistas têm taxas muito elevadas de infecção por HIV entre usuários de drogas injetáveis. As taxas de hepatite C entre os usuários no Reino Unido estão aumentando substancialmente. No Reino Unido, nos anos 80, agulhas limpas para usuários e instrução sobre sexo seguro para jovens foram disponibilizados em resposta ao medo do HIV. As políticas de redução de danos estão em oposição direta às leis de proibição.
7 – RESTAURAR NOSSOS DIREITOS E RESPONSABILIDADES - A proibição criminaliza desnecessariamente milhões de pessoas que, não fosse isso, seriam pessoas normalmente obedientes às leis. A proibição tira das mãos dos que constroem as políticas públicas a responsabilidade da distribuição de drogas que circulam no mercado paralelo e transfere este poder na maioria das vezes para traficantes violentos. A legalização restauraria o direito de se usar drogas responsavelmente e permitiria o controle e regulação para proteger os mais vulneráveis.
8 – RAÇA E DROGAS - As pessoas da raça negra correm dez vezes mais risco de serem presas por uso de drogas que as pessoas brancas. As prisões por uso de droga são notoriamente discriminatórias do ponto de vista social, alvejando facilmente um grupo étnico particular. A proibição promoveu este estereótipo das pessoas negras. A legalização remove um conjunto inteiro de leis que são usadas desproporcionalmente no contato de pessoas negras com o sistema criminal da justiça. Ajudaria a reverter o número desproporcional de pessoas negras condenadas por uso de droga nas prisões.
9 – IMPLICAÇÕES GLOBAIS - O mercado de drogas ilegais representa cerca de 8% de todo o comércio mundial (em torno de 600 bilhões de dólares ano). Países inteiros são comandados sob a influência, que corrompe, dos cartéis das drogas. A proibição permite também que os países desenvolvidos mantenham um amplo poder político sobre as nações que são produtoras com o patrocínio de programas de controle das drogas. A legalização devolveria o dinheiro perdido para a economia formal, gerando impostos, e diminuiria o alto nível de corrupção. Removeria também uma ferramenta de interferência política das nações estrangeiras sobre as nações produtoras.
10 – A PROIBIÇÃO NÃO FUNCIONA - Não existe nenhuma evidência para mostrar que a proibição esteja resolvendo o problema. A pergunta que devemos nos fazer é: Quais são os benefícios de criminalizar qualquer droga? Se após analisarmos todas as evidências disponíveis concluirmos que os males superam os benefícios, então temos de procurar uma política alternativa. A legalização não é a cura para tudo, mas nos permite encarar os problemas criados com o uso da droga e os problemas criados pela proibição. É chegada a hora de uma política pragmática e eficaz sobre drogas.


Texto original de: Comandante John Grieve - Unidade de Inteligência Criminal, Scotland Yard, Channel 4 1997. (traduzido por Luis Verza)

Tipografia para apaixonados

Um tesouro me chegou às mãos por um importador de livro. Trata-se de "Tipografia: origens, formas e usos das letras", do português Paulo Heitlinger, editado em 2006 pela Dinalivros, de Lisboa.
Paguei seu peso em ouro e valeu cada centavo.
Profusamente ilustrado com mostruários e exemplos de aplicação prática, Tipografia serve para orientar os que buscam inspiração para resolver as suas tarefas diárias de paginação, edição e desenho gráfico. É uma obra-prima editorial, fazendo da trajetória da tipografia uma forma de contar a história do homem e da comunicação humana.
Tipografia foi escrito para os que produzem e para os que consomem informação impressa em papel ou apresentada na tela. Para quem, como eu, é apaixonado pelo tema, o livro apresenta-se como um itinerário social que atravessa os séculos apresentando, a cada passagens, personagens grandiosos e geniais aos quais deveríamos render eterna homenagem, como Frederic Goudy, Aldus Manutius, Francesco Griffo, Claude Garamond, Willian Caslon, John Barkerville, François Didot, Giambatista Bodoni, Eric Gill, Herbert Bayer, Paul Renner ou Jan Tshichold, todos eles designers fabulosos cuja motivação primordial era tornar a leitura, em si, uma forma de arte.
Na apresentação, o ator afirma que a obra dirige-se aos estudantes e profissionais que elaboram documentos ou que fazem design editorial ou publicitário. Mas não só. Sabendo que esta temática ainda não tinha sido aprofundada por autores em língua portuguesa, o autor enquadrou o tema numa visão alargada, para assim captar o interesse de todos os que apreciam temas sócio-culturais, estéticos e históricos.
Além de discutir a funcionalidade das letras, Tipografia põe em evidência a estética dos caracteres; ambos são assuntos pouco discutidos entre nós. Em Portugal, como no Brasil, a cultura tipográfica só timidamente começa a mostrar o seu potencial.
Muitos comunicadores, designers e editores não estão a par da produção dos typeface designers nacionais e internacionais.
O livro é uma das primeiras obras de referência para todos os que necessitam uma visão crítica sobre as peculiaridades formais e funcionais das tipologias tipográficas. Uma obra essencial para quem trabalha conscientemente com letras e para os que vêem, nelas, uma fonte de prazer estético sem par.

quarta-feira, setembro 16, 2009

Relendo J.B. Thompson

Os aspectos técnicos dos meios de comunicação são importantes, mas não devem obscurecer o fato de que o desenvolvimento dos meios de comunicação é uma reelaboração do caráter simbólico da vida social, uma reorganização da maneira pela qual a informação e o conteúdo simbólico são produzidos e intercambiados no mundo social, e uma reestruturação dos meios pelos quais os indivíduos se relacionam entre si.
Geertz: “os meios de comunicação são rodas de fiar com que os seres humanos fabricam teias de significação para si mesmos”.
A comunicação é uma forma de ação, e esta ação deve ser estudada contextualizadamente. Fenômenos sociais podem ser vistos como ações intencionais levadas a cabo em contextos sociais estruturados, em campos de interação entre os indivíduos que podem se institucionalizar.
A posição que o indivíduo ocupa num campo está ligada ao poder que ele possui. Hoje, os Estados são pontos de concentração de poder no mundo, por isso associamos poder à política. Mas o poder político é só mais uma entre outras formas de poder: econômico, coercitivo e simbólico.
Poder simbólico: os indivíduos se servem de “capital cultural” para intervir no curso dos acontecimentos. Instituições religiosas, educacionais e da mídia utilizam meios de comunicação e informação para isso.
Uso dos meios de comunicação – atributos:
- Fixação da forma simbólica (armazenagem num suporte técnico).
- Reprodutibilidade da forma simbólica.
- Permitem distanciamento espaço-temporal.
- Exigem certas habilidades, competências e conhecimentos para sua codificação.
Comunicação de massa não se refere, necessariamente, a uma massa numérica. Quer dizer que os produtos estão em princípio disponíveis para uma grande pluralidade de destinatários. A “massa” não é homogênea e passiva e comunicação é diferente de mera transferência. Os receptores da mídia são participantes de um processo de transmissão simbólica; interagem com a mensagem, mas raramente com o emissor. O fluxo, na maioria das vezes, é unidirecional.
Características da comunicação de massa:
- Envolve certos meios técnicos e institucionais de produção e difusão.
- Mercantilização das formas simbólicas: valor simbólico e valor econômico.

- Extensão da disponibilidade das formas simbólicas no tempo e no espaço.
- Circulação pública das formas simbólicas.
Reorganização do espaço e do tempo:
- Compressão espaço-temporal.
- Simultaneidade sem localidade única.
- Historicidade mediada: nosso sentido de passado foi transformado através da mídia.- Mundanidade mediada: nossa compreensão sobre o “resto do mundo” também mudou.
- E tudo isso implica numa nova socialidade, a mediada. Amplia-se e muda a percepção de comunidade para os indivíduos.

Crítica à semiótica e ao estruturalismo por abstrair as formas culturais de seus contextos.
Crítica ao antigo funcionalismo por medir e quantificar o público e suas respostas, negligenciando o caráter mundano da atividade receptiva. Estudos atuais mostram que a recepção dos produtos da mídia é um processo mais ativo e criativo do que o mito do assistente passivo sugere (os “usos”).
A recepção é uma atividade situada, de rotina, e uma realização especializada (depende de habilidades e competências). E é um processo hermenêutico que influencia a vida individual e as relações sociais.

quinta-feira, setembro 10, 2009

Marketing e verdade

Enquanto no Brasil o jornalismo golpista diz o que quer para provar seus pontos de vista sem se importar que haja coincidência entre versão e fato, na Índia a recomendação é que até mesmo a publicidade atenha-se simplesmente aos fatos. "Os consumidores do país tendem a acreditar piamente naquilo que uma propaganda diz", afirma Praveen Kopalle, professor da escola de negócios Tuck, uma das mais conceituadas do mundo. Não é uma questão de ingenuidade e sim de crença. Os hindus, maioria na Índia, acreditam que todas as suas ações, positivas ou negativas, têm reflexo nas vidas seguintes. Assim, não concebem a idéia de que as pessoas - e por extensão as empresas e marcas - digam meias verdades ou mesmo mintam, se arriscando a sofrer punições "nas próximas encarnações".

quarta-feira, setembro 09, 2009

Destrinchando os fatos


Se o jornalismo existisse como o concebemos, ele seria, de fato, a profissão que mais aproximaria a prática humana presente da filosofia clássica, do "amor pelo saber".
Lembro que a melhor definição que já li sobre o que é ser jornalista estava num livrinho escrito para adolescentes por Juan Luis Cebrián, o mestre do jornalismo espanhol que fundou um dos mais importantes jornais conservadores do mundo – El País. Cartas a um joven periodista é curto e faz parte duma daquelas coleções que orientam jovens a respeito das profissões. Cebrián escreve:
A primeira condição é a curiosidade. Os filósofos a chamam de capacidade de assombro, o que implica uma certa ingenuidade do espírito, um amor ao novo, uma disposição de surpreender-se a cada manhã. É nesta capacidade de assombro que está o princípio básico do conhecer e é por isto que a rotina é o pior inimigo da sabedoria. O bom dos jornalistas, daqueles jornalistas de verdade, é que se interessam por tudo, se encantam com tudo, saem em busca de qualquer coisa. Seu trabalho é destrinchar os fatos para sintetizá-los. Já pensou alguma vez sobre o aspecto da primeira página de um jornal? É um mosaico irregular onde se mesclam as últimas notícias da política, a partida de domingo e os crimes passionais. Atrás de cada um destes relatos há um jornalista que os escreve. [...] A paixão do jornalista não se satisfaz apenas com a própria sabedoria mas também com a curiosidade alheia, que ele busca interpretar e que, nem sempre coincide com seus interesses pessoais, seus ideais ou seus próprios critérios.
Qual é o problema? O problema é que isto é um mito.
A curiosidade do jornalista não será, nunca, superior aos ditames do dono do veículo de comunicação no qual esse curioso profissional versará sua prosa. E não me venham dizer que os blogs estão a substituir a mídia de massas porque isso simplesmente não é verdade. A internet e as mídias digitais estão redesenhando o comportamento e mudando a indústria da comunicação, mas os blogs formam nuvens de fragmentos informativos enquanto as mídias de massa formam planetas de informação. Tendo mais massa, esses planetas têm mais peso e conduzem a informação a públicos maiores. Influenciam, portanto, muito mais.
Se o bom jornalista se interessa por tudo, por que os grandes jornais brasileiros menosprezam a verdade? Por que essa curiosidade não joga a favor da continuidade do projeto de reestruturação do Estado brasileiro, defendido pelo PT, e sim a favor do projeto de desmonte da coisa pública defendida pela oposição de direita? É porque não se trata de amor pelo saber, mas de saber que o amor da mídia está em expandir seu campo de ação e destruir as rédeas que um estado forte e realmente autônomo poderia lhe impor.
Pergunte a si mesmo: por que os grandes jornais fazem questão de confundir a opinião pública, informando que a Petrosal - empresa pública reguladora que o governo federal está criando para controlar a exploração da riqueza petrolífera profunda da costa brasileira - será uma espécie de concorrente da Petrobrás e que irá "enfraquecê-la"? Por que a imprensa diz que dar aumento de salário a servidores público, melhorar sua qualificação e contratar novos servidores por concurso é "inchar o estado e aumentar os gastos públicos" ao mesmo tempo em que cobra um estado que cumpra suas funções? Mas como cumpri-las enfraquecido, com funcionários desmotivados, com carência de pessoal?
Ora, isso simplesmente não tem importância.
Porque difundir mentiras ajuda a vender a idéia de que o governo federal brasileiro está metendo os pés pela mão e que é melhor entregar isso tudo de novo aos que venderam as estatais brasileiras sólidas por pouco mais ou nada, ou seja, o PSDB, varrendo de uma vez "essa raça" do poder.
O amor ao novo, exposto de maneira poética por Cebrián está longe de ser o amor ao novo que a verdadeira curiosidade humana pode prover: o amor à sabedoria engajada, aquela que vê o mundo e o quer transformar.
É desse jornalismo transformador e verdadeiro que o Brasil precisa. Quem se atreve a provê-lo?

Não há jornalismo quando o assunto é política

Conta a lenda que o pressuposto do jornalismo seria a neutralidade. A informação "isenta". O olhar "imparcial". O texto "independente". Ocorre que em política não há isenção nem imparcialidade nem independência. Todos os fatos são lidos e o olhar, a leitura, são mediados pela política, pela ideologia, pelos preconceitos de quem lê e de quem escreve e dos interesses - políticos, comerciais - de quem publica e difunde a notícia. Como disse Marx, "o homem vê o mundo do ponto onde se encontra". Não há meio-termo.
Lúcia Hipólito dá razão a Marx. Especialista em generalidades, tornou-se comentarista política de grande visibilidade na mídia, revelando em todas as suas aparições públicas seu alinhamento doutrinário ao PSDB. E de onde vê o mundo, emite suas opiniões. Uma das baluartes do pedido de impedimento do presidente em 2005, anti-lulista militante e anti-petista radical, Hipólito está comemorando a recente pesquisa CNT/Sensus, bradando seu contentamento com os números assim: "Dilma combina o pior dos mundos: baixo índice de intenção de voto com alto índice de rejeição". Hipólito é uma especialista em secos-e-molhados contaminada por seus preconceitos contra a esquerda. Essa paixão turva sua percepção, deixando que revele o quanto é ignorante em marketing político e gestão de imagem. Ela reage como torcedora que é e não como analista isenta que gostaria de ser.
O que deveria tecnicamente chamar a atenção nos índices relacionados à Dilma Roussef seria justamente o oposto: como a ex-combatente da ditadura, hostilizada pela mídia diariamente, consegue ter índices crescentes que indicam, já, sua presença em um possível segundo turno.
Sem nunca ter sido candidata a nada, sem nunca ter exercido nenhum mandato, a pré-candidata do planalto  aparece com 19,9% contra 40,1% de José Serra, uma das figuras mais carimbadas da política nacional e a mais protegida pela imprensa de massas do país. Ou seja, a sem-mandato Dilma Roussef tem metade da intenção de votos de Serra sem sequer ser candidata. Esse seria o destaque se o que se estivesse levando ao público fosse informação. Mas como é informação manipulada, ganha força o não-fato, impondo-se aos fatos à força.
Um exemplo desse jornalismo manipulativo está no título da matéria da Agência O Globo, publicada em diversos jornais na manhã de hoje. "Dependendo do cenário, a intenção de voto em Marina varia até 11,2%". Ou seja, quem está em último ganha as manchetes, transformando a realidade em um simulacro de difícil leitura pelo cidadão comum.
Se o jornalismo é um ato de leitura neutra dos fatos, não pode haver jornalismo quando o assunto é política porque a política é o campo da luta dos contrários, é o espaço da exposição da parcialidade, da escolha apaixonada, do ponto de vista comprometido, da síntese qualitativa que se dá a partir do embate frontal, das múltiplas assimilações e não-assimilações dialéticas de elementos opostos. Só os cínicos não admitem isso.
A propaganda e a publicidade continuam a dar passos largos para se tornarem a parte boa da comunicação social, deixando ao jornalismo o trabalho sujo da manipulação indecente e desavergonhada da realidade enquanto oculta-se no roto manto da visão "isenta" e "imparcial" dos fatos.

Marketing político e construção de imagem

A imagem como produto da imaginação está relacionada com a própria etimologia do termo. “Imaginar” significa criar imagens, reproduções da realidade, de forma gráfica, plástica, fotográfica ou mental.
Imaginação é justamente a faculdade de construir uma visão de um objeto, pessoa ou situação – conhecidos ou não conhecidos. A imaginação é especialista na construção de imagens. Neste sentido a imagem de uma personalidade pública não pertence a ela, mas é produto da imaginação de quem pensa sobre ela. Diante desta perspectiva de estudo, a imagem de um homem público ou de uma mulher pública ou mesmo de uma organização pública pode ser decomposta em cinco dimensões:
1. Imagem espacial: onde se situa e como ocupa o espaço – físico, político, econômico, social;
2. Imagem temporal: refere-se à história, sua inserção no andamento da história que a circunda (o que este personagem já fez, faz e é capaz de fazer);
3. Imagem relacional: resultado da relação com os demais – onde é que este personagem ou entidade entra no meu universo e no macro sistema social, ou seja, como eu o vejo em relação à minha vida e à vida da cidade, estado, país;
4. Imagem personificada: advém dos papéis desempenhados por membros da organização que dá suporte a esse personagem (partido, ONGs, sindicatos, gestores próximos, etc) com os quais ela interage, e;
5. Imagem valorativa: todos os componentes racionais e emocionais das imagens citadas acima.
A imagem enquanto construção pressupõe que ela pode ser modificada, alterada ou solidificada. Luis Inácio Lula da Silva, por exemplo, começou com uma imagem associada aos movimentos sindicais reivindicatórios relacionados a uma categoria profissional, os metalúrgicos, de uma área geográfica específica, a região do ABCD, em São Paulo. Logo, estaria a frente da construção de uma legenda partidária nova e com um discurso de defesa de direitos dos trabalhadores que o conduziu a um novo patamar de universalização, até chegar a condição de presidente do Brasil com maior apoio popular da história.
Ou seja, um personagem político ou um governo tem a capacidade de estrategicamente realizar certas ações e ao comunicá-las de acordo com os objetivos pretendidos, avançar na construção de imagem de maneira crescente.
Tais ações são divididas em ações transcendentes, que são todos os atos que vão além da atividade de subsistência material ou política, evidenciando seu envolvimento com algo maior do que ela própria; e ação discursiva, que pressupõe que o gestor ou líder têm a capacidade de fornecer subsídios para a construção da imagem, embora não tenham a capacidade de construí-la.
O terceiro ângulo enfoca a legitimidade como base de sustentação da imagem. Esta legitimidade se dá através de um processo de comunicação. No caso de nosso exemplo, é inquestionável a capacidade de Lula não apenas de fazer da comunicação de seu governo um exemplo grandioso de como fazer comunicação pública de qualidade mas de ser, ele próprio, um agente ativo de reificação de imagem.
Em marketing político, entendemos por "legitimidade política" a compatibilidade entre as ações políticas e os valores e interesses de seus públicos. Ela é fomentada por um processo de comunicação chamado legitimação política. Legitimar é explicar e justificar a realidade da marca Lula, por exemplo, em termos aceitáveis pelos seus públicos.
Este processo não garante resultados: a definição fala de termos aceitáveis, não necessariamente aceitos. As variáveis intervenientes, percepção e reputação serão abordadas como facilitadoras do processo de formação da imagem e aquelas que associam a identidade da imagem.
Enquanto na manhã de hoje a imprensa golpista comemora o que considera “queda na popularidade de Lula” (de 81,5% para 76,8%), o que deveria chamar a atenção de todos é como Lula segue sendo o presidente mais bem aceito da história do país tendo contra si não parte da imprensa de massas, mas a totalidade dela. 76% do conteúdo da mídia impressa, 83% do conteúdo televisivo, 56% do conteúdo radiofônico e 89% do conteúdo on-line é de ataque a Lula e a seu governo. É um massacre contra o qual Lula se sobressai com altivez, sem rasgos golpistas ou iniciativas de limitar a liberdade que a imprensa tem de mentir e torcer os fatos, exercício aliás praticado com maestria em nosso país.
Manter uma imagem sólida de liderança e garantir apoio popular na adversidade são elementos que se devem a uma imagem de marca bem construída, que soma as cinco dimensões de imagem de modo jamais visto anteriormente em nossa história.
O peso de Lula é maior, mais denso e mais sólido do que a capacidade dos irresponsáveis que tentam desestabilizar o país para abrir espaço ao retrocesso.

terça-feira, setembro 08, 2009

Como peixes

"Idéias são como peixes.
Se você quer pegar um peixinho, pode ficar em águas rasas. Mas se quer um peixe grande, terá que entrar em águas profundas.
Quanto mais fundo, mais poderosos e mais puros são os peixes. Peixes enormes e abstratos. E realmente maravilhosos".

(David Lynch)

Twitter: esqueçam essa bobagem

Pode ser que muita gente já desconfiasse disso, mas uma pesquisa da Pear Analytics, empresa prestigiada e especializada em análise de dados, afirma cientificamente que 40,55% dos posts do Twitter é de material inútil, sem valor algum.
Durante duas semanas, a empresa analisou dois mil postagens do site, classificando-os em seis categorias: notícias, spam, auto-promoção, conversação, informações úteis e o grande vencedor: bobagem. Acredito que se fosse mais rigorosa, a análise da Pear Analytics chegaria a dados bem mais alarmantes, já que grande parte da auto-promoção e da conversação é... bobagem.
A idéia de ter "seguidores" é primitiva. Curiosamente se alastra como um pressuposto irracional e pós-moderno resultante da idéia de que todos temos que ser celebridades. Essa idéia, em si, é uma infâmia perniciosa que se espalha como uma epidemia e atinge, sobretudo, os mais jovens, levando-os aos guetos sociais que se formam na web.
A idiotice por trás desse raciocínio é evidente: uma sociedade de celebridades é uma improbabilidade estatística, para se dizer o mínimo e um desejo inviável, para usar a racionalidade. Não há eternidade alguma na fugacidade de ferramentas como Twitter, apenas mais um caça-níqueis a coletar e vender o registro de seus frequentadores.
O curioso é ter políticos, homens e mulheres pagos com dinheiro público para representar os nossos interesses, perdendo seu tempo e gastando nossa paciência com essa tolice adolescente que nos alerta para seus movimentos diários e seus pensamentos pueris como se isso ajudasse a edificar as suas biografias.
Um desses políticos tradicionais me confessou, orgulhoso, ter "mais de mil seguidores". Parabenizei o homem sem dizer a ele que, provavelmente, 999 desses "seguidores" são inimigos dele, catando as bobagens que larga no chão.

Seu país

Começa assim a ótima matéria da revista Carta Capital desta semana sobre o tema "Pré-Sal": "A insistência da mídia em tratar quaisquer propostas do governo como discurso eleitoreiro obscurece a importância do que está em debate".
O nível de irresponsabilidade da imprensa, tendo o sistema Globo à frente, ao lidar com esse tema é, realmente, um descalabro. Por trás do discurso da oposição e da imprensa anti-petista ancora-se um raciocínio anti-estatal que, de fato, está na contra-mão do mundo presente. Cheira a naftalina dos períodos anteriores à queda do Muro de Berlin.

quinta-feira, setembro 03, 2009

Terceiro mandato é tendência dominante no continente

O Congresso da Colômbia deu mais um passo para que o presidente Álvaro Uribe possa pleitear um terceiro mandato consecutivo. A Câmara aprovou a convocação de um plebiscito sobre a reforma constitucional. A medida já havia passado pelo Senado e segue agora para a Corte Constitucional, que julgará sua legalidade. Apesar de o presidente Uribe ter indicado a maioria dos juízes da Corte, não é certo que ela autorizará a realização. Uribe, eleito em 2002, já conseguiu mudar a Constituição para se reeleger em 2006. À época, a Corte Constitucional sugeriu que uma reeleição era suficiente.
A Corte tem 60 dias para analisar a medida, mas pode pedir mais prazo. A oposição diz que um terceiro mandato prejudicaria a democracia no país. Partidários de Uribe dizem que a permanência do presidente é essencial para a manutenção dos avanços obtidos com combate à violência e na estabilização da economia do país.
No Brasil, não havia reeleição. Após sucessivas pesquisas, FHC concluiu que não tinha um candidato a sucessor que pudesse bater Lula em uma disputa voto a voto. Então, não fez plebiscito algum. Simplesmente criou a reeleição. Não lembro de que a imprensa brasileira tenha considerado aquele golpe legítimo - afinal ele tinha maioria no Congresso e portanto tinha legitimidade para proceder as mudanças que considerasse convenientes - um "ataque à democracia" ou mesmo que tenha reivindicado um plebiscito para que o povo fosse ouvido sobre o fato. Hoje, quando alguns falam em possibilidade de terceiro mandato no Brasil o horror que isso provoca na direita é, nada mais nada menos, do que o horror de não ter para pronta entrega nenhum candidato que possa bater Lula na democrática disputa pelo voto.
Afinal, poder reeleger não quer dizer, aqui ou na Colômbia, obrigação de reeleger. Ainda estará nas mãos do povo a palavra final. O que há de anti-democrático nisso?

sexta-feira, agosto 28, 2009

Blogs fora da lei

Ex-presidente do TSE afirma que pré-candidatos não podem fazer propaganda antecipada na internet, mesmo quando mantida por simpatizantes

Os pré-candidatos a presidente da República correm o risco de ferir a legislação quando permitem a propaganda eleitoral antecipada em blogs mantidos por terceiros. Na opinião do ministro Marco Aurélio Mello, ex-presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), a publicidade relacionada à disputa de 2010 está proibida. Não importa se os blogs de divulgação das candidaturas não sejam oficiais, feitos por eleitores ou simpatizantes.
De acordo com Marco Aurélio, o impedimento desse tipo de propaganda se torna necessário porque “ficaria muito fácil” para os candidatos argumentarem à Justiça Eleitoral que uma terceira pessoa estaria fazendo sua campanha de forma antecipada. “O ato do terceiro repercute na caminhada dele”, afirmou Marco Aurélio, que é ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), ao Congresso em Foco.
Pela lei, as campanhas políticas só serão permitidas a partir de julho de 2010, depois que os candidatos alcançarem a indicação da legenda em convenções partidárias. No próximo ano, além da vaga de presidente da República, também estarão abertas vagas para os governos dos estados, para as assembléias estaduais e distrital, para a Câmara dos Deputados, e para 2/3 do Senado.
O Congresso em Foco revelou ontem (24) que, 16 meses antes das eleições, os pré-candidatos à Presidência da República têm blogs de apoio, feitos por simpatizantes.
A página dedicada à ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff foi atualizada durante o carnaval com imagens da preferida do presidente Lula no carnaval pernambucano. Os governadores de Minas Gerais, Aécio Neves, e de São Paulo, José Serra, ainda disputam a indicação do PSDB, mas contam há algum tempo com o suporte de blogs de propaganda.
Para o deputado Rodrigo Rollemberg (PSB-DF), o posicionamento de eleitores com tanta antecedência é um “sinal dos tempos” da comunicação via internet. “É natural que no processo democrático as pessoas coloquem suas opiniões sobre os pré-candidatos”, afirma o congressista, complementando que é preciso adequar a legislação à rapidez na divulgação de informações dos tempos atuais. “Não vejo campanha antecipada.”
O líder do Psol na Câmara, Ivan Valente (SP), avalia que o processo eleitoral “está antecipado demais”. “Existe uma campanha aberta... O Tribunal Eleitoral deveria estar esperto”, afirma o parlamentar paulista.
Como exemplo, ele cita campanhas televisivas da Secretaria de Saneamento e Energia de São Paulo (Sabesp) em outros estados da federação, e da ministra Dilma Rousseff em publicações impressas no exterior. “É muito escancarado”, avalia Ivan Valente, que não descarta que o partido entre com uma representação no TSE contra a campanha dos pré-candidatos.
Contudo, o deputado explica que, para tanto, é preciso ouvir a Executiva do partido sobre o assunto. “Ainda não fechamos posição.”

Parlamentares na rede

Além de blogs dedicados aos presidenciáveis, parlamentares também se beneficiam com a ação de simpatizantes em outras alamedas da rede mundial de computadores.
Conforme mostrou o Congresso em Foco, uma monografia para o curso de especialização em Comunicação Legislativa da Universidade do Legislativo (Unilegis) revela que, dos 594 parlamentares federais, 447 têm comunidades a eles dedicadas no site de relacionamentos Orkut (leia mais).
"Ou seja, 75,25% dos parlamentares brasileiros estão ali presentes, por vontade própria ou por desejo de eleitores que julgaram interessante fazer esse tipo de divulgação", apontou a tese. Ao todo, foram encontradas 1.789 comunidades destinadas aos deputados e senadores brasileiros.
Para o deputado José Carlos Aleluia (DEM-BA), as regras do TSE acabam por desestimular os parlamentares a usarem a internet como plataforma de comunicação com seus eleitores. "O TSE fez as regras por desconhecer as possibilidades da internet", afirma Aleluia.

"Candidata inatacável"

De acordo com Daniel Pearl, coordenador geral do blog "Dilma presidente", a iniciativa de criar um espaço virtual dedicado a uma eventual candidatura da ministra da Casa Civil à Presidência da República surgiu há três anos. Desde então, o blog conta com vários colaboradores.
Na análise de Pearl, a ministra vem se destacando na função e ganhando notoriedade para substituir o presidente Lula. “Na condição de principal responsável e grande fautora dos acertos de Lula, ela é uma candidata inatacável. Perfeita."
“A nova visão do presidente Lula em falar direito com eleitorado para pequenas circulações foi genial, ele acertou em cheio”, resume.
“Como simpatizantes do PT, temos a liberdade de manifestar nossas opiniões, deixando para os políticos fazerem política”, afirma. “Acho que a internet hoje tem um grande peso na informação, muita gente deixou de assistir televisão e ler jornais e revistas para ficarem antenado nos blogs e sites. No Brasil já ultrapassam mais de 42 milhões de internautas. A mídia televisiva e escrita ainda não percebeu esse fenômeno, e nós blogueiros descobrimos há muito tempo”, complementa.
Segundo Daniel Pearl, o uso da internet nas campanhas eleitorais é “fundamental”. “Muito políticos não perceberam que fazer política como antigamente cansou o eleitorado. O eleitorado quer atenção, interação, resposta para seus questionamentos, quer solução rápida.”
O Congresso em Foco não conseguiu localizar os editores dos blogs de divulgação das candidaturas de Aécio Neves e José Serra

Fonte: congressoemfoco.com.br/Rodolfo Torres

quarta-feira, agosto 26, 2009

Estranhezas

O jornalista Elio Gaspari, fazendo coro com os que acham que vão vencer 2010 por antecedência, e no grito, escreveu: "Há os que saem, como os 12 da Receita; há os que ficam, como Mercadante".
É uma tentativa, embora trôpega, de diminuir a importância de Mercadante, o senador que teve cinco milhões de votos, comparando um homem público íntegro, que enfrentou a ditadura e ajudou a construir o maior partido de esquerda do ocidente, com uma turba de demitidos de cargos comissionados, capitaneados por uma ex-diretora da Receita, magoada por ter sido demitida por Guido Mantega.
O Brasil tem disso. O país é o primeiro dos países emergentes a sair da crise econômica que abalou a economia mundial, mas isso não tem importância alguma para a imprensa golpista, que quer pautar a nação a partir de seus próprios interesses.
Enquanto dão importância aos desimportantes, como Lina Vieira, fazem vista grossa aos descalabros cometidos pelo governo José Serra. O mais recente deles foi mobilizar a tropa de choque da PM para desalojar, na marra, centenas de famílias pobres, que tiveram que dormir ao relento enquanto seus barracos e seus pertences ardiam em chamas. Crianças, velhos, mulheres grávidas, ao relento, desamparados.
Procurei no noticiário uma única referência à ação da PM ou do governo Serra nesse episódio lamentável. Nenhuma citação. A imprensa trata o caso como se fosse uma intempérie, uma calamidade natural. Se o mesmo ocorresse no Pará, a governadora Ana Júlia estaria ardendo em uma fogueira e algum palhaço estaria em Brasília pedindo intervenção federal no Estado.
Diante da recorrência do tema político neste blog, um jovem amigo me perguntou, "mas o que isso tem a ver com comunicação?". Eu respondo: tudo.
Vide a teoria do agendamento, que já foi objeto de um post meu, aqui mesmo no CM.
A imprensa golpista acredita piamente em si mesma. Considera-se os olhos e a inteligência do país. Deu a si mesma o papel de polícia, tribunal e juiz do comportamento nacional e da conduta de nossas personalidades públicas.
O povo, felizmente, não lhe dá ouvidos. Desconfia do que vê e lê nessa mídia interesseira e parcial, que insiste em perpetuar aquilo que Nelson Rodrigues, com brilhantismo, denominou de "síndrome de cachorro vira-lata", a persistente ideologia das elites brasileiras que se configura em falar mal do país para inocular em nosso povo a idéia de que somos incapazes de fazer e acontecer.
Mas o Brasil, e seu povo, estão fazendo acontecer um país que dá orgulho aos brasileiros. Menos aos barões da imprensa, cada vez mais distantes da realidade nacional.

segunda-feira, agosto 03, 2009

Dilma é o alvo da crise

Vera Paoloni me encaminhou bom artigo de Wladimir Pomar, recém-publicado no Correio da Cidadania, que socializo aqui com os leitores do CM.

Sarney é um dos remanescentes das antigas oligarquias que participaram, por longo tempo, do comando do Estado brasileiro. Como todos os demais, ele migrou da classe dos latifundiários para a burguesia. Apoiou o golpe militar de 1964 e foi figura de proa na Arena. No final desta, foi para a Frente Liberal. Mas apercebeu-se, antes dos outros de seu partido, que o regime militar estava no fim e que, para salvar sua classe, era preciso trocar de lado e realizar uma transição negociada.
Foi essa visão que lhe valeu a candidatura a vice-presidente, na eleição indireta de Tancredo, e a presidência, ante a morte prematura do cabeça da chapa. Seu governo foi medíocre, embora tenha contribuído positivamente para a concretização das primeiras eleições presidenciais diretas, após mais de 25 anos, fundamentais para a consolidação do processo democrático no Brasil. O que não foi pouco.
Bem vistas as coisas, Sarney foi, antes de tudo, um fiel servidor de sua classe social. Algumas vezes esteve na frente dela, ao captar as tendências sociais e políticas. O que o levou a adotar posturas para salvá-la de seus próprios desacertos. Em certo sentido, ele parece acompanhar os passos sagazes de Vargas que, em seu tempo, salvou tanto os latifundiários quanto a burguesia com seu faro agudo para as mudanças em gestação na base da sociedade.
Provavelmente, foi essa intuição que levou Sarney, em 2002, bem à frente de seus partidários, a vislumbrar que era o momento de permitir que representantes dos trabalhadores experimentassem o mel e o fel de ser governo, sem ter o poder. O que lhes garantiu canais de negociação e influência no governo Lula, e benefícios evidentes para sua classe, como um todo.
Diante desse histórico, o que se pergunta é: por que uma parte da burguesia decidiu liquidar, com desonra, um de seus mais sagazes representantes políticos? Seus pecadilhos, assim como vários dos seus grandes pecados, não são em nada diferentes dos que a maioria dos senadores e deputados deve confessar a seus pastores. E não se diferem em nada da prática diária da burguesia, ao realizar seus negócios. Então, por que a fúria para derrubar o senador?
A resposta a essas questões pode estar no fato do senador Sarney haver demonstrado propensão a considerar que o governo, com participação de representantes dos trabalhadores, deva ter continuidade, em 2010. Isto pode resultar na negativa de utilizar a presidência do Senado como instrumento para paralisar o governo atual. Se isso for verdade, a suposta falta de decoro parlamentar do senador não passa de cortina de fumaça. Ela esconde apenas a tentativa de derrubar o senador para, através da presidência do Senado, virar o jogo de 2010 no tapetão, impedindo o governo Lula de realizar seus principais projetos.
Porém, a resposta pode mesmo estar relacionada com deslizes na emissão de decretos secretos, ou na omissão diante deles, assim como com atos de favorecimento para empregos no Senado e na Câmara dos Deputados. Se esta for a verdade, os senadores deveriam acabar com a hipocrisia e realizar uma investigação séria, colocando-se todos sob suspeição.
Com uma investigação desse tipo, separando-se os que realmente não participaram de qualquer daqueles atos dos que os praticaram, é provável que o senador Sarney não saia ileso. Mas, certamente, levaria muita gente consigo. Seria o justo. O resto não passa de engodo de falsa moralidade e objetivos escusos.”