sábado, março 15, 2008

Orgulho de ser brasileiro

Recebi um desses emails que circulam e a gente nem sempre dá importância. Mas ao lê-lo novamente, me dei conta de que ele é uma daquelas pérolas que a gente deixa aos porcos por não vê-la, já que destaca um elemento importante da alma brasileira, que Nelson Rodrigues nomeou de “alma de vira-lata” que os brasileiros têm, considerando que o mundo todo presta menos o Brasil.
Inegavelmente, é uma mania nacional falar mal do Brasil. Não é apenas uma arte exercida por alguns indigentes intelectuais, como Diego Mainardi. É um vício entranhado em nossa cultura, em nosso espírito de vira-lata, em nossa história de colônia de um império que o Brasil já encontrou decadente ou vice-versa.
Na verdade, todo lugar e todo país tem seus pontos positivos e negativos, mas no exterior eles maximizam os positivos, enquanto no Brasil se maximizam os negativos. Pense bem? Você já viu um novaiorquino falando mal de Nova Iorque? Não. Mas lá 80 mil mendigos e sem teto vivem de restos de comida que conseguem colher nas latas de lixo. A política da exposição de mazelas e miséria se alastra por nossa mídia, com agravantes acentuados na televisão, que perfila desgraças em série e desventuras cumulativas, dando a impressão de que nosso país não passa de um depósito de infelizes sem futuro.
O email em questão, supostamente escrito por uma escritora holandesa, destaca, por exemplo, que naquele avançado país da Europa as eleições demoram horrores porque não há nada automatizado. Contam-se os votos no século XXI como se contava no século XVIII. Ali, só existe uma companhia telefônica e, pasmem, se você ligar reclamando do serviço, corre o risco de ter seu telefone temporariamente desconectado.
Nos Estados Unidos e na Europa, ninguém tem o hábito de enrolar o sanduíche em um guardanapo, ou de lavar as mãos antes de comer ou depois de ir ao banheiro, ou de usar neutralizadores de odores - o que torna os lugares públicos, como o Metrô, irrespiráveis em determinados horários. Nas padarias, feiras e açougues europeus, os atendentes recebem o dinheiro e com mesma mão suja entregam o pão ou a carne. Em Londres, existe um lugar famossíssimo que vende batatas fritas enroladas em folhas de jornal - e tem fila na porta. Na Europa, não-fumante é minoria. Se pedir mesa de não-fumante, o garçom ri na sua cara, porque não existe. Fumam até em elevador.
Em Paris, os garçons são conhecidos por seu mau humor e grosseria e qualquer garçom de botequim no Brasil podia ir pra lá dar aulas de 'Como conquistar o Cliente'.
Um dos critérios do imperialismo, agora ou no século I a.C, para impor seu poder e suas crenças é fazer-nos crer em nossa inferioridade diante da riqueza e dos valores do colonizador. Se você parar para observar, em todo filme dos EUA a bandeira nacional aparece, e geralmente na hora em que estamos emotivos.
Os brasileiros têm uma língua que, apesar de não se parecer quase nada com a língua portuguesa, é chamada de língua portuguesa, enquanto que as empresas de software a chamam de português brasileiro, porque não conseguem se comunicar com os seus usuários brasileiros através da língua Portuguesa. Os brasileiros são vitimas de vários crimes contra a pátria, crenças, cultura, língua, etc... Mas temos muitas razões para resgatar suas raízes culturais.

Os dados são da Antropos Consulting:

1. O Brasil é o país que tem tido maior sucesso no combate à AIDS e de outras doenças sexualmente transmissíveis, e vem sendo exemplo mundial.
2. O Brasil é o único país do hemisfério sul que está participando do Projeto Genoma.
3. Numa pesquisa envolvendo 50 cidades de diversos países, a cidade do Rio de Janeiro foi considerada a mais solidária.
4. Nas eleições de 2000, o sistema do Tribunal Regional Eleitoral (TRE) estava informatizado em todas as regiões do Brasil, com resultados em menos de 24 horas depois do início das apurações. O modelo chamou a atenção de uma das maiores potências mundiais: os Estados Unidos, onde a apuração dos votos teve que ser refeita várias vezes, atrasando o resultado e colocando em xeque a credibilidade do processo.
5.. Mesmo sendo um país em desenvolvimento, os internautas brasileiros representam uma fatia de 40% do mercado na América Latina.
6. No Brasil, há 14 fábricas de veículos instaladas e outras 4 se instalando, enquanto alguns países vizinhos não possuem nenhuma.
7. Das crianças e adolescentes entre 7 a 14 anos, 97,3% estão estudando.
8. O mercado de telefones celulares do Brasil é o segundo do mundo, com 650 mil novas habilitações a cada mês.
Na telefonia fixa, o país ocupa a quinta posição em número de linhas instaladas.
10. Das empresas brasileiras, 6.890 possuem certificado de qualidade ISO-9000, maior número entre os países em desenvolvimento. No México, são apenas 300 empresas e 265 na Argentina.
11. O Brasil é o segundo maior mercado de jatos e helicópteros executivos

Por que temos esse vício de só falar mal do Brasil?

1. Por que não nos orgulhamos em dizer que o mercado editorial de livros é maior do que o da Itália, com mais de 50 mil títulos novos a cada ano?
2. Que temos o mais moderno sistema bancário do planeta?
3. Que nossas agências de publicidade ganham os melhores e maiores prêmios mundiais?
4. Por que não falamos que somos o país mais empreendedor do mundo e que mais de 70% dos brasileiros, pobres e ricos, dedicam considerável parte de seu tempo em trabalhos voluntários?
5. Por que não dizem que somos hoje a terceira maior democracia do mundo?
6. Que apesar de todas as mazelas, o Congresso está punindo seus próprios membros, o que raramente ocorre em outros países ditos civilizados e o governo Federal tem suas contas abertas ao público e à imprensa, expondo-se como em nenhum outro país do mundo?
7. Por que não lembrar que somos um potência em expansão, não apenas regionalmente, mas no mundo, saindo da periferia para o centro com o nosso próprio caráter nacional preservado?
8. Por que não lembrar que somos um país multicultural que acolhe e integra, reciclando, culturas milenares, como a oriental?
9. Por que invejar o "crescimento econômico" da Índia e da China, que produzem milhões de pobres, quando o crescimento econômico brasileiro distribui renda e direitos?
Bom, e um dado que não está em nenhuma pesquisa a não ser a que eu mesmo fiz, viajando por dezenas de país: em lugar nenhum do mundo a culinária é melhor do que a brasileira. E em lugar nenhum do Brasil, come-se melhor do que em Belém do Pará.

quinta-feira, fevereiro 21, 2008

A crise dos jornais se aprofunda

A crise financeira do meio de comunicação mais tradicional se alastra pelo mundo. Os jornais nos Estados Unidos estão passando por um de seus piores momentos. O auge da imprensa online e a crise imobiliárias estão fazendo com os anunciantes saiam da tradicional mídia impressa, deixando os periódicos sem sua principal fonte de receitas.
A consequência imediata é a demissão de centenas de jornalistas da redações dos principais diários. Agora, foi a vez do The New York Times, que decidiu reduzir em 7,5% o número de funcionários.
A editora responsável pela publicação, obteve receitas publicitárias em seus diários 6,1% menores do que no ano anterior. A queda mais importante, porém, está no setor como um todo, que sofreu uma retração da ordem de 7%.
Este é o pior momento vivido pelos diários daquele país desde 2001, cujas receitas depedem 80% do investimento dos anunciantes.
O segundo grupo jornalístico dos Estados Unidos, o Tribune, também dá sinais de enfraquecimento, anunciando a saída de 250 jornalistas das redações do Chicago Tribune e do Los Angeles Times.
Já o USA Today cortou 8,8% de seu plantel através de um programa de demissões voluntárias. Por um outro prisma, a queda do setor também mostrou reflexos importantes na Bolsa de Valores.
Em 2002, as ações do The New York Times, por exemplo, estavam cotadas em US$ 52 enquanto, em janeiro desta ano, eram comercializadas por apenas US$ 15.
No Brasil, nenhum estudo digno de nota existe sobre o peso das novas mídias na queda da tiragem e, portanto, na rentabilidade dos jornais impressos e no número de postos de trabalho que se perderam nos últimos anos. O Pará, que já contou com três diários importantes, hoje conta com apenas dois, com redações cada vez menos numerosas. A retração é evidente.

domingo, fevereiro 17, 2008

Brasil na linha de tiro da crise

A crise do capitalismo global deixou de ser um tema restrito ao debate da esquerda. O assunto, agora, está na pauta geral. O que os próprios capitalistas e seus intelectuais orgânicos se ocupam em discutir são as dimensões, o tamanho, a profundidade e duração da crise. Até porque os acontecimentos não deixam margem para dúvidas. Turbulência generalizada, gangorra vertiginosa das bolsas, retração geral nos investimentos, pânico nos mercados. Enfim, um quadro típico.
O epicentro da turbulência, ao contrário dos surtos anteriores, desta vez se localiza no cerne do sistema. O império americano, entre Osamas e Obamas, vive dias de Pompéia. A "exuberância irracional" do Greenspan mostra, no colapso imobiliário, a sua contraface tenebrosa. A papelada financeira desaba feito um castelo de cartas. E o desastre da era Bush fornece ilustração perfeita para a tese do professor Immanuel Wallerstein: o declínio americano como foco da crise.
George Soros, que sabe tudo no ramo da especulação e ostenta a reputação de analista astuto, compara o poder de destruição do quadro atual ao dos abalos produzidos pela crise mundial de 1929. Muita coisa, além dos papagaios financeiros, já rolou por água abaixo. Uma delas é o mito ultraliberal de que o capital é capaz de se auto-regular. Balela. Fora do controle social (público e democrático), o poder privado funciona com a lógica das máfias. Desregulada, a supremacia absoluta do capital financeiro libera o ímpeto destrutivo que sempre habitou a natureza cíclica do capitalismo.
O mundo do trabalho que se acautele, pois as receitas de saída da crise serão as mesmas de sempre. Os poderosos, que na prosperidade se serviram do aparato do Estado para privatizar lucros, agora se valerão dele para socializar prejuízos. Basta ver a quantia bestial de dinheiro que os bancos centrais do primeiro mundo já injetaram na roleta do cassino. A crise abre um período de luta política onde, além dos financeiros, estarão em jogo os valores do processo civilizatório.
A economia brasileira não está "descolada" da crise. Pelo contrário, a subalternidade do modelo vigente aos esquemas da globalização financeira nos coloca na linha de tiro. Há os que, por dever de ofício, buscam dourar a pílula e há também aqueles que, com os fundilhos presos nas tábuas do circo, gritam: "senta que o leão é manso". O Banco Central já inverteu a tendência de queda nos juros. Os brasileiros desencantados que foram "fazer a América" estão voltando de mãos abanando. Investimentos menores, PIB menor, corte nos gastos sociais, congelamento de salários, infelizmente, são os anúncios para o ano novo. A crise chega das formas mais variadas e em ondas cada vez mais fortes.
Quando o verbo crackar começa a ser conjugado nos países centrais, os que vivem do trabalho e os países da periferia do capitalismo precisam ter cautela redobrada. Barbas de molho, vale lembrar Oswald de Andrade. Ao abrir falência com a crise de 1929, ele retrucou com versos: "eu empobreço de repente/tu enriqueces por minha causa/ ele azula para o sertão/ nós entramos em concordata...". E lamentou, alertando aos pósteros, só ter sabido na crise o quanto era irregular a conjugação do verbo crackar.

Artigo de Leo Lince, enviado por email por João Pedro Stédile

quinta-feira, janeiro 31, 2008

O ano I da Revolução Russa

A editora Boitempo, claramente identificada com o pensamento de esquerda, vem sendo alvo de ataques por parte de veículos da mídia conservadora. Certos jornalistas não entendem, e seus chefes não toleram, uma editora que sobrevive e cresce com um catálogo coerente e de qualidade, não pautado pela tábula rasa do mercado.
Um exemplo é a publicação do explendidamente escrito O ano I da Revolução Russa, que coincide com o aniversário de noventa anos da revolução soviética. Escrito pelo jornalista e revolucionário belga Victor Serge, é um vibrante e engajado relato da revolução que mudou os rumos da história mundial. Os antecedentes, a luta e os conflitos revolucionários, a relação entre o Partido Bolchevique e o povo russo, a tomada de poder pelos sovietes, todos esses eventos são narrados por Serge poucos anos após terem acontecido. Publicado em 1930, impressiona a abordagem completa feita por Serge dos vários aspectos do período entre 7 de novembro de 1917 e 7 de novembro de 1918. As batalhas, os debates políticos, os desafios de organização econômica e militar (como o abastecimento das cidades e a montagem do Exército Vermelho) e perfis dos principais líderes da revolução (Lenin e Trotski, entre outros) dão vida à aventura revolucionária empreendida nove décadas atrás. Dos conflitos armados até questões prosaicas, como o alcoolismo entre as tropas, Serge se desdobra para, a partir da vida cotidiana, das decisões políticas e dos conflitos de classe, registrar a experiência da primeira revolução comunista bem-sucedida no mundo. Para melhor situar o leitor, a edição da Boitempo traz uma cronologia da revolução de 1917, e um glossário que explica e contextualiza os termos usados por Serge no livro. O ano I da Revolução Russa é o relato da odisséia real da construção de uma nova sociedade, narrado com uma combinação de rigor, riqueza de dados e um grande entusiasmo pela aventura de mudar o mundo. Leia a apresentação do livro escrita por David Renton (arquivo pdf): O marxismo dissidente de Victor Serge no site da própria Boitempo.
Vale muito a pena também ler a entrevista de Ivana Jinkings, concedida a Arturo Hartmann, do site do Instituto da Cultura Árabe (Icarabe). Ivana, paraense, filha do saudoso comunista Raimundo Jinkings, define sua editora como “independente, comprometida com a qualidade dos textos que publica e com o desenvolvimento da cultura e do pensamento crítico”. Ela fala, com propriedade, das dificuldades de manter uma editora pequena que foca sua atenção em obras de pensamento crítico em tempos de grandes editoras e campanhas publicitárias de massa.

segunda-feira, janeiro 28, 2008

Para quem acredita em políticos

O disseminado conceito popular de que "ninguém acredita em políticos" ganhou medição científica: pesquisa global do instituto Gallup International para o Fórum Econômico Mundial mostra que apenas 8% dos consultados confiam nos políticos. A reportagem é de Clóvis Rossi e publicada pelo jornal Folha de São Paulo, 18-01-2008. Na média mundial, 60% dizem que eles são desonestos, mas, na América Latina, a porcentagem sobe para 77%. Mesmo em países cujos presidentes gozam de alta popularidade (Colômbia, Venezuela e Bolívia), os que dizem que os políticos são desonestos chegam a 79% (Venezuela), 88% (Bolívia) e ao recorde (90%) na Colômbia. O Brasil não entrou na pesquisa, que ouviu 61.600 pessoas em 60 países, e é batizada de "A Voz do Povo". Segundo o Gallup, o levantamento representa o ponto de vista de cerca de 1,5 bilhão de cidadãos. A desonestidade atribuída aos políticos é uma característica habitual na "Voz do Povo", feita há cinco anos, mas subiu o número dos que desconfiam dos políticos: eram 48% em 2006, contra os 60% agora (a pesquisa foi realizada entre outubro e dezembro passados). A clientela básica do Fórum Econômico Mundial também se sai bastante mal na pesquisa: 43% dos pesquisados acham que os homens de negócio são desonestos, 42% acham que eles têm poder demais (e responsabilidade também) e 39% dizem que se comportam de maneira não-ética. Embora feita em um período em que a crise financeira global ainda não atingira o patamar inquietante do início de 2008, a maioria relativa dos consultados (36%) revelava pessimismo: acreditam que a próxima geração viverá em um mundo "muito" ou "um pouco" menos próspero. Um terço dos consultados acredita no contrário. O resultado é significativo se se considera que o mundo está vivendo cinco anos de inédito crescimento econômico, o que deveria levar a mais otimismo do que pessimismo. Na América Latina, os mais otimistas, disparadamente, são os venezuelanos: 55% crêem em mais prosperidade ("muito" mais ou "um pouco" mais) contra 20% de pessimistas. Na Argentina, ao contrário, só 26% esperam mais prosperidade, contra 31% que esperam piora. Também no quesito segurança predominam os pessimistas, neste caso com muito maior margem sobre os otimistas. Para apenas um quarto dos entrevistados a próxima geração viverá em um mundo mais seguro, ao passo que quase a metade (48% exatamente) acha que o mundo será muito menos ou um pouco menos seguro. A sensação de insegurança é mais disseminada justamente nas regiões mais ricas do mundo, Europa Ocidental e América do Norte. Mais de dois terços dos europeus ouvidos (69%) acham que o mundo será menos seguro, contra magros 11% que confiam em mais segurança. Nos EUA/Canadá, 62% são pessimistas a respeito da segurança e 13%, otimistas. Os resultados em ambos os quesitos (prosperidade e segurança) são bastante similares aos de anos anteriores. O temor quanto à segurança explica por que temas a ela ligados subiram na lista de prioridades que os pesquisados querem que seus líderes focalizem. Antes, ganhavam, ainda que por pequena margem, objetivos econômicos como eliminar a pobreza, promover o crescimento econômico e fechar a brecha ricos/pobres. Agora, somam-se a redução das guerras, o combate ao terrorismo e a proteção do ambiente. Ao contrário dos políticos, os professores merecem o mais alto nível global de confiança (34% acreditam neles). Mas, na África, são superados pelos líderes religiosos e, no Oriente Médio, por militares/policiais. Na América Latina, também, professores e líderes religiosos aparecem como os mais confiáveis, com, respectivamente, 20% e 17%, seguidos pelos jornalistas (11%). Os menos confiáveis na região são os advogados (apenas 3%), abaixo até dos políticos e dos sindicalistas, ambos com 4%.

sexta-feira, janeiro 25, 2008

Realidade e simulacro na era da hipercomunicação

Na Era da Informação por demanda (a hipercomunicação), manter-se bem informado não é tarefa difícil para aqueles que dispõem de mínimos recursos e conseqüente acesso aos distintos e tão variados meios de comunicação. Mas, afinal, o que é exatamente estar bem informado?
Tomar ciência dos acontecimentos é, certamente, o primeiro passo. Ocorre, no entanto, que até mesmo por hora dessa tomada de conhecimento já se está diante de um arcabouço interpretativo que, na grande maioria das vezes, é parcial e tendencioso. Pior: parcial e com clara predominância de uma das partes em jogo, geralmente aquela que representa interesses mais poderosos, mas nem por isso com maior representatividade social.
As atuais análises quanto ao cenário político colombiano, em função das negociações para a liberação dos reféns em poder das FARCs, dão uma demonstração cabal dessa situação. Expõe-se Chávez, o presidente venezuelano, como defensor do terrorismo, na medida em que advoga a atuação do movimento como insurgente, e não terrorista; e o presidente colombiano Álvaro Uribe como intransigente na defesa da ordem.
Nem é preciso ideologizar essa discussão para extrair-lhe o caráter primário. São muito poucas, pra não dizer praticamente inexistentes, as situações da vida que levam a extremos do tipo `cara ou coroa´.
Ademais, para os observadores que buscam, ou ao menos não se recusam, aprofundar seu olhar, salta à vista a) a ausência de alusões quanto à origem e sentido histórico da atuação da `guerrilha´ ou `movimento insurgente´; b) a extensa cobertura jornalística sobre o tratamento dispensado às vítimas de seqüestro das FARCs, enquanto não se profere palavra quanto às ações de paramilitares e à ligação desses com o governo Uribe, que para muitos estudiosos configuraria um verdadeiro terrorismo de Estado na Colômbia; c) e, `last but not least´, a completa indiferença frente ao tema da interferência dos EUA na pacificação da região, cujos interesses em patrocinar o Plano Colômbia passam obviamente ao largo dos direitos humanitários.
Tentando entender autenticamente a explosiva situação que atravessa o vizinho latino-americano - no qual uma grave crise humanitária reforça as históricas contradições sociais, políticas e econômicas de nossos países da América Latina -, divulgo aqui as análises de Altamiro Borges, Hugo Paternina Espinosa e Emir Sader.

Atrás das grades

Muita gente fala em saturação das mídias, que as opções estão esgotadas e para os anunciantes a saída é continuar investindo nas tradicionais mesmo. Porém, vez ou outra aparecem soluções de mídia absolutamente geniais, inusitadas e curiosas. É o caso desta premiadíssima campanha da Anistia Internacional pelos direitos humanos. Criada pela TBWA de Paris, as peças aproveitam o ambiente externo para criar o conceito. Placas que mostram rostos foram colocadas atrás de grades para representar a prisão dessas pessoas. Ao lado das fotos, uma outra placa traz a mensagem: "Em mais de 50 países, os defensores dos direitos humanos são privados de sua liberdade."Cada rosto procura representar um país que desrespeita os diretos humanos. Na imagem que ilustra este post, vemos Indonésia, mas também há peças para Congo, Turquia, Síria e Colômbia. Simples e fantástico. Quando você pensaria nisso simplesmente observando o portão da sua casa? Confesso que eu nunca pensei. A campanha foi premiada com Leão de Prata do Festival de Cannes, Ouro no Eurobest, Ouro pelo Clube de Diretores de Arte da França e menções honrosas no Grand Prix Stratégies de la Publicité, Andy Awards e The Gunn Report.

quinta-feira, janeiro 24, 2008

Crise acentua desemprego global

A crise nos mercados mundiais e a desaceleração do crescimento econômico colocarão, no mínimo, mais 5 milhões de pessoas na fila do desemprego no mundo em 2008. A projeção é da Organização Internacional do Trabalho (OIT), que divulgou ontem seu relatório sobre a situação do emprego no mundo. Ao contrário de outras crises, o maior número de desempregados adicionais deve ser visto nos países ricos. Mas, se a turbulência se transformar em recessão, a América Latina pode ser a próxima vítima em termos de criação de postos de trabalho. Para o diretor da OIT Juan Somavia, 2008 será o "ano das incertezas".
Segundo a organização, o mundo criou em 2007 45 milhões de novos empregos. Neste ano, serão 40 milhões. No total, o número de desempregados deve chegar ao fim do ano em 195 milhões de pessoas. Em 2007, eram 189,9 milhões de desempregados, ante 189,6 milhões em 2005.
A OIT alerta que essa nova onda de desemprego pode ser apenas o começo. As estimativas da organização para 2008 foram baseadas na revisão do Produto Interno Bruto (PIB) mundial feito pela Fundo Monetário Internacional (FMI), em setembro do ano passado.
Na revisão, o FMI reduziu a perspectiva de crescimento em 2008 de 4,9% para 4,8%. O resultado dessa queda seria 5 milhões de novos desempregados. Em termos porcentuais, o crescimento é pequeno, passando de 6% para 6,1% de desemprego. "Esse aumento pode parecer marginal, mas o incremento de 0,1% na taxa do desemprego mundial é algo de substantivo. Nas piores crises a taxa foi de 6,5%", explicou Dorothy Schmidt, autora do levantamento.
"Já estamos vendo a possibilidade de uma revisão do crescimento do PIB europeu, o que teria um impacto ainda mais sério na taxa de desemprego", disse o diretor-executivo da organização, José Manuel Salazar.
O que a OIT teme é que o próximo impacto seja sentido nos países em desenvolvimento, afetados por uma recessão nas economias ricas. Nos últimos anos, os emergentes têm compensado o baixo crescimento na Europa e nos Estados Unidos. Em 2007, um em cada quatro postos de trabalho foi criado na Ásia, o que compensou a crise no mercado de trabalho em outras regiões. Os países ricos, só no ano passado, ficaram com mais 600 mil desempregados.
Para os técnicos, uma recessão nos países ricos não vai poupar a América Latina. "Uma mínima revisão do crescimento econômico americano já afeta a América Latina. Neste ano, vimos a estagnação na criação de empregos na região e o impacto em 2008 pode ser importante", disse Dorothy.
Para a OIT, muitos países podem ter perdido os últimos cinco anos de forte crescimento econômico para melhorar sua situação no que se refere ao desemprego. "A partir de agora, o cenário será mais difícil. Não criamos um número de trabalhos decentes suficiente enquanto a situação econômica era favorável. Agora, a turbulência pode significar um limite para as políticas de desenvolvimento ", afirmou a autora do levantamento.
Em 2007, o número de desempregados aumentou em 3 milhões de pessoas em comparação a 2006, mesmo com um crescimento do PIB mundial de 5,2%. A OIT ainda destaca que cerca de 3 bilhões de pessoas (61,7% da população mundial) fizeram parte do mercado de trabalho em todo o mundo, uma cifra recorde.
"Crescimento econômico não gera empregos se não for sustentável. Por isso é que vemos que a eventual crise em 2008 pode ser perigosa. A esperança é que Ásia não seja atingida, continue a demonstrar crescimento e seja o motor da geração de empregos no mundo", afirmou Salazar.
Entre as regiões que tiveram maior desemprego no ano passado estão Oriente Médio e norte da África, com taxas de 11,8% e 10,9%, respectivamente. A América Latina divide a terceira posição com Leste Europeu e ex-repúblicas soviéticas com 8,5%.

sexta-feira, janeiro 18, 2008

Luz, câmera... mas cadê o roteiro?

Esqueça o tapete vermelho, os longos discursos e os comentários sobre os vestidos das celebridades que fizeram da cerimônia do Oscar um sucesso de audiência e um evento milionário para estúdios de cinema, emissoras de TV e estilistas de todo o mundo. Este ano, o maior prêmio da indústria cinematográfica pode ser muito, muito diferente. Motivo: a greve do sindicato dos roteiristas americanos (Writers Guild of America ou WGA), que há onze semanas vem causando muita dor de cabeça em Hollywood.

Com a solidariedade do sindicato dos atores, os escritores conseguiram transformar o Globo de Ouro, evento conhecido como uma prévia do Oscar, em uma constrangedora coletiva de imprensa. Nenhuma estrela de cinema apareceu para buscar os prêmios, anunciados em apenas 35 minutos por apresentadores de TV.
Se não houver acordo, a próxima vítima pode ser a cerimônia do Oscar, marcada para o dia 24 de Fevereiro. Em sua 80ª edição, o prêmio é o segundo evento televisivo mais importante dos Estados Unidos, perdendo apenas para o campeonato de futebol americano, conhecido como Superbowl. Os mais de 12 mil membros do WGA, que incluem roteiristas de filmes e programas de televisão, pararam de trabalhar no dia 5 de novembro de 2007 depois de três meses de negociações frustradas com o sindicato dos produtores (Alliance of Motion Picture and Television Producers, a AMPTP).
Os roteiristas querem mudar alguns itens do contrato entre as duas entidades, e os principais deles têm a ver com as novas mídias. Para não ficarem de fora do provável futuro digital da indústria do entretenimento, os escritores exigem uma maior participação no lucro que os produtores têm com a venda de DVDs e com os downloads de programas de TV e filmes feitos pela internet. Do outro lado, empresas como a Fox, a NBC e a Universal argumentam que esse mercado está engatinhando e que, por isso, a venda de DVDs e downloads ainda custa muito dinheiro. Os lucros, portanto, estariam sendo usados para cobrir os gastos.

Tapa-buracos - A última greve dos roteiristas, em 1988, durou cinco meses e fez com que a indústria perdesse cerca de 500 milhões de dólares. Por hora, não há estimativa de quanto está custando essa nova greve, mas seu impacto na programação da TV americana é indiscutível.
Os primeiros a serem afetados foram os programas de entrevistas como The Daily Show With John Stewart e The Tonight Show With Jay Leno. Gravadas diariamente, essas atrações ficaram fora do ar por dois meses. Hoje, os apresentadores estão de volta ao trabalho, mas contam apenas com o seu próprio talento para fazer as piadas e os tradicionais monólogos de abertura.
David Letterman, apresentador do Late Show da CBS, foi o único que voltou ao ar com seus roteiristas, porque sua produtora, a Worldwide Pants, estabeleceu um acordo com o sindicato.
A produtora United Artists, dirigida por Tom Cruise e Paula Wagner, também entrou em acordo com os escritores, mas grandes estúdios e emissoras ainda não se entenderam com o WGA. A longa duração da greve já traz problemas para os seriados de TV: sem novos roteiros, a maioria das séries está com a produção parada.
Com todas essas dificuldades, as emissoras tiveram que reprisar episódios antigos dos seriados e investir em atrações que não precisam de roteiristas. É o caso dos reality shows, que já ocupam mais espaço na programação.
Um dos novos programas é American Gladiators, da NBC, cujos participantes se enfrentam em modalidades esportivas inusitadas (em um episódio, por exemplo, os competidores lutavam com enormes bastões em cima de uma piscina). A audiência da estréia foi surpreendente: mais de 12 milhões de espectadores, índice 60% mais alto que o da série Chuck, atração que ocupava a mesma faixa de horário antes da greve.
Para John Rash, vice-presidente da agência de publicidade Campbell Mithun, o dado é significativo. "Os roteiristas deveriam se preocupar com o poder dos reality shows", avaliou. "Ao mesmo tempo, as emissoras precisam se preocupar com o seu modelo de negócios. Grande parte das boas coisas da televisão ainda vem da caneta."

Personagens fascinantes - O repórter David Carr, do New York Times, notou uma outra situação decorrente da greve dos roteiristas: o crescente interesse dos americanos pelas eleições desse ano. A corrida dos candidatos, que já começou com as primárias dos partidos democrata e republicano, está especialmente quente com a possibilidade de os Estados Unidos terem, pela primeira vez, uma mulher ou um negro ocupando a presidência.
Sem novidades entre as séries e em meio às férias dos campeonatos esportivos, a eleição americana ganha destaque na TV. A cobertura da CNN, por exemplo, chegou a atrair mais de 3 milhões de pessoas no dia da primária de New Hampshire - o dobro do índice de audiência registrado na votação de 2004.
Bill Keller, editor-executivo do Times, acha que o maior interesse do público se deve mais aos candidatos que à greve. "Acho que o interesse pela corrida presidencial seria intenso mesmo se os roteiristas ainda estivessem escrevendo episódios de 24 Horas e Grey's Anatomy", opinou ele. "É um momento definitivo para os dois partidos, com participantes fascinantes, e em uma época em que parece existir uma vontade nacional de virar a página."
Já Brian Grazer, um dos mais famosos produtores de Hollywood, que esteve por trás de sucessos como Uma Mente Brilhante e O Código Da Vinci, acha que a greve dos roteiristas ajuda a aumentar o interesse nas eleições. "Todas as noites há um novo episódio político", disse ele. "É algo humano estar constantemente em busca de novas histórias e, agora que as vitrines tradicionais dessas histórias estão fechadas, as pessoas encontram drama no noticiário."
Produtor de O Gânsgter, filme dirigido por Ridley Scott que recebeu indicações ao Globo de Ouro, Brian Grazer é um dos que aguarda ansiosamente uma definição sobre o futuro do Oscar. Nesse momento, em que o sindicato dos diretores também começa a negociar reajustes salariais, é impossível saber ao certo se a cerimônia vai ou não acontecer.
Walter F. Parkes, produtor de Sweeney Tood - O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet, filme de Tim Burton que está bem cotado em diversas categorias, oferece o seguinte palpite: "Se houver um acordo rápido dos produtores com os diretores, se esse acordo ajudar nas negociações com os roteiristas, e se isso fizer com que as pessoas voltem para a mesa de discussões, talvez a cerimônia do Oscar aconteça", afirmou. "Mas há muitos 'se' nessa frase", completou. "Eu esperaria mais um pouco antes de comprar um terno novo."

Com informações do The New York Times

quinta-feira, janeiro 17, 2008

Para sempre Allende

Hoje cerca de 40% dos chilenos se identifica com a figura do ex-presidente socialista Salvador Allende entre as principais figuras políticas do século XX, segundo uma pesquisa realizada pelo jornal estatal La Nación-Eknos. A filha do ex-presidente, a deputada Isabel Allende, declarou à ANSA sentir-se "profundamente emocionada, orgulhosa" ao mesmo tempo que considerou "uma espécie de reivindicação histórica" o resultado da pesquisa.
O ex-ditador Augusto Pinochet, que liderou o golpe que destituiu e matou Allende, apareceu contraditoriamente em segundo lugar, com 18,3%. Em terceiro lugar, com 17,8% das preferências, está o ex-presidente democrata-cristão Eduardo Frei Montalva (1964-1970), que foi antecessor de Allende. Mais abaixo figuram os ex-presidentes Jorge Alessandir (1958-1964) e Pedro Aguirre Cerda (1936-1939).
A alta adesão a Allende coincide com o centenário do seu nascimento (26 de julho de 1908), cujas comemorações começam em 10 de janeiro com a inauguração em Santiago de uma exposição fotográfica no Museu da Solidariedade que leva seu nome.
No link abaixo, veja um belo e atual documentário sobre a vida e a morte de Salvador Allende, militante socialista e exemplo de homem público comprometido com seu povo.

http://www.youtube.com/watch?v=P9e9anUYesM

Com esta postagem, reinicio as atividades rotineiras do blog.

domingo, janeiro 06, 2008

Números demenciais

US$ 57,5 bilhões
é o quanto a indústria farmacêutica nos Estados Unidos gastou em 2007 com propaganda de medicamentos, de acordo com dados do IMS Health e do CAM.

US$ 31,5 bilhões
é o quanto foi gasto pelas empresas farmacêuticas, no mesmo período, para pesquisar e desenvolver novos remédios, segundo informações coletadas pela Fundação Nacional de Ciência.

quarta-feira, dezembro 26, 2007

A imagem do ano

A top model Gisele Bündchen vestindo o modelito mais fresco de sua carreira, um "vestido" de água, é, na minha opinião, a imagem do ano no mundo da comunicação. A "roupa" não foi criação de nenhum estilista excêntrico, e sim, parte da campanha da agência de publicidade W/Brasil para o lançamento de um novo comercial de sandálias. A campanha começou a ser veiculada no intervalo do "Fantástico", da rede Globo, e foi criada para embarcar na onda das empresas que querem relacionar sua marca à preservação ambiental, no caso, o consumo consciente da água. Com esta imagem, finalizamos as postagens de 2007. Feliz ano novo, repleto de saúde, amor e realizações, para todos!

terça-feira, dezembro 18, 2007

Pausa

O acúmulo de tarefas do final de ano, com a somatória de atividades que inclui acompanhamento de pesquisas, criação de campanha anual de varejo para um grande grupo local do setor e formulação de estratégia de marketing e calendário de atividades para candidatos em várias localidades diferentes estão a provocar um involuntário recesso nas atividades do blog, que retorna, em ritmo normal, a partir da próxima semana. Minhas escusas a todos.

terça-feira, dezembro 11, 2007

De volta à definição do conceito

Durante o debate realizado no Dia Internacional da Propaganda, na Feapa, em Belém, surgiu uma vez a polêmica sobre o conceito de "propaganda" e seu correlato, em português, "publicidade".

Tenho uma idéia formada sobre essa questão e que distingue claramente os dois conceitos. Publicizar é tornar público, "dar ao publico conhecimento de". A "publicidade" é uma atividade profissional dedicada à difusão pública de idéias associadas a empresas, produtos ou serviços, especificamente, a publicidade comercial. Esse é o sentido literal do termo. Recentemente alguns autores, como All Ries, passaram a conceituar como "publicidade" também toda atividade de relações públicas, que "dão publicidade a pessoas e marcas". Já a propaganda é um meio utilizado para fazer alguém aceitar um principio, uma teoria, uma doutrina através das emoções. Os propagandistas apelam não para a razão, mas sempre para a emoção e o instinto. A própria palavra propaganda só apareceu em 1622, quando o Papa Gregório XV convocou uma Comissão de Cardeais para orientar a difusão da palavra cristã pelas missões estrangeiras. A comissão foi chamada Congregatio de Propaganda Fide - Congregação para a Propagação da Fé, e funcionava como uma comissão de qualquer outra sociedade missionária - escolhendo missionários e despachando-os para o estrangeiro. Mas não demorou para que a palavra ganhasse significados outros que não propagação de crenças religiosas, como, por exemplo, agressão nacional, proselitismo político, deturpação de fatos e censura por supressão, coisas muito convenientes para Hitler. Essas sinistras atividades não tinham nada de novas. O Oráculo de Delfos do mundo antigo, pela hipnose, comandara as empresas colonizadoras dos atenienses. Tucidides, em sua história da Guerra do Peloponeso, revelou que as facções em confronto aumentavam seu domínio sobre os não convencidos pela contínua deturpação dos fatos. Platão, em sua República, preconizava o banimento de todos os escritores cuja influência fosse desagregadora, e que para o lugar deixado por eles fossem nomeados publicistas de tendência republicana; as paredes de Pompéia estavam cheias de lemas de propaganda eleitoral e a Inquisição Espanhola armou-se com todas as formas de censura que ajudassem seus objetivos. Evidentemente; a relativa inocência de um conceito como o do Papa Gregório pode ser conspurcada por qualquer regime totalitário, pois é tão fácil propagar as mentiras quanto as verdades.

Portanto, a propaganda, como William Albig diz acertadamente em seu livro Public Opinion, "aparecia sempre que qualquer liderança tentava unir as opiniões de um povo, desde a propaganda política de um Júlio César à propaganda da Igreja Católica Romana, à propagação da Lenda Napoleônica, ao propagandismo de Potemkin em favor de Catarina a Grande, à propaganda panfletária de Sam Adam para a Revolução Americana, à propaganda do Norte e do Sul na Guerra Civil Americana, às propagandas que proliferaram, em todos os lados, na Segunda Guerra Mundial".
Em síntese, a "propaganda" é a atividade que tende a influenciar as pessoas, com o objetivo religioso, político ou cívico, ou seja, ideológico. "Propaganda", portanto, é a propagação de idéias, mas, sem finalidade comercial. Já a "publicidade", que é uma decorrência do conceito de "propaganda", é também persuasiva, mas com objetivo comercial bem caracterizado. Portanto, a "publicidade" pode ser definida como a arte de despertar no público o desejo de compra, levando-o à ação e isso a distingue de todas as formas de "propaganda".

sexta-feira, dezembro 07, 2007

Eterno retorno

Eterno retorno é um conceito filosófico formulado por Friedrich Nietzche. Em alemão o termo é Ewige Wiederkunft. Uma síntese dessa teoria é encontrada no livro Gaia Ciência. O Eterno Retorno também diz respeito aos ciclos repetitivos da vida. Estamos sempre presos a um número limitado de fatos, fatos estes que se repetiram no passado, ocorrem no presente, e se repetirão no futuro, como por exemplo, guerras, epidemias, etc. O que é indispensável notar é que esta teoria, que parece insensata e totalmente inverossímil a muitos, não é uma forma de percepção do tempo: o Eterno Retorno não é um ciclo temporal que se repete indefinidamente ao longo da eternidade Quando no texto, acima transcrito, de A Gaia Ciência, o filósofo sugere a aparição do demônio portador da revelação do ciclo inexorável de repetições, ele não afirmou que aquilo seria exatamente o Eterno Retorno. (Temos que ter em mente o estilo artístico e um tanto quanto sibilino do autor - que se atreveu a usar poemas para difundir sua filosofia). Nos textos de Nietzsche sobre a História, vemos que sua noção do Tempo não é cíclica. Mas, então, o que quer dizer este tal Eterno Retorno? - Ele fala da ordem das coisas. Ele nos mostra como o mundo não é feito de pólos opostos e inconciliáveis, mas de faces complementares de uma mesma - múltipla, mas única - realidade. Logo, bem e mal, angústia e prazer, são instâncias complementares da realidade - instâncias que se alternam eternamente. Como a realidade não tem objetivo, ou finalidade (pois se tivesse já a teria alcançado), a alternância nunca finda. Assim, vemos sempre os mesmos fatos retornarem indefinidamente, que, segundo Marx, repetem-se apenas como farsa. A propaganda já fez bom uso de conhecimentos históricos e filosóficos e a história se repete outra vez… A Ogilvy da África do Sul (Johannesburgo) criou essa campanha para o canal de TV paga The History Channel tomando a idéia como referência e a campanha ficou muito boa, além de ter uma direção de arte impecável. Na assinatura dos anúncios, a sentença: “Desafortunadamente, mostramos repetições”.

Efeito Ronaldinho

A agência multinacional Leo Burnett, de Frankfurt, desenvolveu um criativo cartão de visitas para o ortondontista Dr. Rathenow, especialista no diagnóstico precoce e correção de problemas bucais infantis. E para promover o seu serviço, chupetas digamos "engraçadamente criativas" foram entregues aos pais de crianças pequenas. As chupetas deram aos pais uma divertida, mas muito importante lição para que seus filhos tenham cuidados precoces com os dentes, pois poderia causar vários problemas bucais. A chupeta vinha com um cartãozinho onde lia-se: "Leve seus filhos para fazer um check-up de seus dentes e mandíbulas antes que seja tarde". O efeito tridimensional e realista da chupeta nas crianças é avassalador, para dizer o mínimo. Na europa o problema ortodôntico representado pela imagem vem ganhando o nome de "efeito Ronaldinho", numa referência ao craque brasileiro Ronaldo Gaúcho, ídolo do futebol europeu.

Alzheimer e eu

Minha mãe está com Alzheimer. Minha doce mãe, tão cheia de lembranças e de vida, começa a substituir esse tesouro imenso por um olhar vago e um raro sorriso quando a toco. Vê-la se distanciar assim cria em minha alma um abismo colossal de emoção e dor. Desde seu diagnóstico, minha identificação com o tema é permanente. Sinto uma preocupação cotidiana em passar adiante reflexões sobre esse mal e suas conseqüências devastadoras. Falo sobre isso, leio, abordo especialistas, compro publicações e as devoro. Essa é a razão pela qual posto aqui e divido com vocês as anotações de Roberto Goldkorn, psicólogo e escritor, que inicia seu texto com a frase:

"Meu pai está com Alzheimer."

Logo ele, que durante toda vida se dizia "o Infalível". Logo ele, que um dia, ao tentar me ensinar matemática, disse que as minhas orelhas eram tão grandes que batiam no teto. Logo ele, que repetiu, ao longo desses 54 anos de convivência, o nome do músculo do pescoço que aprendeu quando tinha treze anos e que nunca mais esqueceu: esternocleidomastóideo.
O diagnóstico médico ainda não é conclusivo, mas, para mim, basta saber que ele esquece meu nome, mal anda, toma líquidos de canudinho, não consegue terminar uma frase, nem controla mais suas funções fisiológicas, e tem os famosos delírios paranóicos comuns nas demências tipo Alzheimer.

Aliás, fico até mais tranqüilo diante do "eu não sei ao certo" dos médicos; prefiro isso ao "estou absolutamente certo de que...", frase que me dá arrepios. Há trinta anos, não se ouvia sequer uma menção a essa doença maldita. Hoje, precisaria ter o triplo de dedos nas mãos para contar os inúmeros casos relatados por amigos e clientes, com diagnóstico igual em suas famílias.
O que está acontecendo? Estamos diante de um surto de Alzheimer? Finalmente, nossos hábitos de vida "moderna" estão enviando a conta?
O que os pesquisadores sabem de verdade sobre a doença? Qual é o lado oculto dessa manifestação tão dolorosa?
Lendo o material disponível, chega-se a uma conclusão: essa é uma doença extremamente complexa, camaleônica, de muitas faces e ainda carregada de mistérios. Sabe-se, por exemplo, que há um componente genético. Por outro lado, o Dr. William Grant fez uma pesquisa que complicou um pouco as coisas. Ele comparou a incidência da doença em descendentes de japoneses e de africanos que vivem nos EUA, e com japoneses e nigerianos que ainda vivem em seus respectivos países.
Ele encontrou uma incidência da doença da ordem de 4,1 para os descendentes de japoneses que vivem na América, contra apenas 1,8 de japoneses do Japão. Os afro-americanos vão mais longe: 6,2 desenvolvem a doença, enquanto apenas 1,4 dos nigerianos são atingidos por ela.
Hábitos alimentares? Stress das pressões do Primeiro Mundo? Mas o Japão não é Primeiro Mundo? Lá não tem stress?
A alimentação parece ser sem dúvida um elo nessa corrente, e mais ainda o alumínio.
Segundo algumas pesquisas, a incidência de alumínio encontrada nos cérebros de portadores da doença é assustadoramente alta. Pesquisas feitas na Austrália e em alguns países da Europa mostraram que, em ratos alimentados com uma dieta rica, o sulfato de alumínio (comumente colocado na água potável para matar bactérias) danificou os cérebros dos roedores de forma muito similar à causada nos humanos pelo Alzheimer.
Pesquisas do Dr. Joseph Sobel, da Universidade da Califórnia do Sul, mostraram que a incidência da doença é três vezes maior em pessoas expostas à radiação elétrica (trabalhadores que ficavam próximos a redes de alta tensão ou a máquinas elétricas).
Mas não param por aí as pesquisas, que apontam a arma em todas as direções. Porém, a que mais me chocou e me motivou a fazer minhas próprias elucubrações foi o estudo das freiras. Esse estudo, citado no livro A Saúde do Cérebro, do Dr. Robert Goldman, Ed. Campus, foi feito pelo Dr. Snowdon, da Universidade de Kentucky. Eles estudaram 700 freiras do convento de Notre Dame. Na verdade, eles leram e analisaram as redações autobiográficas que cada freira era obrigada a escrever logo ao entrar na ordem. Isso ocorria quando elas tinham em média 20 anos. Essas freiras (um dos grupos mais homogêneo possível - fato que reduz muito as variáveis que deveriam ser controladas) foram examinadas regularmente e seus cérebros investigados após suas mortes. O que se constatou foi surpreendente.
As que melhor se saíram nos testes cognitivos e nas redações - em termos de clareza de raciocínio, objetividade, vocabulário, capacidade de expressar suas idéias, mesmo apresentando os acidentes neurológicos típicos do Alzheimer (placas e massas fibrosas de tecido morto) não desenvolveram a demência característica da doença.
Ou seja, elas tinham as mesmas seqüelas que as outras freiras com Alzheimer diagnosticado (e que tiveram baixos escores em testes cognitivos e na redação), mas não os sintomas clássicos, como os do meu pai.

A minha interpretação de tudo isso: não temos muito como controlar todos os fatores de risco apontados como os vilões - alimentação, pressão alta, contaminação ambiental, stress, e a genética (por enquanto). Mas podemos colocar o nosso cérebro para trabalhar.

Como? Lendo muito, escrevendo, buscando a clareza das idéias, criando novos circuitos neurais que venham a substituir os afetados pela idade e pela vida "bandida".
Meu conselho: não sejam infalíveis como o meu pobre pai; não cheguem ao topo nunca, pois dali, só há um caminho: descer. Inventem novos desafios, façam palavras-cruzadas, forcem a memória, não só com drogas (não nego a sua eficácia, principalmente as neurotrópicas), mas correndo atrás dos vazios e lapsos (buscando entendê-los e preenchê-los). Eu não sossego enquanto não lembro do nome de algum velho conhecido, ou de uma localidade onde estive há trinta anos. Leiam e se empenhem em entender o que está escrito; aprendam outra língua, mesmo aos sessenta anos...
Não existem estudos provando que o Alzheimer é a moléstia preferida dos arrogantes, autoritários e auto-suficientes, mas a minha experiência mostra que pode haver alguma coisa nesse mato. Coloquem a palavra FELICIDADE no topo da sua lista de prioridades:
Sete (7) de cada dez (10) doentes nunca ligaram para essas "bobagens" e viveram vidas medíocres e infelizes - muitos nem mesmo tinham consciência disso.
Mantenha-se interessado no mundo, nas pessoas, no futuro. Invente novas receitas, experimente (não gosta de ir para a cozinha de sua casa? Hum... Tá certo, nem todo mundo precisa amar a gastronomia.... Então, vá para a cozinha da vida, e faça a sua melhor receita... Como diz a propaganda do Corsa 2007: "não deixe a sua vida acontecer sem você!").
Lute, lute sempre, por uma causa, por um ideal, pela felicidade. Parodiando Maiakovski, que disse "melhor morrer de vodca do que de tédio", eu digo: melhor morrer lutando o bom combate do que ter a personalidade roubada pelo Alzheimer.

Dicas para escapar do Alzheimer:

Uma descoberta dentro da Neurociência vem revelar que o cérebro mantém a capacidade extraordinária de crescer e mudar o padrão de suas conexões. Os autores desta descoberta, Lawrence Katz e Manning Rubin (2000), revelam que NEURÓBICA, a "aeróbica dos neurônios", é uma nova forma de exercício cerebral projetada para manter o cérebro ágil e saudável, criando novos e diferentes padrões de atividades dos neurônios em seu cérebro .
Cerca de 80% do nosso dia-a-dia é ocupado por rotinas que, apesar de terem a vantagem de reduzir o esforço intelectual, escondem um efeito perverso; limitam o cérebro. Para contrariar essa tendência, é necessário praticar exercícios "cerebrais" que fazem as pessoas pensarem somente no que estão fazendo, concentrando-se na tarefa. O desafio da NEURÓBICA é fazer tudo aquilo que contraria as rotinas, obrigando o cérebro a um trabalho adicional.

Tente fazer um teste:

- use o relógio de pulso no braço direito;
- escove os dentes com a mão contrária da de costume;
- ande pela casa de trás para frente; (vi na China o pessoal treinando isso num parque);
- vista-se de olhos fechados;
- estimule o paladar, coma coisas diferentes;
- veja fotos de cabeça para baixo;
- veja as horas num espelho;
- faça um novo caminho para ir ao trabalho.
A proposta é mudar o comportamento rotineiro.

Tente, faça alguma coisa diferente com seu outro lado e estimule o seu cérebro. Vale a pena tentar!
Que tal começar a praticar agora, trocando o mouse de lado?
Que tal começar agora enviando esta mensagem, usando o mouse com a mão esquerda?

domingo, dezembro 02, 2007

Para fazer a globalização funcionar

Saudada com euforia há duas décadas, a globalização passou a ser vista como invenção diabólica no fim da década de 1990 com um protesto em Seattle, quando operários americanos se viram ameaçados pela concorrência dos chineses. As duas faces da globalização - a de promotora de um modelo de economia de mercado e a de disseminadora da pobreza - são analisadas nas entrevistas do historiador Eric Hobsbawm e do economista Joseph E. Stiglitz concedidas ao Estado, ambas respondendo às mesmas questões propostas pela reportagem.

Dizem que a dinâmica do capitalismo globalizado está fora do controle dos governos e que os impérios acabaram. Qual o seu prognóstico para o futuro da globalização?

ERIC HOBSBAWM: Nações-estado, mesmo as maiores, são incapazes de controlar por mais tempo o que está acontecendo com a economia mundial, mas podem, contudo, determinar a forma e a natureza da globalização. Ela vai ter de conviver com as nações-estado, cenários das decisões políticas, porque a política tem resistido à globalização, continuando a confrontá-la. As pressões políticas, creio, irão refrear o processo de globalização na próxima década, embora seja pouco provável um revival do protecionismo verificado no período entre-guerras. A globalização vai continuar. Espero que os governos que hoje exercem liderança mundial sejam forçados a abandonar sua aposta no descontrole do mercado livre. Os EUA falharam em seus planos de impor uma política hegemônica sobre o globo após o 11 de Setembro e a guerra contra o Iraque mostrou os limites dessa que foi a mais extraordinária máquina de guerra de nossa época, o que nos dá segurança para dizer que a era dos impérios está definitivamente morta.

JOSEPH E. STIGLITZ: De fato, a turbulência que atingiu os mercados financeiros em 2007 parece mesmo mostrar que os problemas que tínhamos em meados do ano continuam a se avolumar e não há motivo algum para ser otimista, porque podemos enfrentar uma possível crise global. Contudo, não há motivos para suspeitar que a globalização não eleve os padrões de vida ou dificulte aos países pobres o acesso aos mercados externos. A globalização vai continuar e pode trazer uma grande contribuição para esses países. Não vai ser fácil fazê-la funcionar. Também é verdade que os Estados Unidos não conseguem viver de maneira autônoma e uma prova disso são os empréstimos cada vez maiores que o país toma e suas atitudes protecionistas.

A instabilidade da nova economia global parece evidente e as nações-estado são aparentemente incapazes de governar a si mesmas, correndo mesmo o risco de se desintegrar. Isso pode representar uma porta aberta para a desordem global? Elas serão obrigadas a se submeter à intervenção estrangeira?

HOBSBAWM:
Muitas regiões do globo - a África, o Oriente Médio, parte do sudeste europeu e a ex-União Soviética - já estão vivendo a era da desordem global. A tendência à desintegração dos estados, principalmente após o colapso dos impérios do século 20, é reforçada por uma nova tendência: a da fragmentação das mais antigas unidades políticas estáveis do mundo rico, como Grã-Bretanha, Espanha, Bélgica, Itália e Canadá. Essa tendência à 'balcanização' e ao enfraquecimento do poder estatal certamente favorece a desordem global, mas sua causa principal tem sido a crença de Washington de que os EUA podem impor uma ordem mundial de mão única. O estabelecimento de um padrão mais razoável de política internacional, que reconheça os limites desse poder e a existência de um sistema pluralista, seria menos perigoso. Movimentos separatistas, de modo geral, recorrem à ajuda política de forças externas para conquistar autonomia ou independência, mas os estados que são incapazes de governar a si mesmos não se tornam necessariamente mais governáveis quando ocupados por exércitos estrangeiros.

STIGLITZ:
Acho que os países industrializados têm condições de resolver os próprios problemas, mesmo que, aparentemente, mostrem-se incapazes de se governar. Naturalmente, os mais ricos têm como se proteger de modo mais adequado, enquanto os países em desenvolvimento não dispõem de recursos para se defender do fluxo do capital especulativo descontrolado, correndo, portanto, maiores riscos. A globalização expõe conflitos sociais e coloca em questão o papel do governo e dos mercados. É irônico que o secretário do Tesouro dos EUA exerça pressão sobre a Índia para que se abra para esse capital especulativo.

A miséria permanece um problema em economias emergentes. Particularmente no Brasil, os programas sociais destinados a aliviar a pobreza parecem inoperantes para atender às metas da globalização. Como a globalização pode ajudar países como Brasil e Índia?


HOBSBAWM:
A globalização trouxe um rápido crescimento econômico e com ele uma diminuição significativa da pobreza mundial. Ao mesmo tempo, fez crescer a distância entre ricos e pobres. Isso parece evidente em países como a China, onde a globalização se torna visível pela rápida industrialização e geração de empregos. E, vale lembrar, o nome do crescimento econômico, para a maioria das pessoas , é emprego. A Índia, por exemplo, tem mais pobreza que a China porque seu crescimento econômico não se baseia na evolução da indústria de manufaturados. Ao mesmo tempo, a fase atual da globalização, que abre mercado e garante altos preços para produtos agrícolas, favorece países como o Brasil, mas, infelizmente, tem pouco efeito na promoção social dos pobres ou de pequenos agricultores. Os programas para minimizar os efeitos da pobreza têm pouco a ver com a globalização e mais com a correção de certas deficiências de cada país. Não estou capacitado para julgar o que está sendo feito no Brasil, mas o país continua como exemplo extremo de inadequação social e econômica.

STIGLITZ:
Tudo depende de como a globalização é gerenciada - e ela ainda não é administrada de forma coerente com os princípios democráticos. Ela pode ajudar a dividir a riqueza e diminuir a pobreza, como na China, onde o rápido crescimento econômico, baseado nas exportações, conseguiu tirar mais de 300 milhões de chineses da pobreza. Há exemplos contrários de países no Leste Asiático e na América Latina que não evitaram o processo de expansão e contração, como a China, e só viram a pobreza e as crises se repetirem. Quando a globalização é mal orientada, o que se vê são pobres fazendeiros confrontando não outros fazendeiros, mas competindo com Washington - competição, aliás, difícil de vencer. Nos países em desenvolvimento, os governos tendem à corrupção e os pobres ficam mais vulneráveis quando a economia mundial freia.

O rápido crescimento da China provocou um tremendo impacto em quase todos os países, pequenos ou grandes, contribuindo para elevar o preço das mercadorias e, ao mesmo tempo, tornar economias dos pequenos mais vulneráveis. Qual a solução para essa dependência? Como essas pequenas economias vão encarar esse desafio?


HOBSBAWM:
Considerando que o tamanho e a velocidade do crescimento da China salvaram a economia mundial dos efeitos de uma economia fraca e instável como a americana, ela deveria ser vista como benéfica para a economia de outros países, e não como um perigo. A dependência num único mercado exportador de produtos primários não é uma desvantagem, a menos que tal mercado entre em colapso. Aí, de fato, não haveria alternativa. Argentina e Uruguai, no começo do século 20, saíram-se muito bem ao se livrar da dependência do mercado britânico. Pequenas economias não são necessariamente mais vulneráveis que grandes economias - veja o caso da Islândia, Dinamarca, Noruega e Finlândia. Na verdade, pequenas economias podem até se adaptar mais facilmente à globalização que as grandes, concentrando-se em nichos particulares da economia mundial.

STIGLITZ:
A China, com sua economia em expansão, é um exemplo positivo. A alta nos preços das mercadorias chinesas pode ter bons reflexos em países exportadores da América Latina, incluindo o Brasil. Por outro lado, traz desafios para países importadores. A China tem uma alta taxa de poupança, ao contrário dos EUA. É preciso entender a dinâmica da globalização. A liberalização do comércio pode ter sido favorável para a China, mas causou grande dificuldade para outros países que desejam competir com a economia chinesa. Os subsídios têm um papel relativo nessa história, como mostram os chineses. Países como os EUA têm de rever sua posição, porque a globalização econômica foi mais rápida que a política.

Países desenvolvidos manipulam as leis internacionais de comércio para se proteger, impondo altos custos a outros países e ameaçando-os ainda com a poluição e outras conseqüências negativas de suas atividades. Como fazer a globalização funcionar se os países desenvolvidos têm menos consciência ecológica que os não-desenvolvidos?


HOBSBAWM:
Quais países são mais conscientes e quais os menos conscientes? E mesmo que eles sejam conscientes, isso determina um comportamento ecológico? O governo chinês, por exemplo, é mais consciente que o americano, embora os dois sejam igualmente grandes poluidores. O problema não reside em decisões de cunho nacional, mas na ausência de uma autoridade global capaz de impor medidas de controle para lidar com um problema que é global. Se ela existisse, haveria pontos a discutir sobre como suas decisões afetam países em desenvolvimento.

STIGLITZ:
De fato, o crescimento da atividade econômica de países desenvolvidos, bem como de países em desenvolvimento, está provocando grande impacto ambiental. Considerando que a maior parte dos recursos ambientais não é global por natureza, não creio que seja possível lidar de forma imperativa com a poluição que transcende fronteiras. O aquecimento global é uma realidade, assim como é limitada nossa capacidade de gerir recursos naturais, mas sou otimista com relação à educação, à conscientização ambiental. Os países em desenvolvimento não têm como criar barreiras para os desenvolvidos, que são, naturalmente, os maiores poluidores por possuírem as maiores economias. Fazer a globalização econômica funcionar depende de como vamos gerir nossos recursos naturais.

A possibilidade de uma recessão mundial não está longe, considerando a mudança do sistema de reservas global motivada por uma economia instável. Há meios de eliminar a dependência de uma moeda única? Quais são as suas sugestões?


HOBSBAWM:
Está além da minha competência fazer propostas sobre o sistema financeiro internacional, mas parece claro que o dólar não pode manter por mais tempo sua posição como padrão monetário internacional, considerando as quedas sucessivas da moeda americana. Não sabemos ainda quanto tempo demorará para ele ser substituído por outro parâmetro monetário internacionalmente aceito, tal como imaginou Keynes. É evidente que a maioria das pessoas e estados gostaria de se livrar de seus dólares, mas temem as conseqüências de um súbito colapso da moeda na economia mundial.

STIGLITZ:
É como digo no nono capítulo de meu livro: o sistema financeiro mundial não funciona bem, em particular para os países em desenvolvimento. O custo do atual sistema global para eles é alto: torna a economia mais vulnerável, mais instável. As sucessivas quedas do dólar chocam o mundo financeiro e o sistema atual já se desgastou o suficiente. Muitos diretores de bancos centrais já estão saindo do dólar, seguindo o exemplo dos chineses. Isso enfraquece a moeda e nos faz concluir que ele não é o melhor meio de acumular reservas. Portanto, é preciso criar um novo sistema global de reservas e a solução está na velha proposta de Keynes, de criar numa nova forma de papel-moeda sem lastro que pode funcionar como reserva.

O terrorismo é uma ameaça real ao mundo. Como conciliar a idéia de globalização com antigas crenças?


HOBSBAWM
: O terrorismo de pequenos grupos, que certamente deve ser combatido, não representa uma ameaça real ao mundo moderno. Os terroristas demonstraram sua habilidade em cometer massacres indiscriminados e chocantes, mas o terrorismo não é um fator político ou militar relevante e, mesmo em países onde é proeminente, representa apenas uma pequena célula de resistência à ocupação estrangeira. É ameaçador, sem dúvida, mas porque não o entendemos, não por representar perigo. Os efeitos do furacão Katrina nos EUA foram incomparavelmente maiores que o 11 de Setembro, em que morreram dramaticamente muitos inocentes. É essencial ter em mente os limites do terrorismo para que não fiquemos histéricos. Sobre antigas crenças e culturas ancestrais, há pouco de antigo no braço extremista islâmico que inspira uma organização como a Al-Qaeda. A fatwa que permite a matança indiscriminada de inocentes, incluindo aí muçulmanos, não havia sido aprovada pelo clero egípcio até o começo dos anos 1970. O barbarismo dos quais os terroristas modernos são representantes não está baseado na antiguidade ou na tradição, mas nas sociedades dos séculos 20 e 21.

STIGLITZ: Creio que, à medida que o mundo se torna mais globalizado, ele se torna também mais integrado. E, para fazer a globalização funcionar, reduzir o déficit democrático é essencial. Não vejo como antigas crenças possam impedir a convivência de uma cultura ancestral com outras civilizações. Na Europa, por exemplo, as diferenças culturais entre escandinavos e ingleses são enormes e nem por isso deixam de se integrar economicamente. Ficamos interdependentes na área econômica. O fundamentalismo econômico é, hoje, tão perigoso como o religioso.

Por Antonio Gonçalves Filho

sexta-feira, novembro 30, 2007

Juliana, jornalista

Hoje estive na Unama, para assistir a defesa do Trabalho de Conclusão de Curso de minha filha Juliana, formanda em Jornalismo pela Unama. O trabalho, feito a quatro mãos com a amiga Natália Viggiano, versou sobre a prática do merchandising social nas telenovelas, recuperando a história da TV, os conceitos que envolvem a matéria e a importância desse tipo de mecanismo como instrumento de mobilização em torno de causas sociais relevantes. Avaliado pela banca, o TCC recebeu ao final a nota máxima. Parabéns, Juliana e Natália por mais uma etapa cumprida para o ingresso em uma área tão estimulante quanto desafiante. Certa feita, Edmund Wilson, um dos nomes que dignificaram o jornalismo no século XX, disse que essa era uma "profissão de loucos". Acho que hoje é, sobretudo, a profissão daqueles que escolheram, pelo texto e pela imagem, fazer justiça, ser porta-vozes da indignação humana, mostrando o retrato da vida como ela é, mas dando ao fato a relevância que as vidas por trás dos fatos merecem. É a profissão dos sonhos de quem tem na alma a paixão pela palavra e pela vida, como Juliana.

terça-feira, novembro 27, 2007

Propaganda ruim

Não digo isso por minha formação de esquerda ou por minha notória simpatia pelo presidente Lula. Digo isso como profissional de marketing habituado a resolver problemas de comunicação de difícil solução. É muito, muito ruim a campanha nacional de tv do PSDB, que atribui a si mesmo os acertos do governo Lula, acusando o PT de "copiar" suas "boas idéias" e atribuindo os erros de Lula ao fato dele não ter "copiado" outras "boas idéias" do partido azul e amarelo. Parece propaganda de Caninha 51 vencida. Talvez seja a respeito disso que o novo presidente nacional do PSDB se referiu no programa Roda Viva, ao dizer que o partido tem "problema de comunicação". Sim, a comunicação é ruim porque é pobre em simbologia e em discurso persuasivo. Não tem proposta alguma. É uma crítica debochada e estéril. Não serve para afirmação partidária nem serve para desmontar o discurso do adversário. Ao contrário, o reforça, ao rememorar justamente o que é visto pela maioria da população como acertos (marcas) do governo atual. Não é um discurso legítimo de oposição, mas um discurso de quem tem saudade de ser situação. São exilados do poder cantando seus lamentos. Quem fez essa campanha do PSDB deveria ser processado por exercício ilegal da profissão, é um ignorante na matéria. Se me disserem que foi o Nizan, diria que ele então desaprendeu o ofício. Mas não é só de comunicação o problema do PSDB, porque comunicação política é, antes de tudo, política, para só depois ser comunicação. Então, os erros de comunicação de marketing de um partido político são, em última instância, erros da política transferidos ao marketing. E a política continua ruim, errando o alvo, confundindo tática com estratégia, misturando um discurso de oposição claudicante com um sotaque de situação indisfarçável. Para piorar, houve a fala de Fernando Henrique, não apenas preconceituosa, mas sobretudo burra, discriminando no Presidente da República justamente um de seus sinais de igualdade com o povo brasileiro, que é a fala simples e eivada de vícios de linguagem, usada por milhões de brasileiros para fazerem desse país uma das maiores economias do mundo. Se as eleições fossem decididas na cátedra de Letras, talvez FHC tivesse alguma chance de audiência a esse tipo de fala intelectualmente indigente e politicamente equivocada mas que, na essência, assume a cara de um PSDB elitista, incapaz de ser, por qualquer das vias, uma oposição confiável à Lula e seu governo. Vejo os comerciais na TV e penso: quem é mesmo que não sabe falar português? Santíssima ignorância.

segunda-feira, novembro 26, 2007

A contra-revolução do neoliberalismo

Não houve nenhuma revolta da elite, mas uma verdadeira e própria contra-revolução. Entrevista com Naomi Klein autora de Shock Economy, seu novo livro, ainda não traduzido no Brasil. A privatização dos bens comuns e dos serviços sociais será mais gradual do que no passado, enquanto será dedicada maior atenção ao conflito de interesses. Mas, é consolador afirmar que estamos assistindo ao declínio do neoliberalismo.

A publicação de Shock Economy teve uma crítica zangada do prêmio Nobel para a economia Joseph Stiglitz, que reconheceu a Naomi Klein o mérito de denunciar o "extremismo" dos neo-com. Ao mesmo tempo, porém, Stiglitz defendeu, no "New York Times" de 30 de setembro, que as da atual administração estadunidense são somente degenerações, porque a economia de mercado é o melhor instrumento, se bem usado, para promover o bem-estar coletivo. Por conseguinte, para Stiglitz, o problema não é o modelo social e econômico que o neoliberalismo propõe, quanto as pessoas que o realizam: "Não creio - afirma Naomi Klein - que o problema sejam os erros humanos. O neoliberalismo tem sido uma verdadeira e própria contra-revolução. Podem de fato mudar os homens, mas os objetivos permanecem sempre os mesmos: mover uma guerra de classes contra os trabalhadores e privatizar os serviços sociais".

A entrevista que segue ocorreu em Roma, deixando ao entrevistador um gosto amargo na boca. Tantas as perguntas a fazer e pouco tempo à disposição. A reportagem e a entrevista são de Benedetto Vecchi e publicadas no jornal Il Manifesto.


Eis a entrevista.


No seu livro descreve a ascensão e a afirmação do neoliberalismo como um produto de laboratório. De uma parte, a escola de Chicago com Milton Friedman, que "dava a linha". Da outra, alguns experimentos piloto, para depois aplica aquelas doutrinas na América do Norte, na Europa...


Nos anos cinqüenta e sessenta, Milton Friedman era considerado um nostálgico de uma economia de mercado que não mais existia. O pensamento econômico dominante era de tipo keynesiano. As teses da escola de Chicago eram consideradas a expressão de um extremismo ideológico a favor do livre mercado fora da realidade. A economia estadunidense era próspera graças à intervenção estatal e à "colaboração" entre sindicatos e empresas. Tudo parecia andar numa outra direção daquela que sustentava Friedman.

Por certo sua apologia do livre mercado era seguramente mais aderente aos interesses das grandes corporações, mas nenhum administrador teria intervindo para sustentá-la. Ao mesmo tempo, no entanto, Friedman recebeu enormes financiamentos de fundações prestigiosas, bem como do governo, para continuar as suas pesquisas. As teorias econômicas a escola de Chicago não eram somente expressão de uma ideologia, mas também de precisos interesses econômicos, como os do big business.
Muitos estudiosos ou analistas descrevem com freqüência o neoliberalismo como uma revolta das elites para subtrair-se ao controle do Estado. Não estou de acordo, porque a história da escola de Chicago pode ser considerada a `cover story´ de uma contra-revolução, de uma guerra de classe contra os sindicatos e os direitos sociais dos trabalhadores.


Você sustenta que a insegurança e os desastres ambientais são usados como ardil para impor políticas neoliberais. Não crê, no entanto, que precisamente a insegurança possa tornar-se o impulso para um reforço do welfare state? No fundo, o estado social nasce também para resolver o "choque coletivo" que atingira os Estados Unidos e a Europa nos anos trinta e quarenta?


Os choques coletivos podem ser usados para introduzir políticas neoliberais, se os homens e as mulheres estão desorientados, sós, ou seja, se sentem sua condição como precária. Na Itália estão em ação movimentos sociais que se batem contra a precariedade das relações de trabalho, pelos direitos dos migrantes, contra a guerra. O problema é se conseguem dar continuidade à sua ação, porque somente um reforço pode ajudar na resistência às políticas neoliberais.

Tomemos como exemplo Vicenza: o projeto de ampliar a base militar estadunidense encontrou a oposição de grupos, associações, centros sociais. Em Vicenza foram evocadas péssimas perspectivas para o seu desenvolvimento, se os trabalhadores fossem bloqueados. Até agora, a presença dos movimentos sociais criou as condições afim de que a chantagem fosse recusada da parte da população. Consideremos a precariedade das relações de trabalho. Há movimentos que se batem contra ela e pela extensão, também aos precários, dos direitos do trabalho. Até agora conseguiram organizar uma parte do trabalho precário. O passo seguinte é de envolver sempre mais homens e mulheres para poder enfraquecer a chantagem a que estão submetidos muitos trabalhadores e trabalhadoras. Creio, pois, que os movimentos devam dar-se uma organização estável, menos efêmera, para reforçar sua ação. Nas minhas viagens de trabalho encontro homens e mulheres que sentem muitíssimo esta urgência política de dar continuidade e força à sua ação política. Talvez possam pecar por otimismo, mas me parece que muitos movimentos estão se movendo nesta direção.

No que diz respeito à tua pergunta, também eu creio ser preciso desenvolver outro tipo de organização social. Não considero, todavia, que esta nova organização social deva ser introduzida de cima para baixo. Deve, de fato, ser desenvolvida a partir da base.


No seu livro você escreve que o neoliberalismo se caracteriza não tanto pela ocupação do Estado mas pela privatização de algumas funções que lhe competem, da defesa nacional à saúde e à formação escolar. Houve, depois, o escândalo da sociedade de "contractors" ["empreiteiros"] Blackwater no Iraque e muitos analistas denunciaram como louca a privatização da defesa nacional. Estamos assistindo ao declínio do neoliberalismo? Ou são apenas sacudidas de ajustamento?


O caso do furacão Kathrina é emblemático. Nos primeiros dias após a inundação de Nova Orleans, a mídia estadunidense apontou o índice contra as políticas de desinvestimento da administração Bush no que diz respeito à proteção ambiental. Mal as águas começaram a se retirar e grande parte do establishment liberal viu no furacão a mão divina que permitia expulsar os habitantes pobres e os afro-americanos, para deixar espaço às empresas privadas. Não creio, pois, que o neoliberalismo tenha chegado ao fim da linha. É óbvio que o escândalo da Blackwaater levanta alguns problemas para os neoliberais. Mas, na mídia dominante não é criticado o modelo neoliberal, e sim as ações de uma só empresa, neste caso a Blackwater. No final das contas, é invocada maior vigilância sobre as atividades de uma empresa privada que desenvolve uma função estatal, pública.

Estamos assistindo a uma mudança das políticas neoliberais. Haverá maior atenção ao conflito de interesses, que nos Estados Unidos e também na Itália chegou ao paroxismo. Ou ainda, a aplicação das políticas neoliberais será mais gradual. Afirmar, porém, que estamos na crise do neoliberalismo é uma temeridade política autoconsoladora.


Na Itália há muito interesse pelas primárias do partido democrático nos Estados Unidos e na competição entre Hilary Clinton e Barak Obama. Podem os movimentos sociais condicionar os resultados das primárias no partido democrático?


É estranho que o pergunte a mim que sou canadense. Não estou muito interessado no fato de que Hilary Clinton represente os old democratics e Obama os new democratics. E considero estranho que um italiano esteja interessado no conflito entre Hilary e Obama.


A política estadunidense desde sempre condicionou a italiana. E depois, você vive num observatório privilegiado que é o Canadá. No entanto, o que me interessa entender é que relação - de conflito, de cooptação - os movimentos sociais nos Estados Unidos querem entreter com o poder político e com a política institucional...


O processo eleitoral estadunidense é muito complicado e consome tempo, energias e dinheiro. Se um movimento social procura condicionar o resultado de primárias ou de uma competição eleitoral permanece quase sempre interpolado nos mecanismos políticos americanos. Fê-lo Ralph Nader e não foi muito bem. Fê-lo Move On, correndo o risco de se tornar apenas um componente do partido democrático.

Nos Estados Unidos houve um encontro que a mídia ignorou quase de todo. Refiro-me ao primeiro Fórum social estadunidense em Atlanta. Centenas de grupos, associações, milhares de ativistas se encontraram para conhecer-se e discutir sobre o que fazer. Os poucos jornalistas que foram a Atlanta ficaram maravilhados, porque viam homens e mulheres que discutiam sobre pobreza, marginalização, direitos dos migrantes, falta de trabalho, direitos à saúde e à instrução pública, ou pacifismo, propondo iniciativas de luta e alternativas praticáveis contra o neoliberalismo, sem esperar que o partido democrático lhes dê atenção. Em outras palavras, penso que os movimentos sociais devem desenvolver sua própria iniciativa, organizar-se, desenvolver uma espécie de contrapoder, sem esperar a existência de um candidato que prometa representar as suas propostas o que seu ponto de vista entre na agenda política de qualquer partido.


Os movimentos sociais, pelo menos aqui na Europa, não gozam de boa saúde. Houve importantes mobilizações contra a precariedade na França e na Itália. O movimento pacifista inglês continuou a levar à praça centenas de milhares de pessoas. No entanto, são inegáveis as dificuldades dos movimentos sociais. Não crê que estas dificuldades derivem também do fato de que o movimento dos movimentos, para usar uma expressão que é muito cara a você, não corre o risco de desenvolver uma leitura crítica do mundo atual e conseqüentemente desenvolver formas de luta e de organização adequadas?


Concordo. Também nos Estados Unidos os movimentos sociais antiliberais estão em dificuldade. A meu ver, na América do Norte, mas creio que isto possa valer também para a Europa, as dificuldades derivam das conseqüências do ataque às Torres Gêmeas. O 11 de setembro mudou o mundo. O problema é entender como o mudou. Houve a guerra no Afeganistão e depois no Iraque. Guantânamo. As crises econômicas. Mas, ainda não conseguimos colher o pleno sentido daquilo que aconteceu após as Twin Towers. Será necessário tempo para entendê-lo. Espero contribuir, como muitos outros, para entendê-lo. Agrada-me pensar que este livro seja uma pequena contribuição para entender como mudou o capitalismo.