terça-feira, março 31, 2009

Globo e Folha de S Paulo: escolas às avessas

Maurício Dias, na Carta Capital que está nas bancas, lê a imprensa e revela como, ao partidarizar o noticiário e tornar-se um aríete da oposição, a grande imprensa dá diariamente uma aula magna de como não fazer jornalismo.

"Na Folha de S Paulo, apesar de não estar citado entre os partidos que teriam recebido dinheiro para o caixa 2, o PT foi o principal alvo. Para ilustrar a reportagem, o jornal optou por uma foto do presidente da Fiesp, Paulo Skaf, que aparecia em companhia do petista Patrus Ananias, que nada tem a ver com a história. O que dirá sobre isso o já desacreditado ombudsman do jornal?
Na coluna Painel, há três notas,a de abertura, inclusive, onde se afirma que o PT teme ser investigado nesse episódio. O redator, talvez por privilégios mediúnicos, manifesta o temor de um partido que até agora não está na lista divulgada, que inclui PSDB, DEM e PPS, entre outros.[...]"
"Esses exemplos refletem o espírito que norteou o trabalho da imprensa sobre o caso.
Seria bom que a Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP) fosse mais honesta quando condenasse as críticas que o presidente Lula faz à maneira como a imprensa brasileira trata o governo, os partidos aliados e, principalmente, o Partido dos Trabalhadores".

Frase

"O financiamento privado das campanhas eleitorais facilita e legaliza a promiscuidade entre as grandes empresas e os políticos. Para um partido de esquerda como o PT, essa promiscuidade é fatal"

Valter Pomar

sexta-feira, março 27, 2009

"O marketing moderno tem as digitais de Goebbels"

Entrevista conduzida pela jornalista Melanie Retz, da revista "Histórica!" tendo como tema as técnicas da propaganda do nacional-socialismo alemão e a atualidade dos métodos persuasivos daquele modelo de propaganda.

Retz - O que eles fizeram de diferente do que era feito anteriormente?

Cavalcante - Tudo, no sentido em que leram todas as referências anteriores e criaram seu próprio caminho semiótico. Há evidentes elementos da relação estímulo-resposta que estará, mais tarde, na base da cibernética de Norbert Wiener, por exemplo, e isso é novo.
A inovação está presente, também, se você compara a propaganda fascista com a hitlerista. Verá que os italianos guardavam um núcleo racional, que em Goebbels desaparece. O que chamo de “núcleo racional” é um elemento de ligação entre aquilo que se apresenta como “promessa” e aquilo que efetivamente será “entregue”.
Alguns chamam a esse método de “falácia lógica”, mas o termo é impreciso. As falácias, para se tornarem persuasivas, não precisam ser lógicas. Quando George W. Bush disse ao mundo que Saddan Russein tinha em seu poder armas de destruição em massa que colocaria em risco não apenas a segurança dos Estados Unidos, mas a vida na terra, um contingente gigantesco de pessoas acreditou nisso e não há qualquer lógica em um país possuir armas de destruição em massas dessa magnitude e não avançar (como faz os Estados Unidos, por exemplo) sobre seus contendores. Mas as pessoas acreditam. Por que? Por ser racional ou lógico? Ao contrário. É por se basear nos preconceitos, naquilo que já está na cabeça das pessoas, consolidado pela ideologia e pela cultura.
Domenach marca bem a diferença entre, por exemplo, a propaganda hitlerista e a propaganda bolchevique. Segundo ele, na concepção bolchevique a propaganda é “a tradução da tática”, mas os seus slogans correspondem sempre a uma realidade. Quando Lenin diz “pão, paz e terra” ele está dizendo que irá expropriar o latifúndio, distribuir terras e assinar a paz com os alemães. Quando Goebbels diz que vai à guerra “em defesa da civilização cristã” ele quer motivar as massas em torno do que as massas querem ouvir, mas não corresponde a uma intenção verdadeira. Goebbels e Hitler sabiam o que o povo queria ouvir e diziam o que o povo queria ouvir, ou seja, retroativamente poderíamos dizer que seriam discípulos dos grandes teóricos do marketing de hoje. Sabiam que a Alemanha derrotada e mergulhada na crise econômica precisava de um líder que unificasse o país e construir os símbolos e o discurso que consolidasse a promessa de dias melhores e de um país forte e respeitado era necessário e urgente. Nada se assemelha mais ao marketing de Kotler ou Trout & Ries do que isso. É pavloviano: a relação entre estímulo e recompensa se expressa em uma indução que pode ou não se realizar, mas cuja motivação não é a verdade, é o desejo.

Retz - Quais técnicas de propaganda utilizadas por Hitler ainda são amplamente utilizadas nos dias de hoje?

Cavalcante - A idéia de que a linha mestra da propaganda nunca deve ser abandonada, de que qualquer variação tem que afirmar a mesma coisa, de que o sucesso da propaganda é assegurado pela repetição e pela constância, são matrizes do marketing e da propaganda contemporâneos lançadas por Goebbels antes da tomada do poder e durante a campanha nazista na II Guerra Mundial.
As técnicas de geração de propaganda listadas por Domenach foram aquelas aperfeiçoadas e sistematizadas por Goebbels. Posso listá-las e afirmar que todas estão em prática na atualidade, usadas por partidos, governos, ONGs preservacionistas e corporações mundiais de marca. Algumas dessas técnicas se aplicam somente à propaganda político-ideológica, outras têm um desdobramento imediato na atividade comercial.
Chama-se "argumentum ad nauseam" a repetição incansável de uma idéia, que deve ser repetida suficientemente não para se tornar verdade, como dizem alguns, mas para se tornar familiar ao ponto de parecer verdade. Esta técnica funciona melhor quando se tem acesso ilimitado à mídia. Ao contrário do que se diz, também, não é preciso ter o “controle” sobre os meios, basta ter acesso privilegiado a eles para impor o Argumentum ad nauseam.
"Apelo à autoridade" é a citação de uma figura proeminente para apoiar um posicionamento, idéia, argumento ou alguma ação em desenvolvimento. No marketing comercial isso se aplica quando um produto se reporta a uma marca notória ou quando ela usa um personagem conhecido para anunciá-la.
Já o "Apelo ao medo" é a busca de apoio a uma idéia ou causa ou pessoa, instigando o medo na população em geral. Goebbels usou o livro "Os Alemães devem Morrer", de Theodore Kaufman, para afirmar que os Aliados procuravam o extermínio do povo alemão e, com isso, obter o apoio do povo. No marketing comercial isso se aplica quando você agrega à uma marca atributos que remetem à felicidade, à realização e ao êxito, dando a impressão de que não usufruir desse produto ou marca nos condenará ao isolamento social e à infelicidade. Há um comercial de uma marca de desodorante que mostra como o rapaz franzino e feio torna-se atraente ao sexo oposto ao usá-lo. A mensagem aparentamente positiva guarda o seu oposto de modo subjacente: o medo de que o não uso desse produto acarrete em solidão e insucesso reprodutivo.
"Bode Expiatório" é a técnica de atribuir culpa a um indivíduo ou grupo que não seja efetivamente responsável, aliviando sentimentos de culpa de partes responsáveis ou desviando a atenção da necessidade de resolver um problema cuja culpa foi atribuída àquele que está emitindo a propaganda.
Chama-se "Desaprovação" a técnica usada para criar rejeição a uma ação ou idéia sugerindo que ela é popular entre grupos odiados, ameaçadores ou que estejam em conflito com o público-alvo. Assim, se um grupo que apoia uma idéia é levado a crer que pessoas indesejáveis e conflitantes também a apoiam, os membros do grupo podem decidir mudar sua posição.
"Efeito dominó" ou "vitória inevitável" é a técnica de buscar convencer a audiência a colaborar com uma ação "com a qual todos estão colaborando" ou "junte-se a nós". Essa técnica reforça o desejo natural das pessoas de estar no lado vitorioso e visa a convencer a audiência que um programa é a expressão de um movimento de massa irresistível e que é de seu interesse se juntar a ele. A "vitória inevitável" incita aqueles que ainda não aderiram a um projeto a fazê-lo, pois a vitória é certa. Os que já aderiram se sentem confortados com a idéia de que tomaram a decisão correta e apropriada.
"Estereotipificação ou Rotulagem" é a técnica que busca provocar a rejeição em uma audiência rotulando o objeto da campanha de propaganda como algo que o público-alvo teme, desgosta, tem aversão ou considera indesejável.
O uso do "Homem comum" ou “homem comum” como ícone de agregação é uma técnica comum, que busca convencer a audiência de que as posições do propagandista possuem identidade direta com o público-alvo. É utilizada para obter a confiança do público comunicando-se da maneira comum e no estilo da audiência. Propagandistas usam a linguagem e modos comuns (e até as roupas, quando em comunicações audiovisuais presenciais) numa busca de identificar seus pontos de vista com aqueles da "pessoa média". Um exemplo no marketing comercial é a comunicação das Casas Bahia, que mostram como “garoto propaganda” sempre alguém que parece com a media da população e se veste de modo a despertar identidade com o público.
A técnica das "Palavras Virtuosas" consiste em usar palavras tiradas do sistema de valores do público-alvo, tendem a produzir uma imagem positiva quando associadas a uma pessoa ou causa. Exemplos mais comuns são paz, felicidade, segurança, liderança, liberdade, etc.
"Propaganda Enganosa" é um termo de conhecimento universal. Consiste em oferecer o que não se tem, forçando o comprador, ou consumidor a comprar outro produto, a idéia é chamar a atenção e aumentar as vendas, mesmo que uma parcela mínima desista de comprar ou a repulsar a empresa. No marketing comercial a propaganda enganosa é passível de ações judiciais segundo a legislação brasileira, mas o fato de haver lei específica para isso é sinal de que sua aplicabilidade é possível.
Na técnica da "Racionalização", indivíduos ou grupos usam afirmações genéricas favoráveis para racionalizar e justificar atos e crenças questionáveis. Frases genéricas e agradáveis são frequentemente usadas para justificar essas ações ou crenças.
Todo mundo sabe o que é um slogan, mas a técnica do slogan surgiu na propaganda política. Consiste no uso de uma frase curta e impactante que pode incluir “rotulação”. Se slogans podem ser criados a respeito de determinada idéia, devem sê-lo, pois bons slogans são idéias auto-perpetuáveis. “Se é Bayer é bom” é um slogan tão simples e bom quanto “Cinqüenta anos em cinco”. Ambos são são conceitos que se expandem.
Os nazistas usavam também a chamada "Super-simplificação", afirmações vagas, favoráveis, são usadas para prover respostas simples para complexos problemas sociais, políticos, econômicos ou militares. Na comunicação mercadológica ela apresenta soluções simples resolvidas por artefatos que parecem mágicos. A comunicação do iPhone diz "Pense diferente". Ou seja, se você tem um iPhone você não tem um aparelho de telefone que pode conectar à internet e receber emails, você tem estilo, personalidade e distingue-se dos demais. A objetividade é submetida a uma subjetividade poderosa e infalível.
Outra técnica era o uso de "Termos de Efeito", palavras de intenso apelo emocional tão intimamente associadas a conceitos e crenças muito valorizados que convencem sem a necessidade de informação ou razões que as apoiem. Elas apelam para emoções como o amor à pátria, lar, desejo de paz, liberdade, glória, honra, etc. Solicitam o apoio sem o exame da razão. Embora as palavras e frases sejam vagas e sugiram coisas diferentes para pessoas diferentes, sua conotação é sempre favorável.
A igreja criou o "Testemunho", que foi apropriado pela propaganda política. Testemunhos são depoimentos, citações, dentro ou fora de contexto, efetuadas especialmente para apoiar ou rejeitar uma idéia, ação, programa ou personalidade. Explora-se a reputação ou papel (especialista, figura pública respeitada, etc.) daquele que é citado. O testemunho dá uma sanção oficial de uma pessoa ou autoridade respeitada à mensagem de propaganda. Isso é feito num esforço de causar no público-alvo uma identificação com a autoridade ou para que aceite a opinião da autoridade como sua própria.
A técnica de projetar qualidades positivas ou negativas (elogios ou censuras) de uma pessoa, entidade, objetivo ou valor (de um indivíduo, grupo, organização, nação, raça, etc.) para outro, objetivando tornar esse segundo mais aceitável ou desacreditá-lo chama-se "Transferência". Essa técnica é geralmente usada para transferir culpa de uma parte em conflito para outra. Ela evoca uma resposta emocional, que estimula o público-alvo a identificar-se com autoridades reconhecidas.
Afirmações deliberadamente vagas, ou "vagueidade intencional", tem por objetivo deixar que a audiência possa interpretá-las livremente. A intenção é mobilizar a audiência pelo uso de frases indefinidas, sem que se analise sua validade ou determine sua razoabilidade ou aplicação.
Esses métodos e técnicas consagrados por Goebbels ainda estão em uso, seja no marketing político ou institucional, seja no marketing comercial.

Retz - O senhor acredita que a construção de uma identidade visual para o Nazismo e para o próprio Hitler contribuíram para a difusão da ideologia nazista?

Cavalcante - Sim, a identidade visual teve um papel importantíssimo como parte do sistema de comunicação aplicado àquela conjuntura.
Em marketing se diz que a personalidade de uma instituição ou produto pode alcançar a complexidade de um indivíduo, por isso, para se destacar das demais, a corporação deve se tornar marca, uma maneira simples de manipular e controlar sua capacidade de informação, evolução e maturação assim como seu deslocamento no tempo e no espaço.
A imagem gráfica da marca do partido nacional-socialista é tão impactante quanto bem elaborada. Vermelho, branco, e preto – as cores usadas por Hitler - já eram as cores da bandeira do velho Império Alemão, mas a princípio a bandeira nazista era preto e branca. O vermelho foi introduzido para disputar o visual com as organizações de esquerda, o Partido Social-Democrata e o Partido Comunista.
Perceba que eles não tinham apenas um logotipo, mas uma marca – logotipo + imagotipo + desenho aplicado – ou seja, tinham uma identidade visual complexa, com variáveis do desenho básico, diferentes formas de aplicá-los, tipologia definida, logotipos de produtos derivados (a SS nazista tinha logo própria, mas que estava associada como design ao logotipo matriz). A identidade visual era, junto com a retórica dirigida de maneira precisa, elemento estrutural da difusão do discurso e da conduta de agregação do nazismo.
É certo que a Igreja, os romanos e mesmo os jacobinos ou os patriarcas da revolução norte-americana utilizaram elementos formadores da idéia de identidade visual, mas nenhum deles os utilizou em sua plenitude e cabalidade, de forma sistêmica, como “desenho corporativo”, como signo verbal, fonético e gráfico que, juntos, projetam uma imagem.
A escolha da suástica ou cruz gamada como símbolo do partido foi deliberada. Sociedades teosóficas nos Estados Unidos usavam o símbolo muito antes do nazismo. É um ícone místico associado à pureza e ao poder em muitas culturas em tempos diferentes, dos índios Hopi aos Astecas, dos Celtas aos Budistas, dos Gregos aos Hindus. Na forma como foi apropriada pelos nazistas, os “braços” do desenho estão apontando para o sentido horário, ou seja, indo para a direita e gira a figura de modo a um dos braços esteja sempre no topo. A força da marca é tamanha que no Brasil seu uso é crime, de acordo com a lei 7.716. O símbolo, a representação gráfica, tornou-se “a coisa em si”, no sentido em que Karel Cosig dá ao termo em seu livro “Dialética do Concreto”.

Retz - A preocupação com os discursos, com o enquadramento das fotos, o bigode característico, as fotos com crianças e animais, a construção de obras enormes, a preocupação com a simetria, os uniformes impecáveis de suas forças armadas, a cadência e disciplina das marchas, os gritos de guerra, o jogo de luzes, a repetição da suástica. Tudo isso pode ser considerado tática de propaganda?

Cavalcante - Tudo isso é propaganda. Alguns chamam à propaganda nazista de “técnicas de desinformação”. Esse conceito é uma idiotice imposta pelo departamento de Estado dos Estados Unidos. Não há desinformação na propaganda nazista. O que é há é informação dirigida. A política nazista e sua ideologia são anti-humanistas e devem ser combatidas, mas não podemos dizer que eles “desinformam” ao manipular o sentido da informação. Eles informam de muitas maneiras porque essa informação não é apenas verbal. Der Triumph des Willens (O triunfo da vontade), por exemplo, dirigido e montado por Leni Riefenstahl, é uma aula de como informar “poder” de modo cabal. Ali se inaugurou a linguagem do documentário moderno e se criou muitos dos planos de câmera e de direção de fotografia que depois seriam usados pela publicidade comercial e nos vídeos-clips.

Retz - Hitler conseguiu convencer uma das populações mais cultas do mundo sobre suas idéias. O senhor acredita que isso se deve, em grande parte, à propaganda (a propaganda tem realmente toda essa força?) ou a crise social e o fato de ele se basear em conceitos e preconceitos comuns aos alemães (como a mitologia nórdica e o anti-semitismo) também teve grande peso?

Cavalcante - O subjetivo só se propaga quando há uma objetividade que a legitime. A propaganda não teria sido bem sucedida se as condições materiais não fossem favoráveis. Mas as condições materiais poderiam ter passado ao largo se a subjetividade dos formuladores e ideólogos do nazismo não tivessem tido a capacidade de percebê-la, de introduzir seus elementos persuasivos e neutralizar o argumento adversário. A boa propaganda não prospera senão no terreno que lhe foi preparado.

Retz - Em seu texto no blog, o senhor comenta que Hitler dizia que "as massas não se lembrarão das idéias mais simples a menos que sejam repetidas centenas de vezes" e que a "palavra de ordem" deve ser apresentada sob diferentes aspectos mas sempre apresentando a mesma fórmula, as alterações na propaganda não devem prejudicar o fundo dos "ensinamentos a que se propõe", apenas a forma. A propaganda hoje segue esse mesmo princípio?

Cavalcante - Existe em marketing, desde a década de 50, um conceito que atravessou os anos e parece se eternizar: Unique Selling Proposition (em português, Proposição Única de Venda). O que é USP? Significa que “o consumidor tem que recordar apenas uma coisa de um anúncio: um só argumento de venda, um só conceito sobressalente”, escreveu Rosser Reeves em 1960. As lições de Reeves formam um sistema completo de estratégia publicitária, calcado, é claro, nos ensinamentos de Goebbels: 1) todo anúncio deve fazer uma proposição concreta ao consumidor; 2) a proposição deve ser algo que a concorrência não pode dar ou que a esta não ocorreu mencionar; 3) a proposição deve ter uma força que seja capaz de influenciar milhões de pessoas, quer dizer, deve criar legiões de novos consumidores desse produto.
A palavra “Unique” tem um triplo sentido: único, só e nada mais. Quer dizer, o que estamos propondo ninguém mais pode propor. O que o nazismo propunha? Após a humilhação da derrota na I Guerra, uma Alemanha de pé, um império forte e próspero, superior, indutor de cultura e de conceitos, “a nova Roma” de dois mil anos. A guerra, o fim das liberdades democráticas, o regime de partido único, o assassinato de comunistas e judeus, tudo isso estava a serviço da proposição única de venda, daquilo que fazia daquele grupo de pessoas e de suas idéias, “pessoas especiais”.
Podemos ver traços desses pressupostos nas religiões e nas corporações de marca. Ter USP faz do nosso produto ou serviço algo incomparável e superior.
“Se não temos uma proposta tão boa como para que possa ser única, é que não temos uma boa proposta”, escreveu Reeves.
Quem não vê no marketing moderno, e não apenas no marketing político de nossos dias, as digitais de Goebbels é cego ou simplesmente não sabe ler.

quarta-feira, março 25, 2009

A Globo, o Fim do Mundo e a moradia popular

Nesta quarta-feira, 25, na apresentação do pacote habitacional do governo federal em Brasília, a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Roussef (na foto ao lado), disse que o programa habitacional não é emergencial. É estrutural.
Segundo ela, é fundamental que a União subsidie a construção de casas para diminuir o déficit habitacional. "Não é possível acreditar que a preço de mercado a população de baixa renda terá acesso a moradia sem auxílio do poder público", afirmou a Ministra.
Dilma disse que o programa de habitação integra o modelo de desenvolvimento do governo Lula porque centra não só no aumento das possibilidades das famílias de baixa renda terem acesso à compra da casa própria, mas também será um gerador de emprego e renda.
"Nesse sentido, o programa é uma grande novidade já que a última ação de Estado com vista a acesso da população à casa própria foi feito há cerca de 20 ou 30 anos, com o BNH (Banco Nacional de Habitação)", afirmou. A ministra disse ainda que o programa tem uma função anticíclica.
Segundo ela, outro objetivo do modelo definido para o programa é compatibilizar o valor da prestação que será pago pelas famílias com a sua capacidade de pagamento. Dilma afirmou que não há como a faixa de renda mais pobre da população ter acesso a moradia sem a participação de recursos subsidiados da União. "É fundamental que a União aporte recursos subsidiados para isso", disse.
Ela citou que o modelo do programa prevê, por exemplo, que a primeira prestação só será paga após a entrega do imóvel para evitar que o comprador acumule despesas com prestação e aluguel.
O evidente caráter positivo da medida do governo se manifestou no entusiasmo das construtoras e da indústria de insumos do setor, até mesmo nas bolsas de valores, que apresentaram alta em função da ação. Centenas e milhares de operários trabalharão nas obras que injetarão recursos na economia local, mas também nas prefeituras e governos que arrecadarão com a movimentação econômica que esse volume de dinheiro gerará em escala. A diminuição do desemprego além de beneficiar diretamente os indivíduos, vítimas diretas da crise, beneficiará o Estado, já que desonerará as caixas de auxílio social que impactam a dívida interna.
Só coisa positiva, certo? Um exemplo do país ao mundo, no momento em que as maiores economias do planeta patinam rumo à recessão, certo?
Errado, segundo a GloboNews, o canal do fim do mundo. A emissora paga da Rede Globo conseguiu encontrar somente pontos negativos na ação do governo que construirá casa para trabalhadores pobres. Segundo os entrevistados do canal, na sua totalidade elementos anti-governo e ligados às legendas de oposição, a construção de um milhão de casas populares provocará "caos urbano", "não resolverá o problema" (quem disse que construir um milhão de casas resolveria o deficit de 7 milhões de residências?), "confinará os pobres na periferia", "o presidente não deu prazo", "não há terrenos", "vão derrubar árvores", "haverá agressão ao meio ambiente", "o mutuário não terá capacidade para honrar a prestação", "os pobres não têm capacidade de endividamento", "o projeto não sairá do papel", "é eleitoreiro", "o congresso não vai aprovar o pacote", "será uma grande frustração", "as construtoras não têm know-how para construir moradia popular", "produzirá adensamento populacional sem água, esgoto e energia elétrica", "os urbanistas vêem problema", "terra é cara; é um desafio achar terra para toda essa gente", "os problemas serão muitos", "não haverá casa para todos", "vai piorar a qualidade do transporte", "dependerá da boa vontade de governadores e prefeitos", "lançará mão do Fundo de Garantia e isso é um risco", "coloca em risco o futuro do país", "não é um plano de longo prazo", "é um plano de longo prazo", "é um plano de curto prazo", "as pessoas vão ficar empilhadas", "o trabalhador ficará longe do emprego", "a qualidade do material de construção será ruim", etc. Se isso não é o fim do mundo é o seu prenúncio eloqüente, por certo.
É hilariante a tentativa de transformar um mero panfleto eletrônico em veículo noticioso. Na GloboNews não toca samba. Nem pagode. É só chorinho. Um choro amarelo e cínico.
O cinismo se manifesta amarelado na manipulação deliberada da notícia, para torcer os fatos até que eles digam o que os donos e os capatazes da emissora querem.
Na matéria sobre o evento que lançou o desafio de construir um milhão de moradias, por exemplo, após a frase "até os governadores presentes na cerimônia viram problemas na ação do governo" surge um dos governadores presentes dizendo algo como "Sem terrenos, não temos como construir; esta é a primeira coisa a fazer". Corte rápido.
O que era mesmo que o governador estava dizendo? Que o programa habitacional era um problema? Que não ia funcionar? Que ia produzir caos urbano. Não. Longe disso. Essa é a versão que a GloboNews transmitiu, manipulando a edição, aos seus assinantes.
O que o governador estava dizendo era o óbvio: que as prefeituras e governos estaduais precisam fazer a sua parte. Não estava dizendo que o plano era "um problema", mas que alguns passos deveriam ser dados para além da iniciativa presente do governo federal. Ao discordar, os jornalistas da emissora não polemizam. Constroem uma versão politizada com o que quer que o entrevistado diga.
Como arauto do Apocalipse, o jornalismo da Globonews reza pelo fim do mundo. Quer que as baratas herdem a Terra.

Marketing Político Radical em Portugal

O Bloco de Esquerda é um partido político português que surgiu da iniciativa do Partido Socialista Revolucionário - seção da Quarta Internacional nas terras de Luis de Camões. O PSR conseguiu fazer dez anos antes o que a LCR francesa quer fazer agora: construir uma frente de esquerda ampla, potencializando a ação política de vários grupos e ativistas independentes que, ao longo da jornada, afinem suas semelhanças e debatam suas diferenças.
O Bloco é a organização de esquerda de maior crescimento na Europa e a que melhor usa a internet como instrumento de marketing político radical.
Entrando no link abaixo você vê o primeiro debate das Políticas de Igualdade com transmissão direta online, que teve a Globalização como tema. Participaram os intelectuais José Manuel Pureza, Marisa Matias, Mónica Frechaut e Sandro Mendonça, com moderação de Miguel Reis.

http://igualdade.bloco.org/index.php?option=com_content&task=view&id=51&Itemid=3

O uso da internet pelo Bloco é extremamente profissional e permite, através de um mix de sites, blogs e links que se integram em um rede articulada, visibilizar tudo. A vida partidária está na web. Há desde vídeos (http://www.blocomotiva.net/) de mobilizações de estudantes secundaristas - feito profissionalmente, editado profissionalmente, com sonoras bem escolhidas, iluminação correta - até revistas temáticas diversas que só podem ser baixadas on-line, em PDF.
Nenhum partido brasileiro tem tamanha desenvoltura na rede.
Se você se interessou, veja "Nasceu uma Estrela", um documentário sobre a história da formação do Bloco de Esquerda, realizado por Jorge Costa e Daniel Oliveira. Inclui entrevistas com dezenas de "bloquistas" e também observadores e ativistas de vários quadrantes: Carvalho da Silva, Boaventura Sousa Santos, Ulisses Garrido, André Freire, Pedro Magalhães entre outros. Tudo on-line no link

http://www.bloco.org/index.php?option=com_content&task=view&id=1642&Itemid=1

segunda-feira, março 23, 2009

Mutatis mutandis

A expressão latina significa "fazendo as mudanças necessárias". Podemos dizer que toda crítica à ausência do Estado na Amazônia pode ser admitida, mutatis mutandis.
O general Augusto Heleno Pereira que permaneceu os últimos anos à frente do Comando Militar da Amazônia (CMA), com sede em Manaus, decidiu em 2008 inscrever seu nome na história.
Tornou-se notório, então, ao expressar opiniões reacionárias e retrógradas acerca de temas delicados, uma das quais defendia a permanência do "deus-dará" a que estava entregue a reserva Raposa Serra do Sol, em Rondônia. Ele defendia que as coisas ficassem como estavam, embora a retórica fosse coberta por um difuso "interesse nacional". Agora, faltando apenas dois anos para trocar o uniforme de campanha pelo pijama de bolinhas azuis, o general volta a abrir o verbo para criticar a "ausência do Estado" na região, acusando o Estado e o governo de "não conhecer a Amazônia".
Para ele, só quem conhece a região é o Exército, "o maior interessado na saúde, na educação, na qualidade de vida do brasileiro e do índio".
Tudo indica que o general foi reprovado na disciplina "Educação Moral e Cívica".
O Exército, general, faz parte do Estado. É o seu braço armado. Se o Exército está lá, lá está o Estado. Se o Exército está na Terra do Meio, lá está o Estado brasileiro; se está no Haiti, lá está o Estado brasileiro, que é quem paga as contas, inclusive o salário do General, e define a política, demarca o escopo das ações, etc. Muda o perfil do Estado e lá se vai, junto, uma leitura da função das FFAA. Por isso não há autonomização entre Exército e Estado. Este contém aquele. Estado é uma instituição organizada políticamente, socialmente e juridicamente, ocupando um território definido. Exército é sua instância coercitiva, sua arma de auto-defesa. O Exército não é, então, um ente à parte. Não se pode dizer "O Exército", como faz o General, sem que se ouça "O Estado".
Aliás, a crença reacionária da separação entre o braço armado e o corpo social é que é a matriz de todos os golpes de Estado, como os que proliferaram na América Latina nas décadas de 60 e 70. A ideologia da segurnaça nacional foi parida do pressuposto de que as Forças Armadas (hegemonizadas pelo Exército) eram não apenas uma parte distinta do Estado, mas a sua "melhor parte", a sua vanguarda.
Ao general devemos esclarecer que a noção moderna de estado surgiu com Maquiavel e Hobbes, e inclui os seguintes aspectos: a) uma população formada por membros socialmente relacionados entre si; b) um território; c) um governo que tem o poder de estabelecer leis e usar a coerção, de modo a regular o comportamento dos indivíduos dentro de certos limites; d) independência e reconhecimento político de outros estados. Um debate importante em filosofia política é o de saber qual deve ser o papel do estado na regulação da vida dos indivíduos. Filósofos como John Locke e Robert Nozick defendem que o papel do estado deve ser muito limitado, de modo a não pôr em causa a liberdade individual. John Rawls, por sua vez, acha que o estado deve intervir para garantir uma maior justiça social, o que se apresenta dramaticamente verdadeiro quando diante de uma crise econômica tudo o que resta ao sistema financeiros de grandes países é recorrer ao Estado para sobreviver.
Os marxistas defendem um estado forte, que vá perdendo força na medida em que a sociedade avance para a saciedade. Aliás, não existe uma teoria marxista do Estado. O que existem são formulações genéricas, fragmentos, muitas vezes contraditórios entre si. A teoria althusseriana implica uma ligação umbilical entre Estado e aparelhos ideológicos, enquanto a de Gramsci pressupõe uma maior autonomia dos aparelhos privados em relação ao Estado em sentido estrito. Essa autonomia abre a possibilidade — que Althusser nega explicitamente — de que a ideologia (ou o sistema de ideologias) das classes oprimidas obtenha a hegemonia mesmo antes de tais classes terem conquistado o poder de Estado. Portanto, não seria possível falar de uma teoria marxista de Estado e muito menos de uma teoria da transição do Estado capitalista para o Estado socialista. Esta é uma tese defendida por Norberto Bobbio e por grande parte dos teóricos marxistas modernos. Lúcio Colleti chegará às mesmas conclusões, embora percorrendo caminhos diferentes. Para ele, Marx estava mais preocupado em teorizar o fim do Estado e, portanto, não havia interesse em construir uma teoria do Estado. Os anarquistas, por sua vez, defendem que a existência do estado não se justifica. Defendem uma utópica auto-organização em comunas autônomas, que levada à prática no estágio atual conduziria o mundo à barbárie das guerras tribais, religiosas e regionais antes mesmo dos conflitos entre potências.
O Estado está presente na Amazônia, sim. Desde seu surgimento no Brasil Império. O que foi a Transamazônia senão a presença desastrosa do Estado? O que foi a exploração de minérios em Serra Pelada? O que é o Sivan e a Zona Franca de Manaus? O que foi a dizimação física dos guerrilheiros do Araguaia senão a presença do Estado senão a presença do Estado na Amazônia?
Ocorre que o que quer do Estado a sociedade não coincide com o que quer o general, que propugna um papel para as Forças Armadas que avança perigosamente sobre o espaço autônomo da sociedade civil organizada, podendo colocar em risco as liberdades democráticas.
A rigor não há "menos Estado", "mais estado" nem "melhor Estado". O que houve no passado recente foi a redução e liquidação das funções sociais do Estado e minimização das funções redistribuitivas do Estado. Se há "mais Estado" ou "menos Estado" não faz diferença quando não se mexe na política.
O que falta na Amazônia é justamente política, a política humanista e socialmente responsável que ajude o homem e a mulher da Amazônia a viverem da floresta e na floresta e não contra ela.

sexta-feira, março 20, 2009

Brasil de Fato e o cerco aos meios militantes de comunicação

Recebi de João Pedro Stedile a correspondência a seguir que socializo, em solidariedade, com os leitores deste espaço.


Estimados amigos e amigas,

Fui incumbido pelo conselho editorial do Jornal Brasil de fato, que reúne 25 companheiros e companheiras representando diversos setores de nossa sociedade e dos movimentos sociais, a lhes escrever.
Vocês têm acompanhado o esforço de centenas de militantes, dos mais diferentes movimentos sociais, para construir o jornal Brasil de Fato, que já completa seis anos de imprensa popular comprometida com os interesses de nosso povo (2003-2009).
Fizemos em janeiro passado um belo ato celebrativo durante o Fórum Social Mundial em Belém.
Além de resistir num contexto tão adverso de crise - de projeto, de ideologia da esquerda, dos movimentos populares e descenso do movimento de massas - foi possível dar passos e avançar na construção de um jornal de esquerda.

Breve balanço

Conseguimos superar muitas dificuldades relacionadas com boicote da entrega (que agora está normalizada pelo serviço de correios), da freqüência da entrega, da qualidade do jornal, de sua cobertura nacional.
Mantivemos o jornal impresso semanal, que circula às quartas-feiras, sem faltar nenhuma edição. O jornal se destina a militantes sociais e interessados em conhecer a realidade das lutas com uma visão diferente daquela construída pela mídia corporativa. Também temos feito edições massivas, destinadas à população em geral, quando se trata de temas importantes da luta conjuntural. E já chegamos a atingir a tiragem de um milhão de exemplares.
Recentemente, editamos um jornal especial para denunciar as falcatruas da oligarquia Sarney, que quer desrespeitar a vontade popular e retomar o comando do governo do Maranhão.
Mantemos também uma página na internet que é referência para os movimentos sociais, com milhares de acessos mensais: www.brasildefato.com.br.
Enviamos um boletim eletrônico semanal, com resumo das notícias e artigos, para 84 mil militantes de movimentos sociais. Se você ainda não recebe o boletim, se cadastre enviando um correio para: agencia@brasildefato.com.br.
Estamos articulados com uma agência de rádio que faz programas diários de áudio, enviando gratuitamente a centenas de rádios comunitárias e comerciais. E edita também programas em espanhol no intercâmbio com rádios co-irmãs da América Latina.
Se você tiver contato com alguma rádio comunitária ou programa que considera interessante, nossa agência pode enviar programas gratuitamente.
Mantemos um intercâmbio cultural com dezenas de publicações populares de todo o país e da América Latina.
Estamos fazendo um esforço, para que logo, logo, o jornal possa também distribuir vídeos e material audiovisual para serem utilizados pelos canais de televisão comunitária e educativa, espalhados pelo país.
Temos correspondentes jornalistas brasileiros, exclusivos, morando em Caracas, La Paz, Asunción, Paris e Estados Unidos, que nos ajudam com seu trabalho militante.
Como vêem, temos muita coisa boa sendo feita.
Todo esse esforço somente terá futuro e autonomia caso se sustente no apoio militante das assinaturas. Temos recebido apoio publicitário de diversas empresas e administrações públicas progressistas, que consideram nosso esforço importante para a democratização dos meios de comunicação no Brasil. Isso é importante. Mas o fundamental são as assinaturas.
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Um forte abraço, em nome do conselho editorial.

João Pedro Stedile

Contra o racismo

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Quanto mais você usa, pior você fica.

As antinomias de John Downing

O texto a seguir é um brevíssimo capítulo do livro "Marketing Político Radical", que publiquei pela Labor Editorial em 2001 e está agora na segunda edição.


"O que ocorre cotidianamente sob o nome de comunicação é pouco mais do que um monólogo dominante em benefício do iniciador do processo, o emissor da mensagem-base: os meios de comunicação de massas.
“A retroalimentação não é empregada para proporcionar a oportunidade de diálogo autêntico” escreve Beltrán. “O receptor das mensagens é passivo e está submetido, uma vez que quase nunca se lhe dá a oportunidade adequada para atuar também como verdadeiro e livre emissor; seu papel consiste em escutar e obedecer”.
A esse respeito, em 1993, o pesquisador Douglas Gomery publicou o resultado de um estudo inquietante.
De acordo com suas pesquisas, 54% duma amostra composta por crianças com idades compreendidas entre os quatro e os seis anos de idade a quem perguntaram de quem gostavam mais, se dos pais ou da televisão, escolheram a televisão como objeto de seu afeto.
Esse resultado mostra a perversão do que chamamos de “imageficação”: a cultura comunicacional que se caracteriza pelo predomínio da imagem sobre a palavra ou do ver sobre o pensar.
“Imageficação” é a predominância da forma sobre o conteúdo, uma modalidade de aprisionamento do pensamento na irresistível sedução da imagem.
A prática da “imageficação” é caracterizada pelo predomínio do pathos, entendido como (apelo à) emoção, aos afetos e ao desejo, sobre o logos encarado no seu sentido restrito de palavra, razão ou pensamento. O seu ethos, caráter ou disposição (modo de ser), parece residir precisamente na ausência desse logos, ou, o que significa o mesmo, ter-se eclipsado sob o domínio do sugestivo e da atratividade instantânea, irrefletida e efêmera.
Para Giovanni Sartori, a entrada de cena da televisão transforma o homem simbólico em homo-videns. A imagem passa a ter primazia sobre a palavra. O homem passa a ver mais e ter a necessidade de ver. Tendo a necessidade de ver, o homem acaba por perder a sua capacidade cognitiva que dispensa a visão.
O predomínio da visão, segundo o autor italiano, “é um passo atrás”, deixa o homem mais próximo dos seus ancestrais, o faz retroceder do inteligível para o sensível. Sendo assim, a televisão apaga os conceitos, reduz a possibilidade do homem de raciocinar e produz imagens. A tele-visão (visão à distância) limita a possibilidade de abstração e o enfrentamento dos problemas de forma racional.
A política, desde o seu princípio, tem na palavra o símbolo que necessita para se expressar, para exercer sua capacidade de abstração. A imagem não necessita de palavras para tal; a imagem se basta por si mesma. Por isso, a política reduzida à imagem é uma forma de despolitização: reduz a racionalidade e remete à emocionalidade. Enquanto a palavra constitui um universo simbólico, a imagem não tem nenhuma função senão produzir um estímulo visual e emocional. E, para a televisão, o que é visível tem papel principal, enquanto a narração possui um caráter secundário.
Por isso, no combate pela visibilidade em um mundo marcado pela seleção midiática do tangível, os movimentos sociais e contra-hegemônicos recorrem a diversas formas de comunicação militante como um mecanismo de romper a ditadura da visão a partir da força do argumento. A luta central da comunicação militante é o embate radical e sem quartel pelo predomínio da palavra.
Esse combate não é novo. “A impressão e distribuição da propaganda deve estar organizada de modo que não falhe nunca” – escrevia Fidel Castro quatro anos antes da tomada de Havana. “Dou uma importância decisiva a isto, porque os manifestos sozinhos, circulando por todo o país clandestinamente, além de manter a moral elevada, fazem o trabalho de milhares de ativistas, convertem cada cidadão entusiasta em um militante que repete os argumentos e idéias expostas”.
Certamente não estamos em 1955. O que é novo em nosso tempo são as múltiplas formas de domínio midiático associadas ao poder da produção de mídia pelos movimentos sociais e os questionamentos que o monopólio dos meios de massa provoca em um número tão grande de pessoas no mundo inteiro.
O fenômeno vem ocorrendo na comunicação em todas as direções, enquanto os recursos tecnológicos que o reforçam são modificados a cada dia principalmente pela indústria digital. Os movimentos sociais contestadores da ordem vem usufruindo desse ambiente diverso.
Alguns estudos apresentam inspiradoras experiências de comunicação militante, tais como o realizado por Rubim sobre a comunicação na guerrilha zapatista. Também é certo que os exemplos coletados por John D. H. Downing em seu livro “Mídia Radical” demonstram contestação aos meios de comunicação tradicionais, a sedimentação de uma cultura de comunicação distinta e estabelecem um cenário onde se destacam novos protagonistas, como os movimentos sociais, que cada vez mais fazem uso de ferramentas de comunicação militante.
Mas muitos que citam como referência o livro de John D. H. Downing, não se propõem a analisar a fundo as formas de comunicação militantes ali analisadas e empregadas por movimentos de contestação ao sistema como forma de mobilização política. Erram na origem: assimilam a idéia de que “radical” é a “mídia” em si e não sua mensagem, seu conteúdo.
Publicado em uma dezena de línguas, inclusive o português, o livro elata experiências contestadoras, mas expande de maneira quase infinita o conceito de “mídia”, contextualizando seu uso em vários momentos da história humana, como nas Revoluções Francesa e Industrial.
Em sua análise agressivamente ampliada, praticamente tudo é “mídia radical”. Downing vê “mídia radical” nas lutas dos escravos pela liberdade nas Américas, no movimento feminista no ocidente, nos movimentos pacifistas nos EUA contra a Guerra do Vietnã, na resistência das Mães da Plaza de Maio na Argentina, no black power nos EUA, entre inúmeros outros modelos de ações contestadoras.
O teatro, o grafite, os folhetins, a panfletagem, o vídeo, o vestuário, a fotografia, as intervenções de rua, manifestações públicas, greves, entre outros, seriam “mídias radicais”. Também, é claro, há “mídia radical” nas redes on-line. A importância da Internet para o cenário político, cultural e econômico da atualidade é contextualizada, lembrando o poder que esta tem como veículo de transformações sociais e como “mídia radical alternativa”.
Downing defende sua tese ilustrando-a: “O papel da mídia radical pode ser visto como o de tentar quebrar o silêncio, refutar as mentiras e fornecer a verdade. Esse é o modelo da contra-informação, que tem um forte elemento de validade, especialmente sob regimes opressores e extremamente reacionários. Nesses cenários, a mídia radical tem a missão não apenas de fornecer ao público os fatos que lhe são negados, mas também pesquisar novas formas de desenvolver uma perspectiva de questionamento do processo hegemônico e fortalecer o sentimento de confiança do público em seu poder de engendrar mudanças construtivas”.
Ora, é certo que a modernidade imagética impulsionada pela reprodutibilidade técnica das imagens alterou a paisagem urbana, o cotidiano e a sensibilidade dos homens e mulheres nas cidades. Henri Lefebvre já se ocupou exaustivamente do tempo.
Nesse ambiente urbano, em certo momento, o imaginário moderno passou a ser decorado pelas imagens e pelos produtos derivados da chamada cultura de massas, na qual se insere o marketing e a propaganda, mas também outras variáveis, como as marcas de identificação tribal de grupos, uma forma primitiva revivida como decodificação do cotidiano. A cultura pop midiatizada segue sendo a fonte de onde jorram os ícones e os significados que vão compor um imaginário específico, o modo como cada um incorpora esses elementos que, a rigor seriam para uniformizar e são, então, incorporados como formas de diferenciação.
A “grafologia” do homem moderno, atrelada às artes gráficas e ao vídeo, ganha novos ares com os cartazes de rua, moda, homens-sanduíche, cartões de visita, web-videos e um emergente mercado editorial. Mas considerar que essas formas de exposição são, genericamente, “mídia” é, no mínimo, abusivo.
As antinomias de Downing são evidentes. Sua impaciência histórica, seus erros de análise, suas confusões metodológicas que o leva a confundir mídia (artefato ou instância de intermediação da mensagem) com o próprio conteúdo da mensagem (o conceito em si ou seu conteúdo qualitativo), são gritantes. Sua propaganda anarquista aberta ou dissimulada em oposição ao marxismo e ao socialismo emanam em cada página (como na crítica desqualificada a Lênin e aos bolcheviques). Mas mesmo assim seu trabalho passou a ser incorporado como a grande referência ou mesmo como “a novidade” da análise de comunicação para a esquerda mundial.
Surpreende a rápida propagação de seu conceito e a veloz adesão a ele, inclusive na academia, sem que se faça uma análise minimamente crítica da soma das informações que reúne e da validade, pertinência e consistência de seus argumentos.
No afã de encontrar uma explicação qualquer para as formas contestadoras de comunicação – formas militantes de comunicação – produziu-se uma adesão acrítica e em escala ao arremedo conceitual de Downing.
Moniz Sodré classifica a mídia como “o conjunto dos meios de comunicação”. Não pode, portanto, ser radical; não lhe cabe “assumir posição”. Na verdade é o seu conteúdo, a sua estratégia, a sua comunicação, o seu marketing (as modalidades de efetivação das trocas simbólicas) que podem ser radicais. O marketing, como uma política de linguagem e uma técnica de administração de demanda formadora ou interventora da consciência humana (construtora de posicionamento) é que pode se radicalizar.
O conceito de Downing não apenas é incorreto como pode nos induzir ao erro de análise que nos remeteria, uma vez mais, ao passado - representado pela adesão ao silogismo de McLuhan, que estabelece que “o meio é a mensagem” quando o meio, para sermos rigorosos, não passa da "metade". Ela em si não se inteira, não consuma o processo subjetivo, não sendo, por isso um sujeito determinante, mas um elemento determinado, cuja função referencial é configurada e não auto-configurante.
Dito de outro modo: "a mídia" não pensa; é um instrumento do pensamento de outrem, que transforma idéias, culturas e pressupostos em códigos interpretáveis. Pensar a mídia como "antimediadora" (Baudrillard), despotencializa nossa capacidade de tomar de assalto as formas midiáticas vigentes, dentre as quais a mídia eletrônica e os novos meios digitais ou mesmo construir outras formas de uso social dos meios.
Quando Downing fala em “mídia radical” ele faz uma redução mecanicista do aparelho midiático, que passa a ser visto como um teatro que é, em si, radical, mesmo sem atores, sem contexto ou mesmo texto. A radicalidade humana passa a não ser mais uma subjetividade, mas uma materialidade. O conteúdo qualitativo do discurso, o "mundus radicalis inteliligibilis", os conceitos, as concepções mentais, as ideologias radicais são reduzidos à mecânica dos meios, atribuindo ao artefato de suporte e transporte da mensagem um caráter supremo e indutor. Por mais que esgarce a conceituação de “mídia”, o autor canadense termina em um beco sem saída conceitual, onde a forma (media, meio, mediação, intermediação) prevalece sobre o conteúdo e o submete. Essa suposição não resiste à menor análise.
No modelo de Downing, o ser humano é subordinado e o meio é subordinador. Convertido à condição de "homo communicans", o indivíduo mergulha no fluxo incessante dos mass-media de onde não pode sair. De acordo com o derrotismo engajado de Downing, as pessoas estariam fatalmente dispersas e apartadas de sua capacidade de abstração. Ora, se a mídia é, em si, radical, ela prescinde de um conteúdo radical vivo, que só pode ser provido por homens e mulheres concretos e suas organizações sociais complexas.
A mídia não é a mensagem, é a metade do caminho. É uma ponte ou um caminho e não o ato de caminhar. Não pode, portanto, ser determinante, mas sim, determinada. Mesmo em seu formato ampliado, é um meio e não um fim. Para ser radical, o meio teria que poder manifestar-se independentemente da razão humana, assumindo o ânima radical, o caráter de demiurgo.
Por sua vez, o marketing pode ser radical porque diferente da mídia, não é um artefato, mas uma idéia ou um conjunto de idéias que, como uma disciplina teórica, admite modulações. Não é uma coisa, mas sim um corpo de formulações, um saber. Pode, portanto, ser radical, conservador, comercial, institucional, político, etc. Marketing é um conteúdo que se expressa em um método, uma abordagem, uma concepção de como reger processos humanos de trocas, sejam elas materiais ou simbólicas.
No entanto, a mídia, toda ela, é um meio inanimado, técnico; enquanto tal é o receptáculo de qualquer conteúdo. Permite tanto a mensagem radical progressista quanto a mensagem radical reacionária; tanto a mensagem revolucionária da ruptura com o sistema, quando a mensagem conservadora da mercantilização das idéias; falar em mídia radical porque este ou aquele artefato midiático ou mesmo uma indumentária permite-se usar para expressar a fala contestadora seria como chamar de “mídia radical” a um automóvel usado como carro-bomba.
O simplismo do argumento de Downing é desalentador e chama a atenção pelo esforço em dar uma sobrevida “de esquerda” a um amálgama estranho das concepções conservadoras e passadas de McLuhan somadas a pressupostos anarquistas ultrapassados.
O estudo das formas de comunicação (e não de “mídia”, como quer Downing) dos movimentos sociais e dos partidos e governos de esquerda efetivam não só a ação reativa aos bloqueios da comunicação dos meios de massas, privados, mas confirmam-se como apropriações efetivas da comunicação midiática pelos sujeitos sociais, pelos agentes das ações coletivas, para construírem e difundirem referenciais simbólicos diferenciados e possibilitarem que a “televivência”, ou mesmo o espetáculo midiático não esteja baseado apenas nas premissas do consumismo e do mercado, mas questionem o modelo hegemônico, não mais como receptor, mas como produtor da própria comunicação.
As experiências práticas de comunicação militante como componentes da lutas sociais têm um caráter de combate simbólico alicerçado em pressupostos como a democracia radical e o respeito à alteridade, um dos princípios dos movimentos socialistas desde o século XIX.
Socialismo é alteridade. O prefixo alter, do latim, significa “se colocar no lugar do outro” na relação interpessoal, com consideração, valorização, identificação, dialogando com o outro “como igual”.
Nas práticas de comunicação militante os movimentos de emancipação dos jovens, trabalhadores, mulheres, minorias sexuais e ecologistas encontram espaços de existência pública, não sendo apenas espectadores dos meios de comunicação de massa e da política feita pela direita. Os praticantes da comunicação militante têm por princípio exercitar a autocrítica, recriar utopias de uma transformação social que coloque novamente no horizonte a tomada do poder pela via de movimentos concêntricos, que coloquem em xeque as forças hegemônicas a partir de seus altares discursivos que se edificam na mídia de massas.
Originário na teoria da comunicação militante, o pensamento do marketing político radical, dos grupos políticos que o praticam e dos movimentos sociais que pretendam intervir no campo simbólico, baseia suas formulações em valores socialistas tais como liberdade, democracia, apoio mútuo, igualdade, solidariedade e reciprocidade que estão na estrutura edificante das esquerdas tradicionais e do pensamento socialista.
É chamado “paradigma conflitual-dialético” o arcabouço analítico e teórico da comunicação social baseado nas hipóteses de Karl Marx, especialmente aquelas difundidas e sistematizadas na obra “A ideologia Alemã”.
O paradigma conflitual-dialético distingue transmissão (transporte da informação no tempo) e comunicação (transporte de informação no espaço). Compreende que o objeto de uma transmissão não existe, como tal, antes de ser transmitido, não podendo ser, portanto, radical pela densidade de sua plataforma (mídia), mas sim pelo seu conteúdo intrínseco.
Marx afirma em “A ideologia alemã” que em um sistema capitalista a classe social detentora dos meios de produção material igualmente mantém controle sobre a produção e a difusão das idéias que são as de seu tempo.
As classes dominantes desfrutam de poder midiático, o que lhes permite veicular, valorizar e fazer prevalecer sua ideologia, isto é, seus modos próprios de representar a realidade, e, por tal via e de tal modo, exercer sua “dominação”.
O marketing político radical trabalha com essa base, que vê a relação infra-estrutura X superestrutura vinculada ao desenrolar histórico e este ao estágio de desenvolvimento capitalista dos meios de comunicação.
1º estágio: fins do século XIX a 1920 – forma monopolística de acumulação corresponde à implantação dos meios mais simples como telégrafo e telefone.
2º estágio: criação de grandes conglomerados (megacorporações), início da expansão e internacionalização de capitais especulados dos anos 50 ao fim do século passado – correspondem aos meios mais complexos jornais, revistas, cinema, rádio e televisão. É nessa última fase que se torna corrente a “ideologia do mercado”, cuja divulgação e pretenso consenso em torno de sua inevitabilidade facilitam a reprodução do capital em escala planetária (globalização).
A transmissão da informação massificada pelos meios de comunicação persegue objetivos comerciais e financeiros; pretende-se transcultural e multinacional, isto é, mundializada, mas na verdade mascara os conflitos sociais.
Louis Althusser (1981-1990) filósofo francês tem grande importância para o desenvolvimento do paradigma conflitual-dialético.
Foi Althusser quem cunhou a expressão “Aparelho Ideológico de Estado” para representar as instituições sociais como a Igreja, a Escola, as Forças Armadas, o Poder Judiciário, os Partidos Políticos, a Comunicação e seus órgãos, etc. – todas reprodutoras incessantes das ideologias representativas do capitalismo. Para isso, os AIEs devem ser (parecer) “autônomos” em relação a toda forma de controle por parte das classes dominantes.
Não haveria, portanto, qualquer outro modo de os meios de comunicação vir a funcionar ideologicamente a não ser aquele representado por sua alegada “objetividade” ou suposta “neutralidade”.
A mídia cria um “quadro imaginário” das condições reais da produção capitalista, ocultando, com mais ou menos sutileza ou sofisticação a “perversa realidade de sua exploração” – por exemplo, a valorização de “intelectuais para a mídia”, de aventureiros culturais, pessoas “fora de série”, etc.
O funcionamento dos AIEs não é imediatamente perceptível, porque se pensa sempre no Estado opressor e repressor, mas não se cuida da diferença entre o poder do Estado e o de sua constituição como aparelho (organização, disposição e dispositivo), conjunto de mecanismos com finalidade de difusão ideológica. O Estado e as classes sociais que o apóiam recorrerão sempre que for preciso ao uso ostensivo de uma “força repressora”.
A partir de Althusser, as diferenças entre “poder político” e “poder simbólico” passam a ser relevantes para entendermos a relação entre mídia e poder. Enquanto forma de poder, o “poder político” se concretizaria com os recursos da autoridade política através de instituições políticas; já o poder simbólico, definido como a capacidade de intervir no curso dos acontecimentos, de influenciar as ações dos outros e produzir eventos por meio da produção e da transmissão de formas simbólicas, tem como recursos os meios de informação e comunicação, e seria a base daquilo que John Thompson designa de “instituições culturais (a Igreja, escolas e universidades, as indústrias da mídia, etc.).
Embora diferenciados, “poder político” e “poder simbólico” associam-se no exercício prático do poder governamental. Um estado enquanto instituição paradigmática do poder político, composto por “uma gama de instituições que se dedicam essencialmente à coordenação e à regulamentação, e que desempenham estas atividades de uma maneira relativamente centralizada dentro de um território mais ou menos circunscrito”, pode se valer tanto do “poder político” de maneira autoritária e coercitiva – como ocorre em regimes autoritários ou totalitários –, quanto da difusão de formas simbólicas que procuram cultivar e sustentar a crença na legitimidade do poder político.
É assim que se estabelece o uso político do poder simbólico como forma de legitimação do poder político. A afirmação de Enzensberger de que somente uma prática revolucionária pode extrair virtude de uma troca democrática inscrita na mídia, hoje confiscada e pervertida, se reafirma na prática do marketing político radical como instrumento de apreensão simbólica do cotidiano, de compreensão das instâncias políticas, das relações de classe, da ação dos sujeitos organizados. Para tal, é preciso ver que enquanto meio de transmissão e difusão de bens simbólicos, a mídia (coeficiente e não efetuadora de ideologia) é, sim, uma instância de poder que se presta à prática anti-hegemônica e ao estabelecimento de estratégias do marketing político radical.
Pensadores contemporâneos criticaram Althusser e Thompson por considerarem seus pensamentos formalistas ou excessivamente abstratos.
Imagine o que diriam da tautologia radical de John Downing."

quinta-feira, março 19, 2009

Frase

"Os donos do capital vão estimular a classe trabalhadora a comprar bens caros, casas e tecnologia, fazendo-os dever cada vez mais, até que se torne insuportável. O débito não pago levará os bancos à falência, que terão que ser nacionalizados pelo Estado."

Karl Marx (Das Kapital, 1867)

quarta-feira, março 18, 2009

Raposa Serra do Sol

Antepenúltimo a votar no julgamento do processo de demarcação das terras indígenas da reserva Raposa/Serra do Sol (RR), no STF (Supremo Tribunal Federal), o ministro Marco Aurélio Mello demonstrou hoje, do alto de sua toga, que se considera um sábio entre ignorantes. Propôs a nulidade da ação, deixando transparecer com isso que os juízes que votaram antes dele não leram os autos. No entendimento de Marco Aurélio, a ação deve ser "saneada" e "reiniciada" e a reserva deve ser “remarcada”; contrariando a Constituição Federal, alega que as terras da União localizadas na área e tomadas por posseiros seriam “propriedades legais”. Propõe inclusive novas audiências das partes envolvidas e a elaboração de mais documentos sobre a região. Antes dele, já houve oito votos favoráveis à demarcação de forma contínua da reserva.

Frase

"Os bancos são mais perigosos para a liberdade do que os exércitos"

Thomas Jefferson

segunda-feira, março 16, 2009

Do blog do Castagna Maia

Uma tal SIP - Sociedade Interamericana de Imprensa divulgou hoje, segundo informa Noblat, um relatório onde diz que “o Presidente Lula continua atacando a imprensa brasileira” por meio de críticas desmedidas” e desqualificações.

II - Só pode ser um delírio. A única declaração do Presidente da República que vi a respeito foi a de evitar ler jornais porque “dá azia”. E só. Não houve crítica, não houve nada.

III - A imprensa é que se julga acima de tudo, acima da lei, acima de qualquer autoridade. Ou seja, a imprensa não pode ser criticada porque qualquer crítica seria “desmedida”. A imprensa pode ofender, pode caluniar, pode acusar sem provas, e continua tudo bem, tudo como estava antes.

IV - E quem é essa tal SIP? Financiada por quem? O problema desse tipo de notícia absurda é que tenta passar a visão de uma republiqueta, de um ditadorzinho a praguejar contra a Imprensa. Não é nada disso, Lula tem sido até generoso frente aos absurdos que são publicados

Conexão Amazônia

Na edição do programa televisivo Mahhatan Conection, levado ao ar na tarde de 16 de março pelo canal GNT, a reunião entre os presidente Lula e Obama tornou-se a pauta do dia dos comentaristas, comandados por Lucas Mendes e Caio Blinder.
No meio de polêmicas em camadas, característico do programa, surge um debate sobre a frase de Obama, que disse desejar começar sua visita ao Brasil chegando “pela Amazônia” e que temia "se perder na floresta", embora esse fosse o desejo de seus adversários.
Alguns falam do ar, da biodiversidade, dos rios, etc. Riquezas tangíveis da região mais cobiçada do planeta.
Diogo Mainardi, um dos debatedores menos interessantes, emite a seguinte pérola: “A maior riqueza [da Amazônia] parece ser a produção de eletrodomésticos, motos e computadores”.
Não fosse a idiotice em si da afirmação, o tempo se incumbiu de piorar as coisas para o escrevinhador da Veja. Mainardi foi confrontado por Ricardo Amorin, que demarcou: “...Mas você está falando de Manaus [e não da Amazônia]”.
Fora da área de alcance da câmera, Mainardi retrucou: “Mas a população está toda lá”.
A Amazônia na cabeça de Mainardi é... Manaus. Ou seja, o que ele pensa sobre a Amazônia é subproduto do marketing de Manaus para se tornar a porta de entrada da região, e do Amazonas, para ser a síntese totalizadora da maior floresta preservada do mundo.
Que Mainardi não passa de um imbecil mal informado, isso todo mundo que é minimamente letrado já sabe. Escritor fracassado, com diversas obras esquecíveis publicadas e encalhadas, “Didi” (apelido carinhoso ainda usado em família) ocupou uma coluna na revista Veja com objetivo de tecer comentários genéricos sobre tudo e acabou ganhando notoriedade ao se tornar porta-voz do anti-petismo das elites reacionárias.
Filho de um publicitário polêmico e criativo, Ênio Mainardi, Diogo nasceu rico e tenta a todo custo mostrar que é culto "de berço" e inteligente como seu pai. Não é. É apenas um "mané".
Para ganhar audiência, tornou o presidente Lula seu alvo número um, a quem considera representante “do Brasil inculto”, essa plebe ignara que dá mais de 80% de aprovação ao presidente operário, que Mainardi considera "uma anta".
O comentarista de Mahhatan Conection forma, com o ex-cineasta Arnaldo Jabor, a chamada “dupla afetada” de adversários do presidente e do petismo. Na verdade, duas antas direitistas a serviço do retrocesso do país ao império entreguista do tucanato.
Quem sabe se, por azar dos brasileiros, José Serra se tornar presidente Mainardi não assume o Ibama e tenta fazer, na prática, aquilo que diz querer fazer na teoria.
Pensar que Manaus é a síntese da Amazônia já seria uma estupidez de grande envergadura. Mas pensar uma cidade no meio do nada, praticamente isolada por via rodoviária do resto do mundo, concentra a maior parte da população da Amazônia é uma daquelas burrices que mereceriam uma estátua.
A ignorância de Mainardi sobre a Amazônia retrata seu menosprezo pelo Brasil e pelos brasileiros, manifesto em sua escrita, seja “literária” ou “jornalística”.
Não se pode confirmar exatamente desde quando a Amazônia é habitada, mas sabe-se que desde antes da chegada dos europeus, no século XVI, os índios já viviam na região.
Desses mais de 500 anos de história, a formação populacional da Amazônia, assim como a brasileira, preserva ainda hoje características da grande miscigenação entre as diversas raças. Mainardi está infenso a isso. Pensa-se europeu puro.
Herança da colonização européia, o brasileiro, e o povo amazônico, em particular, apresentam traços do índio, o branco e o negro. É antítese do que Mainardi admira. Ribeirinhos, índios, seringueiros, garimpeiros, pescadores, operários, executivos somos todos a síntese qualitativa de inúmeros povos.
Com cerca de 20 milhões de pessoas vivendo nos nove estados da Amazônia Legal, a densidade demográfica é de cerca de 3,4 habitantes por Km2, com 62% da população vivendo nos centros urbanos.
Manaus possui população de mais de 1,4 milhão de pessoas. Belém, mais de 1,5 milhões de habitantes, embora o Senso de 2000 apresente números diferentes, porque não considera as áreas de expansão da cidade. Se incluir a grande Belém, com Ananindeua e sua periferia, Belém pode chegar a 2 milhões de seres humanos.
O Pará e Belém foram derrotados em uma guerra de branding.
A ineficácia da comunicação de sucessivos governos paraenses fez Belém perder o lugar de porta de entrada da Amazônia e o Pará perder o status de estado amazônico mais populoso para Manaus e Amazonas, respectivamente.
O Amazonas soube utilizar a confusão semântica provocada pela expressão “Amazonas” e a expressão “Amazon”, em inglês, para vender-se como sendo “A” Amazônia.
Mainardi, como um bobo, caiu no conto do marketing de Amazonino Mendes.
Mainardi é "a anta" dos professores primários de geografia.

The Economist: Lula certo, FHC errado

Matéria da revista inglesa The Economist publicada na semana passada reconhece o equívoco de um dos principais pilares do governo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB): a venda indiscriminada de empresas e bancos estatais. No texto, a publicação afirma que até há pouco tempo no Brasil, acreditava-se que um fatores prejudiciais à economia brasileira seria a influência estatal no setor financeiro. Segundo a revista, entretanto, esse controle estatal é o que dá hoje ao País uma situação favorável perante os demais países e, diante da crise mundial, confere uma "situação favorável incomum ao Brasil".
A matéria se refere à manutenção da gestão estatal, por parte do governo Luiz Inácio Lula da Silva, do Banco do Brasil, da Caixa Econômica e do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), instituições financeiras líderes de empréstimos para empresas e que FHC tentou, sem sucesso, privatizar.

quarta-feira, março 11, 2009

A Globo e o fim do mundo

Faça um exercício. Coloque sua TV a cabo no canal "GloboNews" e fique um dia inteiro com a TV ligada ali. Não é preciso que você se poste diante do aparelho. Apenas a deixe ligada enquanto você faz outra coisa.
Vez por outra, você dá atenção ao que é dito e mostrado ali. Deixe seus sentidos abertos. Ao final do dia você estará angustiado.
Sua mente chegará a uma conclusão inequívoca: o mundo está acabando.
A Globo quer semear o caos. Faz isso com zelo e dedicação. Palavras como "crise", "desastre", "colapso", "abalo", "queda", "piora", "quebradeira" repetem-se de maneira cíclica. Sucedem-se entrevistas não com os economistas que estão ajudando a proteger o país dos danos colaterais mais graves da crise, como Guido Mantega, mas com aqueles que afundaram o país e entregaram nossos cofres ao FMI, seguindo a risco seus conselhos inúteis.
Ressuscitar os ex-ministros de Fernando Henrique é parte da tática para levantar o pesado José Serra, candidato do coração da Rede Globo e da Editora Abril. Aliás, o próprio FHC é figurinha carimbada da "Globonews". Recentemente falou sobre a legalização da maconha.
O alucinado PSDB, que conduziu o país ao fundo do poço durante a crise asiática de 97 coloca-se, no jornalismo da Globo, na condição de conselheiro anti-crise.
Seria simplesmente patético se não fizesse parte de um plano macabro: reconduzir essa malta ao centro do poder.
O crescimento mundial deve ser de 3% em 2009.O Brasil, em um cenário recessivo global, "sistêmico" como diz o jornalismo da GloboNews, deve crescer 3,5%, ou seja, acima da média mundial. Bom? Sim, muito bom. No cenário, no contexto, no quadro mundial presente, crescer é muito bom. Se for 0,5%, ainda não seria ruim quando temos economias desagregadas e destruídas como a dos Estados Unidos, cujo sistema financeiro afunda sem qualquer possibilidade de salvação que não seja a bolchevização do sistema bancário. Recessão é a palavra da hora nessas economias.
Enquanto o sistema capitalista mundial geme de dor, o extraordinário crescimento do Brasil, de 5,1%, registrado em todo ano passado mostra que a economia tem reservas, prestígio, governo e política econômica e isso é altamente promissor, mas solenemente ignorado solenemente pelo jornalismo platinado.
Se você tivesse a economia dos Estados Unidos crescendo 5,1% em 2008 essa seria a manchete de todos os jornais do mundo. O Brasil é o único país do mundo onde o índice trimestral (acumulativo parcial) de crescimento econômico tem mais importância para a imprensa do que o crescimento anual (acumulativo global). Vulgarizando, seria como o "vale" da semana ser mais representativo do que o salário do final do mês. Não obedece a nenhuma lógica.
Apesar da queda do último trimestre, fortemente influenciada por ajuste de estoques em alguns setores, o crescimento do PIB de 5,1% em 2008, impulsionado pela demanda doméstica e crescimento da renda, mostra que a economia brasileira tem fundamentos econômicos sólidos. Isso ajudará na retomada, fazendo com que o Brasil tenha condições de sair mais rapidamente da crise.
A "GloboNews" faz coro com os que acham que convênios federais com movimentos camponeses legítimos é parte do contexto do Apocalipse. Ora, o governo dos Estados Unidos entregar centenas de bilhões de reais para empresas que afundaram por gestão fraudulenta não escandaliza a "GloboNews". Mas um quinhão de reais para educação de crianças em assentamentos do MST causa horror indescritível. Pobres receberem dinheiro público? "Que horror", diz a Globo. Banqueiros e industriais receberem dinheiro público? "Isso é política responsável", tagarela a Globo.
Em que pese os presságios negativos, o mundo não vai acabar, como não acabou em 1929. Os escribas da "GloboNews" sabem disso. O que eles querem é que as pessoas acreditem que vai acabar e que a culpa é do PT e do governo Lula. Assim fica mais fácil devolver o país a Serra e sua "raça" - para usar a expressão carinhosa cunhada por Jorge Bornhausen. Ainda irá demorar para que a Globo entenda que o mundo mudou, que o "El Mercúrio" brasileiro não pode fazer com Lula agora o que fez com Brizola nos anos oitenta ou o que o jornalão chileno fez com Allende em 1973.
Nas eleições de 2010, como em 2006, o povo estará na contra-mão da Rede Globo e de seus interesses impublicáveis.

segunda-feira, março 02, 2009

O cybersocialismo de Allende

Deu no New York Times: quando tropas militares leais ao general Augusto Pinochet deram um golpe de Estado no Chile em setembro de 1973, elas fizeram uma descoberta surpreendente.
O governo socialista de Salvador Allende havia embarcado silenciosamente em uma nova experiência no sentido de gerenciar a economia do Chile usando um volumoso computador e uma rede de máquinas de telex.
O projeto, chamado Cybersyn, foi criado por A. Stafford Beer, um britânico visionário que utilizou os seus conceitos de cibernética para ajudar Allende a encontrar uma alternativa às economias planificadas de Cuba e da União Soviética. Após o golpe o programa tornou-se objeto de um intenso escrutínio militar.
Ao desenvolver o Cybersyn, Beer mudou as vidas dos jovens e brilhantes chilenos que trabalhavam aqui. Cerca de 35 anos depois, este aspecto pouco conhecido da tentativa abortada de transformação socialista promovida por Allende foi lembrada em uma mostra em um museu abaixo do palácio presidencial La Moneda.
Uma cadeira no estilo Star Trek, com controles nos encostos para os braços, era uma réplica daquelas que ficavam em uma sala de operações de protótipos. Beer pretendia que a sala recebesse relatórios de computador baseados em dados que fluiriam a partir de máquinas de telex conectadas a fábricas espalhadas ao longo deste país de 4.350 km de extensão. Os gerentes ficariam sentados em sete dessas cadeiras abauladas e tomariam decisões críticas sobre os relatórios exibidos em telas de projeção.
Embora as operações da sala jamais tenham atingido um grau de operacionalidade total, o Cybersyn ganhou importância no governo de Allende por ajudá-lo a neutralizar as ações de trabalhadores em greve em outubro de 1972. Isso ajudou os planejadores a perceber - conforme ocorreu também com os pioneiros da atual Internet - que a rede de comunicação era mais importante do que o poder computacional, algo do qual, aliás, o Chile não dispunha muito. Uma única máquina IBM 360/50, que tinha menos capacidade de armazenagem do que a maioria dos flash drives de hoje, processava os dados das fábricas. Mais tarde esta operação passou a ser realizada por um Burroughs 3500.
O Cybersyn nasceu em julho de 1971, quando Fernando Flores, à época um tecnocrata do governo de 28 anos de idade, enviou uma carta a Beer buscando ajuda para organizar a economia do governo Allende por meio da aplicação de conceitos cibernéticos. Beer, um consultor de sucesso, ficou entusiasmado com a perspectiva de ser capaz de testar as suas idéias.
Ele quis usar o sistema de comunicações por telex - uma rede de teleprinters - para coletar dados das fábricas a respeito de diversas variáveis, como produção diária, energia utilizada e trabalho "em tempo real", e a seguir usar um computador para filtrar os fragmentos mais importantes de informação econômica dos quais o governo necessitava para tomar decisões.
Beer criou uma equipe de programadores na Inglaterra e no Chile, e passou a viajar regularmente para Santiago a fim de dirigir o projeto. Ele recebia US$ 500 por dia enquanto trabalhava no Chile, conta Raul Espejo, que era o diretor de operações do Cybersyn.
O inglês transformou-se em um mentor para a equipe chilena. Muitos dos membros dessa equipe tinham entre 20 e 30 anos de idade. Em uma das suas visitas ao Chile ele tentou inspirá-los apresentando-lhes o livro "Fernão Capelo Gaivota", de Richard Bach, a história de uma gaivota que segue o seu sonho de dominar a arte de voar, chocando-se com a vontade do bando.
Uma figura imponente, com uma longa barba mesclada de tons grisalhos, Beer, que abandonou a faculdade, desafiava os jovens chilenos com questões difíceis. Ele dividia com os pupilos a sua paixão por escrever poesias e pintar, e trouxe livros e discos de música clássica da Europa. Ele fumava charutos e bebia constantemente uísque e vinho, "sem, no entanto, nunca perder a cabeça", diz Espejo.
A maior parte dos membros da equipe Cybersyn evitava escrupulosamente falar sobre política, e alguns tinham até idéias ultradireitistas, segundo Isaquino Benadof, que chefiou a equipe de engenheiros chilenos que projetava o software Cybersyn.
Um desafio inicial foi encontrar uma forma de criar a rede de comunicação. Com poucas verbas, a equipe descobriu 500 máquinas de telex que não eram utilizadas em um depósito da companhia nacional de telecomunicações.
O ponto de inflexão para o Cybersyn ocorreu em outubro de 1972, quando uma greve de motoristas e varejistas quase paralisou a economia. As máquinas de telex interconectadas, trocando 2.000 mensagens por minuto, eram um potencial instrumento para resolver o problema, possibilitando ao governo identificar e organizar fontes alternativas de transporte que mantiveram a economia funcionando.
A greve terminou em uma semana. Embora ela tenha enfraquecido o partido Unidade Popular, de Allende, o governo sobreviveu, e o Cybersyn foi elogiado por ter desempenhado um grande papel. "A partir daquele ponto o centro de comunicação tornou-se parte de tudo o que estivesse acontecendo", narra Espejo.
"O Chile é governado por um computador", anunciou uma manchete do "The British Observer", em 7 de janeiro de 1973, quando notícias sobre o experimento começaram a vazar.
Mas, à medida que a situação política e de segurança do país se deteriorava, Beer e a sua equipe chilena perceberam que o tempo estava se esgotando para o projeto.
Allende permaneceu fiel ao Cybersyn até o final. Em 8 de setembro de 1973, ele deu ordens para que a sala de operações fosse transferida para o palácio presidencial. Mas três dias depois os militares tomaram o poder. Allende morreu naquela tarde.
Oficiais militares em breve confrontaram os líderes do Cybersyn, procurando descobrir as suas motivações políticas. Benadof conta que foi interrogado pelo menos três vezes. Espejo, após ter sido questionado, foi advertido a deixar o país. Dois meses após o golpe ele fugiu para a Inglaterra.
Os militares jamais entenderam o Cybersyn, e finalmente desmantelaram a sala de operações. Vários outros membros da equipe do Cybersyn foram para o exílio. Flores, que era simultaneamente ministro da Economia e das Finanças no governo Allende, passou três anos preso em campos de concentração militares. Após a sua libertação, ele mudou-se com a família para a Califórnia para estudar nas Universidades Stanford e da Califórnia, em Berkeley, onde obteve um Ph.D. em filosofia.
Mais tarde ele foi um dos inventores do Coordinator, um programa que identificava interações verbais entre trabalhadores de uma companhia, e que foi um dos precursores dos softwares "workflow". Flores tornou-se milionário e retornou ao Chile, onde hoje é senador, representando a região de Tarapaca.
Beer, que morreu em 2002, ajudou alguns dos membros da equipe a conseguir empregos de professor universitário na Inglaterra. Entre este grupo estava Espejo, que se dedicou ao estudo para o avanço da cibernética.
"O projeto chileno transformou completamente a vida de Stafford, e ele obviamente teve um enorme impacto sobre todos nós", explica Espejo. "Não há dúvida de que o trabalho dele não foi reconhecido em vida. Mas aquilo que ele escreveu permanecerá vivo por muito tempo".
EStá provado: Allende, o primeiro socialista a chegar ao poder pela via do voto, estava mesmo a frente de seu tempo.